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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Oito minutos de pose*

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Dificilmente se poderia admitir uma primeira semana do ano mais agitada. Trump achou que, com um impeachment em curso e a dez meses das eleições, o melhor que tinha a fazer era incendiar o Médio Oriente e deixá-lo arder como arde a Austrália.

Sem consultar as instituições, sem estratégia e sem justificação, mandou assassinar altas figuras da estrutura militar do Irão, entre as quais o General Soleimani, mais que uma proeminência do regime, o número dois da teocracia no poder. Acto contínuo disse ao mundo que, para fazer a guerra, não precisava de consultar ninguém. Que lhe bastava informar pelo seu twitter, e que já tinha definidos 52 alvos iranianos, entre os quais lugares históricos e património da humanidade, para atacar em caso de retaliação iraniana. Que, timidamente é certo, aconteceu logo de seguida, com o ataque às bases americanas em Bagdad. Obra das milícias iraquianas, que não exactamente do Irão, mas daria no mesmo…

É então que, pela primeira vez, num mandato que vai já no último ano, com uma assertividade sem paralelo, e em apenas oito minutos, a América apresenta ao mundo o seu famoso sistema de checks & balances.

Oito minutos foi quanto durou esta demonstração. Foi o tempo que Trump demorou a ler o discurso que lhe mandaram ler. Oito minutos de Trump em pose de Estado, mesmo que em cuecas!

 

* Da minha crónica de hoje na Cister FM

 

Checks and balances

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A eleição de Trump para o topo do poder na maior potência mundial foi vista com preocupação em grande parte do planeta, mas nunca como uma irremediável catástrofe. É que a opinião pública mundial acreditava na rede de checks & balances do sistema político americano, uma democracia institucionalmente bem dotada, ao contrário, por exemplo, do que aconteceria depois no Brasil, com a eleição de Bolsonaro.

À entrada do último ano do mandato, e mesmo com um processo de empeachement em curso, haveria certamente quem pudesse duvidar desta fé no funcionamento das instituições americanas, e quem achasse que Trump fez, e fará, tudo o que lhe apeteceu, e lhe apetecer, e ainda lhe sobrou, e sobrará, tempo. 

Oito minutos bastaram para convencer os últimos resistentes. Foi quanto durou o discurso de Trump de ontem. Um discurso - ninguém terá dúvidas - que não escreveu. Um discurso que lhe mandaram ler, e que leu a preceito e com inatacável pose de Estado. Oito minutos em que saíram da boca de Trump palavras que ninguém acreditaria vir a ouvir, numa postura de todo incomportável com a figura.

Depois dos ataques de anteontem à noite, à hora a que fora assassinado o general Soleimani, às bases americanas no Iraque, esperava-se que tivesse sido dado o mote para a retaliação que Trump desejaria, e para a uma escalada de violência no Médio Oriente de limites incontroláveis. Inesperadamente, em vez de um Trump furioso a confirmar os 52 alvos iranianos a atingir, incluindo as relíquias históricas e de património da humanidade, que anunciara na véspera, surge um presidente americano a dizer que os Estados Unidos "estão disponíveis para abraçar a paz com aqueles que a procuram", a desejar um "óptimo futuro" para o Irão, e até a falar num regresso ao acordo nuclear que unilateralmente rasgou.

Poderão dizer que nada disto passa da mais profunda hipocrisia. Mas não é isso que está em causa, e a hipocrisia é parte integrante da política. Em causa está apenas que a intensa pressão interna e internacional obrigaram Trump, num Momento Histórico decisivo, a fazer tudo ao contrário do que naturalmente, por si só, faria.

Desta vez os checks & balances levaram o presidente americano a evitar a guerra que Donald Trump irresponsavelmente precipitara. Não é coisa pouca!

 

 

Irresponsabilidade premiada

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Como facilmente se previa Trump incendiou o Médio Oriente e colocou o mundo ocidental sob novas ameaças com enorme potencial devastador, tanto mais graves quanto mais evidente se torna a irresponsabilidade que sustenta a escalada de ameaças do presidente americano.

Trump nunca teve a noção da responsabilidade de presidir à maior potência mundial. Sempre achou que a Casa Branca seria um brinquedo com que gostaria de brincar. Por isso a sua relação com a mentira nunca foi nada que verdadeiramente o incomodasse, e revelou-se um mentiroso compulsivo. Por isso a sua relação com as instituições foi sempre secundarizada e o seu sentido do dever uma simples miragem. Por isso Trump acha que não precisa da aprovação do Congresso para desencadear operações de guerra, bastando-lhe anunciá-las no seu Twitter.

E é este homem que a América vai voltar a eleger lá mais para o final do ano. Ou, mais dramático ainda, é assim, é por fazer tudo isto assim, que Trump conta que a América o reconduza para novo mandato na Casa Branca!

