Bastou pouco mais de um mês à frente dos destinos ingleses para Liz Truss confirmar toda a sua história de vida. A história de que todos os caminhos servem para quem não sabe para onde vai!
Ao longo da sua vida política Liz Truss foi tudo e o seu contrário. Quis ir a todo o lado, e a lado nenhum. Em pouco mais de um mês no nº10 de Dowing Street só não fez asneira nas primeiras duas semanas, enquanto esteve quietinha, com a nação entretida no longo funeral da rainha.
Já vai no segundo ministro das finanças, Jeremy Hunt. Que, com o mundo a desabar-lhe em cima, o primeiro anúncio que fez foi o de fazer "tudo ao contrário" do seu antecessor - Kwasi Kwarteng, ministro de Liz Truss por um mês.
Os ingleses sabiam que seria assim. Os Conservadores, que por maioria de razão, melhor o deveriam saber, não se importaram; e agora terão de dar-lhe o caminho que acabaram dar a Boris Johnson. Diz-se que estará por dias. Ou até por horas ...
Os 52% que há pouco mais de seis anos, embalados por Boris Johnson, Theresa May e Liz Truss, votaram sim ao brexit, já devem ter percebido que foram enganados. E já não faltará muito para que os ingleses percebam que a União ao continente era a união das ilhas e do Reino.
É irónico que nesta altura seja uma nova estirpe do covid, acabadinha de chegar, a dar-nos uma imagem do Brexit. Sem acordo, agora mesmo a esfumar-se, depois de queimados todos os prazos, incluindo os que já estavam fora de prazo
Irónico não será que Marcelo Rebelo de Sousa, depois de passar todo o mandato a fazer-se à fotografia e ao voto para a reeleição, agora venha dizer que não há mensagem de Natal do Presidente da República porque poderia ser interpretada como campanha eleitoral. É outra coisa qualquer, menos ironia.
Surpreendendo toda a gente, e até a eles próprios, o Sinn Féin ("nós próprios" na tradução do irlandês) chegou a ser dado como vencedor das eleições do passado fim de semana na República. No fim, contas finais e oficiais, ficou com 37 dos 160 lugares do Parlamento, menos 1 que o Fianna Fáil (Soldados do Destino, centro-direita), e mais 2 que o Fine Gael (Família Irlandesa, liberal), do primeiro-ministro Varadkar.
O Sinn Féin é um dos movimentos políticos mais antigos da Irlanda. Vem do início do século passado, e é, por isso, comum às duas Irlandas. Foi o braço político do IRA, o famoso Exército Republicano Irlandês dos atentados terroristas da segunda metade do século XX, e que, de um lado e do outro da fronteira que fez de Theresa May a primeira víitma do brexit, pugna pela unificação irlandesa. E é de esquerda, centro-esquerda, mais precisamente.
Temos dos irlandeses a ideia de excessivamente conservadores e fortemente condicionados pela religião católica. Liberais na economia e no funcionamento do Estado, e profundamente conservadores nos valores, mesmo que o primeiro-ministro ainda em funções, que perdeu as eleições, seja de origem imigrante (também de origem indiana) e homossexual. Daí que a duplicação do resultado eleitoral do Sinn Féin tenha surpreendido toda a gente. Incluindo eles próprios, que apenas tinham concorrido em alguns círculos eleitorais. Se tivessem apresentado candidaturas em todo o país, e projectando os resultados obtidos onde se apresentaram a votos, teriam alcançado condições para governar sozinhos.
Há quem diga que nada disto tem a ver com o brexit. Pode não ter, mas se não tiver a bota não joga com a perdigota. E a verdade é que vai lá dar... Se a um novo referendo sobre a independência da Escócia se juntar o espectro da reunificação política da ilha sob a bandeira da República, isso é brexit!
Chegou hoje finalmente o dia do brexit. É irreversível, a partir de hoje os britânicos não fazem mais parte da União Europeia, um clube onde – pensava-se – só havia quem quisesse entrar.
Os ingleses, que sempre desempenharam o papel principal na História da Europa, e particularmente decisivo no desfecho das duas grandes guerras que rebentaram no continente, e se espalharam pelo mundo, no primeiro terço do século passado, nunca foram verdadeiros entusiastas da integração europeia.
