Há 10 anos
O bluff - ou o ensaio de roleta de russa, como também lhe chamei - de Papandreou chegou ao fim, como ontem aqui avançava. Aquilo que alguns socialistas da nossa praça se apressaram a louvar – Manuel Maria Carrilho achou mesmo que se tratou de uma jogada de mestre – não passou, afinal, de um tiro de canhão nos próprios pés.
Percebeu-se que, por trás do espalhafatoso anúncio do referendo ao acordo que tinha acabado de assinar com a UE, Papandreou não tinha outras preocupações que não as da sua própria sobrevivência política, como facilmente se percebe quando, agora, recusa demitir-se e abrir caminho a uma outra qualquer espécie de solução governativa. Aquilo que poderia estar sustentado pelos mais elogiáveis princípios da democracia – sempre arredados do processo europeu – da liberdade e da dignidade dos povos não passava, afinal, de uma das mais simples manobras do cardápio da baixa política.
Foi grande o susto! Espera-se que se tirem sérias conclusões. Se foi assim com a Grécia, o que será com a Itália? E com a Espanha? E com a Bélgica? E (com Itália e a Bélgica) com a França?
A Europa poderá ter aproveitado alguma coisa com este susto, porque viu bem ali à mão aquilo que, sem lideranças, fazia por não ver, preocupado que estava cada um com a sua vidinha.
A Grécia nada ganhou com este disparate de Papandreou. A nível interno – independentemente do que mais logo aconteça no Parlamento, com a votação da moção de confiança, e do que seja o futuro político de Papandreou, a sua grande preocupação, mas de mais ninguém – as condições pioram significativamente. A rua terá naturalmente argumentos mais fortes e decisivos para aumentar a contestação. O povo, depois de prometido o referendo, sente-se enganado e traído, mais uma vez. E o poder político mais desacreditado ainda: toneladas de gasolina lançadas naquelas ruas que há muito estão a arder!
Mas também no plano externo a Grécia sai a perder. Perde qualquer réstia de margem de manobra, porque agora só pode contar com a desconfiança dos parceiros. E assinou a guia de marcha para a saída do euro! Que sendo dolorosa poderá vir a ser a menos má de todas as dores…
Papandreou brincou com o fogo, coisa que hoje na Grécia é muito, muito perigosa!
