Os "sms"
O último capítulo deste folhetim que estamos a acompanhar chama-se SMS. Foram os "sms" trocados entre Centeno e Domingues, que António Lobo Xavier levou a Marcelo, que levaram à alteração e ao endurecimento da posição do presidente. Não tendo aparecido o tal documento assinado em que Marcelo respaldava a sua defesa do ministro das finanças, apareceram os "sms".
E com eles mais dois bons motivos para nos envergonharmos das élites da nossa praça.
No Parlamento, na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à Caixa, logo os deputados do CDS e do PSD exigiram também que lhe fossem entregues. A direita entende que a CPI, cujo objecto é apurar os erros na gestão da Caixa nos 10 anos anteriores a 2015, precisa dos "sms" trocados entre o actual ministro das finanças e o indigitado presidente da Caixa em 2016. Não interessa, disso nada se sabe, o que aconteceu aos 3 mil milhões de euros que a Caixa fez desaparecer em calotes. Não interessa aos senhores deputados quem se abotoou com o dinheiro, quem autorizou esses créditos, com que garantias... Não os preocupa que, mais uma vez, sejamos chamados a pagá-los. Interessa-lhes e preocupa-os os "sms"!
Interessa-lhes tanto que não resistiram a chamá-los para onde não eram chamados, quando podiam - e podem - pedi-los a António Domingues, mais que disponível para lhes entregar toda a documentação trocada com Mário Centeno.
Mas este espisódio dos "sms" não mostra só o que são realmente os interesses representados nas comissões parlamentares de inquérito, sejam elas quais forem. Mostram-nos também como se tratam as coisas entre as élites que mandam no regime. António Domingues já tinha deixado uma imagem pouco respeitável em todo este processo. Não é a conivência de Mário Centeno, e do primeiro-ministro, como é evidente, que altera essa imagem: exigir prerrogativas especiais e leis à medida, mesmo que contra a lei, não é a melhor carta de apresentação. Ao utilizar o seu amigo António Lobo Xavier para entregar os "sms" ao Presidente da Reública volta a portar-se mal. E a deixar também mal o seu amigo, que se permitiu prestar-se a esse papel... De resto, há muito anunciado. Ou ameaçado?