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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Benfica 2 - Casa Pia 2

Pavlidis fez o segundo golo do Benfica, de penálti

A jornada de benfiquismo de ontem teve hoje por prémio um clássico na Luz. Os mais de 56 mil nas bancadas - pois é, a fasquia começa a baixar dos 60 mil -, os 94 mil que ontem votaram, e os outros milhões de benfiquistas espalhados pelo país e pelo mundo que fazem do Sport Lisboa e Benfica um dos maiores clubes do universo merecem, e exigem, RESPEITO.  

O jogo desta noite, na Luz, da 11ª jornada, com o Casa Pia, é todo um clássico.

O adversário estacionou o autocarro à frente da sua baliza. Duas linhas de cinco, juntinhas, entre as linhas que marcam as duas áreas, a grande e a pequena. Clássico!

O Benfica entrou bem no jogo, chega à vantagem, e começou a baixar a intensidade. Clássico!

Com a passagem dos minutos, à medida que o jogo caminha para o fim, os jogadores começam a perder concentração. As decisões dos árbitros complicam-se, e a perda de concentração vai-se agravando, atingindo o climax já depois do minuto 90, e a vantagem esvai-se no período de compensação. Clássico!

Esta noite, na Luz, o Benfica começou a desmontar o autocarro do Casa Pia relativamente cedo. Aos 16 minutos marcou, depois de Rios já ter enviado um remate ao poste. Num golo com assistência (Plavidis) e finalização (Sudakov) espectaculares, trabalhadas dentro da cabine do autocarro. O Benfica ultrapassava os 80% de posse de bola, e o Casa Pia não ligava dois passes seguidos. A excepção aconteceu durante três ou quatro minutos, ali por volta da meia hora.

O Benfica que, como sempre, tinha entrado com um onze muito perto do habitual - com Otamendi de fora, a cumprir castigo pelo quinto amarelo (Palhinha só há um!) pedido em Guimarães (como Rios hoje o pediu, também para limpar antes do jogo com o Sporting), substituído por António Silva e, com Dedic regressado de lesão, com Aursenes na ala esquerda - entrou para a segunda parte com Prestiani a entrar precisamente para o lugar do norueguês, transferido para o lugar de Enzo, que tinha durante a primeira parte dado indicações de não estar em condições para prosseguir no jogo. 

Se a ideia era voltar a espevitar o jogo, não resultou. De resto, Prestiani não está a resultar. É cada vez mais parra, e cada vez menos uva. Ainda assim não demorou mais a marcar que na primeira parte. Antes de expirar o primeiro quarto de hora, de penálti, Pavlidis marcou o segundo. O chamado golo da tranquilidade.

Que seria, não tivesse o árbitro, o lagarto Gustavo Correia, cinco minutos depois, inventado um penálti. Inacreditável. Tão inventado, e tão inacreditável que, na Luz - e por todo o lado - se tinha por inevitável a intervenção do VAR, a corrigir o destempero  do lagarto. Mais inacreditável ainda: do VAR, nem sinal de vida!

Cartões amarelos, distribuídos a torto e a direito, reforçaram a instabilidade. E tranquilidade do segundo golo desaparecia de repente, como fumo.

Lembramos-nos então que, ontem, o Sporting trouxera três pontos dos Açores, graças a um golo no último minuto dos descontos, depois de o árbitro ter transformado um pontapé de baliza, a favor do Santa Clara, num canto a favor do Sporting. O árbitro João Gonçalves, e o assistente Ângelo Pinheiro, não viram o que toda a gente viu. Que o Quenda rematou a bola para fora, sem que ela tocasse em quem quer que fosse.

E veio-nos à memória que o campeonato da época passada foi precisamente decidido no dia 12 de Abril quando, nos Açores, numa das mais escandalosas arbitragens da época, o árbitro Cláudio Pereira oferecia os três pontos ao Sporting. E, exactamente como hoje, no dia seguinte na Luz, o árbitro António Nobre assinalava um penálti (com que o Arouca empatava 2-2, ironicamente o mesmo resultado de hoje), tão inacreditável como o de hoje, então por Otamendi "ter rasteirado o adversário com a cabeça". Também um clássico!

