E pronto ... a Champions também já foi. Fica por aqui, evidentemente que não há milagres!
O Benfica tinha de ganhar esta noite, em Turim, para manter acesa a chama imensa de prosseguir na prova mais importante do futebol de clubes. Não era tarefa fácil, mas até a História ajudava: a Juventus só por uma vez, há para aí 30 anos, lhe ganhara, e nem sequer foi na Champions, e perdera sempre nos últimos anos, e nesta mesma competição.
A História poderia bem ter-se repetido esta noite. O Benfica surgiu no Estádio da Juventus - sem adeptos do Benfica, mais uma vez penalizados pela pirotecnia dos vândalos - com vontade de que se repetisse. Com o mesmo onze de Vila do Conde, o tal com os jogadores nas suas posições, e com dois alas, controlou quase sempre o jogo e dominou-o durante muito tempo.
À pressão e intensidade com que a Juventus entrou, o Benfica respondeu com tranquilidade e concentração. A meio da primeira parte já o Benfica tinha dominado o ímpeto inicial da equipa italiana, e já estava claramente por cima do jogo. Ao intervalo o nulo era já o resultado da falta de eficácia, pois as oportunidades não faltaram.
Mesmo com as alterações de Spalletti, com a entrada ao intervalo de Francisco Conceição, o arranque da segunda parte confirmava a superioridade do Benfica no jogo. Interrompida abruptamente no fim dos primeiros 10 minutos quando, à boa maneira italiana, na primeira vez que a chegou à outra grande-área, marcou. O primeiro, e decisivo, golo da partida.
A Juventus acumulava então erros defensivos, uns atrás do outros, que deixavam Spalletti de mãos na cabeça, e que o Benfica desperdiçava ao mesmo ritmo. Mas marcava ao primeiro erro do Benfica: Tomás Araújo cedeu à pressão de Jonathan David e Thuram, que rematou junto ao poste direito de Trubin, que também não foi alheio ao erro, com a bola a passar-lhe por baixo da mão.
Pouco mais de 5 minutos seria o segundo. Se o primeiro já fora difícil de engolir, este é simplesmente inaceitável ao nível da Champions, com Aursnes a perder o duelo com McKennie e, a partir daí, com (de novo) Jonathan David, os dois, contra seis do Benfica, a entrarem na área como faca quente em manteiga, e McKennie a entrar até pela baliza dentro.
A ganhar por 2-0, e com meia hora para jogar, à Juventus bastava continuar a ser italiana. E poderia até ter marcado o terceiro, quando o poste e Trubin evitaram um auto-golo da Tomás Araújo, naquele período desnorte que o golo inicial abriu. Mourinho trocou então Schjelderup e Sudakov por Ivanovic e Enzo, adiantando Leandro Barreiro, voltou a comandar o jogo, e voltou até a criar oportunidades para a reviravolta no resultado.
Mas nem um golo conseguiu marcar. Pode sempre falar-se de sorte e azar. A sorte que a uns nunca vira as costas, mas que normalmente falta ao Benfica. A bola no poste, é azar. A escorregadela de Pavlidis que o leva a falhar o penálti, é falta de sorte. Mas não se pode deixar de falar de competência.
Se naquelas duas ocasiões faltou obviamente sorte, em todas as restantes faltou competência. A decidir, a finalizar e, evidentemente, a defender.
O Benfica fez praticamente o dobro dos remates da Juventus. Teve o dobro dos cantos. Criou bem mais oportunidades de golo. Teve mais bola, fez mais passes, e acertou bastantes mais. Fez menos faltas. Fez tudo melhor, mas não foi mais competente.
Foi essa a marca maior que o Benfica deixou nesta Champions. Raramente foi competente. A falta de competência é, de resto, o drama deste Benfica!
Na primeira jornada da segunda volta, e primeira deste novo 2026, em Vila do Conde, provavelmente a melhor exibição do Benfica da época. A primeira meia hora do jogo é certamente do melhor que se viu nesta época.
O Benfica entrou de forma dominadora no jogo, encostando o Rio Ave lá atrás, fechado num 5X4X1, que na maior parte do tempo eram apenas duas linhas de cinco, bem encostadas uma à outra. A essa fórmula pressionante, asfixiante, e avassaladora, o Benfica acrescentou qualidade de jogo. Muita qualidade, assente na condição técnica dos jogadores e na variabilidade da abordagem ao último reduto adversário.
A isto, à qualidade do futebol que a equipa apresentou, não é - não pode ser, por muito que Mourinho se recuse a admiti-lo, porque isso seria dar a mão à palmatória, coisa de que não gosta mas que, acima de tudo, por esta altura, não quer - alheia nem à circunstância de todos as peças estarem encaixadas nos seus lugares, nem à de, nas faixas laterais, jogarem dois alas.
Às vezes há males que vêm por bem. As lesões de que Mourinho tanto se queixa podem ser um desses males. Repare-se que a ausência de Rios, somada à Enzo, obrigou Aursnes a fixar-se no meio do meio campo, o seis, o pivot, deixando a ala direita. E Barreiro a abandonar a posição 10, ou de segundo avançado, para ser oito; deixando-a para Sudakov, que teve de abandonar a ala esquerda. À falta de outros - Manu, como se viu está longe do que prometera quando chegou, há ano, antes da lesão - tiveram que entrar Schjelderup e Prestiani, dois alas, mesmo que ambos mais talhados para a faixa esquerda.
E foi precisamente à volta de todos estes jogadores, nas posições em que mais rendem, que começou a categorizada exibição do Benfica em Vila do Conde. O resto foi acrescentado pelos dois laterais, Dedic na direita, e Dahl, na esquerda.
Sudakov, o meu melhor em campo, movimentou-se por todo o campo, ofereceu sempre várias soluções de passe, encontrou todos os espaços que o jogo oferecia, e fez a diferença nas triangulações com Dahl (anulou o André Luís, somou recuperações e iniciou sempre os ataques de forma limpa) e Schjelderup (sempre a encarar o adversário e a decidir com critério, no lance individual, ou no passe a descobrir médios ou o lateral do seu corredor), que fizeram parte do melhor que se viu na primeira meia hora.
