Esta tarde/noite, em Amesterdão, alguma destas duas velhas figuras de proa da História do futebol europeu iria decidir que não era a pior desta Champions. Parece irónico, mas não é!
O Benfica entrou bem no jogo, decidido a mostrar ao mundo do futebol que a tabela classificativa é mentirosa, que não é, nem quer ser, a pior equipa da Champions. Tão bem que o golo de Dahl, logo aos cinco minutos, não surpreendeu ninguém. Aos cinco minutos, um golo surgir como natural, é sintomático!
Depois, no resto da primeira parte, ao Benfica faltou sempre qualquer coisa. Começou a faltar qualquer coisa para marcar o segundo golo. E passou a faltar qualquer coisa para deixar o Ajax KO. Ficou a sensação que foi meia hora em que faltou sempre qualquer coisa: a combinação certa, a decisão perfeita, o toque final. Não foi sempre a mesma coisa, foi sempre mais outra coisa. Faltou sempre qualquer coisa para que o Benfica materializasse a superioridade que se sentia e, assim, confirmar-se como muito melhor que o Ajax, e credor de lugares mais altos na tabela classificativa.
Depois dessa meia hora - desperdiçada essa meia hora para o Benfica se confirmar muito melhor que o Ajax - passou a faltar outra coisa. Essa já bem concreta e definida: passou a faltar ganhar os duelos, que antes ganhara com grande facilidade.
E foi por passar a ser o Ajax a ganhar os duelos, e a chegar primeiro à bola, que o Benfica deixou ser a equipa impositiva, que foi para, primeiro, permitir que o jogo partisse e, depois, passar a jogar na expectativa, recuada, à espera. À espera do adversário, e à espera do erro.
O intervalo não funciona aqui como marco. Parece até que não existiu. A segunda parte prosseguiu naturalmente, como se nem interrupção tivesse havido. Esta transição do jogo surgiu em sequência natural.
Mesmo recuado, e na expectativa, o Benfica foi melhor que o Ajax. Talvez não tão melhor quanto o golo de Barreiro, a cinco minutos do fim, faça o resultado sugerir. Mas, ainda assim, melhor para justificar passar-lhe a lanterna vermelha.
Para que o futebol do Benfica levante voo é preciso que lhe deixem de faltar as muitas "qualquer coisa". Enquanto continuarem a faltar, se é que alguma vez deixarão de faltar, que a equipa seja compacta, e que os jogadores sejam solidários e concentrados, como hoje foram.
Não são apenas estas - e a primeira vitória - as boas notícias que hoje chegaram de Amesterdão: o regresso de Manu, mesmo que por escassos 5 minutos, é outra.
"Heróis" - estava escrito na manga das camisolas pretas com que os jogadores do Benfica disputaram este jogo em Amesterdão, em que garantiram o apuramento para os quartos de final da Champions. Um equipamento todo preto, o secundário usado na época passada, que nunca me pareceu bonito se não hoje. Pena que o glorioso símbolo ao peito tenha perdido as cores, e ficado apenas a preto e branco.
E foi isso que foram os jogadores do Benfica - heróis. Como a pescada - antes de o ser já o eram! Foi tão feliz a ideia que até se perdoa que tenham deixado o símbolo a preto e branco.
Não foram pescados os jogadores do Benfica. Nem caçados, nunca se deixaram apanhar. Os heróis são assim, e o Benfica deixou de fora a equipa com o melhor desempenho na fase de apuramento, a máquina de fazer futebol e golos que antes tinha cilindrado todos os adversários que tinha encontrado. O Sporting que o conte, com os nove golos com que foi presenteado.
O Benfica ganhou o jogo, exactamente da mesma forma como tem perdido tantos. O Ajax dominou, com um domínio que chegou a ser asfixiante, na primeira parte. Mas foi o Benfica a ganhar o jogo, em que apenas conseguiu efectuar quatro remates, com um golo no único que atingiu a baliza do regressado Onana.
Ganhou o jogo, e a eliminatória que tinha conseguido deixar em aberto na Luz, com aquele empate a dois golos, defendendo. Sabendo defender durante todo o jogo, mas sabendo fazer mais alguma coisa na segunda parte. Porque, na primeira, só defendeu mesmo. Mais nada saiu bem.
Os jogadores do Ajax foram sempre mais rápidos, mais fortes e melhores - técnica e tacticamente. Os jogadores do Benfica não conseguiram ligar uma jogada, sempre que recebiam a bola já tinham um ou dois adversários em cima. Que chegavam sempre primeiro, que eram sempre mais fortes nos duelos, e por isso recuperavam imediatamente a bola, para depois fazer das faixas laterais um quebra cabeças para a equipa do Benfica.
