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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

A nudez das elites e a banalidade do mal

Convidado: Luís Fialho de Almeida 

A economia, pelos fluxos financeiros que gera e enquanto actividade humana, não está desligada de regras de comportamento e, como tal, de considerações morais.

Os impactos da queda do Grupo Espirito Santo (GES), suas ramificações e ligações ao Banco Espirito Santo (BES), estão ainda por avaliar, nomeadamente para a economia de particulares e de empresas que neles confiaram. Mas este caso vem renovar o sentimento que se tem do poder financeiro dominado por alguma banca incompetente na gestão, cega na ambição e mesmo fraudulenta e criminosa como no caso BPN.

Nesta convivência vale tudo: irregularidades, ocultação de rendimentos ao fisco, falsificação de contas, paraísos fiscais, cumplicidades com o poder político, ou seja: promiscuidades fortalecidas pela sistemática impunidade. Fica abalada a credibilidade do sistema bancário nas praças financeiras internacionais, mas também fica o descrédito moral e a humilhação do governo português na aceitação da integração da corrupta e tirânica Guiné-Equatorial na CPLP, a troco da entrada de capital daquele país no Banif. Os cheques petrolíferos falam mais alto e negócios são negócios...

Estes, entre muitos outros, são os ingredientes da desesperança dos portugueses obrigados a pagar a incúria e vilania das elites, considerando como elite a minoria que tem a má reputação associada ao privilégio injusto e injustificado de alguns, e não – adopto aqui o conceito - “ aquilo que há de melhor numa sociedade ou grupo, partindo de uma posição de privilégio (por berço, educação, fortuna ou qualquer outra razão), usa essa vantagem para ser um referente dos melhores valores que uma sociedade justa reconhece como tal”.

A actual crise e a intervenção externa nas nossas contas ajudaram a desnudar estas elites nas suas piores referências, e esse é um aspecto positivo, caso se aprenda a lição e as entidades reguladores, fiscalizadoras e judiciais não sejam passivas e cúmplices. Mas a esperança na depuração destes sistemas é reduzida, porque os monstros renascem rapidamente das cinzas como Fênix.

Algumas destas elites destronadas no processo revolucionário após 1974, despojadas de património e emigradas, renasceram e voltaram com a fúria acrescida de domínio do poder e o desígnio do seu insubstituível lugar na sociedade, usando o “bem” nas virtudes dialogais e a “banalidade do mal” nas acções. Como quis dizer Hannah Arendt: a monstruosidade não está na pessoa, mas no sistema e há sistemas que banalizam o mal. O perigo e o mal maior estão na violência sistemática que é exercida por pessoas banais, ou como diz Miguel Real, “…homens bons, no governo, na direcção de grandes empresas, de grandes instituições, praticando o mal com o à-vontade próprio de quem está praticando o bem”, ” …homens situados em centros de poder, humilhando outros, extorquindo-lhes direitos – o mal”.

Tem havido a obsessão que todo o mal da crise reside na despesa do Estado: com funcionários públicos, pensionistas, prestações sociais com desempregados, saúde, e não na dívida privada, e esta revela-se muito mais perigosa e tóxica. A dívida privada é responsabilidade dos privilegiados que dominam a banca, as PPP e sectores estratégicos e monopolistas, por onde passam ex-ministros e ex-secretários de estado a fim de receberam a compensação dos favores prestados quando foram governo.

Esta teia de cumplicidades e interesses gera uma nebulosidade e uma vivência em sombra, onde as supervisões têm dificuldade de encontrar luz, e as recomendações da troika passam ao lado. Assim, é mais fácil para qualquer governo impor a austeridade opressiva sobre os indefesos excluídos destas elites, culpando-os da vida acima das possibilidades, actuando sobre eles como a necessidade legítima de fazer o mal para atingir o bem, salvaguardando o poder senhorial. Escravizando os infiéis ou extinguindo os hereges como na Santa Inquisição - interpretando na esteira da teoria do mal em S. Tomás de Aquino.

Com Ricardo Salgado a contas com a justiça iremos assistir a uma cruzada dirigida por destacados gabinetes de advogados que pretendem provar o equívoco que a opinião pública tem do mal.   

Afastada destas elites menores, a figura maior, que justamente mereceu lugar no Panteão Nacional, Sophia de Mello Breyner Andresen, em entrevista, manifestou o seu maior desejo para o presente século: “Gostaria que se realizasse a justiça social, a diminuição das diferenças entre ricos e pobres. Mais justiça para os pobres menos ambições para os ricos. O resto é-me indiferente”.

Sophia, tem o mérito de ficar para eternidade pelas boas razões e o seu desejo deve ser lembrado como luta de todos os tempos e sociedades. A luta de muitos e bons portugueses é o enorme amor a uma pátria que se deixa governar por tão má gente.

 

 

 

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