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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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NOTAS E VISTAS DO CAMPO (VII) - AFECTOS

Convidado: Luís Fialho de Almeida


Depois de alguns meses de ausência volto ao meu registo de observador do espaço rural.

Como uma criança que precisa de toda a atenção, as plantas, em cada ciclo vegetativo, precisam de particular atenção entre o despertar, no fim do Inverno, e a maturidade dos frutos, no Verão. Chegada a colheita é tempo de avaliação, pelo que será esta a nota dominante da minha vista do campo. Depois de várias décadas de aproximação ao sector agrícola, nos últimos dois anos, dediquei-me quase em exclusividade à actividade, procurando preservar e manter viável algo que tem origens em património familiar associado a histórias e afectos.

Os meus povoamentos frutícolas, diversificados na espécie e na idade, procuram sobreviver com a disponibilidade de recursos, acompanhamento técnico e laboratorial do estado nutritivo ao nível do solo, da água e das folhas. Ao longo de um ciclo cultural há dezenas de contactos com cada planta, para observação e intervenção preocupada, para que haja, igualmente, momentos de contemplação afectuosa e agradecida.

Mas, para além dos afectos, há o pragmatismo económico traduzido em rentabilidade, e é aqui que tudo se modifica. Alguns agrupamentos de produtores e empresas do sector só agora procederam ao pagamento das produções colhidas em 2011, junto dos seus associados e fornecedores, mas a preços próximos ou abaixo do real custo de produção. Entretanto, as grandes superfícies comerciais - detentoras do monopólio de 85 a 90% da distribuição agroalimentar - permitem-se ficar com a maior fatia dos lucros da cadeia de valor, lucros que sustentam ostensivas operações de marketing e engrossam a riqueza dos seus administradores. No princípio desta cadeia, estão os produtores que não tem mais ninguém atrás de si para quem remeter os custos desses devaneios publicitários e da generosidade farisaica, quando se oferecem às IPSS os produtos dos Mega Pic-Nic, nem dos prejuízos resultantes das baixas produções associadas a imponderáveis climatéricos adversos, ocorrências para as quais os seguros agrícolas são pouco abrangentes nos riscos e insuportáveis nos custos. Contrariamente à fileira agroalimentar, na fileira dos combustíveis a produção impõe os preços, os distribuidores asseguram as respectivas margens de lucro, como sempre e, finalmente, o consumidor tudo suporta.

À produção competitiva exige-se elevada produtividade, qualidade, segurança alimentar e preservação ambiental, respeitando os encargos laborais e sociais, mas nada a protege da concorrência dos produtos de outras origens, designadamente de países com sistemas de produção que são atentados à humanidade, conseguindo, por isso, custos de produção significativamente inferiores.

Assim, os meus pomares estão agora para adopção, nomeadamente as minhas pereiras sexagenárias – crescemos juntos – sobreviveram ao tempo da ditadura do estado, pacientemente foram modificadas no porte e fisionomia, nas técnicas de cultivo e os seus frutos viajaram para o mercado interno, para o Brasil e Inglaterra. Mas os desafios actuais obrigam a alterar a nossa relação, pelo que iniciei um processo de aceitação de candidatos à sua adopção, esperando encontrar alguém capaz de lhes assegurar a vida para além da voracidade dos mercados, da cegueira neoliberal, da dívida soberana e, particularmente, da ganância dos vampiros que chupam o sangue fresco da manada – (Zeca Afonso). Estes retiram para si o maior lucro da fileira agroalimentar, tornando-se os mais ricos do país, com a indiferença de políticos medíocres que permitem a convivência de plantas respeitáveis, condenadas a morrer dignamente de pé, com os “Relvas” – relvas infestantes, quais doutores por certidão administrativa, que parasitam a paciência e o trabalho do cidadão comum, resignado com a companhia da televisão de entretenimento e a cerveja.

Análise mais especializada do capitalismo, do liberalismo e da globalização de mercados, encontrará nestes modelos muitos defeitos, mas no passado, do feudalismo à actualidade, outros modelos não tiveram sucesso. A ineficácia dos modelos estará, eventualmente, mais no mau uso que os diversos actores fazem dos mesmos, e a sociedade nunca foi de anjos. A crise é, também, uma oportunidade para destapar fraudes e corrigir excessos, desde que sejamos vigilantes e intervenientes como é próprio da democracia, até por princípios cívicos e éticos.

Deste modo, fica aqui a minha denúncia e o testemunho que a agricultura de afectos fica remetida para as varandas, quintais e hortas urbanas. Para alguns, poderá ser ainda um ginásio e uma terapia, para outros, uma tentativa de sobrevivência insistindo em aproveitar terrenos ao dispor, constatando, por vezes, que a galinha de campo ou o porco lhes ficam ao preço do lavagante. 

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