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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Entre a coisa e o símbolo (ou outra maneira de olhar para as eleições na Catalunha)

Por Eduardo Louro

 

Elegendo mais deputados, os partidos independentistas da Catalunha não obtiveram mais votos, trazendo à evidência uma possibilidade que por cá se tem posto.

Mau grado as paralelas que a História tantas vezes traçou entre Portugal e a Catalunha isso não tem importância nenhuma. Importante - seja para lado for - é que ainda não foi desta que a questão da independência foi resolvida. Por muito que os independentistas - o Juntos pelo Sim, de Artur Mas e da Candidatura de Unidade Popular (CUP) - possam dizer que é um resultado que lhes permita avançar para a independência de forma unilateral, a verdade é que, na maior participação eleitoral dos últimos anos, que mobilizou o voto de perto de 80% dos catalães, a maioria dos votos expressos – 51,94% - foi para partidos que não defendem esse caminho.

Há precisamente uma semana, num programa de uma rádio, onde falava de coisas à volta do futebol, para exemplificar a ligação entre futebol e política, referi o Barça como bandeira do nacionalismo catalão, para perspectivar o paradoxo dessa ligação nas eleições de ontem. Ao anunciar que não aceitaria a inscrição de clubes estrangeiros, a posição da Federação Espanhola de Futebol estava a deixar claro que, numa Catalunha independente, o Barcelona ficaria impedido de competir na Liga espanhola,  e assim imediatamente ameaçado no seu estatuto de uma das maiores potências do futebol mundial e, consequentemente, morto como bandeira da nacionalidade.

Não sei se alguém dedicará algum tempo a investigar a influência deste paradoxo nos resultados eleitorais de ontem. O meu palpite é que, tendo que escolher entre a coisa e o seu símbolo, os catalães  preferem o símbolo.

CAMPEÕES

Por Eduardo Louro

 A melhor equipa do mundo é campeã da Europa com toda a naturalidade

Assistimos a uma das melhores finais de todos os tempos e de todas as competições. Esta final da Champions de 2011 entrará directamente para a História!

E, para ganhar a melhor final de sempre, nada melhor que a melhor equipa de futebol de sempre! Fantástico!

Todos os que gostamos de futebol – condição que tem de nos transformar em admiradores deste dream team – este sim – do Barcelona – esperávamos este jogo com grande expectativa: frente ao futebol de sonho do Barça estava o futebol completo do Manchester United, o futebol de posse e do campo todo que Sir Alex Ferguson produz há muitos anos em Old Traford sob patente há muito registada. No fundo muitos esperavam que a equipa de Nani, Rooney e Gigs pudesse travar esta portentosa máquina de futebol de Messi, Xavi, Iniesta e por aí fora.

Mas o United mais não conseguiu engasgar a máquina blau grana nos primeiros dez minutos e dar um sinal de digna revolta nos últimos dez, com apenas quatro remates e um único direito à baliza de Valdez: o do golo. Nos restantes 80% do jogo só deu Barcelona, num show de bola inesquecível, com os habituais e inacreditáveis níveis de posse de bola, a obrigar os red devils a correr atrás da bola, todos bem juntinhos e em cima da sua área!

Ganhou o Barça e ganhou bem. Ganhou Guardiola e os seus jogadores. Mas ganhou um em especial: Abidal, que ainda há dois meses descobria que tinha um cancro no estômago! Em apenas dois meses foi ao fundo e levantou-se ainda a tempo de disputar a final mais desejada e de conquistar o mais importante troféu de clubes do mundo.

