No Teatro de Mariupol

As imagens e as notícias que nos chegam na Ucrãnia dão-nos conta dos mais inqualificáveis horrores da guerra em Mariupol, uma cidade completamente destruída, com os sobreviventes das balas e das explosões condenados ao não menos horrível extermínio pela agonia da fome, da miséria e da degradação humana, por falta de água, de alimentos e de medicamentos. Com os que ainda sobrevivem transformados em farrapos humanos a atropelarem-se, na lei do mais forte, na disputa do escassíssimo apoio que ainda lá chega.
São imagens e notícias que só têm paralelo nas de Alepo, na Síria ... que não nos chegaram com a mesma veemência. Mas são também imagens e notícias que não nos chegam despidas de informação. Por que é que a devastação e o horror de Mariupol não têm paralelo em qualquer outra cidade ucraniana?
É pela sua localização geo-estratégica no conflito?
Não, mesmo que seja crucial. É um importante porto do Mar de Azov, de onde saem as principais exportações da Ucrânia, especialmente cereais, ferro e aço. Assegura um corredor para a ligação terrestre entre o Donbass e a Crimeia, e encontra-se no território da agora declarada (por Putin) República Popular de Donetsk. Mas não é essa importância estratégica que explica a barbárie instalada. É porque é aí que estão em acção os neo-nazis do batalhão Azov, pela Ucrânia e, pela Rússia, os mercenários neo-nazis do grupo Wagner, de Valeryevich Utkin, e a Guarda Nacional chechena. Os mesmo de Alepo!
No Teatro de Mariupol, destruído e reduzido a pó a cobrir 300 cadáveres de mulheres e crianças. está apenas em cena o primeiro acto da peça aqui anunciada há dias.