Depois das "negas" de Vítor Gaspar e Ricardo Reis, e de revertida pela pressão mediática a tentação de reconduzir Centeno, conforme prometido para hoje, o governo acabou por anunciar Álvaro Santos Pereira para governador do Banco de Portugal.
É (pelo menos) terceira escolha. Mas o que é isso importa?
Nada. Nada mesmo, comparado com o bullying a que foi sujeito na sua passagem pelo governo de Passos Coelho. Ah ... e a foto escolhida para ilustrar o texto não é para virem agora dizer que foi uma nomeação do Observador. Parece. Mas talvez só pareça ...
É ideia feita que "classe política" está esgotada, e em sérios riscos de esgotar o regime. A cada vez que os chefes de governo não conseguem recrutar fora das paredes do seu partido, a cada vez que não conseguem captar gente capaz da sociedade civil, essa ideia cresce.
A vitalidade dos governos, e do regime, mede-se muito pela captação de quadros que venham de fora do espartilho político-partidário.
Acontece que sempre - ou quase sempre - que os governos conseguem trazer alguém de fora, a regra é que, com poucas excepções e por períodos muitos curtos, eles falhem. Flagrantemente, acabando muitas vezes por engrossar o anedotário nacional.
Saudei aqui, há muitos anos, a chegada do Álvaro Santos Pereira, pela mão de Passos Coelho. E acabou no que acabou - em personagem central da anedota nacional. Voltei a saudar, há poucos meses, e para a mesma pasta, a chegada de António Costa Silva, alguém com pensamento estruturado, com ideias para o país, com prestígio pessoal e carreira feita.
Se não me engano muito, e pesem embora as diferenças de personalidade, Costa Silva vai pelo mesmo caminho. O percurso poderá estar menos carregado de ridículo, mas a (in)consequência é a mesma!
Depois de muito prometer, o homem que deu a cara pelo PRR, a que deu corpo, chegou ao governo. Aí chegado, foi atacado pelo estranho vírus do poder que transforma quadros de reconhecido mérito em políticos erráticos, e autênticos cata-ventos.
O próprio PRR não tem, há muito, nada a ver com o que desenhara. Já não tinha quando iniciou funções, o que já não era muito abonatório. Sem o vírus, ao perceber que toda a concepção do PRR estava subvertida e desvirtuada, já não teria aceitado entrar para o governo.
Mas aceitou, e iniciou funções, logo na tomada de posse, com o anúncio da necessidade do famoso "Windfall tax", o tal imposto sobre os lucros excessivos das empresas, obtidos através de condições excepcionais de mercado que beneficiam uns poucos e prejudicam todos os muitos outros. Como o chefe do governo não achou muita piada à coisa - hoje, curiosamente, defendida em muitos países, e pela Comissão Europeia - Costa e Silva deu logo o dito por não dito. Não tinha sido aquilo que queria dizer... Mas foi, e sabe tão bem que foi, como sabe que o PRR que está em execução não tem nada a ver com o que programou.
Disse-o, como desenhara o PRR, antes de apanhar o vírus, na posse de todas as suas faculdades. Antes de perder a primeira - a coragem. E a segunda - a lucidez.
A partir daí o ministro da economia desapareceu. Reapareceu agora - e mais valia ter continuado desaparecido - com umas medidas desgarradas e com a espatafúrdica ideia da descida transversal da taxa de IRC. Que, para além de ineficaz - as pequenas empresas não apresentam lucros tributáveis, as grandes dispõem de recursos infindáveis de planeamento fiscal para o mitigarem, e os investidores internacionais tratam do assunto quando negoceiam o investimento - ainda choca violentamente de frente com as suas ideias de partida.
