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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

MALDIÇÕES

Por Eduardo Louro

 

Começo por dizer que não acredito em maldições, perante as quais tenho uma posição semelhante à que os espanhóis têm das bruxas:”pero que las hay las hay”!

É conhecida a mais velha maldição que recai sobre o Benfica: lançada por Bela Guttman, em 1962. Sem ele o Benfica não voltaria a ser campeão europeu!

À luz do que se ouve hoje dos treinadores de futebol – e especialmente deste que por cá mora, vai para quatro anos – a expressão de Bela Guttman seria pouco menos que inócua. Diz(em) tanto disparate de auto-promoção e sobrevaloriza(m)-se de tal modo que ninguém lhe(s) pode dar ouvidos. Nem levar a sério …

A verdade é que a declaração daquele velho austro-húngaro que levou o glorioso à condição de bicampeão europeu foi produzida noutro contexto. Eram não só outros os tempos, era ele próprio bastante mais que um simples vendedor de banha da cobra, e era um Benfica bem diferente. Que dominava o futebol na Europa, com uma equipa de sonho, com Eusébio, e com sucessivas presenças na final da maior competição de clubes em todo o mundo.

Mas a verdade é que, mesmo somando presenças consecutivas na final da então chamada Taça dos Campeões Europeus, e contra todas as leis das probabilidades, o Benfica não voltaria a ser campeão europeu. Fosse nos restantes anos da gloriosa década de sessenta fosse, anos mais tarde, no final da de oitenta e no início da de noventa. A verdade é que, sendo um dos clubes com mais presenças na final da mais prestigiada competição internacional de clubes, é, a par da Juventus, o que mais títulos de vice-campeão apresenta.

Se isto não é maldição não sei o que o possa ser!

Entretanto, esbatidos os efeitos da maldição de Guttman, mais pela realidade competitiva instalada na Europa do que propriamente pelo inexorável efeito do tempo, uma nova maldição assombrou o Benfica: chamo-lhe a maldição do título!

Com as desgraças que têm fustigado o glorioso, empurrando-o para as trevas dos últimos vinte anos, os títulos que faziam parte do quotidiano dos benfiquistas passaram à mais rara das raridades. Passamos onze anos de jejum, quando nunca tínhamos passado mais de três, chegamos mesmo a um sexto lugar no campeonato, quando o pior que conhecíamos era o terceiro, e em 2005 lá quebramos o enguiço. Num campeonato sofrido, contra tudo e contra todos, lá conseguimos ganhar onze anos depois!

Festejamos rijamente, claro. Mas aquele título desde cedo começou a ser contestado – e não me refiro aos nossos vizinhos da segunda circular, que ainda hoje confundem a falta de jeito de Ricardo com uma falta de Luisão – dentro e fora da esfera do glorioso. Que tinha sido cedo, que o Benfica ainda não estava estruturado para ser campeão, que era enganoso, que desfocara o clube do seu principal objectivo: a consolidação de uma estrutura ganhadora. Que José Veiga…

Um título maldição, já se vê!

Esperamos mais cinco anos. E lá veio Jorge Jesus, que boa parte dos benfiquistas – entre os quais me incluo – olhava com desconfiança. Não era treinador para o Benfica!

Mas a equipa jogou bem, do melhor futebol que viu, e ganhou bem. Jesus confirmou a sua promessa: a equipa vai jogar o dobro. E jogou!

O presidente anunciou uma mudança no ciclo de hegemonia do futebol cá do burgo e nós acreditamos. Tudo parecia que assim seria: finalmente uma boa equipa, um modelo de jogo fascinante e empolgante que vinha para ficar!

Não foi assim. O treinador insuflou, inchou que nem um casco vazio há um ror de anos e, de tão insuflado, começou a levantar voo e a perder o contacto dos pés com a terra. E começamos a perceber que aquele título também estava amaldiçoado. Desta vez tinha chegado cedo … para o treinador. Desta vez era ele que não estava preparado!

Ficou mais três anos, anos a mais. Logo no primeiro, completamente inchado, tratou de trocar o guarda-redes Quim pelo desastre Roberto, descurou a supertaça que recarregaria as baterias do Porto, pôs-se a jeito para a reacção do sistema, com aquelas arbitragens das primeiras quatro jornadas, e insistiu em Roberto. Quando conseguiu estabilizar a equipa era tarde, e cedo a espremeu, até a esgotar e ficar sem soluções para a parte final da época. Sálvio e Gaitan, os dois únicos alas, rebentaram e a equipa ficou sem ataque enquanto, lá atrás, Roberto se ia encarregando de ir agravando o suplício. No seguinte, resolvido o problema Roberto e o da sua própria situação contratual, transformado no mais bem pago treinador nacional e num dos mais bem pagos da Europa, com a saída de Coentrão nascia o do lado esquerdo da defesa. O Benfica iria buscar o titular da selecção campeã do Mundo e da Europa mas, sem o aval do treinador, era uma carta fora do baralho. No qual introduziu um novo Roberto: Emerson. Para completar o ramalhete correu com o Carlos Martins, primeiro, e com Rúben Amorim, depois. Mesmo assim teve o campeonato na mão, mais parecendo ter pretendido deitá-lo fora para o entregar ao Porto!

Sem nada que o justificasse, a não ser a absurda renovação do contrato do ano anterior, negociada em ambiente de chantagem com a bem orquestrada insinuação do interesse de Pinto da Costa, acabamos de entrar na quarta época de Jesus, com tudo a apontar para a repetição da anterior. Despacha o Capdevilla – a quem nunca deu oportunidade – e descarta o Emerson, como se nele nunca tivesse apostado. Mais birras, mais alas – sete, ou oito se incluirmos a vítima Melgarejo, para dois lugares – mais erros tácticos impróprios de um catedrático, mais problemas de discurso e de comportamento e a mesma incapacidade de gestão motivacional de um grupo. A mesma incapacidade de resolver o problema do lado esquerdo, insistindo na destruição do miúdo paraguaio de inegável potencial. Para trás ficou a novela de Rojo, que veio para Lisboa mas afinal para o Sporting. E que é central – e dos bons, pelo que se está a ver – mas que também faz o lado esquerdo, como se viu na selecção argentina. E com tantos e tão bons alas, e à falta de melhor, que jeito daria um defesa que sabe pisar o lado esquerdo.

De novo, de realmente novo, apenas o lifting à cara. As rugas ficam para nós!

Ora digam lá se não temos uma nova maldição?

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