O VAR, que ontem nos Açores não pôde dizer ao João Gonçalves que o golo não poderia ser validado. Que há sete meses não quis dizer ao António Nobre que ninguém consegue rasteirar ninguém com a cabeça, como hoje não quis dizer ao Gustavo Correia que a bola bateu na barriga do António Silva, caiu-lhe para a coxa, e que daí ressaltou para lhe tocar na mão, não é um instrumento ao serviço da verdade desportiva. É simplesmente um instrumento ao serviço da manipulação de resultados! 

Trubin defendeu o penálti, mas não havia maneira de escrever direito por linhas tortas: inacreditavelmente, Tomás Araújo, o primeiro a chegar à bola excelentemente defendida pelo guarda-redes do Benfica, ao tentar enviá-la pela linha de fundo chutou-a com força para dentro da baliza. 

O terceiro golo até acabaria por chegar, por Barreiro, depois um minuto em campo. Foi celebrado nas bancadas como a circunstância merecia. Foi anulado, por fora de jogo, e a tranquilidade não voltou.

Era quase inevitável que um erro qualquer desencadeasse uma sucessão de outros, como num dominó. Aconteceu a meio do meio campo, no primeiro dos quatro minutos de compensação, e foi obra de Richard Rios, já depois de se ter feito ao tal amarelo. A cadeia propagou-se para dentro da área benfiquista, e tocou a todos. Trubin incluído.

No primeiro dia da nova presidência de Rui Costa, o Sporting é presenteado com três pontos nos Açores, o Porto com colinho em Famalicão, e o Benfica é decidamente atirado para fora da estrada do título. 

Três jogos num e três pontos em doze

Há jogos que são três num só. Foi o caso do jogo do final desta tarde, em Rio Maior, onde o Benfica foi defrontar o Casa Pia, em casa emprestada. 

Foi o jogo da passada terça-feira, com o Barcelona, pelas marcas que deixou, foi o próprio jogo com o Casa Pia, e foi o jogo da próxima quarta-feira, em Turim, com a Juventus. Que ainda nem aconteceu, mas que teve forte presença em Rio Maior.

Se o que por esta altura não falta ao Benfica é sobrecarga de jogos, jogar três num só é acrescentar dificuldade ao que já está difícil!

O Benfica só jogou este jogo na primeira meia hora. Depois jogou o da próxima quarta-feira e, por fim, acabou a jogar os últimos minutos do da passada terça.

Para este jogo Bruno Lage poupou Tomás Araújo (Bah), Aursenes (Leandro Barreiro), Schjelderup (Akturkoglu) e Pavlidis (Arthur Cabral), e fez regressar Di Maria. Normal, não seria por aí que as coisas correriam mal. Até porque começaram mesmo a correr bem. Quando, logo aos 12 minutos, Barreiro sofreu a falta para o penálti que Di Maria transformaria - com a habitual classe - no primeiro golo do jogo, já Arthur Cabral tinha desperdiçado duas oportunidades para marcar. Logo a seguir Akturkoglu só não fez o segundo porque, depois de sobrevoar o guarda-redes do Casa Pia, a bola embateu na barra.

Na meia hora em que o Benfica jogou este jogo marcou um golo e criou oportunidades para mais três. Foi claramente dominante, e isso deverá ter levado os jogadores a pensar que o facto de a equipa da casa mostrar que sabia jogar à bola servia apenas para tornar o jogo ainda mais agradável à vista, pelo que poderiam seguir para Turim.

Poderia dizer que não vejo outra razão para o António Silva ter decidido fazer a assistência para o golo do empate do adversário, aos 32 minutos. Mas deve haver. São tantos e tão repetidos estes erros que tem mesmo de haver. Até porque logo a seguir voltou a repetir-se mais um, que acabou num penálti que o VAR obrigou António Nobre a transformar em livre directo.

Já desligada, a equipa não conseguiu regressar ao jogo na segunda parte. Então apenas o Casa Pia conseguia apresentar um futebol ligado, capaz de jogar de uma área à outra. O Benfica atacava, mas tudo acabava invariavelmente em cruzamentos. E em cantos. A uns, e a outros, a defesa adversária chamava um figo.

Já não era com a cabeça em Turim, era com a cabeça perdida no jogo da Luz com o Barcelona. Foi já assim que o Casa Pia marcou o segundo golo, logo à passagem do primeiro quarto de hora. Quando já se percebia que dificilmente o Benfica escaparia a mais uma derrota, a terceira nos últimos quatro jogos do campeonato. 

O terceiro golo do Casa Pia, já no último minuto dos cinco de compensação, que só não é exactamente como o do Barcelona porque não tem atrás qualquer ilegalidade, apenas veio dar ao resultado a expressão pesada de uma derrota inapelável.