Na ala direita Dedic e Prestiani não foram tão exuberantes, mas nem por isso menos influentes naquele turbilhão de futebol. O argentino só viria a pecar por algum individualismo quando, parecendo obcecado pelo golo, desatou a rematar de toda a maneira e feitio - foi quem mais rematou - frequentemente com algum despropósito.
Leandro Barreiro, oficialmente o melhor em campo, voltou a assinar uma exibição de grande nível. Dividiu com Aursnes as sucessivas recuperações de bola que permitiram manter a cadência asfixiante do ataque, cumpriu rigorosamente na primeira fase de construção, esteve sempre nos movimentos de chegada à área adversária, e ... marcou o golo.
No primeiro quarto de hora o vendaval de futebol gerou quatro grandes oportunidade que só não deram em golo porque um dos jogadores da equipa sediada em Vila do Conde, Nelson Abbey, fez milagres a impedi-lo; e Pavlidis, Dedic ou Tomás Araújo falharam-no. A mais incrível, já a exasperar, aconteceu no remate de Schjelderup que levou a bola a saltar do poste para a linha de golo, donde um tal Petrasso a tirou, sem ter ficado muito claro se não tinha entrado.
Logo a seguir, a fechar o primeiro quarto de hora, à quinta oportunidade de golo, Barreiro marcou finalmente o primeiro. O vendaval de futebol continuou e logo a seguir o árbitro assinalou penálti: depois de ultrapassado pelo Dedic, o defesa do Rio Ave caiu em cima da bola e tocou-a com as duas mãos, uma de cada vez. O VAR reverteu.
Se fosse ao contrário, ninguém terá dúvidas que o VAR não interviria. De resto não interveio, depois, quando o Barreiro foi pisado dentro da área do Rio Ave.
Se o primeiro golo surgiu um minuto depois daquele momento de frustração da bola que foi tirada de cima da linha de golo, o segundo surgiria um minutominuo depois da frustração da reversão do penálti, quatro minutos depois da jogada do Dedic, que foi o tempo perdido na revisão do VAR, a quebrar o ritmo que o Benfica dava ao jogo. Foi, de novo, Dedic a ir por ali fora e cruzar a bola bem para dentro da área. Desta vez da floresta de penas saiu uma, de um tal Ntoi, que cortou a bola, mas para dentro da baliza.
Ninguém diria que seria aquele auto-golo a fechar o resultado, a meio da primeira parte. Mas foi assim, provavelmente no resultado mais mentiroso deste campeonato. No fim da primeira parte, quinze remates, quase 75% de posse de bola, e nove ou dez oportunidades de golo não tinham dado para mais que dois golos.
O Benfica entrou para a segunda parte no mesmo registo. Nem parecia que tinha havido intervalo. O mesmo futebol, o mesmo domínio, os mesmos remates ... à mesma sem golos. A partir da hora de jogo, com o resultado a manter-se teimosamente, e porque também não era possível manter aquele ritmo durante noventa minutos, o Benfica mudou o chip para modo controle.
E controlou o jogo. Houve um susto, quando já perto da entrada para o último quarto de hora o Clayton, de resto num excelente remate, mandou a bola para dentro da baliza de Trubin. Estava fora de jogo, por pouco mas, de resto, logo assinalado. Foi o único susto. Logo a seguir Pavlidis - em noite não de golos - voltaria a falhar um golo cantado, a cruzamento de Sidny, já no lugar de Schjelderup. O resto foi domínio e controlo absoluto do jogo, que acabaria, no último lance, com mais uma oportunidade para Pavlidis, que permitiu a última defesa de Miszta.
A maré negra continua, o Benfica está já também fora da Taça e, em Janeiro, já não há com que salvar a época.
O sorteio não quis nada com o Benfica nesta edição da Taça de Portugal, a segunda mais importante competição do calendário nacional. Foi obrigado a disputar todos os jogo fora de casa, e o dos quartos de final no Dragão.
Mas, com bolas quentes ou bolas frias, sorteio é sorteio e o Benfica, depois da primeira derrota interna, no inqualificável jogo das meias finais da Taça da Liga com o Braga (que logo a seguir perdeu a final para o Vitória de Guimarães, e hoje foi igualmente eliminado da Taça pelo Fafe, da Liga 3), surgiu no Dragão sem medos, nem complexos.
Deixou isso claro logo que o árbitro Fábio Veríssimo - mais uma provocação do Conselho de Arbitragem, e nem é pela sua história contra o Benfica, é por ser o árbitro que denunciou que as práticas do Porto continuam à maneira antiga, e de daí decorrerem processos ainda em curso - apitou para o início do jogo.
Pelos recentes impedimentos de Enzo e Otamendi, que se juntaram aos antigos, mas não só, o Benfica surgiu com alterações significativas no onze. António Silva recuperou para alinhar ao lado do Tomás Araújo no centro da defesa, Lopes Cabral estreou-se a titular, na ala esquerda, e Prestiani regressou ao onze inicial para a ala direita, daí saindo, respectivamente, Sudakov, para o banco, e Aursnes, para o meio, ao lado de Rios.
Justificadas estas alterações: Sudakov não tem intensidade para para, num jogo destes, jogar na ala, como - erradamente, a meu ver - tem vindo a acontecer. E o jogo com o Braga demonstrou que, depois da lesão de há um ano, Manu não está em condições de jogar no lugar do Enzo.
O Porto não surpreendeu, e foi igual ao que tem sido ao longo da época. Uma equipa intensa, com jogadores que correm sem parar, que disputam cada bola como se fosse a última, usando e abusando do confronto físico. Não sei se é este o futebol de Farioli, não tenho dúvidas é que é este o futebol que percebeu que assenta que nem uma luva no Porto. No tal ADN Porto!
