Milagres e mistérios
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“Portugal é uma espécie de milagre económico. […] É um pouco misterioso como é que as coisas correram tão bem” - diz hoje Paul Krugman, (antigo) prémio Nobel da Economia, em entrevista ao “Jornal de Negócios”, de que faz primeira página.
É precisamente isto que há muito venho dizendo a amigos, ou a parceiros de conversa, sempre que ela - a conversa - resvala para a situação do país, da economia e da sociedade portuguesa em geral. Eu, que não acredito em milagres, falo mais de mistério. Mas fico um pouco como os espanhóis com as bruxas: "no lo creo, pero que las hay las hay".
É certo que Portugal é um país muito desigual, e que a percepção do país varia muito conforme a bolha a partir da qual o olhamos. À nossa volta vemos com mais nitidez o que está na bolha que integramos do que nas outras, e isso precipita percepções diferentes. Uns tendem a tomar a sua bolha pelo todo. Outros tendem a ignorá-la, para ver o todo nas outras.
Mas que, num país pobre, que se afasta dada vez mais dos indicadores de desenvolvimento das sociedades mais robustas, que mantém inalteráveis a estrutura e o paradigma da sua economia, em que o salário médio cada vez se encosta mais ao mínimo, em que as bolsas de pobreza crescem aceleradamente, a exigir cada vez maior intervenção subsidiária do Estado, e que esgota espectáculos, enche restaurantes, esgota hotéis e programas de férias, e viabiliza a abertura de cada vez mais e maiores superfícies comerciais, há algo de profundamente misterioso, disso não há dúvida.
Um dos meus amigos com quem converso frequentemente sobre estas coisas chama-lhe simplesmente economia paralela. É certo que a economia paralela faz milagres - em Espanha fez até o "milagre" de funcionar, durante décadas, com taxas de desemprego superiores a de 20% - mas os mistérios são mais difíceis de explicar.