Quem também teve aqui uma pequenina vitória foi Mourinho: o único treinador que consegue, apesar de tudo, dar mais luta a este invencível Barça. No ano passado conseguiu empurrá-los para fora da final e, neste, foi claramente o osso mais duro de roer…

Futebolês #55 RECEPÇÃO ORIENTADA

Por Eduardo Louro

 

Diz-se que a essência da técnica no futebol se encontra no passe e na recepção. Quer dizer, aquelas fintas mirabolantes e aqueles toques malabaristas, que tantas vezes tanto impressionam, são meros acessórios. Secundários, como tudo o que é acessório! O que verdadeiramente conta, o que faz realmente a diferença, é a precisão no passe. O passe para o sítio certo: nem mais, nem menos. Mas também o passe de rotura ou, como agora se gosta de dizer, fracturante: que rompa com a estrutura do adversário, que surpreenda e que desequilibre.

O passe longo, a romper e a desequilibrar, só rompe e só desequilibra se for bem feito. Se houver precisão! Porque, se não houver, é apenas uma maneira simples de perder a bola, pouco se distinguindo de um qualquer charuto. Que, em futebolês, nada tem a ver com o puro, o habano, que faz as minhas delícias, mas apenas com uma das maiores agressões de que a bola é vítima quando, em aflição, o jogador apenas a quer despachar, livrar-se dela sem qualquer sentido e para bem longe!

Depois do passe vem a recepção. Compreende-se bem: de nada vale um passe brilhante se, depois, quando a bola atinge o destinatário, este não lhe der a devida sequência. E a sequência imediata é, evidentemente, a recepção. É preciso saber receber bem a bola, e bem sabemos que receber bem é uma arte!

Mas para jogar futebol não basta a técnica. Não basta ser tecnicamente dotado para ser competente. É necessária, como em tudo, inteligência.

É verdade! Quem diria? O jogador de futebol tem que ser inteligente… Há inteligência de passe, evidentemente! Há inteligência na deslocação, no movimento para ir receber o passe. Na desmarcação, como se diz em futebolês! E há inteligência na recepção, que mais não é que definir a melhor sequência a dar à bola: um novo passe, um drible ou um remate.

É isto a recepção orientada: receber a bola sabendo já o que vai fazer com ela e, dessa forma, orientar todo o movimento para o passo seguinte.

É aqui que encontro um dos maiores encantos do jogo. Porque, sendo o futebol um jogo de dinâmica colectiva, saber antecipadamente o que fazer da bola implica saber o que vai fazer o colega que em cada momento a tem em seu poder. E o que vai fazer o outro, o próximo.

É pensamento estratégico no seu melhor. Que requer muita competência, a melhor combinação de trabalho e inteligência.

Perdoem-me a insistência, mas é isto que encontramos no actual Barcelona: não só a mais fantástica máquina de produzir um futebol fantástico, mas também uma das mais fabulosas marcas da actualidade, gerida com grande competência.

Estive lá no passado fim-de-semana, precisamente quando ficamos a saber que os exóticos organizadores do Mundial de 2022 irão pagar 170 milhões de euros para ocupar aquele espaço das camisolas que um dia, numa das mais inteligentes decisões estratégicas, foi entregue gratuitamente à Unicef. E assisti a um espectáculo bem diferente daqueles a que estou habituado a ver por cá. E não me refiro – claro – ao espectáculo de futebol propriamente dito: esse não é passível de qualquer tipo de comparação. Refiro-me a um estádio cheio que nem um ovo. Sem claques! Com muitas mulheres e crianças: um espelho de uma nova realidade de famílias mono parentais. Com muitas mães a vibrar com os seus filhos com os espectáculos de Camp Nou. Refiro-me a um ambiente único onde mais de cem mil se limitam a aplaudir os artistas: como na ópera. Ou no ténis! Não há gritos, nem berros, nem protestos. Apenas palmas que passam para o relvado a premiar cada lance, entrecortadas de quando em vez por um espaçado e uníssono Baaaaarça!   

E, no fim, aquela multidão feliz e deleitada inunda toda uma comunidade disposta a partir para uma nova semana de trabalho com a confiança e o optimismo de quem vive nos píncaros da auto-estima. Que chuta para bem longe a depressão colectiva que as nuvens carregadas da crise teimam em arrastar!