E o Benfica não fugiu aos desafios que esse "futebol" lhe apresentava. Teve esse mérito. Não teve medo, e foi se superiorizando. Aos 10 minutos, logo depois da primeira interrupção da partida (choque de cabeças entre Martim Fernandes e Lopes Cabral) criava a primeira oportunidade clara para marcar, num lance antecedido por um penálti, num corte com a mão do Pablo Rosário dentro da área. Só que, como também faz parte da receita deste Porto, há sempre uma oferta qualquer para, à primeira, marcarem.
Assim foi, mais uma vez. Na primeira vez que chegaram perto da baliza de Trubin, o Tomás Araújo cortou o lance com aparente facilidade. Tinha toda a linha lateral à frente, mas a bola acabou a sair pela final. Canto. Até pareceu que, se fosse de alguma forma possível, a bola acabaria até para ir para a baliza, como já aconteceu. Do canto saiu uma bola rasteira que Rios, ao primeiro poste, à vontade, com tudo para a chutar para a frente, com uma rosca, conseguiu voltar a mandá-la para canto. O segundo consecutivo. Marcado desta vez ao segundo poste, onde Aursnes corta novamente para canto. O terceiro, para a marca de penálti, onde o Bednarek, marcado pelo Barreiro, nem teve que saltar para marcar o golo que tudo decidiu.
O Benfica sentiu o golo, e o Porto conseguiu até, logo a seguir, a sua segunda oportunidade de golo de todo o jogo. Valeu Trubin. Mas reagiu rapidamente, e voltou a assumir o domínio do jogo. Frisson, só na baliza de Diogo Costa que, na fase de maior assédio benfiquista, fora de pequena área, abalroou o António Silva.
Quando se esperava pela repetição, a realização da Sport TV preferiu voltar a mostrar o golo do Porto. É assim!
Entretanto o jogo começava a endurecer. Os jogadores do Porto puxavam pelo confronto físico e activavam o lado quezilento do jogo, onde se sentem como peixe na água. É neste quadro que surge a lesão de Rios, que saiu em maca, à beira do intervalo.
Entrou então Sudakov, para o seu verdadeiro lugar, donde saiu o Barreiro, para se juntar a Aursnes. O Benfica melhorou, ainda. E voltaria a estar perto do golo ainda antes do apito para o intervalo, naquele remate do Barreiro, que o Diogo Costa defendeu com o pé, aflitíssimo, para a frente. Em vez de recarregar para dentro da baliza, Dedic chutou para a bancada.
E assim regressou toda a gente aos balneários, onde Fábio Veríssimo teria certamente a passar em loop na televisão a mão do Pablo Rosário na bola, dentro da sua área, ou ataque do Diogo Costa ao António Silva.
A segunda parte não mudou nada ao jogo. Continuou a dar Benfica, que continuou a somar ataques e remates. Alguns, como os de Tomás Araújo, aos 10 e aos 20 minutos, poderiam ter acabado em golo. A maior, e a derradeira oportunidade que o Benfica teve para marcar, não chegou a ter remate. Corria o minuto 90, e Pavlidis falhou - o remate e o golo - a um metro da baliza.
O Benfica não merecia ter perdido este jogo. Merecia ter passado à meia final da Taça, e ter o privilégio de disputar um jogo em casa. Mas não há vitórias morais. E, se houvesse, nem essas já nos conseguiriam animar.
O Benfica voltou a fazer marcha atrás. Desta vez aqui à porta, em Leiria, na meia final da Taça da Liga, em novo jogo com o Braga, duas semanas depois do da Pedreira, de má memória.
Quando parece que a equipa se começa a levantar e a caminhar direita, segura e firme, lá vem trambolhão. Não é a primeira vez, mas é certamente a mais decisiva no processo de recuperação da confiança. Da equipa e dos adeptos. Que dificilmente voltarão a acreditar nesta equipa, nestes jogadores, neste treinador, neste presidente ...
Com uma única alteração em relação ao onze que venceu o Estoril - Aursnes no lugar de Prestianni -, o Benfica até entrou bem no jogo. Muito bem, até. Em pressão alta, a demonstrar força e vontade para se atirar ao Braga, sem lhe deixar espaço para repetir aquela primeira parte do final do ano, na Pedreira. Foram cinco minutos que prometiam muito mais que aquela grande situação de golo, logo aos 4 minutos, que Hornicek resolveu com uma fantástica dupla defesa.
Afinal não passaram de mais uma promessa. Aos poucos o Braga foi dando conta do recado, e rapidamente passou a explanar o seu (vistoso) futebol colectivo no relvado do Municipal de Leiria. À medida que crescia a equipa bracarense mais se afundavam os jogadores do Benfica. Isso mesmo, de um lado, uma equipa, a crescer a olhos vistos; do outro, onze jogadores, cada um muito pouco por si.
O momento de não retorno aconteceu quando João Pinheiro, o árbitro que por mais voltas que dê não consegue disfarçar a perseguição que o move, foi obrigado pelo VAR a transformar o penálti que tinha assinalado num livre fora da área, iam decorridos apenas nove minutos de jogo. Em vez de servir de aviso aos jogadores do Benfica, e de oportunidade para se agarrarem ao jogo, desligou-os ainda mais.
Dez minutos depois o primeiro golo do Braga - grande trabalho de Zalazar, na direita, com conclusão de Pau Víctor - despejou-os para o abismo. Quando, menos de um quarto de hora depois, Zalazar voltou a passar por quem quis para fazer sozinho o segundo, os onze jogadores do Benfica já só estavam perdidos em campo.
Os assobios, ao intervalo, era o mínimo que os 17 mil benfiquistas (o Braga não teria lá mais de 200 ou 300 adeptos) poderiam fazer.
Mourinho deixou Manu no balneário e lançou Prestiani para a segunda parte. Por isso, pela capacidade de agitação do miúdo argentino, mas também pelo despertar de algum brio nos restantes colegas, foi outro o Benfica da segunda parte. Não foi, nem nunca esteve lá perto, o Benfica da segunda parte da Pedreira. Nem nunca esteve assim tão perto de chegar ao empate, e levar a decisão do acesso à final para os penáltis. A mais clara oportunidade de golo acabou mesmo por passar de novo pelos pés de Zalazar e de Pau Víctor, negado por excelente intervenção de Trubin.