Temos aí outro teste ao sistema, com o anunciado recrutamento de Fernando Araújo para essa espécie de CEO do Serviço Nacional de Saúde. A ideia é a mesma - trazer gente capaz de fora. A fórmula é nova - uma estrutura fora do governo. Mas - e isso é fundamental - também o processo é novo. Fernando Araújo não correu a aceitar o cargo. Já esteve lá, no lado de dentro do governo, e sabe "o que a casa gasta". Daí a demora de todo este tempo a aceitar um cargo que ainda pode recusar. Mas que já lhe não pode ser recusado.
Que aproveite esta circunstância única para deixar todos os pontos nos "ís", e abrir uma última janela neste mundo fechado da governação!
No mais obscuro dos negócios do Estado – o dos submarinos –, na véspera da entrada em incumprimento de um dos contratos de contrapartidas, um ministro – Álvaro Santos pereira – alarga o prazo contratual e evita, assim e in extremis, o incumprimento do fornecedor que, entretanto, respondia já em Tribunal por outros incumprimentos. Questionado no Parlamento sobre essa decisão, o ministro defende-se dizendo que essa revisão do contrato estava suportada por um Parecer Jurídico contratado a uma sociedade de advogados (PLMJ), assinado por Nuno Morais Sarmento - por acaso, era membro do governo que tinha comprado os submarinos - e emitido três semanas depois de assinada a alteração ao contrato. Quer dizer o ministro Álvaro não pediu um Parecer para fundamentar a sua decisão. Não, primeiro assinou o contrato e depois foi pagar para que lhe fosse dada cobertura…
Vamos por partes: (1) negócio dos submarinos; (2) perdão de um incumprimento, a incumpridor sucessivo, com prejuízo do Estado; (3) mentir ao Parlamento; (4) violação do princípio da independência; (5) compadrio; (6) desperdício de dinheiros públicos. Seis em um. Pelo menos, porque à pouca vergonha já ninguém liga!
Ontem vi a entrevista do Ministro da Economia à RTP - ao Vítor Gonçalves - onde Álvaro Santos Pereira teve momentos de meter dó, de quase não dizer coisa com coisa. Hoje esteve ao lado de Vítor Gaspar, e no meio de toda equipa das finanças, na apresentação do dito pacote de estímulos à economia, do super-crédito fiscal, como lhe chamam.
Fiquei com a ideia que, ontem à noite, terminada a entrevista, o Álvaro não fazia a mínima ideia que hoje estaria ali. E que nem lhe passava pela cabeça do que haveria para anunciar… Quer dizer, fiquei com a ideia que o Álvaro já não é ministro há muito tempo mas que ainda não o sabe. E que será sempre o tal, o último a saber!
A dúvida anda no ar: remodelação ou implosão? Será que o governo está mesmo para cair - de maduro para uns, de podre para outros - ou será que Passos Coelho está para dar ouvidos ao parceiro de coligação, e vai proceder à remodelação? Devolvendo o Álvaro à procedência, eventualmente com a incumbência de criar a confraria do pastel de nata no Canadá...
Relvas, bem se sabe, é apenas a outra face de Passos Coelho. Um não pode ser remodelado sem o outro, e o primeiro-ministro não o pode ser… Logo, Relvas, queira ou não queira o CDS, não será remodelado!
Se calhar é por isso que o ministro Crato guarda/esconde os resultados da investigação à famosa licenciatura de Relvas - que pediu à IGEC (Inspecção Geral da Educação e Ciência) há perto de um ano - desde meados de Janeiro… E que diz agora que está para os divulgar em breve!
Pois…também pode ser o Nuno Crato a acompanhar o Álvaro… Ou pode cair tudo!
Era, com Relvas, dado como o primeiro a remodelar. Não se aguentava, era um desastre: cada tiro cada melro!
De repente, e curiosamente de novo a par de Relvas, o homem desata a aparecer. E a ganhar pontos, ao ponto de ninguém mais se lembrar de remodelação. Mais: ao ponto de começara a surgir como um dos elos mais fortes deste fraco governo!
