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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Ler os outros: "Poderia ter sido um bom tema para a campanha eleitoral das europeias 2019"

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Estava para escrever sobre isto, sobre a brusca percepção que os consumidores - os utilizadores de equipamentos Huawei - já tiveram da vulnerabilidade deste nosso novo modo de vida. Sobre a forma como quem manda nas novas tecnologias manda no mundo. E do perigoso que é gente perigosa a mandar em quem manda nas tecnologias. 

Estava para escrever sobre isto, como comecei por dizer. Depois vi que estava tudo aqui, e que não tinha nada a acrescentar. Vale a pena ler o que sobre isto escreve hoje o J. Manuel Cordeiro, no Aventar.

Ler os outros: "Não tens nada que agradecer, Sporting"

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A ler o João Mendes, no Aventar:

"Nunca falta dinheiro para salvar bancos. Nunca. Pode faltar na Saúde, na Educação, na Acção Social ou na Cultura, mas para salvar bancos, o que muitas vezes significa assumir calotes de devedores multimilionários que, pela posição que ocupam, poucos ousam incomodar, nunca falta um cêntimo.

De igual forma, nunca falta nos bancos dinheiro para salvar clubes de futebol. Pode faltar para as famílias, pode faltar para as empresas de outros sectores de actividade, mas para salvar clubes de futebol, o que muitas vezes significa assumir os custos de operações que, por mero acaso do destino, encheram os bolsos de meia-dúzia de agentes e dirigentes desportivos, também não falta um cêntimo que seja.

Desta vez foi o Sporting. Podia ter sido o Porto ou o Benfica, pois também eles receberam as suas borlas no passado. Uns mais que outros, é verdade, mas nenhum com grande motivo para reclamar. Mas desta vez foi o Sporting. O BCP e o Novo Banco, falido e mantido a respirar com o dinheiro dos contribuintes portugueses, perdoaram quase 95 milhões de euros de dívida que o Sporting tinha para com estas duas instituições bancárias. Reestruturaram-lhe a dívida, prática considerada profana num passado não muito distante.

Os dois bancos, tal como o Banco de Portugal, recusaram responder às perguntas dos jornalistas da SIC. Compreende-se: não é fácil de explicar. Principalmente quando um dos mecenas é um banco intervencionado pelo Estado, supostamente a parte boa que sobrou de um atentado terrorista contra os portugueses e contra as finanças públicas do país, onde só este ano iremos enterrar qualquer coisa como 800 milhões de euros. Num país onde existem crianças a fazer quimioterapia nos corredores do Joãozinho. Não tens nada que agradecer, Sporting".

A olhar para o fim-de-semana, com a devida vénia...

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Para além do anunciado frio em todo o país, mais cortante pelo vento no Estoril ou mais amenizado pelo calor, em Lisboa, este foi um fim-de-semana de rankings, matéria muito apreciada cá pela paróquia. Não se discutiu outra coisa, nem nenhum jornal lhe passou ao lado. Por isso não resisti a trazer aqui "O romance do ranking", que o José Gabriel publicou no Aventar.

Com a devida vénia:

" “Estou muito satisfeito com as vossas notas, todos têm positiva na classificação final do ano”, dizia, aos seus alunos, o professor de Filosofia. Estes sorriam, satisfeitos.

“Então vamos todos a exame e fazer um figurão”, garantiam, felizes.
“Ah, isso é que não pode ser; o Colégio só leva a exame o Bernardo. Ele tem, de longe, a melhor nota de todos vós.”
” E- e então e nós, o que fazemos? Não é justo!”, espantavam-se os 24 alunos restantes, indignados com a situação que se desenhava.
“Vocês anulam a matrícula e vão ali à Escola Pública inscrever- se como autopropostos.”
Apesar da revolta dos alunos e, depois, dos seus pais, foi isso que aconteceu.
E foi assim que o Colégio de Sta. Miquelina obteve, mais uma vez, um dos primeiros lugares do ranking promovido pelo ME e patrocinado pela imprensa “de referência”. Há quem ache o método cruel – “canalha”, chamava-lhe um pai – mas a verdade é que o colégio não estava só. Todos os primeiros 15 classificados daquela disciplina tinham levado a exame apenas um aluno…

(Qualquer semelhança com factos reais não é pura coincidência…)"

 

Coisas da vida. E dos blogues...

Por Eduardo Louro

 

É este um dos sortilégios da blogosfera. Dia após dias vamos conhecendo cada vez melhor pessoas que nunca vimos e que provavelmente nunca iremos ver. Conhecemos o seu bom ou o seu mau feitio, a sua toierância ou a falta dela. Admiramos a sua inteligência, o seu sentido crítico, a sua frontatidade, a sua argúcia. É sempre mais fácil quando são mais as vezes que concordamos do que as que discordamos, mas esse é problema nosso.

Às vezes, raramente, vamo-nos apercebendo que alguma coisa vai mal. Que a saúde está a fugir ou a pregar alguma partida. Na maioria das vezes nada disso nos chega. Às vezes, de repente, percebemos apenas que partiram. Noutras, as ausências começam a ser cada vez mais notadas, até que chega a notícia. Sempre surpreendente.