Quando, já depois da hora de jogo, Pavlidis finalmente reduziu, na conversão do penálti cometido pelo Paulo Oliveira, acabado de entrar para reforçar a defesa e trancar as portas, o assalto ao empate não aconteceu. Rapidamente o Braga conseguiu - à custa de muito anti-jogo, sempre permitido por João Pinheiro, que amarelou o guarda-redes ainda na primeira parte, para o deixar fazer o que lhe apeteceu durante a restante hora de jogo - arrefecer o jogo e mantê-lo de feição. Até ao fim!
Na verdade o Benfica dispôs de uma ou duas oportunidades de golo. Poderá até ter ficado mais um penálti por marcar. Mas daí até poder dizer-se que o Benfica alguma vez jogou para merecer disputar a final de sábado, com o Vitória de Guimarães, vai a distância entre a realidade e a ficção. O terceiro golo do Braga, que arrumou com o jogo, ainda antes do João Pinheiro, por protestos, mais que justificados, expulsar Otamendi, é revelador da falta de consistência da resposta da segunda parte. É que só não foi um auto-golo do Tomás Araújo, na cobrança de um livre lateral, porque Trubin defendeu. Para a frente, para Lagerbielke encostar.
Portanto, a final da Taça da Liga terá um dérbi, como era esperado, mas é o do Minho.
Noite de chuva na Luz, como sempre com casa cheia. Ou bem perto disso, ali à beirinha dos 60 mil. E também noite de um grande jogo. Ou bem perto disso, também.
O Estoril é uma das poucas boas equipas do campeonato nacional, que pratica um futebol de qualidade como poucas. Três grandes, e quarto grande, à parte sobram os dedos de uma mão para encontrar equipas que joguem à bola. E ainda assim, dentro dessas, sobressaem claramente o Estoril e o Gil Vicente.
Já o tinha mostrado no Dragão, com um banho de bola ao Porto, numa derrota (0-1) de todo imerecida, e na Amoreira, no jogo com o Sporting, noutra derrota, por igual expressão, ambas com dedo das arbitragens. Curiosamente, no confronto com os quatro grandes foi, no jogo que ganhou ao Braga, que fez a exibição menos exuberante.
O Benfica entrou com algumas alterações no onze. Para o lugar de Enzo Barrenechea, lesionado no treino - que provavelmente lhe valerá o afastamento por vários jogos - avançou Manu, a quem falta ainda, e naturalmente, algum ritmo. No aquecimento lesionou-se António Silva, que tinha acesso directo ao onze para este jogo, ficando o Tomás Araújo impedido de descansar. Prestiani - o diamante que entusiasma as bancadas, mas que continua com muito por lapidar - jogou na ala direita, com Aursnes, à beira do esgotamento, no banco. Do outro lado, como quase sempre, Sudakov. Peixe fora de água. Regressado em Braga, Barreiro lá continuou nas costas de Pavlidis, hoje de hat-trick.
O Estoril entrou com os seus craques - Jandro, Begraoui, João Carvalho, Guitane e Holsgrove - e decidido a pegar no jogo. E pegou. Na primeira metade da primeira parte só deu Estoril. O Benfica, num registo de bola ganha bola perdida, falhava passes, não definia bem os lances e não conseguia conter as transições do Estoril. E assim, quando parecia que iria pegar no jogo, que daquela é que era, lá voltava o Estoril à mó de cima.
A partir do equador da primeira parte o jogo começou finalmente a mudar de figura. De um momento para o outro o Benfica passou a conseguir acertar a pressão, a errar menos passes, a dar fluidez e alguma intensidade ao seu futebol, e a criar as primeiras condições para marcar.
Depois, desta vez valeu o VAR.
O árbitro Anzhony Rodrigues, que já tinha feito vista grossa a um penálti sobre o Prestiani, voltou a assobiar para o lado num lance para dois penáltis. Primeiro por carga sobre Otamendi, logo seguido de corte da bola com a mão. O VAR optou pelo segundo, que o Pavlidis converteu, com categoria, nove minutos depois, aos 34!
O Benfica detinha o domínio completo do jogo, era dono da bola. Não era uma exibição de luxo, que isso continua fora das possibilidades da equipa, mas era a suficiente para dominar o jogo e o valoroso adversário. Sob todos os aspectos: posse de bola a subir para os 65%, remates a sucederem-se, onze ao todo. Mais ainda, muitos mais, os que ficavam bloqueados na linha defensiva canarinha.
Com alguma naturalidade, já no período de compensação, a passe de Barreiro, Pavlidis pintou uma obra de arte. Um golo fantástico, que naquela altura, em cima do intervalo, e naquela conjuntura de quem tinha virado o jogo do avesso, seria o verdadeiro golo da tranquilidade.
Só que, mais uma vez, lá veio o tiro no pé. Na resposta, na única vez em que, em quase meia hora, chegava à área de Trubin, o Estoril marcou. Por acaso também um belo golo, do João Carvalho. Que festejou, e bem!
As bancadas perceberam o perigo daquele golo, que ficou bem à vista logo no arranque da segunda parte. E o fantasma dos empates na Luz foi-se sentando nas bancadas.
Valeu que o Estoril não foi capaz de repetir os primeiros vinte minutos. Teve mais bola, mas não conseguiu fazer mais com ela. Pelo contrário, fez muito menos. Ainda assim, o fantasma só abandonou as bancadas com o terceiro golo de Pavlidis, faltavam pouco mais de 10 minutos para o jogo acabar. Pouco antes Mourinho tinha feito as primeira substituições, retirando Sudakov (é uma pena que, o grande jogador que se vê em cada pormenor, renda tão pouco) e Prestiani (outra pena!) para estrear a primeira contratação de inverno, o Sidny Lopes Cabral, e arriscar em Aursnes, para segurar o resultado.
E o jogador que veio do Estrela da Amadora não perdeu a primeira oportunidade para uma boa primeira impressão, e construiu o golo com que Pavlidis chegaria a mais um hat-trick.
