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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

O outro lado deste 10 de Junho

Comemorações do 10 de junho em Lisboa | Município de Barcelos

Não foi só - infelizmente - do brilhante discurso de Lídia Jorge que se fez este 10 de Junho. Fez-se também, ainda em Lagos, de mais um número de André Ventura, evidentemente, incomodado com os discursos que acabara de ouvir. E que hipocritamente apaludira.

Já se sabe que é assim: na tribuna, onde se senta por dever institucional, faz como os outros e aplaude; logo que se levanta da cadeira, com uma câmara e um microfone à frente, surge o taberneiro ordinário, o execrável vendedor da banha da cobra, o manipulador despudorado, o miserável incendiário ...

E fez-se ainda em Lisboa, com insultos racistas e saudações nazis nas barbas de Gouveia e Melo. Sobre os quais o que teve a dizer foi que “estes momentos são de união e não de desunião”.

Não, Sr Almirante. Estes momentos são de coragem, e não de cobardia!

Neste 10 de Junho acabamos por ficar a conhecer mais um bocadinho do personagem que dizem ser o próximo Presidente da República. É pena que não seja nada de bom!

10 de Junho - um pontapé no bafio

Biblioteca Escolar - Agrupamento de Escolas da Trafaria: Dia de Portugal

Foi o décimo, e último, discurso do Presidente Marcelo no 10 de Junho, desta vez em Lagos, onde  condecorou Ramalho Eanes com o grande-colar da Ordem Militar de Avis, a mais alta condecoração do Estado reservada a militares.

O discurso soou a fim de ciclo. Foi curto, mas ainda assim sem fugir a banalidades, redondas (“Ser português é ser universal. Temos uma forma singular de estar no mundo”,  "Não há quem possa dizer quem é mais puro e português do que qualquer outro"), e pouco interessantes. Mais banal e menos interessante porque se sucedeu imediatamente ao notável e disruptivo discurso de Lídia Jorge, a escritora e Conselheira de Estado que presidiu às comemorações.

Falou de Lagos como ponto de partida para a epopeia que Camões cantou, mas também como ponto de chegada da indignidade. De onde partiram marinheiros à descoberta de novos mundos, mas onde chegaram homens roubados da sua dimensão humana.

"Sobre este areais aconteceram acontecimentos decisivos para o mundo" - disse, incluindo neles a escravatura, exportada para o mundo a partir precisamente dali. Em tempos de ódio ao estrangeiro como os que vivemos, Lídia Jorge lembrou partes esquecidas da nossa História. E lembrou  que "em pleno século XVII cerca de 10% da população portuguesa teria origem africana – população que os portugueses tinham trazido arrastados”.

Citou Shakespeare, Camões e Cervantes, “três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência”. Num "poder demente aliado ao triunfalismo tecnológico", que faz dos cidadãos apenas "público que assiste a espectáculos em ecrãs de bolso" resignados à condição "de seguidores" de "ídolos fantasmas”.

Que pontapé no bafio, Lídia Jorge!

 

 

"Poucochinhas obras valerosoas"

Pedro Nuno Santos: “O PS é hoje a primeira força política em Portugal” –  Observador

Ao contrário de "há 10 anos", a vitória "por poucochinho" do PS nestas europeias fortalece-lhe a cúpula. Desta vez, ao contrário de António José Seguro há 10 anos, Pedro Nuno Santos (PNS) pode clamar vitória. 

Claro que exagerou a fazê-lo - bem mais que Marta Temido, o rosto da vitória - mas sabemos que é sempre assim. Quem ganha, ganha. Mesmo que por "poucochinho". Foi assim nas Legislativas, há três meses, quando Montenegro por "um poucochinho", à luz da participação eleitoral - a abstenção nestas Europeias, ainda que inferior às anteriores e a mais baixa dos últimos 20 anos (graças ao novo instrumento do voto em mobilidade, que se saúda), foi superior a 63% - ainda mais  "poucochinho", ganhou. E voltou ontem a ser assim, numa espécie de desforra.

Quem perde por "poucochinho" não deixa de perder, mas quase não conta. Viu-se como quase não contou para PNS há três meses, saindo cheio de vigor para fazer oposição. E voltou a ver-se com Montenegro a sair cheio de vigor para ... continuar a governar. E abrir as portas do futuro político de Sebastião Bogalho, o rosto da derrota que foi só e apenas rosto.

De resto, estas foram as eleições do "poucochinho".

Foi também por "poucochinho" que o Chega segurou o terceiro lugar no campeonato partidário nacional, no "trambolhão" de 800 mil votos que levou das legislativas de 10 de Março para ontem. Com a IL à perna, e com os mesmos dois deputados eleitos.