Futebolês #54 CIRCULAÇÃO

Por Eduardo Louro

 

A circulação, em futebolês, nada tem a ver com ruas, estradas ou auto-estradas. Ou com peões, motas e carros. Ou com engarrafamentos. Refere-se à bola e à forma como ela evolui no tapete verde ao sabor dos movimentos dos jogadores.

Fazer circulação quer apenas dizer que uma equipa consegue fazer passar bola sucessivamente pelos seus jogadores. Aos adversários apenas é dada a cheirar!

Nesse sentido tem alguma coisa a ver com posse, outra das expressões do futebolês.

Uma equipa que privilegie a posse, como se diz, faz circulação. Quer dizer: desenvolve o seu processo de construção a partir de uma filosofia de posse e circulação, ao contrário de uma equipa que assente o seu jogo no passe longo ou no contra ataque a partir de transições rápidas (100% futebolês)!

Evidentemente que o actual expoente máximo da circulação de bola é o Barcelona, seguido pelo Arsenal. Fazem as delícias do espectador e, atrevo-me a dizê-lo, da própria bola. Que se delicia com a forma como é tratada por gente daquela categoria: Messi, Xavi, Iniesta, Nasri, Fabregas ou Van Persie são de um cavalheirismo ímpar no tratamento da bola. Fazem-na feliz!

Não faz circulação quem quer. Fá-la quem tiver, na quantidade necessária, jogadores de enormíssima qualidade para o fazer. Como são, entre outros, aqueles três primeiros – todos às ordens do mestre Pepe Guardiola – que esgotam a short list de onde sairá o melhor do mundo a anunciar daqui a poucas semanas, no início do ano.

Como também se consegue perceber, dispor de um conjunto de jogadores de altíssima categoria, sendo condição necessária não é, no entanto, suficiente: falta o mentor da filosofia de jogo, o treinador. Se não pertencer à escola que faz da circulação uma ideia de jogo, não conseguirá construir uma equipa capaz de fazer da posse e da circulação da bola um espectáculo ímpar como é um jogo de futebol. De ataque e de golos!

Essa é a escola que, com pequenas variantes, encontramos em Barcelona e em Londres e que se exibem para o mundo a partir do Nou Camp e do Emirates Stadium, sob as batutas de Guardiola e de Wenger! E que há 40 anos nasceu em Amsterdão!

Que a selecção espanhola, campeã da Europa e do Mundo, importou da Catalunha. Como a holandesa de há trinta e muitos anos, a laranja mecânica do então futebol total de Rinus Michels, importou do Ajax de Amsterdão.

Em Portugal a circulação parece que não é a mesma coisa. Não encontramos exemplos desta nobre dimensão do jogo, apesar de ainda recentemente a nossa selecção ter engasgado a circulação espanhola, como que a lembrar os engulhos da introdução de portagens nas SCUT. Mas isso foi uma ocorrência. Apesar de saborosa uma mera ocorrência!

Por cá a circulação tem mais a ver com jornais do que com a bola -se calhar não é por acaso que a circulação, no caso a circulação paga, seja utilizada na avaliação de desempenho comercial dos jornais – tem a ver a forma como se põem a circular notícias com objectivos de uma precisão cirúrgica!

Que o Benfica vai mal todos sabemos. O tema tem sido aqui frequentemente abordado ao longo desta época, desde Agosto.

O que se calhar nem todos sabemos é das notícias postas a circular com o objectivo, único e preciso, de aprofundar esse estado depressivo. De carregar bem para baixo!

Agora são as contratações de Janeiro. Nomes e mais nomes, todos os dias!

Com que objectivo? Com dois: destabilizar a equipa e desmobilizar os adeptos, com os inevitáveis falhanços!

A última destas notícias então é fantástica: dava conta que Kleber, jogador do Marítimo por empréstimo do Atlético Mineiro, chegaria ao Benfica já em Janeiro. Toda a gente sabe que a transferência deste jogador para o FC Porto é assunto arrumado desde o Verão passado. Que só não se concretizou na altura por falta do acordo com o Marítimo, circunstância que levou o jogador, em retaliação, a adiar sucessivamente o seu regresso ao Funchal.