PS: Acabou por me faltar - falta imperdoável - referir a ovação a Pizzi, quando entrou em campo, aos 77 minutos, a mostrar que os benfiquistas não esquecem os seus heróis. O fantasma ainda estava sentado na bancada, e até ele aplaudiu. Talvez por isso tenha sido ainda maior que a destinada a Pavlidis, 10 minutos depois, quando saiu para os aplausos e a entrada de Ivanovic.
Nesta terceira deslocação ao Minho do campeonato, na penúltima jornada, o Benfica tinha de enfrentar um grande Braga. Aquele que deu um banho de bola ao Porto, no Dragão, e que empatou em Alvalade, com todo o mérito. Quis a Comissão de Arbitragem que tivesse também de enfrentar o árbitro João Gonçalves, mais um especialista na arte de roubar o Benfica (basta lembrar, só no último campeonato, o AFS-Benfica, o Benfica-Famalicão e o Estoril-Benfica) e nos arranjinhos ao Sporting, com o canto fantasma que lhe deu três nos Açores ainda fresquinho. E o Tiago Martins, que dispensa apresentações, com a espinha da final da Taça atravessada na garganta dos benfiquistas.
Começo por aqui simplesmente porque, conhecidas as nomeações, não ouvi ninguém do Benfica dizer o que quer que fosse sobre o assunto. Porque o Benfica "come e cala", como já o próprio Mourinho tem que vir a público dizer. E por isso ninguém se pode espantar com o que lhe acontece.
Agora o jogo: o Benfica entrou com o onze tipo, com Barreiros de regresso à equipa, e Prestiani ao banco. E entrou bem, com um início tranquilo, só perturbado quando Dahl resolveu encetar uma série de asneiras que iriam marcar a mais desastrada exibição individual da primeira parte.
Tudo começou quando, sem grande pressão, resolveu ganhar um lançamento lateral chutando a bola contra as pernas do adversário. Saiu-lhe mal, como tudo acabaria por lhe sair mal sempre que, defender, que é a sua primeira responsabilidade, era a sua obrigação, acabando por ser manteiga quente para a faca afiada de Zalazar.
Desse primeiro premonitório erro resultaram os primeiros calafrios junto da baliza de Trubin. E a inversão completa do sentido do jogo. Não sei se por terem minado a confiança dos jogadores do Benfica, se por lhes ter sabido a banho de humildade em modo de complexo de inferioridade. Sei é que foram ouro para a auto-estima dos de Braga, e para lhes encher o ego de confiança.
A partir daí o Braga passou a dono e senhor do jogo, a fazer lembrar o que tinha feito ao Porto, no Dragão. Com uma diferença: não conseguia criar oportunidades de golo.
O Benfica demorou a reagir à superioridade do adversário. Tanto que só conseguiu o primeiro remate aos 25 minutos, o primeiro de muitos, e quase todos desastrados, de Rios. Quando, três ou quatro minutos depois, fez o segundo, na resposta de cabeça de Otamendi ao exímio pontapé livre de Sudakov, e abriu o marcador, o Benfica apenas ainda tentava equilibrar as forças em confronto.
Pensou-se então que aquilo a que se chama sorte do jogo tinha caído para o Benfica. E que, a partir daí, era só controlar, coisa que os últimos jogos mostravam que a equipa sabia fazer bem. Durante 10 minutos, e até porque o Braga continuava sem conseguir construir situações de golo, pareceu que assim seria. Só que bastaram cinco minutos, os últimos da primeira parte, para o Benfica voltasse aos erros que oferecem golos.
Primeiro foi Dahl a voltar a falhar, desta vez na disputa da bola nas alturas, chegando atrasado e acabando por levar com a bola no braço. Penálti, que o excelente Zalazar converteu com classe no golo do empate. O golo da reviravolta resultou de um festival de asneira. Começou numa desatenção de Aursnes, lá na direita, a trair a linha de fora de jogo que permitiu, no outro lado, a um jogador do Braga dar sequência a uma bola recuperada. Passou pela enésima banhada de Zalazar a Dahl, comido de cebolada mais uma vez, e acabou com Rios, bem posicionado dentro da área, a interceptar o cruzamento do uruguaio mas, inexplicavelmente, a querer sair a jogar. Escorregou - ou fez-se de escorregado quando viu que já tinha perdido a bola? - e a classe de Pau Víctor fez o resto.
Ninguém poderia dizer que, face ao que cada uma das equipas jogou, o resultado ao intervalo não fosse justo. Mas poderia dizer-se que o Benfica entregara o ouro ao bandido. Que, mesmo que tivesse jogado mais, e melhor, o Braga não tinha criado mais oportunidades de golo.
Na segunda parte tudo mudou. Mourinho não mexeu no onze, manteve até o Barreiro, que nunca se tinha encontrado com o jogo, e o Dahl destroçado às mãos (aos pés) de Zalazar, mas foi outro Benfica. Pegou no jogo, e não o largou mais.
Foi preciso pouco tempo para mexer também no marcador. Bastaram 8 minutos de superioridade clara para Aursnes mostrar a Rios como se faz, com um grande golo, num excelente remate fora da área, descaído sobre a direita. E as oportunidades de golo passaram a suceder-se a um ritmo tão avassalador quanto a exibição do Benfica. De tal forma que, ainda antes de esgotado o primeiro quarto de hora, Vicens lançou mão do truque da lesão do guarda-redes.
Não lhe valeu de muito. Nada quebrava o Benfica da segunda parte. Ao Braga valia o (também excelente) guarda-redes Hornicek, que ia defendendo tudo o que lhe aparecia pela frente. E valeram ... claro, aqueles senhores com que comecei, lá em cima.
João Gonçalves foi sempre habilidoso, na forma do costume, mas só isso. Na primeira oportunidade, aos 73 minutos, anulou o golo limpo de Dahl. Do 2-3, da vitória. No VAR, Tiago Martins chamou-lhe um figo!
