Futebolês #64 BLACKOUT
Mais um anglicismo do futebolês, a emprestar-lhe um ar cosmopolita: blackout!
Devo dizer que, em jeito de declaração de interesses, que o Quinta Emenda – cujo essência, como se vê aí em cima, assenta na rejeição do direito de ficar calado – não nutre grande simpatia pelo blackout. Recusar ou negar voz não é muito bem visto por aqui!
O blackout, e não é por obstinada perseguição que o afirmo, deve estar entre as mais estúpidas, contraproducentes, parolas e reaccionárias atitudes do dirigismo do futebol. Num mundo de comunicação, em que quem não aparece não só esquece – quem não aparece desaparece, deixa de existir – impedir os intervenientes no jogo de o promover e alimentar mediaticamente, é parvo, para utilizar um termo em moda.
Há uma tentação ao blackout a que ninguém tem escapado. Não há aqui quem possa atirar a primeira pedra! Entendendo, como é óbvio, que só quem tem voz pode recusar-se a usá-la. E, no futebol, quem tem voz são os ditos três grandes…
O Porto tem sido useiro e vezeiro a deitar mão ao blackout. Ora em blackout absoluto ora em blackout selectivo! Que é como quem diz, ora de bico calado e não há nada para ninguém, ora quando, como nos porcos de Orwell, uns jornais ou umas televisões são mais iguais que outros.
O Porto, acho que deveria dizer Pinto da Costa, usa este recurso na maioria das vezes por birra. Mas também o usa como arma de mobilização e como instrumento de revolta, como diria agora André Vilas Boas, o novo mestre do boné lá da casa e grande partenaire de Pinto da Costa nesta arte de criar inimigos para manter as hostes fiéis e mobilizadas.
Mas Pinto da Costa não usa o blackout de uma forma assim tão parva quanto possa parecer. Por uma razão simples: é que, também aqui, põe e dispõe conforme muito bem entende! “Agora ninguém fala” – e deixa jornalistas e repórteres pendurados. “Agora quero dizer o que me apetece” – e lá vão todos a correr! O blackout segue dentro de momentos…
Consegue assim como que a quadratura do círculo. Não desaparece!
Aparece e desaparece como que por magia! Ou pela parva figura a que a comunicação social se presta.
De resto a comunicação social, quando se trata de Porto (ou de Pinto da Costa, já não sei bem) presta-se a muitas figuras parvas. Como ainda no passado domingo, logo no fim do jogo com o Braga, quando o Vilas Boas encomendou uma pergunta para poder aproveitar o curto período do flash interview a falar do Benfica. A pergunta lá saiu, mas tão atabalhoada, tão sem jeito que até parecia que o repórter cantarolava os Deolinda: “Que parvo que sou”…
Não admira: a comunicação do Porto esgota-se no Benfica. O Pinto da Costa não consegue construir uma frase que não meta o Benfica. Nem a declamar! O Vilas Boas está igualzinho!
O Sporting também já ensaiou o blackout. Mas nem isso lhe sai bem. Desistiu disso como desistiu de tudo o resto…
O Benfica também não foi nisso muito bem sucedido – nem na iniciativa gémea de convidar os adeptos à abstinência nos jogos fora de casa (fora de casa, mais uma expressão do futebolês que por aqui ainda haverá de passar, que não quer dizer na rua - quer dizer, no caso, fora da Luz) – mas tem a vantagem de ter uma televisão própria. Pode dar-se ao luxo de falar só para a sua TV!
Confesso, aqui que ninguém nos ouve, que o Benfica não faria nada mal se declarasse o balckout do Jesus. Então o homem vem dizer que os alemães estavam a tremer de medo? Depois foi o que se viu – uma primeira parte em que eles, com tanto medo, nem deixaram o Benfica respirar. Agora até já é o Javi Garcia a pôr também o Sporting a tremer…
Tenho uma ideia que, essa sim, justificava os exclusivos da Benfica TV: faziam a dobragem do Jorge Jesus com … sei lá … o José Nuno Martins. Não, o João Gabriel também não!
Ah! E aí está o derbi: sem medo, Javi! Estás cá há muito pouco tempo para saberes o que é um Sporting – Benfica… Ninguém tem medo de ninguém e, por regra, ganha quem está pior!
Claro que é regra haver excepção à regra. É o que vai acontecer!