Para esse desequilíbrio muito contou a pressão dos jogadores da equipa holandesa - a partir de hoje, depois de ouvir toda a gente do Ajax falar em Holland, não lhe chamo mais neerlandesa, nem Países Baixos -, mas também o inesperado desacerto de Rafa, a quem não deixaram tocar na bola, e o esperado desacerto de Taarabt, cuja inclusão na equipa, para este tipo de jogo, é muito difícil de compreender. Não é preciso conhecer muito de futebol para saber que Taarabt não sabe defender e, muito menos, segurar a bola e passá-la. No seu melhor, e com espaço, será capaz de a conduzir em progressão, mesmo que na maioria das vezes para nada.
Na primeira parte, Rafa e Taarabt simplesmente não existiram para o jogo. Só que de Rafa espera-se sempre alguma coisa, e muitas vezes muitas. Nelson Veríssimo terá pensado isso mesmo, e deixou-o ficar para a segunda parte, e até ao fim do jogo. Taarabt apenas lhe facilitou a dor de cabeça que tem sempre nas substituições. Trocou-o ao intervalo por Meité, e acertou.
Com o francês que veio do Turino a saber defender e segurar a bola, e com Rafa a acabar por aparecer - os jogadores do Ajax também já não conseguiram manter a pressão da primeira parte - a máquina de futebol montada na equipa holandesa começou a engasgar, e a avalanche sobre a área do Benfica passou a ser intermitente. É certo que o Ajax continuou por cima do jogo, com mais bola, mais ataques e mais remates. Mas nunca chegou ao domínio avassalador da primeira parte, e em especial do último quarto de hora.
O Benfica que defendia bem, mas perdia imediata e sucessivamente a bola, continuou a defender bem, mas já não perdia bola logo. Já a segurava e a trocava. Não dava para muito, mas sempre dava para conquistar umas faltas, uns livres e uns cantos. Dos três cantos conquistados na primeira parte - de resto consecutivos - já se tinha percebido que poderia ser por ali.
E foi. Uma falta bem conquistada pelo Gonçalo Ramos deu num livre lateral. Batido pelo Grimaldo - sempre nas bolas paradas - a preceito, e concluído de cabeça pelo Darwin, ganhando de cabeça ao defesa Timber e antecipando-se a Onana. Que não fez uma única defesa. O relógio marcava o minuto 77, e só não estava encontrado o herói do jogo porque todos eram, e foram, heróis.
Sentiu-se - sentiram-no os jogadores e sentimo-lo todos - que o jogo estava ganho, e que o lugar entre os oito melhores da Champions já não fugiria. Já só era preciso sofrer mais um bocadinho, e os heróis sabem fazê-lo. O resto era trazer para o jogo as lições que aprendem em todos os jogos do nosso campeonato, para ajudar a passar o tempo.
Que foi passando, sem grandes sobressaltos. Mesmo com 6 minutos de compensação, que passaram a 7, e acabaram em oito. Valeram bem, esses dois minutos acrescentados: no primeiro, Yaremchuk, que havia substituído Everton ainda antes do golo, isolou-se e bem poderia ter marcado o segundo. Teria bastado que, primeiro, tivesse sido mais expedito no remate e, depois, não o tendo sido, que tivesse conseguido dar a bola a Rafa, ali ao lado. O segundo deu a oportunidade a Vlachodimos para verdadeiramente brilhar no jogo, com uma grande defesa. Que não contou para as estatísticas por o lance ter sido anulado por fora de jogo. Cobrou o livre, e o árbitro apitou.
Para a festa. Dos heróis de Amesterdão e de todos nós. Em especial dos de nós que lá estavam, e tomaram conta do fantástico Johan Cruijff Arena, engalanado para receber este jogo memorável.
Um grande jogo de futebol num grande ambiente, como há muito se não vivia na Catedral. E no entanto nada disto seria expectável, à luz do que tem sido o desempenho da equipa do Benfica. Sabia-se que o Ajax tem selo de garantia, e que viria à Luz exibir a qualidade do seu futebol. Isso era praticamente dado por adquirido.
Mas isso não era garantia de um grande noite. Era, pelo contrário, mais um motivo para recear uma noite de pesadelo. Para que fosse uma grande noite era preciso Benfica. Só com um grande Benfica poderia haver uma grande noite na Luz. E esse não estava anunciado. Não era na teoria dos 50/50 de Nelson Veríssimo que se via esse anúncio. Ninguém acreditava naquilo, era coisa para levar tão a sério como a outra de continuar com o objectivo de ser campeão nacional.
