O mundo fechado da governação
É ideia feita que "classe política" está esgotada, e em sérios riscos de esgotar o regime. A cada vez que os chefes de governo não conseguem recrutar fora das paredes do seu partido, a cada vez que não conseguem captar gente capaz da sociedade civil, essa ideia cresce.
A vitalidade dos governos, e do regime, mede-se muito pela captação de quadros que venham de fora do espartilho político-partidário.
Acontece que sempre - ou quase sempre - que os governos conseguem trazer alguém de fora, a regra é que, com poucas excepções e por períodos muitos curtos, eles falhem. Flagrantemente, acabando muitas vezes por engrossar o anedotário nacional.
Saudei aqui, há muitos anos, a chegada do Álvaro Santos Pereira, pela mão de Passos Coelho. E acabou no que acabou - em personagem central da anedota nacional. Voltei a saudar, há poucos meses, e para a mesma pasta, a chegada de António Costa Silva, alguém com pensamento estruturado, com ideias para o país, com prestígio pessoal e carreira feita.
Se não me engano muito, e pesem embora as diferenças de personalidade, Costa Silva vai pelo mesmo caminho. O percurso poderá estar menos carregado de ridículo, mas a (in)consequência é a mesma!
Depois de muito prometer, o homem que deu a cara pelo PRR, a que deu corpo, chegou ao governo. Aí chegado, foi atacado pelo estranho vírus do poder que transforma quadros de reconhecido mérito em políticos erráticos, e autênticos cata-ventos.
O próprio PRR não tem, há muito, nada a ver com o que desenhara. Já não tinha quando iniciou funções, o que já não era muito abonatório. Sem o vírus, ao perceber que toda a concepção do PRR estava subvertida e desvirtuada, já não teria aceitado entrar para o governo.
Mas aceitou, e iniciou funções, logo na tomada de posse, com o anúncio da necessidade do famoso "Windfall tax", o tal imposto sobre os lucros excessivos das empresas, obtidos através de condições excepcionais de mercado que beneficiam uns poucos e prejudicam todos os muitos outros. Como o chefe do governo não achou muita piada à coisa - hoje, curiosamente, defendida em muitos países, e pela Comissão Europeia - Costa e Silva deu logo o dito por não dito. Não tinha sido aquilo que queria dizer... Mas foi, e sabe tão bem que foi, como sabe que o PRR que está em execução não tem nada a ver com o que programou.
Disse-o, como desenhara o PRR, antes de apanhar o vírus, na posse de todas as suas faculdades. Antes de perder a primeira - a coragem. E a segunda - a lucidez.
A partir daí o ministro da economia desapareceu. Reapareceu agora - e mais valia ter continuado desaparecido - com umas medidas desgarradas e com a espatafúrdica ideia da descida transversal da taxa de IRC. Que, para além de ineficaz - as pequenas empresas não apresentam lucros tributáveis, as grandes dispõem de recursos infindáveis de planeamento fiscal para o mitigarem, e os investidores internacionais tratam do assunto quando negoceiam o investimento - ainda choca violentamente de frente com as suas ideias de partida.
Temos aí outro teste ao sistema, com o anunciado recrutamento de Fernando Araújo para essa espécie de CEO do Serviço Nacional de Saúde. A ideia é a mesma - trazer gente capaz de fora. A fórmula é nova - uma estrutura fora do governo. Mas - e isso é fundamental - também o processo é novo. Fernando Araújo não correu a aceitar o cargo. Já esteve lá, no lado de dentro do governo, e sabe "o que a casa gasta". Daí a demora de todo este tempo a aceitar um cargo que ainda pode recusar. Mas que já lhe não pode ser recusado.
Que aproveite esta circunstância única para deixar todos os pontos nos "ís", e abrir uma última janela neste mundo fechado da governação!