Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

O valor do voto

Convidado: Luís Fialho de Almeida

Los caprichos (1799)

 

Segundo os resultados do Eurobarómetro as eleições de 25 de Maio deverão registar uma abstenção histórica, dada a insatisfação dos portugueses com a democracia e com a União Europeia. Esta insatisfação não tem sido contrariada e tem vindo a aumentar, registando-se uma abstenção de 59.7% nas eleições europeias de 1999, 61.3% em 2004 e 63.2% em 2009.

Uma forte abstenção, sinal do desinteresse pelas promessas e programas propostos ao eleitorado, poderia ser uma vergonha para os que se candidatam à governação, mas vergonha é sentimento que estes actores políticos não têm. A abstenção será lamentada após as eleições, mas rapidamente deixa de preocupar, porque reformar o sistema politico e partidário, tendo em vista a sua credibilidade, é algo que mexe com os interesses instalados.

Os eleitos, uma vez no poder, passam para segundo plano a vontade dos eleitores, expressa nas promessas feitas. Em primeiro lugar está a satisfação das clientelas partidárias ávidas de benesses, bem como a satisfação dos financiadores partidários quais sócios capitalistas da empresa política. O eleitor só manda no dia das eleições, só nesta data é decisor, mas deixa de mandar nos eleitos, passando a estes um cheque em branco para que nos governem e, com o nosso voto e em nosso nome, façam o que entenderem.

Ganhas as eleições, só novo sufrágio poderá retirar os ganhadores ou uma excepcional dissolução da Assembleia, caso haja um Presidente da Republica competente e ousado. Até lá, é espoliar a bem da família política até ao descrédito final, dando tempo para que os anteriores perdedores e predadores sejam perdoados, porque nestas coisas a memória é curta e o ciclo repete-se.

A verdade reveste-se de duas facetas, antes e depois das eleições. Antes, no período de campanha eleitoral, promete-se que deixará de haver aumento da carga fiscal e haverá a reposição de benefícios sociais. Depois, tudo se mantem ou se agrava, sob a desculpa que afinal a verdade das contas publicas era outra, porque desconheciam, porque andaram entretidos com as intrigas politico palacianas em S. Bento, e a olhar para os extratos bancários confirmando que a austeridade não os atinge.

Da Europa, e das necessárias reformas das instituições, e da política europeia face ao mundo envolvente em ebulição, pouco se falou nesta campanha eleitoral. É reconhecido o papel marginal que temos em influenciar os determinismos e as orientações da política europeia, mesmo tendo um português à frente da Comissão, e os nossos exemplos de rigor e atitude não melhoram a nossa credibilidade. Segundo Luísa Meireles (Expresso/Atual, 17.05.2014) o futuro de países intervencionados como Portugal passou para as mãos de outros e, por outro lado, como ironia da crise: “A União Europeia, criada para manter sob controlo o poder alemão, acabou por colocar o poder da Europa nas mãos da Alemanha…” Talvez, por isso, nestas eleições se tenha falado como se de eleições legislativas se tratasse. Ficamos assim, mais uma vez, longe da Europa, submissos e contentes…   

Não será fácil neste desgoverno escolher quem governará melhor, mas a nossa habitual tolerância e indiferença, a nossa não acção contra esta gente que nos leva à pobreza e à humilhação internacional, tornam-nos cúmplices dessa mesma pobreza e dessa humilhação. Terminada a 3ª intervenção financeira internacional desde de 1977, a troika sai deixando-nos sob observação e deixando-nos um atestado de menoridade difícil de reparar. Sem as reformas necessárias para termos políticas e políticos credíveis, tenha o voto o valor que tiver, é sempre melhor mostrar o sinal de quem não dorme, e não se resigna com todas as vilanagens.

O desinteresse pelo acto eleitoral reverte em benefício dos que dele se aproveitam. Enquanto a razão dorme, outros atacam. Ocorre-me adaptar a inscrição de Goya no seu quadro de 1799, “o sono da razão produz monstros” (quadro acima).

Vamos votar!

2 comentários

Comentar post

Acompanhe-nos

Pesquisar

 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Mais sobre mim

foto do autor

Google Analytics