Futebolês #89 CANTERA
Por Eduardo Louro
Cantera é uma incursão do futebolês pela língua de Cervantes. Em português corresponderá a centro de formação: de jogadores de futebol, no caso. Ou, em futebolês português, a escolas de formação, agora pomposamente chamadas de academias, designação de que o Sporting se apropriou, como que reclamando a primazia da sua escola no panorama da formação de jogadores de futebol em Portugal. Ou fazendo igualmente jus ao pioneirismo das suas infra-estruturas desportivas, a que chamou justamente Academia de Alcochete.
É provavelmente por toda esta amálgama de conceitos e de sensibilidades que o futebolês acabou por privilegiar a expressão castelhana. É que cantera é muito mais que tudo isso, é uma maternidade de talentos para a prática do futebol. É um forno donde sucessivamente saem fornadas, umas atrás das outras, de jogadores talentosos, identificados com uma determinada cultura e com certa filosofia de jogo.
Era isto que nós gostaríamos que fossem as nossas escolas - chamem-lhes academias, campus ou lá o que quiserem – mas não são. E é porque o não são que também o futebolês preferiu consagrar a cantera.
Antigamente, antes destas expressões surgirem, referíamo-nos aos jogadores formados no clube de uma forma muito simples, que vi recordada um destes dias por um dos nossos habituais leitores, o Adérito Martins: eram os que vinham dos juniores!
Se existem escolas de formação de jogadores um pouco por todo o mundo – de que o Sporting, em Portugal, e o Auxerre, em França, são dois bons exemplos – a verdade é que, canteras a sério, encontramos em Amsterdão, no Ajax, apesar de aparentar já um certo declínio, e em Barcelona, aí sim, em todo o seu esplendor. Basta olhar para a constituição da equipa que vem encantando o mundo de há quatro anos a esta parte, e reparar que lá estão sempre nove ou dez jogadores formados na suas escolas, com a sua cultura e a sua filosofia. Uma cultura e uma filosofia que transportam Messi para patamares extraterrestres, que não confirma ao serviço da seleção argentina, e que alimentam a fantasia da eterna comparação com Cristiano Ronaldo.
Em Portugal abandonou-se a formação, com os clubes a preferirem ir procurar jogadores – uns já formados, outros nem por isso, por esse mundo fora. Agora até já o Sporting! Até as equipas de juniores estão já cheias de jogadores estrangeiros. Daí a enorme bofetada de luva branca que a seleção nacional de sub 20, que discute hoje com o Brasil o título de campeã mundial. Vença ou não esta final já provou aos principais clubes nacionais que estão errados quando todos os anos lhes tapam o acesso às suas equipas! Provavelmente ninguém aprenderá nada com esta brilhante demonstração de capacidade destes jovens e tudo ficará na mesma!
Como na mesma parece estar o campeonato nacional que agora arrancou. Com o Benfica e o Sporting a falharem o arranque – desta feita com o Sporting a ser a vítima da arbitragem – e o Porto, tal como no ano passado, a ganhar com um penalti daqueles que só são assinalados a seu favor. Dizem as estatísticas que, nesta primeira jornada, foram cobrados 96 pontapés de canto e, apenas num único, o defesa agarrou o avançado! E, para que tudo continue na mesma, o Rolando mantém-se como o único defesa com autorização para jogar a bola com a mão na sua grande área!
Para que nem tudo fique na mesma Falcao deixou o Porto, depois de ter renovado o contrato e subido a cláusula de rescisão para 45 milhões de euros. Como de lá ninguém sai sem que seja batido o valor da dita cláusula, lá foi ele para o Atlético de Madrid precisamente por esse valor: o Ruben Micael acompanhou-o como dama de honor, acreditem!
Mas esses já não são milhões da treta! Ou serão? É que o Atlético de Madrid, como ainda há dias dizia Pinto da Costa, não tinha dinheiro para comprar o Falcao e os outros, os que tinham, se o quisessem já se teriam manifestado… Afinal o homem não é infalível! E há mesmo milhões da treta…