Há 10 anos
Não é por este ser o Futebolês nº 100, que não a centésima edição – essa foi na passada semana, como se viu – que vou inventar o que quer que seja.
Inventar é o expoente máximo do processo criativo e o ponto de partida para os maiores saltos da civilização e da História da Humanidade. Se no português corrente a palavra é frequentemente usada em circunstâncias que pouco têm a ver com essa super dimensão criativa servindo, ao contrário, para caricaturar muitas das fraquezas humanas, no Futebolês restringe-se praticamente à caricatura do ridículo.
Os jogadores ainda conseguem inventar alguma coisa de jeito. Embora em regra saia asneira, e se exponham ao ridículo quando inventam, alguns jogadores conseguem por vezes inventar coisas fantásticas: um golo, um passe, um remate, uma finta ou um drible, e até espaços. Os grandes jogadores, os Messis, os Ronaldos e mais um ou outro fazem-no naturalmente com mais frequência. Outros, eventualmente de menor capacidade inventiva, não lhes querendo ficar atrás, inventam penaltis. Nas garagens das Antas, e agora nas do Dragão, trabalha-se afincadamente nestas invenções, com preciosas colaborações de alguma gente de fora. Agora também em Alvalade há jogadores com esses atributos inventivos. Bem úteis, como se tem visto, para garantir notáveis séries de vitórias… Parou na décima, mas apenas porque encontraram um adversário romeno de respeito, daqueles que só o nome deixa os adversários a tremer!
Os treinadores é que, coitados, não têm sorte nenhuma. Para eles inventar é mesmo asneirar! “Lá está o JJ a inventar” – é frequente ouvir-se na Luz. E sai asneira!
Nem vale a pena lembrar algumas das suas mais famosas invenções… Quem não lhe fica muito atrás nesta arte de inventar é o Paulo Bento. Mas inventam de forma muito diferente. Enquanto Jorge Jesus inventa em cima das suas próprias sebentas de mago da táctica, e a partir de congeminações que só ele consegue perceber, Paulo Bento é bem mais linear: inventa exclusivamente a partir da sua teimosia. Enquanto toda a gente percebe o Paulo Bento a inventar, ninguém consegue apanhar a ideia quando o Jesus inventa!
Ninguém percebeu qual foi a ideia de lançar o miúdo - Luís Martins - num jogo decisivo da Champions. A ideia até se percebia, o que se não percebia muito bem era que fosse lançado às feras assim, sem qualquer ensaio em competição, quando não faltaram oportunidades: um jogo da taça e dois do campeonato. Mas o que se não percebeu de todo foi a sua substituição, que tinha deixado programada: mais uma invenção!
Já, por exemplo, toda a gente percebeu quando Paulo Bento inventa, não um, mas dois laterais direitos melhores que Bosingwa. É uma birra teimosa e está tudo dito! Não sabemos o que é que o Bosingwa terá feito ao Paulo Bento, mas sabemos que o seleccionador não vai com a cara dele. E por isso inventa um Sílvio e um João Pereira melhores, nem que para isso tenha que inventar critérios… Condição mental, não é?
Mas é a Vítor Pereira que eu tiro o chapéu. E não pensem que é por ele ter inventado a maneira de transformar uma grande equipa do futebol europeu num conjunto de jogadores perdidos dentro do campo, que nem a uma equipa de Chipre consegue ganhar. Não é por isso, até porque ele também conseguiu inventar maneira de, por cá, mesmo sem jogar nada, continuar a ganhar. Coisa que, como em Paulo Bento, também não temos grande dificuldade em perceber…
Não! É por uma invenção á séria, o tal expoente máximo do processo criativo de que falava acima, bem enquadrada numa estratégia de criação de valor. Inventar por inventar não tem grande sentido; inventar apenas contribui para os grandes saltos civilizacionais num quadro estratégico sustentado. Sabe-se que Vítor Pereira desenhou um quadro estratégico que tem por objectivo exclusivo salvar a pele, tudo vai dar aí. Lançou-se à sua matriz SWOT e, no lado das ameaças – o lado das oportunidades ainda está em branco – lá estava, logo em cima, o problema de mexer na equipa. As substituições, onde nunca acertava! Foi aí que nasceu a sua grande invenção, que há-de revolucionar o futebol mundial e cuja patente já registou. Que, como todas as grandes invenções que revolucionaram a civilização, nasce de uma ideia muito simples. Esta: “sendo o meu problema acertar nas substituições, resolvo-o se deixar de fora os três melhores jogadores. Quando tiver que fazer substituições, saia quem sair, os que entram são sempre melhores”!
E pronto, era só passar a deixar de fora o Guarin, o João Moutinho e o James. Brilhante! Como é que ninguém se tinha lembrado disto antes?