O jogo teve mais peripécias, incluindo a expulsão, tardia, já no fim, do Ricardo Horta, o Benfica mais oportunidades para ganhar o jogo, mas é mais este golpe, hoje decisivo no afastamento definitivo do Benfica dos dois primeiros lugares do campeonato, que fica. Depois de direcção do Benfica ter deixado passar em claro mais uma nomeação provocatória, de nada vale o que agora venha dizer.
Quase 60 mil na Luz em mais um regresso ao campeonato, desta vez depois da jornada da Taça de Portugal, que ficará célebre pelo jogo nos Açores, com o João Pinheiro, aos 90 minutos, a afastar o Santa Clara em (escandaloso, mais um) favor do Sporting.
O Famalicão, uma das poucas boas equipas da nossa triste Liga, entrou no jogo, pegou na bola e parecia que não a queria largar. E fez disso um verdadeiro cartão de visita nesta passagem pela Luz.
Não conseguiu prolongar por muito tempo essa entrada, mas manteve essa ambição durante os primeiros 6 ou 7 minutos. Foi ainda capaz de regressar a esse registo por mais uns breves minutos, ali por volta de meio da primeira parte e, dado que o resultado se manteve em aberto até ao fim do jogo, nos vinte minutos finais.
No resto do jogo, sem que nunca tenha atingido um nível muito superior ao sofrível, o desempenho do Benfica foi seguro e consistente. Portanto, no fim do jogo, tivemos um Famalicão atrevido num quarto do jogo, e um Benfica a dominar, a controlar, e claramente por cima do jogo, nos restantes três quartos.
Quando, na maioria absoluta do tempo, o Benfica dominou o jogo, o Famalicão defendeu como normalmente defendem os adversários na Luz - com duas linhas de cinco, muito juntas e quase impenetráveis. Quando o Famalicão quis assumir maior protagonismo, e sair lá de trás, revelou então que tem bons jogadores, boa organização e capacidade táctica para ocupar bem os espaços. Numa e noutra circunstância, o Famalicão usou e abusou de faltas. E da dureza.
Como é histórico, e transversal a praticamente todas as equipas da Liga, também o Famalicão tem um rapazinho, formado no Porto, que tem como tarefa principal arrear com força nos jogadores do Benfica. No caso tem o número 17, e chama-se Rodrigo Pinheiro. E cumpriu com zelo a função que lhe foi atribuída. Que o digam Sudakov e Dahl!
O Benfica marcou no auge do seu primeiro período de domínio, à passagem da meia hora de jogo, quando já o podia ter feito por duas vezes. Primeiro por Sudakov, quando acabara de dar a volta à entrada do Famalicão, logo aos 12 minutos. A segunda, aos 24, por Dahl.
De penálti, cobrado com mestria por Pavlidis. Que as más línguas correram a querer comparar com a aberração que aconteceu nos Açores, na passada sexta-feira. Querem - queriam - fazer crer que a cotovelada que Otamendi levou na cara tem alguma coisa a ver com aquilo do Hyulmand, nos Açores. Ou que, o processo de intervenção do VAR, tem alguma coisa a ver com o escândalo dos 14 minutos dos Açores. Mas enfim ...
A primeira metade da segunda parte voltou a ser de domínio benfiquista. Dedic - numa grande jogada individual - podia ter marcado, o que seria um grande golo. Mas a bola saiu ligeiramente ao lado. Aursnes falhou um cabeceamento em cima da linha de golo. E voltou a falhar, isolado, ao permitir a defesa ao guarda-redes, quando tinha Pavlidis ao lado, e à frente da baliza.
A partir dos 70 minutos o Famalicão voltou a ter bola. As bancadas sentiram o momento, e puxaram pela equipa. Ao contrário do que, mal, passariam a fazer mais tarde, quando o Benfica passou ostensivamente a defender o escasso 1-0. Como não tinha feito das outras vezes, nos outros tantos empates concedidos nos períodos de compensação, que decididamente complicaram as contas para esta época.
Não foi um Benfica exuberante, mas foi um Benfica muito competente este que, hoje, no mau relvado do velhinho S. Luís, assegurou a passagem aos quartos de final da Taça. Que, provavelmente - mas também o Sporting, se amanhã for capaz de ultrapassar o Santa Clara, esperaria encontrar o Vitória de Guimarães e, afinal, se lá chegar encontrará em Alvalade o fofinho AVS - terá de disputar no Dragão, com o Porto.
José Mourinho apresentou um onze bastante diferente do que vem sendo a equipa tipo, com Samu - o guarda-redes das taças - na baliza, António Silva de regresso, como Tomás Araújo, também de regresso, mas... à lateral direita. No miolo manteve Rios, mas com a companhia do regressado Manu, titular e até a jogar o tempo todo. Nas alas Prestianni (na direita) e Schjelderup (na esquerda) e, atrás de Ivanovic, Sudakov. Seis novidades - Samu, António Silva, Manu, Prestianni, Schjelderup e Ivanovic - com cinco - Trubin, Dedic, Enzo, Aursnes e Barreiro (lesionado) - habituais titulares de fora.
Quis o diabo que, destes, dois - Aursenes, pouco depois da meia hora, para substituir Sudakov, lesionado e vítima da agressividade maldosa (a mesma que víramos, no passado domingo, em Moreira de Cónegos) de alguns jogadores do Farense, e Trubin, ao intervalo, porque também o Samu se lesionou - tivessem de jogar a maior parte do tempo. Em contrapartida - ao diabo, claro -, Enzo, que nos planos de Mourinho teria de entrar quando Manu já não pudesse mais, pôde descansar.
Como comecei por dizer, sem ser brilhante, o Benfica foi competente. Confirmou que está consistente e competente, e isso não é pouco.
Desde cedo - o Farense empertigou-se nos dois minutos iniciais mas, se nem sequer foi sol, nem poderia ter sido de "pouca dura" - se assenhorou do jogo, e nunca permitiu que ele resvalasse para zonas de desconforto. O golo nem sequer tardou muito. À passagem do minuto 10 Rios marcou, num lance - livre lateral que Sudakov cobrou para o segundo poste - de laboratório.
