Primeiro o povo correu aos supermercados e às bombas de gasolina. Depois passou a tarde nas filas e, por fim, bateu palmas à janela, ou nas ruas, à medida que a luz vinha regressando.
O povo não percebe nada de política energética, nem sabe que são os chineses que mandam na rede eléctrica. Mas ouviu Montenegro dizer que o problema nasceu em Espanha, e que foi com ele ao comando, a estabelecer prioridades, a garantir que a Saúde funcionava e que os hospitais tinham geradores e gasóleo, que o país resistiu incólume ao apagão.
Com as dispensas cheias de conservas e papel higiénico, o povo ouviu e gostou. E vai amanhã ouvir, e gostar de ouvir, Toni Carreira nos jardins de S. Bento, a festejar o 25 de Abril de Montenegro, empurrado pelo luto para a um salto no calendário.
O povo não sabe, nem quer saber, que a Protecção Civil andou à nora, que o governo ficou atarantado, que o Presidente da República esteve desaparecido, que o SIRESP voltou a não funcionar, que as estruturas estratégicas para a segurança e para a soberania estão à mercê do acaso, ou que o país não tem sequer um plano para uma coisa que corra mal em Espanha. E Montenegro sabe disso...
Se há coisa que Montenegro conhece bem, é o povo. E por isso lhe é tão fácil "montenegrisar" o país!
Continuamos, e iremos continuar, sem saber o que, no apagão de ontem, se passou em França e Espanha. Ao contrário, do que se passou em Portugal, sabemos tudo.
Sabemos que estavam desligadas centrais de produção porque é mais lucrativo importar de Espanha. Porque, e isso não sabíamos - valha-nos o Mira Amaral, que sabe da coisa, e não ganha nada do Estado Chinês -, a energia lá comprada custa menos que os custos variáveis da sua produção, cá.
E sabemos, se bem que já soubéssemos de outros carnavais, que somos uns imbecis que, à mínima oportunidade, corremos para os supermercados a limpar as prateleiras, a esgotar a água, as conservas e, claro - não podia faltar - o papel higiénico. Fazemos filas de quilómetros para os postos de abastecimento, para esgotar de pronto toda a gasolina e o gasóleo que por lá haja. Sempre a tentar passar a perna uns aos outros, até desatarmos todos à lambada.
Uma coisa tenho por certa: é muito mais preocupante o que já sabemos do que aquilo que não sabemos. E dentro do que sabemos, é ainda mais preocupante o que já sabemos de nós, do nosso miserável comportamento, do que o ficamos a saber da electricidade que faz o nosso modo de vida.
É mais preocupante a selva em que transformamos Portugal, que a dependência a que as nossas elites condenaram o país.
Não me recordo de um "apagão" destes. Pode até ter havido, mesmo que não me lembre, um ou outro com duração idêntica - no meu caso, ou melhor, na minha casa, foram 9 horas, contadas a partir das 11:33, início do apagão - mas nenhum com esta dimensão. Internacional, e de crise, com o caos a tomar conta das principais cidades do país.
Nem nenhum com as dúvidas e incertezas deste. Sem se saber como, nem porquê.
Pode ser que venhamos a saber o que aconteceu. Para já apenas sabemos que se especulou muito e mentiu ainda mais. Já sabíamos que a distribuição de energia é uma questão de soberania. De que o país abdicou quando a entregou ao Estado Chinês. Agora ficamos a saber - com alguma surpresa - que os sistemas de distribuição de electricidade funcionam em dominó. E que, tal e qual como a de entregar toda a infra-estrutura a terceiros, essa é capaz de também não ser uma grande ideia!
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