 

A mesma América

Polícias a cavalo transportam negro com uma corda

 

Mais uma imagem que nos envergonha. Vem de Galvestone, no Texas. Por acaso - ou talvez não - no mesmo Estado em que, dois dias antes, em nome da supremacia branca, um rapaz de 21 anos desatou aos tiros num supermercado, matando mais de 20 pessoas e ferindo outras trinta.

Donald Neely - assim se chama o homem negro - atado por uma corda a dois polícias montados em cavalos, é conduzido sob prisão à esquadra da polícia local...

Mais uma vez, isto pode nem ser Trump, já vimos imagens destas noutras presidências. Mas com Trump é mais fácil...

Sempre se minimizou a perigosidade de Trump justamente por ser na América. Das instituições. Da maior e mais avançada democracia. Dos "checks & balances". Mas, depois... temos imagens destas ... E o que temos para dizer é: "só nos Estados Unidos". Ou: "tinha de ser nos Estados Unidos". Na mesma América!

 

Na América ...

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Desta vez o insólito vem do Alabama, um dos Estados do Sul dos Estados Unidos da América, onde o direito à posse e uso de armas está acima de qualquer direito da mulher, especialmente de for negra.  

Os factos ocorreram já em Dezembro passado, mas a notícia é fresquinha, e vem da acusação, agora conhecida, de uma mulher grávida pelo homicídio do seu filho. Pela prática de aborto, pensará certamente o leitor... Num Estado em que o aborto é o mais grave dos crimes, será normal...

Nada disso. O feto que esta mulher de 27 anos trazia na barriga perdeu a vida porque, no meio de uma discussão (sobre o pai da criança) com outra mulher, de 23, à porta de um bazar, a grávida foi atingida com um tiro que, em vez de a matar - e por consequência igualmente o feto -, deixando-a ferida, matou apenas o futuro bebé. A acusação tem por base a convicção absoluta, a crença inatacável, que a mulher tem por função procriar e por obrigação parir filhos fortes e saudáveis, constituindo acto criminoso tudo o que o impeça.

Tendo sido ela a iniciar a discussão, ou no mínimo não a tendo evitado, cometeu um crime, claramente culpada de ter levado um tiro que provocou a morte do feto. Nesta mesma lógica do caldo de cultura da América profunda, a mulher que disparou apenas o fez em legítima defesa. No uso do legítimo e superior direito a usar armas!

O New York Times tomou a iniciativa de efectuar um inquérito à população sobre esta sentença. Os resultados foram esmagadores: a vítima é mesmo  culpada!

É assim... na América...

 

 

 

O grito da América

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A imprensa norte-americana junta-se hoje em uníssono contra os ataques de Trump e a sua miserável campanha de propaganda, que não tem outro fim que não seja eliminar quem a escrutine e denuncie.

Ao fazer dos jornalistas o inimigo, Trump quer esvaziar a capacidade de escrutínio, eliminar a crítica e deixar o populismo à solta, a salvo da denúnica. Quer fazer das redes sociais palcos de gigantescos comícios à escala global, enquanto convence as pessoas que são os mais limpos veículos de informação, numa comunicação sem filtros nem intermediação. 

Os editoriais de hoje de mais de 350 jornais por todos os Estados Unidos são o grito da América que grita. Um gigantesco grito de protesto contra o populismo e a autrocracia, mas também a afirmação de um compromisso de defesa do jornalismo e da liberdade de imprensa, e um alerta para a importância da independência dos jornais. Que no chamado mundo livre nunca esteve tanto em causa como hoje.

A democracia precisa de uma imprensa forte, livre e independente. Hoje, como diz o título do editorial do New York Times, "A free press needs you"...

 

 

Agora as coisas são mais assim...

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Que o leite materno e a amamentação é o melhor para a criança, para o seu desenvolvimento físico e emocional, em particular no domínio imunitário e no afectivo, não é novidade para ninguém. Novidade é que a Assembleia Mundial da Saúde, o órgão de decisão da Organização Mundial de Saúde (OMS), não tenha conseguido aprovar uma resolução a confirmar isso mesmo. A sustentar aquilo que a ciência provou e que já toda a gente sabe!

É verdade. O mercado dos substitutos do leite materno vale qualquer coisa como 70 mil milhões de dólares, e os Estados Unidos não permitiram que tal coisa pudesse ser aprovada. Interromperam a votação e passaram a ameaçar, e a obrigar a mudar de posição, tantos países quanto os necessários para impedir a aprovação da resolução. E até a própria OMS, o que também já não é novidade...

As coisas nunca foram muito diferentes disto. Sempre foram mais ou menos assim. Só que agora, com Trump, são mais assim! 

 

 

 

Histórias fantásticas*

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A América sempre foi dada por terra de oportunidades, pelo símbolo maior do empreendedorismo, pelo paradigma da mobilidade social, pelo chamamento à aventura e pelos desafios à superação das capacidades individuais.