Mas a verdade é que houve Benfica. O Benfica compareceu, disse presente e, juntou o querer e a qualidade dos seus jogadores à qualidade dos jogadores e do futebol do Ajax, para que a Luz voltasse a viver uma grande noite. De que só ficam dois amargos - o resultado, o empate fica aquém do que a equipa fez por merecer, e fica a dever-se à menor eficácia na finalização, e ainda á influência da arbitragem, ao negar o penálti claro sobre o Gonçalo Ramos; e confirmação que o Benfica está na situação em que está porque os jogadores não têm querido fazer mais.
Hoje quiseram, e aceitaram o desafio de se bater de igual para igual com a melhor equipa da Europa, a seguir aos três grandes de Inglaterra e ao Bayern. E quiseram durante o jogo inteiro, e não só a espaços, como tem vindo a acontecer.
O jogo até nem começou da melhor maneira para o Benfica. O Ajax começou a pressionar muito alto, condicionando muito a saída de bola, que Nelson Veríssimo decidiu desta vez fazer através dos laterais, em vez do eixo central através de Weigl. Com essa pressão ganhava muitas bolas que, depois, a qualidade dos seus jogadores e as dinâmicas mais que consolidadas da equipa, cedo começou a criar problemas. Foi assim que chegou ao golo, logo aos 18 minutos: saída de bola pela esquerda, com Grimaldo a dominar mal a bola, que já não vinha fácil de receber pela pressão sobre o guarda-redes, e a perdê-la. Depois foi o craque Antony a colocar a bola na esquerda, onde não estava Gilberto, que ia a sair, mas Tadic, sozinho, para marcar.
Poderia pensar-se que a equipa afundaria, como sempre tem acontecido à primeira contrariedade. Mas não. A Luz não deixou, e os jogadores quiseram responder ao apoio que o golo simplesmente intensificou. E responderam, e à segunda oportunidade chegaram ao empate, num auto-golo de Haller, o melhor goleador desta edição da Champions, mas perfeitamente justificado pela reacção ao golo sofrido, apenas 7 minutos antes.
Mas era notória a diferença da qualidade do futebol praticado pela equipa de Amesterdão. O futebol do Ajax fluía naturalmente, altamente mecanizado e com dinâmicas de posicionamento verdadeiramente espectaculares, que não se esgotam nos movimentos daquele notável trio atacante. Os laterais aparecem em todo o lado, até a finalizar. Como surgem os próprios centrais a finalizar lances de construção. E o empate não chegou a durar 5 minutos, com Haller a marcar, agora na baliza certa, e a fazer o que tem feito em todos os jogos. Numa recarga, a uma defesa para a frente de Vlachodimos.
Faltava mais de um quarto de hora para o intervalo, e pensar-se-ia que o descalabro teria apenas sido adiado. Mais uma vez as bancadas disseram para dentro do campo que não. Que havia que resistir. E foi praticamente isso que a equipa fez, com a alma e crença que não tem tido, até ao intervalo.
Para a segunda parte estaria guardado o melhor bocado da grande noite da Luz, com o Benfica a mandar no jogo, e a impor uma superioridade no jogo que não se julgaria possível perante um adversário tão qualificado. Foi mesmo uma grande exibição do Benfica, a superiorizar-se em todos os capítulos do jogo, com todos os jogadores em grande ritmo e num elevado nível exibicional, mas em especial Grimaldo, Darwin, Taarabt, Gonçalo Ramos e Rafa. E até Yaremchuk, que entretanto entrara a substituir Everton - outra bela exibição -, que marcaria o golo do empate, numa recarga a um grande remate de Gonçalo Ramos, depois de espectacular defesa do guarda-redes adversário. Que não se quis dissociar deste momento difícil para o seu povo, tirando a camisola para mostrar o símbolo das forças armadas do seu país, numa manifestação que a UEFA não deixará de penalizar. Bem mais que o inevitável amarelo que viu de imediato. Gonçalo Ramos - em mais um exemplo da maturidade que ainda teve tempo de deixar em campo - tentou impedi-lo de tirar a camisola, mas a determinação do ucraniano era inabalável.
E o Benfica só não juntou a vitória à exibição porque desperdiçou três ou quatro flagrantes ocasiões de golo. E porque, como já referido, o árbitro esloveno - sempre muito mais permissivo, quer em faltas quer no plano disciplinar, para os jogadores do Ajax do que para os do Benfica - fez vista grossa ao tal penálti sobre Gonçalo Ramos.
Veremos o que fica desta exibição, e desta grande noite da Luz. Se vai dar razão aos 50/50 de Nelson Veríssimo, em que ninguém acreditava. Se vai servir para finalmente acabar com a intermitência da equipa, e estabilizá-la para o que falta de uma época em que, já nada tendo para ganhar, poderá ainda lutar pelo segundo lugar no campeonato que garante o apuramento para a Champions. Ou se não vai servir para nada!