Mesmo que tenha sido Churchill, no final da guerra, a lançar a ideia, a verdade é que se pôs de fora logo que ela ganhou forma (mesmo que seja também verdade que De Gaule sempre lhes fechou a porta), e o Reino Unido já não integrou o restrito grupo dos fundadores da Europa. Entraria mais tarde, em Janeiro de 1973, com a Irlanda e a Dinamarca, e foram 47 anos de permanente turbulência, com um pé fora e outro dentro. E sempre fora da união monetária, a que recusou determinantemente aderir.
Os despojos do seu vasto império colonial, reunidos na Commonwealth, e a imponente praça financeira da sua capital, sustentaram-lhe sempre o pé que deixava de fora, pelo que um desfecho como este teria sempre o condão de não surpreender muita gente.
No entanto parece claro que não seria esta a melhor altura. Porque a Europa se encontra num período de irreversível perda de relevância no contexto mundial, mas também porque esta é uma decisão das gerações britânicas mais velhas, em choque frontal com a vontade dos mais novos.
O Brexit, cujas reais consequências ninguém neste momento consegue avaliar em toda a sua extensão, e baseado em mentiras, falsidades e manipulações várias, surge em pleno contraciclo. Em contraciclo com a dinâmica da História que se vai fazendo neste primeiro quartel do primeiro século do milénio mas, acima de tudo, em contraciclo com a dinâmica natural da própria sociedade britânica.
Com o coronavírus no topo da actualidade, o troglodita André Ventura na capa de jornais internacionais por sugerir a deportação de uma deputada - e o seu partido a subir que nem um balão fugido das mãos de uma criança -, e o IVA da electricidade a dar choque, quase não se deu conta que o brexit está finalmente aí. Irreversível!
Ontem foi dia de despedidas no Parlamento Europeu. De festa, para Farage e o seu séquito, a jurar nunca mais voltar. De angústia para os outros, e particularmente para os escoceses, já anunciarem que vão ter saudades... Como as fotos sugerem.
Segue-se uma nova Europa, se não mesmo um novo mundo!
Curioso é que, de adiamento em adiamento, a data do brexit tenha ficado a coincidir com a do fecho do mercado de inverno do futebol. E por isso chega finalmente ao fim a novela Bruno Fernandes, que acaba por entrar em Inglaterra quando ela própria está a sair. O que, podendo deixar a ideia de algum desencontro, não quer evidentemente dizer nada.
Boris Johnson ganhou as eleições no Reino Unido, numa vitória esmagadora, com maioria absoluta. Tudo normal, e nada que estivesse por completo fora das previsões.
O que já não parece tão normal é o que se vai ouvindo por aí a respeito do senhor. Que o homem é brilhante e que não tem nada a ver com Trumps e Bolsonaros. De comum só tem a mentira. Mente, mas não é ignorante e é mesmo uma mente brilhante. E é muito culto.
Apenas mente, mente compulsivamente. Ser mentiroso já não é nada de criticável num político, nem mesmo no chefe do governo da mais antiga democracia do planeta.
As peripécias do Brexit, em cena há mais de três anos, mostram-nos exuberantemente as diversas faces do populismo, e a da irresponsabilidade em todo o seu esplendor.
À entrada para o fim-de-semana, e cansados de três anos de folhetins sem que a "estória" saia do mesmo sítio, acreditávamos que finalmente União Europeia e governo britânico, ou o que resta disso, tinham conseguido dar corpo a um acordo, e que Boris Johnson seria poupado a fazer-se de "morto numa vala". Estava tudo certo, e só era preciso que o Parlamento britânico, no sábado, aprovasse o acordo finalmente encontrado.
Não aconteceu assim, o Parlamento não se pronunciou sobre o acordo e, em vez disso, aprovou novo adiamento da data do Brexit para Janeiro, obrigando Boris Johnson a formalizar um novo pedido de adiamento, que tinha jurado nunca fazer: "antes morto numa vala". O que esta espécie de criança a brincar aos primeiros-ministros resolveu, numa brincadeira pouco elaborada para a idade, solicitando o adiamento numa carta não assinada, a que juntou outra, essa sim, assinada, a manifestar-se contra o pedido apresentado.