O futebol pode ser isto mesmo. Não pode é deixar passar entre os pingos da chuva uma equipa que em 12 pontos perde 9. Tem que haver explicação para a intermitência da equipa. É preciso explicar como é uma equipa jogou o que jogou com o Atlético de Madrid, com o Porto, com o Braga (na Taça da Liga), ou até agora com o Barcelona, depois joga o que jogou na primeira parte com o Sporting, com o AVS, com o Braga, com o Casa Pia. E como é que, à crise dos adversários, por maior que seja, se responde com uma ainda maior.

Substituições: resolveram ou adiaram?

Benfica-Casa Pia (EPA)

Cheguei bem mais cedo ao Estádio que o habitual, faltava pouco menos de uma hora para o início do jogo. Estava pouca gente, visivelmente menos de 10% da capacidade, quando foi pela primeira vez anunciado o onze inicial. Ao nome de João Mário saíram das bancadas uns mal notados assobios, logo apagados quando o "speaker" prosseguiu. A ordem era a numérica, e o 20 era logo o quinto. No fim, ao rematar com "e o nosso treinador é ...", os assobios daqueles cinco ou seis mil pareceram de quase 60 mil, que menos de uma hora depois enchiam as bancadas da Luz. Sem grande diferença dos que se ouviram à saída para o intervalo. Ou nas substituições, aos 65 minutos, quando foi anunciada a saída de Prestiani, um dos poucos jogadores com prestação aceitável para aqueles 60 mil.

Se dúvidas existissem sobre o ambiente de hostilidade a Roger Schmidt ficaram logo esclarecidas. O "speaker" teve o bom senso de não voltar a referir o seu nome, e as bancadas - visivelmente com muitos emigrantes, alguns deles com a infelicidade de ter a claque por vizinhança, o que quer dizer petardos, bombas e desacatos - quiseram poupar os jogadores (à excepção, mais uma vez, de João Mário) ao seu desagrado com aquele futebol. Pobre, cristalizado no passe para o lado e para trás na zona central do terreno.

Sem largura, sem alas e sem profundidade. Com dois médios centro - Florentino e Barreiro - de tracção traseira, e mais dois a fazerem de alas, que não são. Quatro, portanto. Como Prestiani também anda por ali, atrás de Pavlidis, a fazer de 10, é meia equipa que fica ali emperrada.

São os laterais que dão abertura, pensará Schmidt. Mas não dão, como se viu. Nunca vão à linha de fundo, e não criam desequilíbrios. Bah nunca o fez durante toda a primeira parte. Beste ficou logo de início fora de combate, com uma lesão muscular, justamente quando corria para uma solicitação pelo corredor. Entrou Carreras, que acabou por mexer mais com o jogo.

A equipa não funciona, como toda a gente vê. O primeiro remate do Benfica surgiu apenas aos 26 minutos, obra de João Mário e objecto de uma boa defesa do guarda-redes Patrick Sequeira. Passou-se a primeira parte nisto, com o Casa Pia a ir assustando aqui e ali, como aos 37 minutos, com Obeng a ter a possibilidade de marcar, depois de um bom cruzamento de Larrazabal.

Ao intervalo a equipa partiu para o balneário sob gigantesca assobiadela. De lá regressou na mesma, sem uma alteração, apenas mais mexida, muito por obra de Carreras e Prestiani, o único a continuar a tentar agitar o futebol da equipa. O tempo passava, e percebia-se que não seria assim que o Benfica conseguiria ganhar o jogo a um adversário muito fraco, que defendia com nove jogadores, queimava tempo e enervava ainda mais as bancadas.

É então que Schmidt faz algo de realmente raro: três substituições de uma vez, a vinte e cinco minutos do fim!

Retirou os redundantes Barreiro e João Mário, e Prestiani, o jogador que mais queimado estará a ser por esta estranha obsessão de Schmidt por quatro médios-centro. Entraram Tiago Gouveia, para a ala esquerda, Kokçu para a construção, e Marcus Leonardo para se aproximar de Pavlidis, a permitir-lhe dedicar-se a procurar espaços e bola. E o jogo mudou finalmente!