O golo foi uma espécie de visto para a tranquilidade e para a paciência na posse e na gestão da bola, e esses os factores que diferenciaram o futebol do Benfica, permitindo-lhe diversas ocasiões para novos e mais golos. Sucessivamente desperdiçadas.
A mais clara, um quarto de hora depois, no penálti que Otamendi falhou. É o segundo consecutivo, nesta competição, pelo que será estranho se continuar a ser a alternativa a Pavlidis para a cobrança das grandes penalidades. Mas também Prestianni e Schjelderup dispuseram de excelentes oportunidades para aumentar a vantagem. Ivanovic ainda chegou a marcar, mas o golo foi (bem) anulado por fora de jogo.
Da primeira parte, duas más notícias: o resultado, escasso para o que a equipa jogara, e a deixar em aberto um jogo que já deveria estar fechado; e a lesão de Sudakov. Que poderá - não sei, nem faço ideia - não ser igual à de Barreiro, mas resultou de uma entrada tirada a papel químico. Parece que abriu em Portugal a caça aos jogadores do Benfica.
A segunda parte arrancou com uma falta grosseira sobre Ivanovic, à entrada da área e já isolado em frente ao guarda-redes contrário. O árbitro, a encomenda Hélder Malheiro, assinalou falta fora da área (bem) e puniu o defesa do Farense, que tinha acabado de entrar, com o cartão amarelo. O VAR entendeu, porque viu bem que o Ivanovic estava isolado e perante uma clara oportunidade para marcar, que o cartão a aplicar seria o vermelho. A encomenda do apito foi ver o lance, mas ... claro: manteve a sua!
Seria de novo à passagem do minuto 10 que chegaria o golo. O segundo, do 0-2 que vai sendo a matriz dos resultados da Taça. Obra de Ivanovic que, depois de um passe bem medido para o remate fortíssimo de Dahl, que o guarda-redes (em grande defesa) sacudiu, foi finalizar na pequena área, numa recarga oportuna.
Um golo importante para decidir o resultado. Mas mais importante ainda para o ponta de lança croata, a afirmar-se e a confirmar que conta. Mesmo!
Daí até ao fim foi mais do mesmo, com o Benfica a controlar o jogo em absoluto. E com mais uma estreia na equipa principal: Daniel Banjaqui, o lateral direito desta fornada de campeões europeus e mundiais de sub-17 por Portugal.
No último lance, no último dos dois cantos consecutivos que logrou, o Farense marcou, com a encomenda a validar de imediato o golo. Valeu o VAR, a chamá-lo para ver o empurrão ao António Silva que permitiu o cabeceamento para o golo. Desta vez Hélder Malheiro não teve como manter a decisão.
Se todos os jogos são de elevado grau de dificuldade para o Benfica, pelos obstáculos colocados pelos adversários, mas, mais ainda, porque já não tem qualquer margem de erro, este, em Moreira de Cónegos, era mesmo um jogo muito complicado, e tido por muito difícil mesmo.
Era vários os factores que complicavam a vida ao Benfica. Era o peso da história recente - o Benfica não ganhara ao Moreirense nos últimos cinco jogos -, era a qualidade da equipa treinada pelo já bem visível Vasco Botelho da Costa, eram os resultados - em casa o Moreirense tinha melhores resultados que o Benfica, ganhara todos os jogos, e apenas perdera com o Porto e empatara com o Famalicão -, e era o campo, de medidas mais reduzidas, um grande handicap a este futebol do Benfica, de Mourinho. Que precisa de espaços como de pão para a boca.
Daí a grande expectativa que rodeava esta segunda deslocação do Benfica ao Minho.
José Mourinho repetiu dez jogadores do onze inicial da passada quarta-feira, na Luz, contra o Nápoles. A alteração foi o regresso de Pavlidis ao onze, e o de Ivanovic ao banco, a confirmar a ideia que essa tinha sido a única alteração estratégica no jogo da Champions, e que o Tomás Araújo está de novo a ganhar espaço ao António.
Mesmo que o Benfica tenha entrado bem no jogo, até forte nos minutos iniciais, rapidamente o jogo começou a deixar a ideia que o campo era tão pequeno que facilmente o Moreirense o ocupava todo, pressionando por todo o lado, às vezes até a sugerir uma marcação individual pelo campo todo. Durante a metade inicial da primeira parte parecia que, enquanto os jogadores do Moreirense pressionavam com tudo, todos, em todo o lado, os do Benfica pressionavam ... com os olhos.
Curiosamente desta diferença de comportamento não resultaram grandes desequilíbrios, e o único cheirou a golo veio de Pavlidis, aos 11 minutos. Apenas por um curto período de cerca de 5 minutos, ali à entrada do segundo quarto de hora, o jogo caiu para o lado do Moreirense. Ainda assim, nem nesse que foi o seu melhor período em todo o jogo, o Moreirense conseguiu ameaçar a baliza de Trubin. O que então conseguiu foi deixar a ideia que seria muito difícil ao Benfica controlar o jogo.
À medida que o jogo ia correndo - e às vezes até endurecendo, com os jogadores do Moreirense a ultrapassarem as marcas (antes da meia hora já o sérvio Stjepanovic tinha arrumado com o Barreiro), com a condescendência da encomenda Hélder Carvalho, que fez ainda vista grossa a um penálti claro sobre Pavlidis, logo no arranque do jogo - o Benfica foi acertando posições e foi gradualmente invertendo o efeito da pressão. De pressionado, o Benfica passou a pressionador.
A pressão continuou a mandar no jogo. Só que mudara de sujeito. Ficou a ideia que, enquanto pressionaram com os olhos, os jogadores do Benfica estavam afinal a ver como se fazia. Aprenderam ... e pronto. Resolveram o jogo!
