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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Virtudes, atitudes, acção política …

Convidado: Luís Fialho de Almeida

 

Transcrevo com as devidas reservas:

“… Devo à Providência a graça de ser pobre: sem bens que valham, por muito pouco estou preso á roda fortuna, nem falta me fizeram nunca lugares rendosos, riquezas, ostentações. E para ganhar, na modéstia a que me habituei e em que posso viver, o pão de cada dia não tenho que enredar-me no trama dos negócios ou em comprometedoras solidariedades. Sou um homem independente.

“Nunca tive os olhos postos em clientelas políticas nem procurei formar partido que me apoiasse mas em paga do seu apoio me definisse a orientação e os limites da acção governativa. Nunca lisonjeei os homens ou as massas, diante de quem tantos se curvam no Mundo de hoje, em subserviências que são uma hipocrisia ou uma abjecção.

“Se lhes defendo tenazmente os interesses, se me ocupo das reivindicações dos humildes, é pelo mérito próprio e imposição da minha consciência de governante, não por ligações partidárias ou compromissos eleitorais que me estorvem. Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre …”

António de Oliveira Salazar, 7 de Janeiro 1949

Salazar, o mais votado no programa televisivo ”Os Grandes Portugueses” que decorreu na RTP1, entre 2006 e 2007, anda muito presente no pensamento de muitos, e inúmeras biografias têm sido publicadas. Sinais de 40 anos de uma democracia progressivamente debilitada pela incapacidade dos sucessivos governos e forte expressão de elites cujas virtudes, atitudes e acção politica não dignificam os princípios democráticos da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.

As ditaduras que prevaleciam no sec. XX, nomeadamente na Europa, com Stalin, Hitler, Mussolini, Franco e Salazar, justificavam o centralismo do poder em princípios orientadores que dessem o sentido às respectivas sociedades. Por cá a pedagogia centrava-se em “Deus, Pátria e Família”, valores administrados de forma distorcida e exacerbada na orientação dos governados, para esconder as políticas protecionistas de outros interesses, corrupções e outras vergonhas.

Ler Salazar de 1949, faz-me lembrar, em tempos bem mais próximos, entrevistas de Armando Vara, Dias Loureiro ou Duarte Lima - não citando outros por prudência -quando estavam no exercício de cargos da governação politica, cheios de virtudes, aparentemente formatadas por excelso bom senso e esmerada educação.

Com o processo democrático, à trilogia “Deus, Pátria e Família”, sobrepôs-se a “Liberdade”, mas esta foi servida de forma desregrada, sem manual de instruções, e o próprio conceito iluminista do sec. XVIII, de liberdade como ”a obediência às leis que cada um estabeleceu para si próprio” tem servido para todos os atropelos. Quanto à “Igualdade”, estamos longe de cumprir com os seus princípios subjacentes: “de igualdade perante a lei (isonomia)”, “de igualdade no acesso ao poder (isocracia)” e “igualdade no acesso à palavra ou liberdade de expressão (isegoria)”. E quanto à “Fraternidade”, tal como a “Moral”, fundadas no respeito pela dignidade e igualdade de direitos, nunca passaram de conceitos bafientos de sacristia, quando na prática as elites no poder e lobbies económicos tudo fazem para, em benefício de poucos, tirarem os recursos a muitos.

Salazar deixou o país com 866 toneladas de ouro, mas o povo era pobre, emigrado e triste. Não culpemos o actual regime democrático, mas sim a irresponsabilidade dos que não zelaram pela aplicação dos seus “princípios”, que deixa o país com reduzidos recursos, apenas 382 toneladas de ouro e uma dívida insustentável. Mas o país está melhor – diz Passos Coelho – só que o povo volta a ser pobre, emigrado, e agora também deprimido e envelhecido. E depois admiram-se que Salazar seja lembrado, ou que votem nele, como aconteceu no concurso televisivo de 2006 a 2007.

Na democracia temos direitos, mas também o dever de participar no sistema político para que este proteja os nossos direitos e liberdades. Em época de Natal faço aqui o meu exercício de “liberdade”. Questiono o meu posicionamento perante “Deus”, procurando um sentido, um caminho. Foge-me a “Pátria”, tão endividada e perdida nos trilhos da Europa e do mundo global. Dou enfase à “Família”, bastião de proximidade e segurança.

Há um ano denunciei aqui a intenção do “Espirito de Natal” de emigrar. Sinto-o distante, talvez mais desiludido, mais pragmático e mercantil. Valha-nos o Papa Francisco com o seu vigor ecuménico e a coragem de questionar e romper alguns dogmas do catolicismo, além do empenho em restaurar as virtudes necessárias à humanização das políticas e das sociedades. Refere no seu programa pastoral “a política tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum”.

Feliz Natal!

 

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