Ainda ontem à noite apresentava o seu ar triunfal na entrevista ao José Gomes Ferreira, no “Negócios da Semana”, da SIC Notícias. Tudo não tinha passado de ataques de inimigos, a quem ele incomodaria!
De repente cai tudo. Bastou a Álvaro Santos Pereira – é dele que se fala - pensar que era mesmo assim, que o problema estava nos inimigos, e passar a dar conta das suas mais profundas convicções, para voltar a cair em desgraça!
Disse coisas extraordinárias, como: "Apesar de todas as dificuldades, Portugal tem conseguido implementar a consolidação orçamental e as reformas estruturais, um caminho muito difícil, mas que está a ser traçado de forma exemplar para a Europa e para o mundo". Ou "Portugal está a percorrer um caminho extraordinário, e chegou o momento de lhe dar vida económica".
Ouvir, nesta precisa altura, coisas destas do número dois alemão - parceiro de coligação de Merkel – leva qualquer um a, mais que abrir a boca de espanto, começar a coçar na cabeça à procura de explicações.
Como é que, numa altura em que toda a gente percebeu – incluindo a troika, evidentemente, que até teve da dar mais tempo para atingir a meta do défice – que tudo falhou, que falhou o programa, como toda a gente anunciara que falharia, e falhou a sua execução, somos um exemplo para a “Europa e para o mundo”?
Como é que, depois de toda a gente e por todo o lado ter dito que o programa mataria a economia nacional, como matou, é, precisamente agora, que “chegou o momento de lhe dar vida económica”?
Terá isto alguma coisa a ver com a expressão de revolta que os portugueses finalmente conseguiram mostrar ao mundo?
Ou terá o homem simplesmente sido atacado pelo vírus do Álvaro?
Que, como se sabe, é uma bactéria que inverte a realidade para depois a projectar sob a forma de pastéis de nata: bem parecida, doce e quente. E com canela!
Parece-me bem que é isso. O homem foi contagiado e, sob o efeito do vírus do Álvaro, está em Marte. E nem é sequer por a Comissão Europeia ter ainda ontem lembrado, de Bruxelas, que havia lá uma tranche para chegar no início de Outubro… Que só chegará se tudo for cumprido bem direitinho…
Álvaro Santos Pereira - o ainda ministro da economia mas já ex-superministro da economia – está na berlinda de onde apenas sairá, já se percebeu, quando regressar a Vancouver.
E aqui abro um parêntesis para uma notícia que, a exemplo da que circulou ontem por todo o lado com a sua demissão, não é notícia. Mas que será quando o for! Regressar ao local de onde veio quando se deixa de ser ministro não é comum neste país. Em Portugal, quando se deixa de ser ministro, vai-se para um banco ou para uma das grandes empresas das que vivem directa ou indirectamente à conta do Estado. E por isso é notícia. Há-de ser, não tenho dúvidas!
Um a zero, para o Álvaro!
Quando o governo foi apresentado, como por aqui já referi várias vezes, a opinião pública reagiu de uma maneira geral favoravelmente. O ponto era que havia muita gente vinda de fora da política. Gente nova e sem experiência política não era tido como negativo, antes pelo contrário! Álvaro Santos Pereira – com um super ministério – e Vítor Gaspar – por força da força das Finanças, muito maior dadas as circunstâncias - eram as estrelas.
O ministro da economia, é certo, teve as suas gafes. Faltou-lhe o que sobra aos políticos: matreirice e capacidade de comunicação. E nunca lhe conseguiu vestir a pele o que o diminuiu perante os seus pares e, especialmente, perante o implacável poder dos media. Foi aos poucos sendo trucidado, autêntica vítima de bulling!
O ministro das finanças, ao invés, vestiu o fato de político, que lhe assentou como se há muito lhe tivesse sido moldado. Feito à medida! Rapidamente aprendeu os truques da matreirice e da manipulação, que passou a manejar como um mestre. Nem a sua desajeitada forma de comunicação constitui óbice. Antes pelo contrário, fez dessa ameaça uma oportunidade, transformando aquela forma pausada e martelada de comunicar num must.