A sua própria história é feita disso. De gente que lá chegou que nada tinha a perder, só uma vida nova para ganhar. O sonho americano, o maior mito da América, é isto!

Encontram-se por todo o mundo histórias fantásticas de sucesso individual, de gente que do nada se fez tudo. Mas em nenhuma outra parte do mundo se encontram tantas como na América. Umas mais conhecidas que outras. E nem todas épicas… “Épicas”, não disse “éticas”. Mas poderia ter dito!

Trago hoje aqui, porque faz parte da actualidade, uma dessas histórias. E das menos épicas.

É a história de Martin Shkreli, que vem de uma família de imigrantes albaneses e croatas, que ganharam a vida a trabalhar nas limpezas. No nada, do nada! 

Aos 22 anos, há apenas doze, criou um fundo de investimento e começou a enriquecer em Wall Street. Pouco tempo depois já constava da famosa lista dos sub 30 da Forbes. Mais famoso ficaria quando, em 2015, já dono de uma grande empresa na poderosa indústria farmacêutica, passou a ser conhecido pelo “homem mais odiado do mundo”, ao adquirir a patente de um medicamento para combater doenças como a Sida, o cancro ou a malária, para multiplicar o seu preço em mais de 5.500%. O resto desta história é uma sucessão episódios de fraudes e crimes financeiros e das mais insólitas extravagâncias, que culminou numa acusação de perto de uma dezena de crimes, que lhe davam direito à pena de 20 anos de prisão.

Na passada sexta-feira - faz hoje uma semana – o tribunal de Brooklyn, em Nova Iorque, deu-o por culpado em 3 dos crimes de que estava acusado e condenou-o a 7 anos de prisão.

Martin Shkreli, como já devem ter reparado, tem 34 anos...

 

* A minha crónica de hoje na Cister FM

"Presente"!

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Parece que os professores norte-americanos começaram a dizer "presente" à chamada de Trump. Um professor de Estudos Sociais - não é de Matemática, nem de Química - pegou na pistola numa sala de aulas de uma escola secundária do Estado da Geórgia e disparou. Provavelmente para confirmar que a dita funcionava, porque o seu presidente quer os professores armados mas com armas que funcionem. 

Só não se percebe é por que raio, no fim, foram prender o homem. Trump não apreciou, mas não se sabe se já avisou a polícia que isso não se faz...

Sem limites*

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Na semana passada, na Florida, perto da cosmopolita Miami, um rapaz de 19 anos entrou pela escola donde tinha sido expulso e, de semiautomática em punho, espalhou o terror e matou 17 pessoas.

Era o 18º tiroteio do ano, numa escola. Em menos de mês e meio. Nos últimos cinco anos, em escolas, foram 300, com mais de um milhar de mortos. À média de 60 por ano, 5 por mês, ou 1 por semana!

A América – os Estados Unidos, porque o Canadá, logo encostado já é outro mundo – tem a tradição do uso e porte de armas. Vem da sua curta História, como sabemos, é parte da sua fundação. Como tem outras tradições nada recomendáveis, cultivadas no que se chama a América profunda. Mas tem, acima de tudo, uma fortíssima indústria de armas, que nasceu daí, e que constitui o mais poderoso dos poderosos lóbis americanos. Que faz com que qualquer rapaz – ou rapariga, aí não há diferença de género – que não pode comprar um bilhete de lotaria, ou uma raspadinha, uma cerveja, um maço de cigarros, ou uma revista pornográfica possa comprar, na hora e sem demais, uma arma capaz de vomitar dezenas ou centenas de balas por minuto, com capacidade para matar centenas de pessoas em escassos segundos. Que faz de qualquer miúdo minimamente desequilibrado um terrorista!

O assunto – a completa desregulação da venda de armas – está permanentemente na agenda política. Mas nunca sai daí. Democratas e republicanos deixam sempre tudo na mesma. O Congresso, que acima e antes de tudo representa lóbis, não permite que se lhe toque.

Depois, há presidentes, como Obama, que mesmo sem conseguirem alterar nada, apontam o dedo. Denunciam. E há Trump. Para quem nada disso está em causa e, pelo contrário, tudo se resolve vendendo mais armas.

Foi o que o disse ao receber sobreviventes e familiares das vítimas do tiroteio da semana passada, apontando que a solução passa por armar os professores. Que “um professor armado teria disparado sobre o atirador e acabado com aquilo tudo muito depressa”. Que “para um maníaco, uma zona livre de armas é um convite ao ataque, porque sabem que ninguém vai disparar de volta”.

É isso. Quando pensamos que Trump já não nos consegue surpreender, ei-lo sempre pronto a ir mais além. Para ele, a imbecilidade não tem limites, e o mundo pode sempre recuar in saecula saeclorum...  

 

* A minha crónica de hoje na Cister FM

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