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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Resposta ou reacção para fazer de conta?*

Convidada: Clarisse Louro

 

Volto ao meu último tema, infelizmente mais actual que nunca, e ao “drama dos refugiados … e da Europa” para dizer que há finalmente alguma reacção. Que não exactamente europeia, mas na Europa.

Foi preciso que a onda de refugiados se tornasse num tsunami avassalador, que o drama atingisse a sua mais chocante dimensão… Foi necessário que as estruturas de acolhimento na Grécia e na Itália implodissem… Tivemos de ver um país da União Europeia construir um muro para impedir que refugiados desesperados pudessem entrar. Não para lá ficar, apenas para o atravessar com outros destinos. E de perceber como é lesta esta Europa a ameaçar os que não cumpram o seu ditact orçamental e passiva e branda para quem tão ostensivamente atenta contra a democracia e os direitos humanos.

Foi preciso uma fotografia de uma criança de três anos, igualzinha a qualquer outra criança ocidental, igualzinha aos nossos filhos e aos nossos netos. Foi preciso que uma fotografia da morte, de bruços, banhada pelas ondas, abanasse e acordasse consciências de sono leve. Foi preciso que um pai gritasse que não foi capaz de resistir à força da morte a arrancar-lhe das mãos as mãos dos seus filhos. E que gritasse que já nada quer do mundo que lhe roubou a mulher e os filhos, tudo o que tinha e que já nenhum passaporte lhe devolve.

Foi preciso tudo isto para que se surgissem quotas de acolhimento, que o voluntarismo do oportunismo político logo tratou de duplicar e até de triplicar. Para que Merkel passasse para a linha da frente da solidariedade internacional, e os alemães comovessem o mundo a receber em palmas refugiados. Para que Cameron se visse isolado, acima de tudo pelos seus próprios eleitores. E para que surpreendentemente Hollande anunciasse que vai declarar guerra á guerra na Síria…

Foi preciso isto para que a Europa deixasse de fazer conta que não tinha nada a ver com o que está a acontecer há já quatro anos. Resta agora a saber se não está apenas a fazer de conta que deixou de fazer de conta. Que neste aparente deixar de fazer de conta há todo um tratado de oportunismo político, não parece suscitar muitas dúvidas, mesmo que, evidentemente, todos tenhamos consciência que esta é, por agora, matéria de urgência. E que a urgência de resolver os dramas destas centenas de milhar de homens, mulheres e crianças se sobrepõe a qualquer outra coisa por mais importante que seja.

Mas a verdade é que esta não é uma resposta da Europa. É simplesmente uma reacção, e que nem sequer é da Europa. É uma reacção de Merkel, e da Alemanha, que precisa de dar de si uma nova imagem, depois do desgaste provocado pela (falta de) resposta que deu à crise europeia, pela intransigência na prossecução da política de austeridade que falhou em toda a linha, e pelo aproveitamento unilateral da política monetária europeia. Mas uma reacção que não deixa também de ter os seus interesses sociais e económicos…

E é uma reacção de Hollande, que procura recuperar pela via internacional a popularidade que internamente perdeu por completo. E que procura, no plano militar que na Europa simplesmente não existe, a importância que a França já não tem.

Claro que (também) uma resposta militar é indispensável. E por isso este primeiro passo de Hollande terá grande significado. Mas não é preciso ser especialista em estratégia militar para perceber que, com bombardeamentos aéreos, sem lá pôr o pé… é também fazer de conta.

 

*Publicado hoje no Jornal de Leiria

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