Diz-se que no futebol não há sorte nem azar, há competência ou falta dela. Hoje, em Amsterdão, no último lance do jogo, o Benfica pode ter acrescentado qualquer coisa a essa ideia feita.
Hoje ao Benfica faltou sorte quando lhe faltou competência, e nem se pode dizer que a sorte que lhe faltou foi a que acompanha os audazes. Creio que o Benfica foi suficentemente audaz para mercer a sorte que os protege. Não foi por aí, por falta de audácia, porque a Rui Vitória não falta só audácia. Nem sorte.
Faltou evidentemente competência ao Conti quando falhou desastradamente aquele corte mesmo no fim do jogo. A competência que teve quando, antes, tirou aquela bola de dentro da baliza. Com a sorte de lhe ter pegado escassos milímetros antes dela passar na totalidade a linha de golo. A sorte que lhe faltou quando, pelos mesmos escassos milímetros, não acertou naquela bola, tão fácil de cortar.
Já a competência do Ajax mereceu três doses de sorte: a sorte do azar do Conti, mais a sorte do azar do André Almeida, que depois ainda interceptou a bola, mas direitinha para um adversário e, por último, a sorte do azar do Grimaldo, que se opôs ao remate, mas só para desviar a bola para o caminho da baliza.
Pois é. Isso da sorte e do azar... tem muito que se lhe diga. Aos oitavos da Champions é que o Benfica já ficou com pouco para dizer!
Fala-se muito de sorte e azar no futebol, mas nem sempre se percebe muito bem do que se está a falar.
Deixo aqui a minha pequena contribuição para ajudar a perceber o que é isto de sorte e azar: Num sorteio da Champions uma equipa está no pote 1, e as bolinhas ditam-lhe sucessivamente para adversários as equipas mais fracas dos restantes potes. Quando chegam ao último, ao pote das mais fracas, quem de lá sai é mesmo a mais fraca de todas as que alguma vez disputaram a competição. Sorteiam-se os adversários e sorteia-se o calendário, e o primeiro jogo é em casa, frente ao adversário mais fraco, o mais fraco de todos, na Champions, como se viu. Chega-se ao jogo, o primeiro, em casa, com a equipa mais fraca que há, e logo aos cinco minutos, o guarda-redes da equipa adversária tem a bola na mão e, em vez de a entregar a um colega de equipa, entrega-a ao adversário, ali à frente, de bandeja, para o primeiro golo. Pouco depois, um jogador pega na bola no seu meio campo e corre com ela até à área adversária sem que ninguém se lhe atravesse àfrente, para o importunar que seja, remata tranquilamente e faz o segundo. Cinco minutos depois, é um jogador da equipa adversária que desmarca um jogador adversário numa ala, que sozinho, sem oposição, cruza para o terceiro, ainda o intervalo vem longe... E assim, sucessivamente, até chegar à meia dúzia!
Pois bem, sorte é isto. Mesmo que ouçamos - como vamos certamente ouvir - chamar-lhe outra coisa qualquer. Azar é outra coisa qualquer, se calhar é ouvir tudo o que irão chamar a esta sorte!
Não há bruxas. Mas até parece… O mesmo resultado, o golo no mesmo último minuto…
O Benfica foi superior ao Chelsea nesta final. Completamente: individual e colectivamente, técnica e tacticamente. Só não o foi no plano físico mas, mesmo aí e surpreendentemente – para quem tem visto os últimos jogos – o Benfica esteve bem. Não rebentou, embora a perspectiva do prolongamento fizesse temer o pior.
Jogou melhor, muito melhor que o Chelsea. Mas não chega. Para o Benfica nunca chega jogar melhor que os adversários. É sempre preciso qualquer coisa mais… Foi anulado um golo – que seria o primeiro do jogo – sem que ainda agora consiga perceber por quê. E sofreu logo a seguir um golo, que começa num lançamento longo do guarda-redes: nem devia valer!
O Benfica reagiu bem, não teve medo e continuou a ser melhor. Chegou rapidamente ao empate, e continuou por cima. Jorge Jesus tinha arriscado tudo, já jogava com Gaitan a lateral esquerdo. E perdeu Garay. Perdeu Garay, o melhor defesa, e com Enzo e Matic o melhor jogador em campo, e a oportunidade de mexer na equipa, esgotando aí as substituições!
Faltavam dois minutos para os 90 quando Lampard acerta no ferro da baliza de Artur. Era o sinal por que se esperava: tinha sido assim ao longo da competição, a seguir a uma bola no ferro o Benfica marcava. Voltou a ter oportunidade para isso, mas voltou a falhar, como tantas vezes tinha já falhado. E no último minuto… Se o primeiro nem devia valer, o segundo, então…
Nasce de um canto em que Jardel – que substituíra o Garay - é passarinho. Depois, continuou passarinho, a olhar para a bola, sem a atacar, deixando que o André Almeida deixasse sozinho o mais alto e melhor cabeceador do Chelsea, o sérvio Javanovic.
A bola foi ao centro, e Cardozo tem ainda mais uma oportunidade imensa de voltar a marcar. Não se percebe o que lhe aconteceu aos pés e voltou a falhar… É isso, nestas andanças não se pode falhar. A concentração competitiva e a força mental – que se trabalham, como a condição física e a qualificação técnica - são mais importantes que tudo o resto. Sem isso há sempre muito azar. É o nosso fado!
Claro que não há nada a apontar aos jogadores. Que, face ao que se passara no sábado, poucos esperariam que entrassem em campo como entraram. E que fizessem o jogo que fizeram. Claro que vamos ao aeroporto receber os jogadores em festa. Claro que no próximo domingo vamos encher a Luz, com aquela fé imensa, como os jogadores merecem. Mas estou farto do azar. Estou farto que, quando realmente importa, a sorte esteja sempre do outro lado…
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