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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

BOLA DE BERLIM

Por Eduardo Louro

 

Não resisto, na praia, a uma bola de Berlim, com creme; de preferência muito, a sair daquela abertura e a escorrer por entre o açúcar. Bola de Berlim, para mim, rima com praia; não me imagino de volta de uma coisa daquelas à mesa do café, da pastelaria ou da esplanada. Nem pouco mais ou menos!

Da mesma forma que, sendo eu um fanático dos pastéis de nata, nunca me imaginaria a comer um pastel de nata na praia. É assim mesmo, há coisas que têm destinos marcados. Nasceram para aquilo e não resultam noutras circunstâncias!

Se há coisas que são só minhas – as minhas manias (e são tantas…) – não me parece que seja o caso desta. Sem que, para o efeito, tenha efectuado qualquer estudo, não tenho dúvidas em afirmar que a maior parte do consumo de bolas de Berlim ocorre na praia: há dados empíricos que são como o algodão; não enganam!

Admito que qualquer estrangeiro, que provavelmente conhece muitas outras – a Berliner, a alemã donde lhe vem o nome, a da Polónia, a da Áustria, a de look mais semelhante à nossa, a da Ucrânia ou a de Israel -, ache isto a coisa mais estranha do mundo e que vendo a malta, de dentada na bola e com a boca cheia de açúcar, a torrar ao sol, pense com os seus botões que não há quem entenda estes portugueses. Se a bola de Berlim tem tudo – frito, óleo, creme, açúcar – o que as boas práticas alimentares condenam, tem também tudo o que, à partida, faria dela um bolo de inverno. Nunca de Verão e menos ainda de praia!

Mas é assim e eu diria que é cada vez mais assim. A bola de Berlim é hoje a rainha das praias, dando uma autêntica banhada aos gelados, à razão de um para cinco: por cada vendedor a anunciar o velhinho “olhó gelado…rajá fresquinho” (Rajá confundia-se com o produto – o gelado era um rajá, como uma máquina de barbear é uma Gillette - e o pregão permaneceu mesmo após o desaparecimento da marca) há cinco a apregoar – nos mais variados sotaques, do português com açúcar dos brasileiros ao português frio do leste europeu) – “bola de Berlim, olha à bolinha”!

A bola de Berlim e a praia há muito que casaram. É, ao contrário dos outros, um casamento duradouro e, com já referi, cada vez mais sólido. Tempos houve em que as bolas de Berlim nos eram servidas por umas mãos claramente divorciadas da higiene. Depois veio a tenaz e, mais tarde, a verdadeira perseguição da ASAE. Creio que terá mesmo sido o fundamentalismo inquisitorial da ASAE que criou a autêntica instituição que é hoje a bola de Berlim. O povo saiu à rua, a reacção não passou, e a bola de Berlim aí está, mais forte que nunca! E mais higiénica, é bom que se diga!

Há sempre coisas boas que ficam das guerras. Desta guerra ficou um cartuchinho e um lenço de papel!

Foi neste cartuchinho branco e neste lenço de papel que este Verão descobri os resquícios de uma invulgar campanha de marketing: a Optimus (será que com o acordo ortográfico terá de mudar?) resolveu aproveitar aqueles espaços, alvos e virgens do cartuchinho e do guardanapo, para a sua publicidade. Não para transmitir uma qualquer mensagem publicitária, das mais estapafúrdias às mais inteligentes que saem da cabeça dos criativos, mas para, pura e simplesmente, se apresentar como patrocinador oficial da bola Berlim!

Ora aí está o que faltava: uma marca de telecomunicações arvora-se em patrocinador de uma instituição como a bola de Berlim. Qualquer dia teremos a Vodafone a patrocinar a Torre de Belém, a TMN o pastel de Belém, a ZON o cozido à portuguesa, a MEO as ondas da Ericeira ou a PT a neve da Serra da Estrela!

Por curiosidade e porque acho que esta gente da comunicação e do marketing sabe o que faz, fui tentar saber mais sobre esta campanha. Vai já no segundo ano e percebi que a ideia é que o público, que associa o Verão à bola de Berlim, passe também a associá-lo á Optimus.

Bem me parecia que Verão é praia e praia é bola de Berlim… Que é óptima! Mas ... Optimus?

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