Jornalismos*

A polémica à volta da Direcção Informação da RTP culminou esta semana na demissão da directora e da respectiva equipa. Tudo começou com a emissão de uma reportagem da equipa do “Sexta às Nove” sobre a exploração de lítio em Montalegre que, pronta desde o início do Verão, apenas acabaria no ar depois das eleições. Para se agravar com uma investigação a supostas irregularidades no Instituto Superior de Comunicação Empresarial (ISCEM) e acabar num confronto entre Maria Flor Pedroso, a directora de Informação, e a jornalista Sandra Felgueiras. Que reabriria a velha "guerra" entre o chamado jornalismo de referência e o sensacionalista, ou de tablóide.
Confesso que me surpreendeu a oportunidade da abertura desta “guerra” – que existe e é saudável -, que começou com perto de centena e meia de jornalistas, maioritariamente pesos-pesados, a subscreverem uma declaração de apoio à até aqui directora de informação da RTP, que alegara neste processo questões de honra. Em resposta surgiram os defensores da jornalista, e das teses do Conselho de Redacção da RTP, que alegavam questões de facto.
E aqui está a razão da minha surpresa: princípios jornalísticos, ética e deontologia, debatem-se. E é todo um debate que faz sentido nesta dialéctica entre duas formas quase antagónicas de fazer jornalismo. Questões de honra, em oposição a questões de facto, é que não.
Abriu-se assim um debate enviesado que rapidamente se deslocou do eixo jornalismo de referência/jornalismo sensacionalista para um outro, que opõe jornalistas institucionais, instalados, de sorriso fácil para o poder, a jornalistas incómodos, capazes até de fazer cair banqueiros e ministros.
E, deste debate, sabemos bem quem sai a ganhar.
* A minha crónica de hoje na Cister FM