Táctica e carácter
Por Eduardo Louro
O Presidente Cavaco Silva voltou a promulgar uma lei vergonhosa – a lei do financiamento partidário – que, curiosamente e num momento como o actual, é o esplendor do regime no seu pior: esta partidocracia que federa os interesses asfixiantes do centrão, justamente o maior responsável pelo estado do país.
Choca-me que o Presidente tenha promulgado, ao contrário do que obviamente devia, uma lei inaceitável e inoportuna. Talvez não lhe tenham sido apresentadas muitas outras, tão inoportunas e tão inaceitáveis, em que o dever de veto fosse tão óbvio, e onde o país pudesse perceber para que serve de facto o Presidente. Mas o que eu não consigo mesmo perceber, nem sequer aceitar, é que, mais uma vez, ele venha dizer que promulgou mas não concorda.
Já assim fizera com a chamada lei do casamento gay. Tacticismo puro, disse-se então. A tão portuguesa esperteza de matar dois coelhos com uma paulada: não afrontaria o loby gay e a esquerda em geral e, expressando o dito sentimento da sua consciência, passaria a mão pelo pêlo ao seu eleitorado natural.
Discordo em absoluto desta tese. Para mim não mata dois coelhos nenhuns: deixa-os fugir a ambos! Por mim não permitiria sequer que a mão se aproximasse do meu pêlo. Para mim isso é uma grande falta de respeito pelo eleitorado. Para além de evidente traição, Cavaco menospreza o seu eleitorado, passando-lhe um autêntico atestado de menoridade. Porque a mensagem é esta: o voto deles está seguro. “Faça eu o que fizer eles lá estão, sempre caninamente fiéis”!
Agora voltou a fazê-lo. Só que desta vez no tabuleiro colocou outras peças. São outros interesses! Mas a mesma estratégia: promulga e não afronta os seus interesses e os dos partidos em que se apoia (sim, apoia-se também no PS e, no fim de contas, quem é que o PS no fundo apoia?), mas diz que discorda para que, mesmo na pele do mais antigo de todos os políticos no poder – está na actividade política há mais de 30 anos –, possa continuar a dizer que não é político profissional e, com toda a candura, que está acima dos partidos. Para o eleitorado não concorda com a lei. Para as máquinas partidárias concorda, aplaude e promulga. Que é afinal o que realmente conta!
Podem achar que não, mas eu acho que há aqui um problema qualquer. E antigo… E é de carácter! Que joga com outro, também bem antigo: a curtíssima memória dos portugueses!