Que o Chega perdeu - e com força -, não há dúvidas. Se alguma houvesse ter-se-ia dissipado no final da noite, quando André Ventura empurrou o pobre Tânger Corrêa para a frente das câmaras e microfones.

A IL ganhou, é reconhecido por unanimidade. Mas, ao contrário de PNS, Rui Rocha não tem grandes razões para cantar vitória. E se calhar foi por isso que não cantou. Menos ainda para estar descansado. É que não só ficou demonstrado que este resultado é de Cotrim de Figueiredo, como ficou claro que há anos-luz a separar a capacidade de liderança e mobilização de um, do outro. 

Foi também "poucochinho" o que separou a votação dos partidos da esquerda. O BE teve mais uns "pozinhos" que a anacrónica CDU, e esta, ao contrário de todas as sondagens, mais uns que o Livre. Que, ao contrário dos doutros dois - o BE elegeu Catarina Martins e, a CDU, João Oliveira, perdendo ambos um dos dois deputados que antes tinham no Parlamento Europeu - não conseguiu eleger o cabeça de lista, Francisco Paupério, a "vedeta" da campanha eleitoral que foi perdendo gás, depois de esbatido o efeito-surpresa.

Também aqui, no fundo da tabela deste campeonato, os líderes saem em perda para os cabeças de lista apresentados. Catarina Martins está muitos furos acima de Mariana Mortágua, como João Oliveira está de Paulo Raimundo, por mais impossível que seja a sua missão. Também Rui Tavares saiu a perder para Francisco Paupério. Começou a perder logo no processo de escolha do candidato, continuou a perder quando apenas se colou a ele quando percebeu que estava a ter sucesso. E, definitivamente, perdeu para Paupério na imagem de transparência, coerência e humildade.

Anunciar, como Rui Tavares fez às 8:30 da noite, a eleição do deputado do Livre, e a vitória por essa Europa fora que, de todo, não lhe pertencia foi, mais que um tiro no pé, o sinal de desnorte do "homem só" do Livre nestas eleições. Do céu ao inferno apenas em três meses. Não se ouvindo o estrondo da queda de André Ventura, ela não foi menor.

Quem ganhou sem ter sequer aparecido foi António Costa. Como há dez anos!

Nesta conjugação de factores, com Ven der Leyen praticamente a assegurar a recondução na presidência da Comissão Europeia, António Costa está agora mais perto da ambicionada presidência do Conselho Europeu.

E foram assim estas eleições europeias n´"esta que é a ditosa pátria minha amada". Que Camões, hoje celebrado, cantou "espalhando por toda a parte, com engenho e arte, as obras valerosas daqueles que se vão da lei da morte libertando". 

Que hoje já não são assim tantas. Nem tantos!

Sinais trocados

António Costa pede a mulher que não responda a manifestantes e chama  "racista" a professor

Claro que os cartazes exibidos por professores na Régua, no espaço das comemorações do 10 de Junho, não têm natureza racista. São de mau gosto, porventura impróprios (pelo carácter ofensivo) e inapropriados (pela mensagem de quem deveria ter por missão educar), mas nunca de teor racista. E não são sequer novos, já foram utilizados noutras circunstâncias, em manifestações mais, ou menos, apropriadas à chamada "luta" dos professores.

António Costa sabe-o bem, mas quis atacá-los pelo lado do racismo. Não o fez por acaso. Raramente o faz. Fê-lo para isolar o mais inorgânico, controverso e mediático dos sindicatos. Fê-lo para lhe colocar o rótulo de extrema direita de que faz seguro de vida.

Com isso trocou os sinais, pregou até mais um prego na desvalorização do racismo, e perdeu uma boa oportunidade para, se não fazer de André Pestana um "ramo morto", pelo menos aproveitar a falta de paciência dos portugueses para ele e para os seus fiéis seguidores.

O 10 de Junho*

Resultado de imagem para 10 de junho

Foto: LUSA

Esta é a semana do 10 de Junho. Porque começou justamente a 10 de Junho, e com o 10 de Junho, mas acima de tudo porque nunca mais se conseguiu livrar dele.