Neste fim de semana foi a vez do João José Cardoso, mais que uma referência do Aventar, uma referência da blogosfera. Vou ter de me habituar que há coisas que o scroll down já não resolve!

PORQUE ISTO, AFINAL, ANDA TUDO LIGADO

Por Eduardo Louro

 

Porque isto anda tudo ligado, quando os pobres e a miséria não páram de aumentar e a caridadezinha volta a ser moda, não resisti a trazer aqui este texto do Luís Manuel Cunha publicado no Jornal de Barcelos e no Aventar:

 

"Em Santa Comba Dão pretendia-se lançar uma marca de vinhos chamada Memórias de Salazar. O nome não foi autorizado sem que se perceba muito bem porquê. O facto é que, a marca do tintol nunca veio tão a propósito, arrastando consigo uma infinidade de recordações e de reminiscências de tempos que se julgavam para sempre desaparecidos.
Lembro-me ainda muito bem. No mundo da minha infância e por esta altura em que “a estrela de Belém corre pelos céus à procura da manjedoura e das palhinhas”, “não havia conto de Natal, não havia lenda infantil, não havia fábula natalícia que não trouxesse consigo, sempre disponíveis, os pobrezinhos”. A tradução narrativa de um mundo a preto e branco mas bem real, um mundo frio e famélico, tristemente alumiado pela luz da candeia que, no meio do casebre, projectava uma palidez esfomeada de um tempo disperso, “algures entre o apito da fábrica e o chiar da charrua”. Era a “casa portuguesa” salazarenta, documentada nos livros da escola primária e plasmada na imagem de capa do lavrador caseiro desgraçadamente feliz, de sachola ao ombro, regressando a casa, escancarada pela mulher desgrenhadamente feia, rodeada de filhos ranhosos e sujos pendurados nas saias. Depois, a broaembrulhada num caldo de couves e o terço murmurado maquinalmente sob o olhar protector de uma imagem da virgem de Fátima, como agradecimento ao Senhor por tamanha dádiva. Ao Senhor e a Salazar. Era o tempo do “pão e vinho sobre a mesa” e da disponibilidade de abrir a porta a quem a ela batesse, para se “sentar à mesa com a gente”. Só que, à porta dos pobrezinhos, ninguém batia.
Era um mundo de diminutivos e de diminuídos” do catecismo do Estado Novo e da Igreja Católica que, na ficção piedosa da padralhada debochada e rubicunda, entendia que o sofrimento e a miséria eram condições sine qua non se lhes abriria, aos pobres, o reino dos céus. Por esta altura, a beatada em peso, o professor e o padre derretiam-se em homilias da necessidade de ajuda ao pobrezinho. Que vivia “tristemente sentado nos degraus da igreja” ou “pacatamente esfomeado às portas das casas”. Era uma obra de caridade ajudar os pobrezinhos, dizia-se. “Minha senhora, está ali um pobrezinho a pedir esmola”. “Maria, dá qualquer coisa ao pobrezinho”. E a Maria dava. E o pobrezinho lá ia, reverente e agradecido. “Que Deus Nosso Senhor o ajude. Seja pelas alminhas de quem lá tem”. Havia um ou outro pobrezinho com mais sorte, abrindo-se-lhe as portas onanistas dos seminários, por influência de alguma tia velha junto do senhor prior, que era o representante de Deus na terra. Outros acabavam a criados de servir, agradecendo reverentemente os restos que sobravam das mesas dos seus senhores e que, não raramente, repartiam com os cães. Muitos deles, analfabetos e embrutecidos pelo álcool, viviam no terror de incomodar a autoridade ou a caridade que lhes matava a fome. Era o esplendor do salazarismo, antes que a emigração da década de 60 espalhasse o analfabetismo escravo dos portugueses pelos bidonvilles da periferia das principais cidades francesas.
Alguns dos meus leitores mais jovens espantar-se-ão com este retrato de um país que lhes parecerá surrealista. Infelizmente, é bem real. E trazê-lo hoje aqui é recordar que a história, dizem, se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. E o que o Gaspar e o Passos nos dão hojenão passa de uma farsa. Uma farsa salazarista com a conivência de um presidente da República absolutamente inócuo e senil. Quando hoje se lê que mais de doze mil crianças vão para a escola com fome, não é mais que o retrato actual da miséria salazarista. Quando se sabe que há pessoas que vasculham caixotes de lixo à procura de restos de comida com que possam matar a fome, não é outra coisa senão o regresso dos pobrezinhos da minha infância. Que agora, envergonhados, interiorizam essa miséria e alimentam-se dela.

Escrevia Clara Ferreira Alves que “numa sociedade com graves desigualdades e herdeira de uma sociedade salazarista e colonial, de senhores e servos, de relações de potestade assentes sobre a escravidão e a ignorância, a subserviência interiorizou-se e ficou um traço de carácter”.
Pois é… Esta sociedade de eunucos tem feito da subserviência um traço do seu carácter. E, como cantava Zeca Afonso, os eunucos “não matam os tiranos, pedem mais”. Até um dia…"

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