A circulação desta notícia, cuja origem é bem fácil de identificar – difícil mesmo é perceber a facilidade com que lhe foi dada cobertura –, conseguia juntar um terceiro àqueles dois objectivos: exaltar mais uma banhada do FC Porto nesta guerra das contratações.

Que raio de circulação!

Banho de bola

Por Eduardo Louro

   

Barcelona de sonho em Real pesadelo (SAPO)Por culpa das eleições de ontem na Catalunha (também por lá, os socialistas levaram uma grande banhada:"votar foi um prazer"... mas nos outros) disputou-se hoje o grande clássico do futebol espanhol – um Braça v/s Real Madrid – de enorme expectativa. Lá, onde os bilhetes chegaram a atingir os 3 mil euros no mercado negro, e cá! Também por cá se seguiu o clássico espanhol a par e passo, com os portugueses divididos entre um Barcelona que encanta e fixa as maiores fatias das nossas simpatias – os clubes de fãs culés já vêm dos anos 90, do Barcelona de Robson (e Mourinho), Ronaldo e Rivaldo, – e um Real Madrid, agora transformado no maior fornecedor do onze titular da selecção nacional, onde três portugueses e meio (que me perdoe o Pepe) activam indisfarçáveis sentimentos nacionalistas.

Bastou ver a imprensa do fim-de-semana para nos apercebermos desses corações divididos. Pelo menos dos corações mais mediáticos! Os outros também não interessam…

Em confronto estavam duas coisas antagónicas. Sim, duas coisas e múltiplos sentimentos contrários: duas representações distintas – uma representação de uma comunidade e de uma região em oposição a uma representação de um estado que, em vão, se procura projectar numa nação; duas ideias distintas de construção de uma equipa – uma que o faz a partir das suas escolas de formação, da sua cantera (no onze do Barça apenas dois jogadores haviam sido adquiridos no mercado – Abidal e David Villa) e outra que o faz através de investimentos multimilionários na aquisição de jogadores por esse mundo fora (apenas um jogador da cantera no onze, o guarda-redes Casillas); duas ideias de jogo completamente diferentes – um que privilegia a posse de bola, o jogo rendilhado que encanta o espectador, com quinze a vinte passes antes de chegar à finalização e outro que o faz através de apenas dois ou três, um que encurta o campo e outro que o alonga. E até duas imagens opostas. Duas imagens que as principais figuras de cada lado bem personificam: um Mourinho superstar, arrogante (porque não dizê-lo com frontalidade! como diz o outro) e exuberante a par de um Pepe Guardiola que transpira humildade e recato. Ou um Cristiano Ronaldo de porte altivo e atlético, figura de grande inspiração mediática à custa das mais variadas extravagâncias, de namoradas e até de um filho e um Leonel Messi, atarracado e pacato, que limita o seu protagonismo ao rectângulo verde de jogo.

O jogo rendilhado do Barça, feito de uma interminável cadeia de passes e de uma obscena posse de bola, asfixiou por completo o Real Madrid de Mourinho. Um banho de bola, foi o que foi! Um banho que deixou em êxtase todos os que gostam de futebol, desse espectáculo fabuloso que Messi, Iniesta, Xavi, Pedro e Villa conseguem produzir com uma simples bola. Não sei se o Mourinho já percebeu bem o banho que o Guardiola lhe ofereceu: banho de bola, de humildade ou ambos?

Claro que esperávamos um grande jogo entre as tais duas ideias de jogo: as mesmas duas ideias de jogo que tão bem sucedidas vinham sendo até aqui. Era aí que residia a grande expectativa que rodeava o jogo.

Deu apenas Barcelona! É na frustração dessa expectativa que também está a humilhação de Mourinho!

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