Cinco minutos depois da substituição já Tiago Gouveia assistia para o golo de Pavlidis, na primeira explosão da Luz (as outras daquela rapaziada do topo que gosta mais de pirotecnia que de futebol não entram nestas contas). Dez minutos depois era o próprio Tiago - naturalmente o homem do jogo - a marcar, numa jogada onde fez tudo: recuperou a bola, atravessou com ela meio campo, tabelou com Aursenes e marcou. E mais dez minutos depois, já em cima dos 90, Aursenes, depois de um grande passe de Kokçu, fez o terceiro.

Schmidt salvou-se nas substituições. Falta saber se é uma verdadeira salvação, ou se apenas resistência fortuita a uma condenação inevitável. Falta saber se percebeu o que mudou aos 65 minutos.

Se calhar não percebeu. Como também não terá percebido que a última substituição, que reservou para os 87 minutos para fazer entrar Otamendi e sair Tomás Araújo, depois do Renato Sanches ter passado, por duas vezes, largos minutos em aquecimento, não cai bem. Se havia algum sentido em lançar alguém para jogar 3 minutos, naquelas circunstâncias, teria de ser Renato Sanches. Mas Schmidt preferiu aproveitar para mandar o Tomás Araújo para o banco, e prestar vassalagem ao capitão.

 

Na forma do costume

O Benfica surgiu hoje em Rio Maior no seu jeito, com o seu futebol que não entusiasma os adeptos, nem massacra o adversário. O efeito Kokçu notou-se logo na constituição do onze inicial, com Neres a pagar a factura. Saiu da equipa, daquela que vinha sendo dada como, finalmente, o onze base de Schmidt, para lá entrar - evidentemente - João Mário. A mensagem é simples, e fácil de perceber!

Com João Mário na ala esquerda - ainda por cima onde rende menos -, e Di Maria com lugar cativo na direita, e ambos com tendência a vir para dentro, o jogo do Benfica afunilou sempre, como é habitual. Se a tarefa do Casa Pia era defender, assim, tornava-se mais fácil. Com essa tarefa facilitada, e como o Benfica resolveu dar a primeira parte de avanço, o Casa Pia teve até oportunidade de querer mais qualquer coisa do jogo.

O Benfica acumulava posse de bola e pontapés de canto. Pouco mais. O mais perto que esteve do golo foi quando João Neves cabeceou a bola para dentro da baliza, que o árbitro anulou, por fora de jogo.

O intervalo não mudou nada. O Benfica voltou com os mesmos 11 jogadores, como quem acredita que fazendo as mesmas coisas, e da mesma maneira, seja possível atingir resultados diferentes. Foi preciso mais um quarto de hora para mudar alguma coisa, com a entrada de Arthur Cabral para o lugar Marcos Leonardo (é cada vez mais difícil encontrar-lhe atributos para ponta de lança fixo: não consegue jogar de costas para a baliza, nem tem o que se chama de faro de golo) e de Neres para o  de ... Florentino. Que não foi muito apreciada pelas bancadas, maioritariamente benfiquistas, como sempre. Mas que nas circunstâncias do efeito Kokçu se compreende: Florentino tinha sido amarelado no final da primeira parte, e João Mário passaria a formar a dupla do meio campo com João Neves, para o que está mais talhado. E na verdade não correu mal.

Neres dinamizou o ataque, mas também ele vinha muito frequentemente para o meio. Uma espécie de "pecado original" da equipa. E Arthur Cabral dava o desconforto à defesa do Casa Pia que o seu compatriota nunca dera. Os cantos sucediam-se, mas agora também oportunidades claras de golo. 

O problema é que, golos - já se sabe - apenas em transição. O Casa Pia também o sabe.Tomou todos os cuidados quando subiu no terreno e tentou evitar todas as oportunidades de transição rápida ao Benfica. Não o conseguiu por duas vezes: na primeira, ainda antes das substituições, Rafa não conseguiu marcar (um toque do defesa empurrou-o para um toque a mais na bola); na segunda, Arthur Cabral fez de Rafa e marcou um grande golo. Ainda antes da entrada no último quarto de hora.

A partir daí foi controlar o jogo, e levá-lo até ao fim. No registo do costume. Que não entusiasma, mas mantém a chama acesa. 

António Silva viu o quinto amarelo, deixando-o já de fora, e arrumando com qualquer probabilidade de ficar de fora do dérbi. Nesse aspecto até poderia ter sido "encomenda". Mas não foi, foi apenas ridículo. E uma bizarria. Como bizarra foi aquela "cena" do Aursenes. É no que dá tanta mudança de posição. Já se estava a ver a guarda-redes!

