Giro de Itália 2025

Termina amanhã, mas ficou decidido hoje, o Giro de Itália.
Sem João Almeida, este ano reservado para ajudar Pogacar a vencer o quarto Tour, Roglic e Ayuso partiram como grandes favoritos à vitória.
Roglic cedo começou a distanciar-se desse favoritismo e, de novo com quedas a atrapalhar-lhe a vida, acabou por desistir já na terceira e última semana.
Ayuso, o jovem espanhol de mau feitio, companheiro de João Almeida na UAE, que a imprensa espanhola traz em andor para o altar do seu ciclismo, também não demorou muito a demonstrar que não estava à altura do favoritismo que trazia. Acabou também por abandonar, logo a seguir a Roglic, imediatamente a seguir a ter perdido mais de 10 minutos para os primeiros, e caiu para bem fora do top ten. Disse-se que fora mordido por uma abelha. Ou por uma vespa.
A diferença não tem importância nenhuma. A polémica - vespa ou abelha - só serve à desculpa, que foi a que tudo aquilo soou.
O mexicano Del Toro (UAE), e o equatoriano Carapaz (Education First), não puseram Roglic e Ayuso fora de combate. Tomaram conta da corrida, e dominaram-na até hoje, ao penúltimo dia, no Cole de Finestre, nos Alpes. No Piemonte.
Tudo indicava que seria no alto do Finestre, lá nos 2178 metros de altitude, que os dois latino-americanos decidiriam o Giro. Mas não foi assim, e o ciclismo voltou a assistir a um golpe de teatro, que tantas vezes o visita. Nem pareceu que a Jumbo Visma tivesse preparado uma grande jogada para o cheque-mate à corrida, como não parecia que Simon Yates estivesse em grandes condições para se bater com Del Toro e Carapaz. Ainda ontem perdera tempo para ambos, e mantinha o seu terceiro lugar na geral à custa de uma prestação discreta. Bastante discreta, mesmo.
Golpe de teatro é isso mesmo. Cedo se formou uma fuga, onde a Visma fez integrar Wout Van Aert que, sem ser Pogacar, Vingegaard ou Roglic, é um galáctico do ciclismo. Um dos mais decisivos corredores do ciclismo actual. A fuga foi acumulando tempo de vantagem, até chegar aos 10 minutos. Lá atrás, 10 minutos atrás, Carapaz e Del Toro marcavam-se. Simon Yates decidiu ver no que dava aquela marcação, e aproveitou para dar um esticão, meio a medo.
Os dois ibero-americanos olharam um para o outro, à espera de ver quem respondia. Nenhum respondeu, acharam - ou fizeram-nos achar - que aquele Yates não metia medo a ninguém. E o britânico lá foi montanha cima. Lá no alto do Finestre tinha o companheiro Wout Van Aert, levado pela fuga, à espera.
Foi a vez do belga fazer a diferença. Pegou no colega e foi por ali abaixo, como só ele sabe ir. E a diferença para Carapaz e Del Toro nunca mais parou de crescer. Já Yates tinha a maglia rosa bem segura ao corpo quando, a cerca de 5 quilómetros da meta, e com Carapaz e Del Toro derrotados sem apelo nem agravo, Wout Van Aert encostou, exausto. Coube ao britânico fazer o resto.
E como o fez. Com a vitória no Giro ali à vista, a segunda, depois da Vuelta há meia dúzia de anos, Yates voou para a meta, sem parar de aumentar a vantagem, que chegou aos 6 minutos. O suficiente para cavar uma diferença (na casa dos 4 minutos) para o segundo e terceiro que nunca existira ao longo de toda a competição.
No fim, mais uma vez, a super-poderosa UAE deixou a ideia que não sabe gerir a fartura. Se calhar, no ciclismo como em tantas outras circunstâncias, gerir a fartura até é mais difícil que gerir a escassez.