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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Homenagem a Ramalho Eanes

Por Eduardo Louro

 

 

Talvez uma boa maneira de assinalar mais um aniversário do 25 de Novembro seja homenagear Ramalho Eanes. Já o inverso é mais discutível, homenagear Ramalho Eanes para comemorar o 25 de Novembro poderá não ser uma grande ideia.

Eanes é, indiscutivelmente, uma das principais figuras da História da democracia. Mais, na minha opinião, por ter estado à hora certa no sítio certo do que por qualquer outro motivo. A História é assim mesmo, e quando é feita de sucessivas enxurradas de acontecimentos, incontrolados e incontroláveis como aconteceu em Portugal, é pródiga em heróis mais ou menos acidentais.

Do 25 de Abril ao 25 de Novembro e daí à Presidência da República foi uma enxurrada. Os 10 anos de Presidência não fogem muito disso, ou não tivesse sido eleito pela direita e reeleito pela esquerda. E apesar disso, e do  elevado grau de dificuldade dos dois mandatos, em especial do primeiro, foram cumpridos quase que em regime de serviços mínimos, a coberto de um ar esfíngico tornado cortina impenetrável. Para além da esfinge nada se via, nada se percebia…

Não me esqueço da sensação estranha que me provocou a entrevista de despedida de Belém, nos primeiros dias de 1986, nas vésperas da passagem do testemunho a Mário Soares. Não me recordo de muitos pormenores, nem sequer do entrevistador, mas tenho tão presente como se fosse hoje aquela minha sensação de incredibilidade: mas foi esta personagem que ocupou o lugar mais alto do Estado durante dez anos? Como foi possível esconder tanto vazio durante tanto tempo?  

Nessa altura, se bem nos lembramos, já tinha inspirado um partido político que se tornara, de imediato, na terceira força política e na grande pedrada no charco da política portuguesa. Ouvi-o hoje comentar as indefinições e indecisões que marcaram (e mataram) o PRD com a linear explicação de que não tinha condições para liderar um partido político. Não tinha de facto, como bem tínhamos percebido naquela entrevista em que, pela primeira vez, deixara cair a cortina por de trás da esfinge…   

Ramalho Eanes percebeu isso ainda a tempo de aproveitar em pleno a sua condição de ex-presidente para se valorizar. E a verdade é que ganhou a substância que não tinha, e conquistou como ex-presidente a relevância nacional que não tivera como presidente. Que hoje gere com a mesma eficácia com que no passado geriu a sua esfinge de presidente. Mas sem cortina! 

O frente a frente

Por Eduardo Louro

   

Passaram no sábado, dia 6, 35 anos sobre o famoso frente a frente televisivo entre Mário Soares e Álvaro Cunhal e a RTP decidiu reproduzi-lo no seu canal Memória.

Tinha sido alertado para essa emissão na véspera, num programa da Antena 1, que há muito sigo (o seu horário, às 19 horas de sexta-feira, tornou-o companhia de viagem no meu regresso a casa das sextas-feiras): o Contraditório, moderado por João Barreiros e com a participação de Carlos Magno, Luís Delgado e Ana Sá Lopes.

O Carlos Magno e o Luís Delgado, rapazes da minha idade, tinham na altura deste debate 20-21 anos de idade, os restantes dois eram então ainda crianças. Os dois primeiros, pela idade e pela intensidade da vivência própria daquele período da nossa vida colectiva, tinham a “obrigação” de conhecer toda a envolvência e o contexto daquele que ficou como o marco do debate político televisivo. Aos outros dois, mais jovens, seria exigível um conhecimento documental mas igualmente rigoroso daquele acontecimento.

Fazer da análise e do comentário político profissão terá de ter algumas exigências. Não se podem ignorar acontecimentos políticos determinantes da nossa história recente e, em especial, daquela que também protagonizamos.

Tudo isto para dizer que achei lamentável que aquelas quatro personalidades tenham abordado aquele acontecimento, a propósito da emissão da RTP Memória, em regime de manifesta ignorância do seu enquadramento. Um deles – o Luís Delgado, de resto num registo que lhe é muito próprio – apressou-se a enquadrar o debate num período eleitoral, sem contudo o identificar. Logo seguido por todos os outros, como também é habitual.

Fora de causa estava, para ele, ter acontecido em Novembro de 1975 porque, acrescentava, “era o que faltava era nessa altura alguém estar preocupado com debates”. Também dizia que, ao contrário do Carlos Magno, não tinha então acompanhado o debate porque, nessa altura, tinha coisas mais interessantes com que se preocupar.

O mesmo Luís Delgado teria outra tirada digna de registo, quando comparou a influência do PCP nos jornais de 1975 ao que se passa hoje com o Bloco de Esquerda, comparando “alhos com bugalhos”. Então, a influência do PCP nos jornais, nos nacionalizados – entenda-se – decorria do “assalto” transversal ao aparelho de estado. A dita influência actual do BE é completamente diferente e decorre de uma certa “moda”, de um certo “politicamente correcto” à la page com os temas da actualidade, geralmente ditos de fracturantes, É uma questão de produto, um produto que hoje tem mercado, e não tem nada a ver com exercício de poder e com controlo da informação, como então sucedeu.

A verdade é que, até que da régie tivesse vindo o ponto de ordem para pôr ordem naquilo, aquilo foi um autêntico regabofe. E um triste espectáculo que nos mostrou como muitas destas pessoas entende que a sua omnipresença no espaço mediático lhes permite um compromisso leviano com a verdade e com o rigor!

Bom. Mas no sábado à noite lá me fixei em frente ao ecran para rever, pela primeira vez, o mais famoso dos frente a frente da política portuguesa que tornou famosa a expressão de Álvaro Cunhal: “olhe que não … olhe que não!”. Que eu recordava ter sido utilizada uma única vez quando, afinal, viria agora a confirmar, foi-o em duas ocasiões.

E recordei um tempo que, parecendo tão perto, está afinal tão longe. Um tempo em que se fumava ali, em frente às câmaras. Em que apenas o fumo que saía dos cigarros denunciava dois entrevistadores (e que jornalistas!) que se limitavam a não interromper aquelas duas figuras, lado a lado em simultâneo num duplo plano muito raro em televisão. Um tempo em que não havia tempo em televisão. Aquilo só acabaria quando toda a gente, telespectadores incluídos, estava cansada. Porque, como disse Álvaro Cunhal, “as pessoas trabalham e amanhã é dia de trabalho”…

E recordei o alto nível do debate político, com análise e sem demagogia. Com sagacidade e sem lugares comuns. E mesmo sem a famosa cassete: Álvaro Cunhal não usava cassete. Criou-a mas para uso de terceiros!

E recordei como se abriram naquele dia as portas do 25 de Novembro. E como a guerra civil esteve tão perto!

E como a descolonização era Angola, Moçambique e Guiné. Nada mais, numa altura em que Timor já estava ocupado pela Indonésia…

Pois é, aquele debate também nos ajuda a entender melhor muito do que se passou depois. Se calhar até muito do que se passa ainda hoje…

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