Com o Papa Francisco por cá, e com Jornada Mundial da Juventude "on fire", houve quem se lembrasse de mandar afixar cartazes a lembrar que “mais de 4800 crianças foram abusadas pela Igreja Católica em Portugal" em três outdoors localizados na Alameda, em Lisboa, em Loures e em Algés.
Não terá sido uma ideia absolutamente original, ou genial. Nem seria para avivar a memória do Papa. Toda a gente sabia que o Papa não estava esquecido disso. E ninguém de boa fé - qualificação que não precisa de fé, mas apenas de equilíbrio e bom senso - acreditará que o Papa se incomode mais com os cartazes do que com os actos e comportamentos que eles denunciam. Não foi pelos cartazes, que ainda não existiam, que o Papa trazia, como não poderia deixar de ser, o tema na sua agenda.
Já o tinha abordado sem rodeios, e "sem dó nem piedade". E o seu encontro pessoal com treze das vítimas desses abusos, ontem ao fim da tarde, há muito que estava agendado, mesmo que não constasse da agenda tornada pública.
Ainda assim a autarquia de Oeiras lembrou-se de censurar o que estava instalado no seu território (Algés), cobrindo-o de preto. Como se, quando o Papa é Francisco, fizesse sentido "ser mais papista que o Papa".
E como não faz, percebemos que os cartazes, afinal, não pretendiam avivar a memória do Papa, mas apenas a dos muitos "mais papistas que o Papa".
No domingo passado fomos a votos, e decidimos a quem entregar os destinos das nossas terras para os próximos quatro anos.
Para trás ficaram vitórias e derrotas, egos inchados e egos mingados, muitas campanhas sujas e negras, e poucas elevadas, limpas e dignas. E ficaram os cartazes. Todos, dos mais mal-amanhados aos mais bem conseguidos. Muitos, deprimentes. Outros – poucos – norteados pela criatividade e bafejados por algum bom gosto. Ficaram e por aí continuam. Por muito tempo, como mais um subproduto dos fantasmas eleitorais.
E muitos foram os fantasmas destas autárquicas. Uns derrubaram lideranças partidárias. Outros ficaram-se pelo seu papel natural, e limitaram-se a assustá-las. Outros ainda, reforçaram-nas.
Que o digam Pedro Passos Coelho, Jerónimo de Sousa ou Assunção Cristas…
Para quem esperava e anunciava o diabo, ser apeado por um simples fantasma, será certamente frustrante. Quem duvidava do caminho, assustado pelo fantasma, vai querer voltar para trás. Mas quem encontra um fantasma protector, que lhe tapa a miséria e lhe realça a graça, não o quer perder de vista e só quer que a festa dure.
Mas sempre e só fantasmas. Como em Loures, onde o fantasma não passou disso, ou em Oeiras, onde ganhou vida.
E, com tantos fantasmas, bem dispensávamos a fantasmagórica pegada ambiental que os cartazes deixam nas ruas e praças deste país, a apodrecer ao sol e ao vento. Como não vamos lá pelo civismo, teremos que lá chegar pela força da lei: para quando uma lei a obrigar a limpar o lixo eleitoral em tempo higiénico?
* Da minha crónica de hoje na Cister FM
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