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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Ilusões de óptica*

Resultado de imagem para protecção de dados e letras pequeninas

Nos últimos anos temos conquistado uma série de novos direitos. Ou novas regras e novas roupagens em velhos direitos. Novos direitos, ou simplesmente novas formulações de velhos direitos, - a diferença não tem qualquer relevância para o caso – a verdade é que têm sido implementadas novidades no nosso quotidiano que nos deixam uma sensação de protecção. De, enquanto cidadãos e consumidores, enquanto elo mais fraco das diversas cadeias que integramos na nossa pacata vida comum do dia-a-dia, nos sentirmos mais protegidos no confronto sempre desigual com as grandes organizações com que temos todos os dias de lidar.

Aqui há uns anos a legislação obrigou os bancos, e de um modo geral as empresas do negócio financeiro, a especificarem tudo nos contratos – taxa de juro, despesas, valor total do desembolso… Tudinho, supostamente para que o cidadão/consumidor tomasse consciência de tudo o que iria pagar.

Toda a gente sabe que nada disso altera nada nessa relação desigual entre quem tem o dinheiro para satisfazer o consumo e o consumidor sem dinheiro que não resiste ao ímpeto de consumir. Mesmo assim, logo bancos e sociedades financeiras lhe deram a forma de letra miudinha, daquelas que ninguém lê, que já conhecíamos das seguradoras, porventura os mais antigos malfeitores. Engraçada foi a maneira encontrada para a comunicação oral, na publicidade na rádio e na televisão, onde a letra miudinha foi convertida na leitura dessa parte do conteúdo a uma velocidade estonteante, que torna completamente imperceptível o que está a ser lido.

Engraçada também é a legitimação da coisa manhosa: o tempo em publicidade é demasiado caro para ser gasto com mensagens laterais, e ainda apor cima obrigatórias.

Também já percebemos como funciona a legislação sobre a protecção de dados, em vigor desde Junho passado. Melhor, como não funciona. Porque, lá está outra vez, a desigualdade em confronto.

Nos contratos escritos, lá regressa a velha fórmula das letras pequeninas em páginas e páginas que ninguém consegue ler. Mas com que tem de se concordar. Nas plataformas, ou nas diferentes apps que agora há para tudo e para nada, é a mesma coisa. Mas pior - enquanto não concordar não sai do mesmo sítio. A cada click na internet temos invariavelmente que autorizar tudo o que nos põem à frente, e ceder em toda a nossa privacidade a troco de coisa nenhuma … É simples: ou desistimos do que procuramos, ou fintamos as barreiras todas que nos põem à frente para lá chegar. Não há terceira via, ler aquilo tudo para decidirmos se aceitamos ou não, nunca é alternativa. Simplesmente ninguém tem tempo para isso e, se tiver, quando acabar já nem se lembra exactamente do que estava à procura.

Pois é. Alegremente convencidos que estamos cada vez mais protegidos, estamos afinal cada vez mais entregues à bicharada!

 

* Da minha crónica de hoje na Cister FM

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