Antes de embarcar para o espaço para se tornar no primeiro português turista do espaço, o que estará para acontecer nas próximas horas, Mário Ferreira, o dono dos barcos do Douro e da TVI, anunciou que prescindiu dos 40 milhões de euros de financiamento do Banco Português de Fomento, ao abrigo do programa de recapitalização do PRR, garantindo que, afinal, vai recapitalizar as suas empresas aumentando-lhes o capital com fundos próprios.
Faz bem. Se tem dinheiro para viajar pelo espaço, que não deve ser barato, mesmo que para ele possam ser trocos, não lhe ficaria bem que não o tivesse para as suas empresas. O que não se percebe é que, se tinha o dinheiro e não precisa de qualquer cêntimo do PRR, como agora diz, por que é que o pediu?
Também não se percebe por que é que o famigerado e público Banco de Fomento lho concedeu, aplicando num único empresário - que, por acaso, é o 4º maior beneficiário em Portugal, e o 16º maior em toda a União Europeia, de fundos europeus e que, também certamente por acaso, está sob investigação das autoridades nacionais, por branqueamento de capitais e, das europeias, pela utilização dos fundos - 10% da dotação total do programa, e 52% da primeira leva de aprovações.
Em contrapartida há outras coisas que se percebem sem qualquer dificuldade como, por exemplo, que a TVI/CNN P nunca tenha dado notícia das investigações em curso. Que nunca tenha achado que fosse notícia o "pormenor" de bastarem 30 "Mários Ferreira" para esgotar a totalidade dos fundos para a recapitalização das empresas nacionais. Mas que achasse que deveria pôr todos os seus comentadores económicos a defender o seu patrão e a atacar as "Anas Gomes" e as "Catarinas Martins" deste mundo. Ou cobrir com directos, do outro lado do Atlântico, os preparativos do embarque para esta aventura espacial.
Depois de ontem terem ouvido o actual governador do Banco de Portugal, com grande falta de memória, diga-se de passagem, os deputados da comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos vão finalmente hoje ouvir Vítor Constâncio, o anterior governador, entre 2000 e 2010. Que sempre se escondeu atrás da sua condição de vice presidente do BCE para não dar explicações sobre nada, de tudo que tem para explicar.
Depois de tanta coisa se ter varrido das lembranças de Carlos Costa, é grande a expectativa sobre o estado da memória de Vítor Constâncio, a dois meses do fim do mandato que, garantiu sempre, o impedia de prestar declarações aos deputados. Terá certamente muito para contar, se a memória o não trair. Não deixaria de ser dramático se, agora que já pode falar, não se lembrasse de grande coisa.
O novo banco público, dito de fomento, estará de pé no primeiro semestre do próximo ano.
Já há um banco público – a Caixa Geral de Depósitos – que tem tudo para fazer o que deste se pretende, ao que se diz gerir a distribuição dos fundos europeus do novo quadro comunitário que aí vem. Tem mesmo tudo, e seguramente em tudo tem vantagens comparativas com qualquer novo operador. Acresce que também a banca privada pode fazer o mesmo, como de resto o tem feito nos anteriores quadros comunitários.
Se já isto nos pode levar a torcer o nariz ao novo banco do Estado, mais estranho é ainda que esta seja uma iniciativa de um governo que tudo quer tirar do Estado. Que privatiza tudo o que mexe, que acabou de vender os Correios, que são públicos em praticamente todo o mundo, e que pretende mesmo transferir para o sector privado grande parte dos serviços de natureza eminentemente pública, nalguns casos, como os da saúde e da educação, em situações de verdadeira parasitagem.
À partida, o mínimo que se poderia dizer desta ideia que nasceu nestas cabecinhas do governo, a que muito rapidamente deu forma, é que não joga a bota com a perdigota. Não faz sentido!
A menos que pensemos um bocadinho no que pode representar este novo banco. Que comecemos a perceber que vai poder intervir na economia como nenhum outro, porque é muito, mas mesmo muito, o dinheiro que vai ter à disposição, mas porque vai até poder entrar no capital das empresas e na gestão dos próprios projectos. E que percebamos finalmente o imenso pantanal de promiscuidade entre o público e o privado que este banco poderá potenciar…
É isso. Aí está. Para já garante mais uns postos dourados para umas dezenas de boys, cujo pontapé de saída foi dado com a palhaçada – perdoem-me a expressão – do convite a Rui Rio que, como não poderia deixar de ser, recusou. Um convite que diz tudo sobre a falta de escrúpulos que, também a este propósito, passa pela cabeça deste governo.
Não é porque o banco vai ter sede no Porto que Passos Coelho convidou Rui Rio, embora possa ter sido por isso que convidou Paulo Azevedo (portuense deslocado em Lisboa, ex-BCP) o indigitado presidente cujo perfil nada, mas mesmo nada, tem a ver com o de Rui Rio. Não terá certamente sido por isso que o lugar de Franquelim Alves (quem quiser avivar a memória pode fazê-lo aqui e aqui) foi o primeiro a ser reservado, com o seu nome a ser imposto ao presidente, mesmo que esse se chamasse Rui Rio...
Comemora-se hoje o dia internacional contra a corrupção. Não sei porque é que me lembrei disto!
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