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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Manifesto dos 70

Por Eduardo Louro

 

Não sei se existe algum nexo causal entre as recentes intervenções do Presidente Cavaco e este novo Manifesto hoje divulgado, que junta 70 personalidades dos diferentes quadrantes políticos e das mais diversas actividades a favor da reestruturação da dívida.

Na verdade, designadamente neste novo Prefácio aos Roteiros, Cavaco, sem dizer tudo o que deveria ter dito, disse coisas importantes. Sem dizer que a dívida é impagável, disse que, se a economia crescesse como nunca cresceu nos últimos quarenta anos, andaríamos até 2035 para a colocar nos níveis exigidos nos tratados europeus que assinamos. Sem o dizer, disse portanto a mesma coisa…Sem dizer que os foguetório que por aí têm andado a propósito da saída do programa da troika não passa de circo, disse que nada acabava no próximo dia 17 de Maio. Que, quanto a autonomia, tudo continuava na mesma. Sem dizer que Portas é um pateta, que não há relógios nem 1640 nenhum, disse que até que paguemos 75% dos 78 mil milhões de euros que a troika cá meteu, quer dizer, nas próximas três décadas, não nos veremos livres de coisa nenhuma.

Na verdade, talvez mesmo sem querer, Cavaco só não deitou mais um balde de água gelada na euforia que o governo tem andado a alimentar à volta da saída do programa de resgate e do regresso aos mercados porque já não tem balde. Nem balde nem qualquer outro instrumento que lhe valha. Desbaratou tudo…

Mas, mesmo assim, contribuiu para que se visse bem o circo de palhaços que o governo montou. Permitiu que toda a gente, sem excepções, pudesse alcançar a dimensão do faz de conta em que o país caiu.

Não sei, como comecei por escrever, se tudo isto que Cavaco disse sem dizer, aliado aos seus já patéticos apelos à convergência dos partidos do arco da governação, de algum modo serviu como uma mola para este movimento que junta gente de direita e de esquerda, gente que há muito diz ser esta a única saída para o país com gente que chegou à mesma conclusão pela via da exaustão, quando bateu com a cabeça na parede.

Sei que esta é que é a convergência possível. Sei que é possível estabelecer consensos na sociedade portuguesa, mesmo que impossíveis nos viciados jogos de poder a que se dedicam, em regime de exclusividade, os partidos do tal arco da governação. Sei que, ao logos últimos três anos, quem defendia a reestruturação da dívida como condição sine qua non para a viabilidade do país, era acusado de radical. E embrulhado no rótulo do não pagamos. E que ao longo destes três anos não só não foi atingido nenhum dos objectivos do programa, como o país foi económica e socialmente destruído. Que em apenas três anos o país caiu a níveis de que demorará pelo menos vinte a sair. E que é simplesmente impossível continuar a cortar nas prestações que o Estado deve aos cidadãos sem tocar naquela que é a maior fatia da sua despesa: precisamente os juros!

Seja como for esta iniciativa tem para já o mérito de tirar da clandestinidade a ideia fundamental de renegociar e reestruturar a dívida e os seus juros, que a ideologia dominante empurrara para o gueto do protesto. Passos Coelho já se apressou a virar-lhe as costas, como se esperava. Mas já não pôde dizer que é coisa de radicais, dos que não honram os compromissos, dos que simplesmente acham que as dívidas não se pagam. Reviu o tom e simplesmente disse que isso colocaria em causa o financiamento do país. Que, sendo mentira, já é coisa normal!

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