Acertando a pressão sobre o adversário o Benfica construiu o resultado, e a superioridade incontestável num jogo, deste grau de dificuldade, em que criou oito oportunidades de golo, sem consentir uma única. Mais do que consequência directa da pressão sobre o adversário e a bola (como acabariam por ser os restantes três), o primeiro golo, a cerca de 10 minutos do intervalo, Pavlidis, de cabeça, a cruzamento de Aursnes, é consequência da nova dinâmica que essa pressão trouxe à equipa.
Para a segunda parte, Barreiros, lesionado, foi substituído pelo miúdo Rodrigo Rego, provocando alterações em três posições, Aursnes saiu da direita, para onde passou o miúdo, para esquerda, donde saiu Sudakov, para o lugar de Barreiro. Sendo Barreiros uma peça chave na pressão alta, não se notou a sua falta. Pelo contrário, a dinâmica melhorou.
O Moreirense ainda deu sinais de querer voltar ao jogo. Teve bola e conseguiu até uma série de dois cantos consecutivos. Ficou-se por aí, o que contava para decidir o jogo era mesmo a pressão. Que se decidiu ainda antes de esgotado o primeiro quarto de hora, com Aursnes a recuperar a bola na saída do Moreirense para o ataque, e a assistir Pavlidis para o segundo.
O terceiro e o quarto, esses sim, resultaram directamente da pressão sobre a saída de bola do Moreirense. No terceiro, no hat trick, Pavlidis interceptou o passe do defesa (Gilberto), para rematar de imediato. No quarto foi Aursnes a interceptar o do guarda-redes, André Ferreira, para marcar um golo de grande categoria, fechando o resultado, e dando ainda tempo para lançar os reforços de inverno: Manu e José Neto.
No fim o Benfica confirmou que, mesmo sem atingir níveis exibicionais de superior qualidade, que de resto ninguém espera, está a melhorar, em muito, na consistência. Os processos estão a ficar consolidados, e essa é a melhor notícia destes últimos jogos.
Enquanto a Matemática o permitir ... Era esta ideia simples que alimentava a Luz, não cheia como um ovo, mas vibrante e muito bem composta. Antes de tudo, em primeiro lugar, era preciso manter viva a chama da ... Matemática.
A chama imensa, com que os jogadores do Benfica entraram hoje no relvado da Luz para defrontar o campeão italiano, e líder da série A. A Matemática também é isso, nem sempre é fria, exacta e implacável. Às vezes alimenta sonhos ...
Mourinho apresentou duas novidades no onze inicial, se bem que apenas uma surpresa. A de Ivanovic, no lugar do titularíssimo Pavlidis. Percebia-se daí que o plano de jogo passaria por uma contenção mais recuada, cabendo ao ponta de lança croata a tarefa de acrescentar profundidade. O jogo encarregou-se de mostrar que era bem mais que isso que Mourinho esperava de Ivanovic.
A outra novidade, Tomás Araújo no lugar de António Silva, não foi surpresa. Justificar-se-ia pela maior velocidade do Tomás, mas talvez encontremos a justificação no dérbi da passada sexta-feira.
O Benfica entrou muito bem no jogo. Muito compacto, mas também a confundir e a baralhar os jogadores do campeão italiano, que não atinavam com as marcações, eram sucessivamente surpreendidos em todas as zonas do campo, e passaram a cometer erros com que António Conte nunca contaria.
À passagem dos primeiros 10 minutos um enorme passe de Sudakov isolou Ivanovic que, com tudo marcar, permitiu a defesa ao gigante Milinkovic-Savic. A bola ficaria ainda viva para, na recarga, Aursnes fazer o golo que o colega desperdiçara. Rematou a rasar o poste, gorando-se a segunda grande oportunidade de golo no mesmo lance. Repetiu tudo pouco depois, quando, na cara do guarda-redes Milinkovic-Savic rematou à malha lateral da baliza uma bola que o próprio lhe tinha entregue de bandeja, num daqueles erros que o Benfica tinha forçado o Nápoles a cometer.
Nem deu tempo para as bancadas lamentarem tanto e tamanho desperdício porque, logo a seguir, um minuto depois, aos vinte, o Benfica marcou. Depois de um cruzamento de Dahl, e de McTominay e Ivanovic a terem disputado, de cabeça bem dentro da área do Nápoles, a bola sobrou para Richard Ríos, em pantufas, a desviar para dentro da baliza.
O golo, que o Benfica mais que já justificara, pouco mudou o jogo. Os dados estavam lançados, e assim continuaram. O Benfica controlava um jogo em que o Nápoles continuava meio perdido. Jogava claramente melhor, mesmo que volta e meia se percebesse a grande qualidade, individual e colectiva, dos napolitanos.
Ao intervalo António Conte mexeu na equipa, e renovou as alas lançando Politano, para a direita, e Spinazzola, para a esquerda. Parecia que a alteração iria produzir efeitos imediatos. A qualidade dos dois novos alas, somada à de Neres - que passou para a esquerda - e Di Lorenzo que se manteve na direita, era suficiente ameaçadora para o Benfica.
Só que, na primeira saída para o ataque, ainda antes de esgotados os primeiros cinco minutos, numa espectacular jogada de futebol, uma combinação entre Ivanovic e Richard Ríos (homem do jogo) acabou num desvio de calcanhar de Leandro Barreiro, na pequena área napolitana, a enganar Milinkovic-Savic e a fixar o 2-0.
A partir daí o jogo mudou. Conte continuou sucessivamente a mexer na equipa, reforçando o poder ofensivo. E o Benfica recuou, e passou a abdicar de ter bola. Parecia perigoso. Mas na realidade nunca o foi. E voltaram a ser do Benfica as melhores oportunidades para marcar. O 3-0 esteve sempre mais perto que o 2-1!
Pavlidis, já no lugar de Ivanovic, desde a entrada para o último quarto de hora, por duas vezes - aos 80 e aos 84 minutos - poderia ter marcado. E foi Milinkovic-Savic, e não Trubin, quem passou pelos maiores calafrios.
E os 7 minutos de compensação acabaram até na oportunidade para as estreias de Tiago Freitas, e José Neto, o recente campeão do Mundo sub-17. Logo na Champions. E numa vitória tão clara quanto importante!
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