Aquela irresponsável - por impreparada - ideia que David Cameron levou ao Parlamento em 2015, e que conduziu ao referendo de Junho do ano seguinte, deu nisto. E isto não é apenas um impasse que já vai em mais de três anos. É isso, e as ruas cheias de gente contra o Brexit, mas com o miúdo em primeiro-ministro a subir as sondagens. É isso e o fim do próprio Reino Unido em passo acelerado...
Diz-se que, afinal, o Parlamento atrapalhou as contas de Boris Johnson. Não sei se atrapalhou. Impediu-o de avançar com a saída sem acordo e, acima de tudo, impediu-o até de a utilizar como arma negocial com a União Europeia.
Como não creio que se possa acusar os deputados britânicos de impor limites à defesa dos interesses do país, tenho de concluir que entendem que seria uma arma muito perigosa nas mãos daquele primeiro-ministro. Acho que os deputados fizeram bem, o que não quer dizer que Boris Johnson tenha saído definitivamente derrotado.
Da mesma forma que nada do seu plano poder ficou ganho quando avançou para a suspensão do Parlamento, também agora nada ficou decididamente perdido. Pelo contrário, foi até um passo importante para chegar às eleições antecipadas, afinal o grande objectivo do projecto de poder do exuberante primeiro-ministro inglês. Mesmo que, ao anunciar a sua necessidade, tenha dito que era contra a sua vontade, que não as queria.
Acontece que convocar eleições não é prerrogativa incondicional do primeiro-ministro. Terão que ser convocadas por dois terços dos deputados (434 dos 650) ou, em alternativa, na sequência de uma moção de censura. E nenhuma destas condições estão já aqui ao virar da esquina.
No meio disto tudo, a maior vitória de Boris Johnson é, por mais paradoxal que possa parecer, a consolidação do brexit. Quando continua em causa na sociedade britânica, deixou de estar em dúvida na agenda política, e passou a axiomático. Apenas se discute se com, ou sem acordo!
O mundo novo que se abriu há quatro anos com o brexit, e com a eleição de Trump, está aí. À vista de todos, e com tudo à mostra.
Os últimos dias foram ricos em manifestações deste mundo novo. Como se não bastasse o que se passou na reunião do G7, e o que se está a passar na Amazónia, ou o apoio declarado e expresso de Trump à política e à personalidade de Bolsonaro, e ao brexit e a Boris Johnson, assistimos em Itália e no Reino Unido, a dois autênticos golpes de Estado. O primeiro, em Itália, à primeira vista, fracassado. O segundo, à primeira vista, bem-sucedido!
Em Itália, Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro e representante deste novo mundo na paisagem política italiana, derrubou o seu próprio governo para seguir para eleições, atrás das sondagens que lhe prometem o reforço da sua expressão eleitoral e a possibilidade de conquistar o poder neste novo mundo. Saiu-lhe furado. As instituições italianas funcionaram e, em vez das eleições ambicionadas por Salvini, saiu um novo governo do actual quadro parlamentar, pronto a concluir a legislatura.
No Reino Unido, Boris Johnson fez diferente, mas com a mente no mesmo objectivo. Para concluir o brexit até à data de 31 de Outubro, o novo primeiro-ministro britânico e parceiro de Trump, decidiu fechar o Parlamento. Fechado, sem deputados a discutir e a votar, Boris Johnson decide sozinho como e quando abandona a União Europeia. Sendo que o quando é já, e o como é sem acordo. Custe isso o que custar, incluindo a própria integralidade do Reino Unido, porque do outro lado do Atlântico há um tio Sam a acenar com “tremendous” acordos comerciais. Fechado o brexit, parte para eleições. E, com as receitas conhecidas, ganhá-las-á – espera ele. Ele e os seus parceiros deste novo mundo!
Até aqui as coisas parecem correr-lhe bem. Mas ainda não são favas contadas. Há ainda muita coisa que lhe poderá correr mal. E pode até ser que nem corra tudo mal sempre aos mesmos…
No dia em que era suposto os britânicos estarem de malas aviadas da União Europeia, num exuberante bye-bye europe, o seu parlamento está apenas a chumbar pela terceira vez o acordo de saída.
Desta vez Theresa May estava por tudo e, veja-se ao que chegou, prometeu demitir-se em troca da aprovação. Entregou ela a sua própria cabeça. Nem assim, nem já sem cabeça May consegue sair do buraco em que se meteu.
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