Carlos Moedas foi hoje ouvido no Parlamento Europeu, numa espécie de prestação de provas, na condição de comissário europeu indigitado. Provas - nesse sentido - tanto mais necessárias quanto, pela evidente falta de peso político, o parlamento desconfiava da sua preparação para a função.
Saiu-se bem, dizem. Apresentou-se como um produto do fenómeno de mobilidade social ascendente, imagem de marca da democracia europeia, o que é sempre bonito, e fez a sua mais surpreendente revelação quando disse que esteve muitas vezes em desacordo com a troika.
A surpresa - ninguém nunca deu por nada, antes pelo contrário, alinhou sempre pela ala mais dura do governo, na linha da frente da defesa da troika - deixou de ser surpresa quando se percebeu que, antes, o próprio Parlamento tinha criticado fortemente a intervenção da troika no nosso país. É sempre a mesma coisa: o que é preciso é saber dançar certinho ao som da música de cada momento. Acertar com a música...E isso aprende-se facilmente por Wall Street e pela City...
Afinal, depois de tanta propaganda, não foi Maria Luís Albuquerque quem Passos Coelho escolheu para comissário europeu mas sim Carlos Moedas. Não é grande a diferença, com a particularidade de ser o mais fundamentalista dos discípulos do actual primeiro-ministro. Se calhar, apesar da juventude, paradoxalmente o seu principal ideólogo… Porque bebeu – ou veio do colo – do desaparecido António Borges, da Goldmansachs até ao Gabinete de Estudos do PSD, e porque não há paradoxos que embaracem o chefe do governo!
Representa tudo aquilo em que Passos Coelho acredita, e tudo aquilo que inquestionavelmente serve, e é por isso uma escolha que não surpreende, mesmo depois do número de circo à volta da ministra das finanças.
Quer dizer: o programa cautelar - que Moreira da Silva nem sabe o que é - existe no governo, não existe é no espaço público. E quando vier a existir, Moreira da SIlva diz que não será o CDS a dar-lhe existência. Continua bem a coligação. De boa saúde, recomenda-se...
Entretanto, à cautela, Carlos Moedas reforça a equipa de "acompanhamento da execução de medidas do memorando". Com dois especialistas, de 21 e 22 anos, de "excelentes currículos académicos" e vasta experiência profissional:um estágio profissional de 3 meses no Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia e Emprego!
Não há programa cautelar que nos resgate a esta gente!
O Secretário de Estado Carlos Moedas deu hoje uma aula na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide, a lembrar Vítor Gaspar, que imitou quase na perfeição.
Falou, claro, sobre a dívida: que é para pagar - “as dívidas têm que ser todas pagas, os países têm que pagar as dívidas e é importantíssimo que isso fique claro, que o esforço que os portugueses estão a fazer é para termos essa credibilidade”, disse.
Mas não falou claro sobre a dívida, contra a qual nada tem. “Que é necessária”, que “sempre se trabalhou com dívida”, mas “não pode ser é uma dívida em excesso”. Rematando que, “como tudo na vida, nada em excesso é bom”.
Claro que isto não é falar claro, nem sobre a dívida nem sobre excessos. Até porque os excessos não estão só na dívida. Que é para pagar mas que, na prática, a teoria de Moedas (e de Gaspar, e de Albuquerque, e de Passos, e de tuti quanti) só tem feito aumentar.
Bom, mas lá temos nós de revisitar a lei de Gresham: e este é apenas a má Moedas. A boa Moedas é que continua sem aparecer…
Daí ao corte dos 4 mil milhões foi um ver se te avias. Um passo de anão… O número entrava rapidamente na cabeça dos portugueses, com os comentadores do regime a fazerem as contas que não existiam para, mais que o explicar, justificá-lo. Metê-lo - e mantê-lo - bem nas nossas cabeças!
Como numa boa receita de culinária ficou a marinar. Até que ontem, de repente e vindo de uma fuga de informação encomendada, surgia um Relatório do FMI com um role de medidas assustadoras, que representam qualquer coisa como 10 mil milhões de euros de corte nas funções sociais do Estado.
Seguem-se explicações e até desmentidos. Que não, que não é nada daquilo. Que se trata apenas de sugestões, o documento servirá tão só para ajudar à discussão pública… Mas que está muito bem feito, lá isso está – apressou-se a adiantar o inefável Carlos Moedas!
Mas ele aí está, a fazer livremente o seu caminho. A entrar na cabeça das pessoas, com a ajuda dos fazedores de opinião que vão construindo o edifício da inevitabilidade. E da oposição, que nada faz. Que se limita a chavões de ocasião na mesma lástima de sempre!
Um caminho aberto para o objectivo do governo, onde se chegará mas, então, por obra do esforço e boa vontade de Passos e Portas. A quem haveremos de ficar eternamente gratos por conseguirem que ficássemos por metade daquilo que o FMI recomendava!
É este o guião!
Mesmo o que às vezes parece desorganização e incompetência, faz parte do guião. Bem preparado por gente que não brinca em serviço!
Alguém fez aparecer aí um Relatório do FMI sobre os cortes na despesa do Estado, a tal refundação. Ninguém sabe quem encomendou este súbito aparecimento, mas percebeu-se que a encomenda deu jeito a Carlos Moedas – ele próprio uma grande encomenda!
O que António Borges disse não é mais do que, num tom ainda mais parvo e mais intolerável, Passos Coelho tinha dito um ou dois dias antes. É normal que assim seja, que Passos Coelho diga o que António Borges, Braga de Macedo, Carlos Moedas ou Vítor Gaspar lhe digam para dizer. Se faz o que eles lhe dizem para fazer, é normal que diga o que lhe mandam dizer. E que, quando não diz o que eles querem que seja dito, e no tom que pretendem, venham eles próprios fazê-lo, deixando claro quem é quem neste processo de destruição do país em curso.
Carlos Moedas, Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-ministro, no Prós e Contras, da RTP1 : “Privatizar não é vender. É fazer economia, é criar riqueza!”
Também é gente extraordinária, este Carlos Moedas…