Nem para ajudar o Rui Costa na escolha das companhias. Depois de há dois dias ter sido visto a cumprimentar afavelmente Pinto da Costa, hoje também não ficou bem visto entre Fernando Gomes e Pedro Proença. Como as coisas estão, e com a centralização dos direitos televisivos a avançar a alta velocidade, aconselhar-se-ia algum cuidado com as companhias.
Como era previsível o Benfica está, mais uma vez, afastado dos oitavos de final da Champions. Não é uma questão matemática ... É simplesmente uma questão de tempo. Na próxima ronda tudo ficará arrumado!
É o primeiro adeus no Benfica. Espera-se agora pelo segundo...
Com o povo benfiquista ainda sem voltar costas - mais de cinquenta mil de novo na Luz - o Benfica não foi além do empate, num jogo que tinha obrigatoriamente que ganhar. Não foi um grande jogo, mas foi sempre um jogo de grande intensidade.
Começou em ritmo estonteante, com o Ajax a pressionar no campo todo, e o Benfica a tentar responder na mesma moeda. Foi assim durante toda a primeira metade da primeira parte. Depois o ritmo baixou. Quer dizer, o Ajax baixou o ritmo.
O Benfica chegou ao golo, a beira dos 30 minutos, num erro - ou dois - do guarda-redes dos holandeses, quando era a equipa que mais tinha feito por isso. Mesmo que o jogo estivesse equilibrado, e assim continuasse até ao intervalo. Mas com três grandes sustos: as lesões de Jonas (numa carga do central holandês para vermelho, que nem amarelo mereceu) e de Salvio (sozinho) e, mesmo nos últimos segundos, um golo feito do Ajax. Pela primeira vez nos últimos jogos, o Benfica teve um momento de sorte.
Na segunda parte o jogo foi diferente, e o Benfica esteve bem pior. E rapidamente o Ajax chegou ao empate que se vinha advinhando, numa bela jogada de futebol concluída com alguma sorte, mas também com alguma imperícia do Rúben Dias e do Odysseas.
No fim, nos dois últimos remates do jogo, faltou sorte ao Benfica. Faltou precisamente ao Benfica a sorte que o Ajax teve há duas semanas, quando marcou no último remate através de um ressalto em Grimaldo. Desta vez, no último remate do jogo, o Gabriel rematou a dois metros da baliza aberta e o guarda-redes conseguiu esticar o pé e evitar o golo.
O Benfica poderia ter ganho o jogo, como também poderia ter ganho o de Amsterdão. Teve ocasiões para isso, e não teve pontinha de sorte. É certo. Mas não é menos certo que, no que toca a jogar a bola, a distância entre este Benfica e este Ajax é maior que a que separa Lisboa de Amsterdão.
A verdade é que a segunda parte mostrou a enorme a diferença entre o futebol colectivo do Ajax e o futebol desgarrado do Benfica, feito das arrancadas do Grimaldo, do Cervi e do Rafa. E das faltas de Sferovic. E quando assim é nem sobra muito jeito para falar de sorte, de azar e de arbitragens!
Diz-se que no futebol não há sorte nem azar, há competência ou falta dela. Hoje, em Amsterdão, no último lance do jogo, o Benfica pode ter acrescentado qualquer coisa a essa ideia feita.
Hoje ao Benfica faltou sorte quando lhe faltou competência, e nem se pode dizer que a sorte que lhe faltou foi a que acompanha os audazes. Creio que o Benfica foi suficentemente audaz para mercer a sorte que os protege. Não foi por aí, por falta de audácia, porque a Rui Vitória não falta só audácia. Nem sorte.
Faltou evidentemente competência ao Conti quando falhou desastradamente aquele corte mesmo no fim do jogo. A competência que teve quando, antes, tirou aquela bola de dentro da baliza. Com a sorte de lhe ter pegado escassos milímetros antes dela passar na totalidade a linha de golo. A sorte que lhe faltou quando, pelos mesmos escassos milímetros, não acertou naquela bola, tão fácil de cortar.
Já a competência do Ajax mereceu três doses de sorte: a sorte do azar do Conti, mais a sorte do azar do André Almeida, que depois ainda interceptou a bola, mas direitinha para um adversário e, por último, a sorte do azar do Grimaldo, que se opôs ao remate, mas só para desviar a bola para o caminho da baliza.
Pois é. Isso da sorte e do azar... tem muito que se lhe diga. Aos oitavos da Champions é que o Benfica já ficou com pouco para dizer!
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