E a sua popularidade subiu em flecha. Todos os inquéritos de opinião o colocam no topo das preferências dos portugueses, ao contrário do que seria natural nestas circunstâncias. O ministro que é a cara primeira da austeridade, e de mais austeridade, dos impostos insuportáveis, dos cortes nos serviços públicos e do orçamento que não se cumpre, está em alta na opinião dos portugueses. Surreal!
De super ministro, Álvaro Santos Pereira passou a subministro, processo que culminou com a recente transferência da responsabilidade de execução do QREN para Vítor Gaspar entretanto, mais que super ministro, o verdadeiro primeiro-ministro. E, de facto, o grande responsável pelo processo de achincalhamento em curso (PRAC), que passa já as fronteiras da dignidade, de Álvaro Santos Pereira. Consta que logo nos primeiros meses do governo, perante uma exposição do ministro da economia em conselho de ministros, Vítor Gaspar terá secamente cortado: “não há dinheiro”. Tendo Álvaro Santos Pereira retomado a sua exposição, dinamitou: “qual das três palavras não percebeu”?
Claro que se percebe que fazer de Álvaro Santos Pereira o bobo da corte dá muito jeito ao novo primeiro-ministro em funções. Claro que retirar-lhe o QREN, com o que minimamente poderia intervir na economia, poderá dar um jeitão quando a execução orçamental começa a rebentar por todos os lados, a começar pela receita.
E assim se enterra o Álvaro e se põe o Vítor no pedestal. A quem tudo se perdoa. Imaginem o que se não teria dito se, entre outras preciosidades naquela visita a Manteigas, este título do DN de domingo, tivesse sido atribuído ao Álvaro? Mas, como foi o Vítor, no pasa nada…
Já agora, francamente: se tivesse que comprar um carro usado a um deles, a quem compraria o leitor o carro?
Dizia-se que o Ministro da Economia andava desaparecido. E ouvia-se responder que estava a trabalhar. A trabalhar muito, sem abandonar o ministério, à procura de soluções para a nossa pobre economia, presume-se.
Entretanto, por necessidade ou por disponibilidade – vá lá saber-se –, o ministro apareceu. Como apareceu com programas e projectos para tanta coisa podemos concluir que aquele recolhimento deu os seus frutos, e que apareceu agora para os comunicar.
Tenho algumas dúvidas que assim tenha sido. Não é por nada, é apenas porque ele apareceu a dizer o que todos os seus antecessores disseram. E como é fácil de ver, para descobrir o que os outros já tinham descoberto, não era preciso tanto recolhimento. E depois, logo a seguir, percebemos que tanto recolhimento afastou-o da realidade. Esqueceu-se que não há dinheiro!
Mas, como os seus antecessores, veio anunciar dinheiro e mais dinheiro para cima dos problemas. São 100 milhões para um programa para desempregados há mais de seis meses, são apoios à internacionalização das empresas e são alterações ao capital de risco público para financiar isto tudo. E são duas linhas de velocidade alta para levar daqui os nossos produtos, de comboio, depressa e bem. Quantos milhões? Não se sabe, mas talvez os mesmos do TGV, ou por aí perto…
Eu bem desconfiava que naquela conversa de Madrid, quando ele disse que a decisão sobre o TGV seria anunciada em Setembro, havia gato escondido com rabo de fora. Os dinheiros de Bruxelas vêm à mesma, seja para TGV ou para outra coisa. Desde que meta carris, e os comboios que lá têm para nos vender, o dinheiro vem à mesma. E a parte que nos toca logo se vê. Até porque havia muitas indemnizações para pagar…
E anunciou um grande investimento de uma das grandes multinacionais. Mas nada mais disse, é segredo. E há afinal muita gente interessada em investir em Portugal… Já não vêm é a tempo de nos ajudar a resistir ao agravamento da depressão no próximo ano!
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