E tudo por culpa de um cidadão português chamado João Miguel Tavares, que escreve nos jornais e comenta na televisão. E que soube aproveitar bem o palco que lhe ofereceram – foi oferecido, João Miguel, foi oferecido… - para se tornar na figura central deste dia da Pátria, dito de Portugal, Camões e das Comunidades. De tal forma que ninguém sabe quem foi condecorado – se é que ainda há alguém que falte condecorar, ou se, no fim disto tudo, ainda sobra desfaçatez para condecorar alguém – nem ninguém sabe o que disse o Presidente da República no mais aguardado e solene discurso do calendário nacional. E os que sabem, só sabem que apenas lhe quis temperar os destemperos. Mesmo que "encomendados". Que não se ficaram por Portalegre, ali a cem metros da casa onde nascera, mas seguiram Atlântico fora, para prosseguirem na remota cidade do Mindelo, na ilha de S. Vicente, em Cabo Verde.

Não há dúvida, neste 10 de Junho, sem heróis para celebrar nem pantomineiros para condecorar, um novo herói nacional nasceu. Parece que foi para isso que foi convidado, e foi certamente para isso que aceitou o convite: "Se fui o Éder deste 10 de Junho, o Presidente Marcelo foi o meu Fernando Santos"... 

E por isso, mesmo sem grandes preocupações de fidelidade aos factos ou de solidez de conceitos, o seu discurso atingiu o objectivo.

Vejamos: não é de agora, desta década, que “eles” não nos dão nada em que acreditar. Há muitas décadas que “eles” não nos dão nada em que acreditar. Nem nos anos 80 estivemos assim tão entusiasmados com o desígnio da adesão à Europa, ou em vencer a batalha do euro na década seguinte. Estávamos, “nos oitentas”, mais preocupados com o FMI e com a fome em Setúbal, do que com a adesão à CEE, que era coisa “deles”. Como depois, “nos noventas”, andámos mais preocupados em estourar o dinheiro que a Europa despejava no país do que propriamente em apanhar a primeira carruagem do euro.

Mas… os factos só interessam na medida em que permitam construir uma boa história, e os conceitos só servem desde que não a atrapalhem. Que nem precisa de ser nova, e pode até já ter sido contada na mesmíssima ocasião, e por mais que uma vez … E a verdade é que o João Miguel Tavares contou inegavelmente uma boa história. E, até para mitigar a falta de originalidade, deu-lhe a melhor forma de ser ouvida…

* Da minha crónica de hoje na Cister FM

 

 

O povo esteve sempre lá...

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Ainda no intervalo - a segunda parte irá iniciar-se daqui a pouco, em Paris - pode já dizer-se que este 10 de Junho foi muito menos bafiento que de costume. O dia foi mais de Portugal que do regime, como Cavaco fazia dele...

Com um presidente sem teias de aranha, com um discurso desempoeirado, sem recados nem mensagens estranhas, sem necessidade de intérprete, adequado às circunstâncias. E às comemorações. À volta deste povo, sempre lá, no centro do discurso, como no centro da História.

Sem infindáveis filas de gente cinzenta do regime a oferecer o peito à condecoração. E sem chiliques!  

 

Dez 10 de Junho

Por Eduardo Louro

 

Confesso que nunca fui muito entusiasta do 10 de Junho. Acho que faz todo o sentido comemorar Camões: um génio e um patriota. Temos o dever de celebrar os nossos génios, os melhores de nós, e a obrigação de enaltecer os patriotas, por muito que as qualificações possam ser discutíveis. Porque se génio, é génio, seja em que circunstância for, já patriota não é bem assim. Tem mais a ver com o sabor das marés...

Camões é, e representa o suficiente para merecer um dia, numa altura em que há dias para tudo, mesmo que se cortem os feriados. Não era preciso meter mais no mesmo saco.

Dia de Portugal? Dia das comunidades? Lembram-se que também já foi dia da raça? 

É isso mesmo. Serve para tudo, até para o piorio...

Depois, as condecorações fizeram o resto... Fizeram deste um dia com demasiado cheiro a mofo, o dia de comemorar o regime. O dia em que o regime olha para o seu umbigo. O velho dia da raça, sempre ao serviço da ideologia do regime... Os últimos dez 10 de Junho têm sido isso. Porque Cavaco é isso!

Este de hoje é o último destes últimos dez 10 de Junho. E nessa medida um alívio...

Não será certamente o último 10 de Junho a cheirar a mofo, mas desejo que seja o último que o Presidente da República utilize para pagar favores. O último em que o inquilino de Belém agracia os que o ajudaram a lá chegar. O último em que distribui comendas por quem lhe limpou o caminho... Ou por renomados malfeitores. E o último em que o Presidente da República faça descarada e despudoradamente campanha eleitoral em favor dos seus!

Que este tenha sido o último 10 de Junho igual aos outros. Mesmo que desta vez tenham sido os militares a desmaiar...

 

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