A época compactada num só jogo

Os adeptos benfiquistas estão desiludidos, assobiam e puxam dos lenços brancos. Ainda assim, dizem presente. Sempre. Voltou a ser assim, hoje, na Luz, não a festejar, mas a celebrar os 20 anos, cumpridos na passada quarta-feira. Casa cheia ... praticamente.

E voltaram a sair desiludidos. Voltaram a assobiar a equipa, e voltaram a mostrar lenços brancos a Roger Schemidt, depois de um jogo que foi um compacto do que tem sido esta época do Benfica. Se quiséssemos juntar num vídeo de 90 minutos o que tem sido esta época não seria preciso trabalho de edição. Não era necessário fazer recortes e colagens, bastaria pegar neste jogo de hoje com o Casa Pia.

Começamos por ver uma equipa nervosa, incapaz de tomar conta do jogo e de se impor à estratégia que o treinador do Casa Pia trazia para o início do jogo. Que não é nada de novo. É um clássico dos  jogos do Benfica nesta época. Todos os treinadores adversários perceberam o incómodo que a pressão alta causa aos jogadores do Benfica. E todos têm invariavelmente iniciado os jogos desta forma.

Dura o que dura. Umas vezes mais tempo, outras menos. Quase sempre por limitações próprias - aquilo obriga a muito desgaste. Raramente por imposição do Benfica. Voltou a ser assim. Foi assim a primeira metade da primeira parte.

Quando, mais tarde ou mais cedo, o adversário começa a baixar, com duas linhas de cinco muito juntas e encostadas à sua grande área, o Benfica passa a trocar a bola, a rodar o jogo de um lado para o outro, para trás e para o lado. Os jogadores tentam então até a exaustão furar por onde nem uma agulha cabe, convencidos que essa é a solução para entrar com a bola pela baliza dentro. Não há remates. Quando abrem jogo pelas laterais, falta presença na área. E os cruzamentos acabam invariavelmente nos pés e nas cabeças dos defesas adversários. Que não raras vezes saem com bola em contra-ataque porque, ao contrário da época passada, os avançados do Benfica nada fazem para lhes bloquear a saída. Porque o meio campo não abafa os espaços e não ganha segundas bolas. Apenas corre para trás. Quando (alguns) correm.

 A qualidade técnica e a inspiração de um outro jogador é, às vezes, suficiente para fazer provocar um ou outro desequilíbrio na muralha defensiva adversária, e acabar por criar e transformar uma ou outra oportunidade em golo. 

É assim. E foi assim na segunda metade da primeira parte. A inspiração do momento veio de João Mário, já às portas do intervalo.

Quando chega ao golo a equipa descansa no resultado. Como que se o golo lhe tivesse dado tanto trabalho que precisa de descansar. Domina o jogo, tem bola. Mas nas calmas, que a vida não está para correrias. A intensidade é baixa, mas vai sempre caindo. O adversário sente o resultado em aberto. Vai ganhando vida, pouco a pouco. Quando dão por isso os jogadores do Benfica passam a ficar inquietos, e a equipa volta ao nervoso do início do jogo. 

Tem sido assim, e assim voltou a ser. Ainda o Casa Pia não começara propriamente a ganhar vida quando surgiu a oportunidade clara de empatar o jogo, num precipitado penálti de Florentino, de regresso à equipa. A falta de ritmo tem consequências destas. 

Trubin defendeu (pela segunda vez, depois de Portimão), a Luz suspirou de alívio, e a equipa pareceu ter percebido que teria de acordar. Di Maria entrou para substituir Neres. E Jurásek para o de Bernat, substituição que só se percebe por Shemidt entender que precisa de dois jogadores para ter um lateral esquerdo. Mas nem dos dois consegue fazer um. Depois entrou Tengstedt, para o lugar da contínua nulidade de Cabral. Aí, na posição 9, nem de três consegue fazer um.

Deu em pouco esse espécie de reacção ao penálti defendido por Trubin. Bem espremido, deu num golo anulado a António Silva, e num único remate, o de Di Maria logo após a entrada, para a defesa da noite do guarda-redes do Casa Pia. Que, a 10 minutos do fim, empatou. Com um golo inacreditável, num remate sem qualquer espécie de ângulo com Trubin, depois de herói, a passar a réu, com a bola a passar-lhe entre as pernas.

Aí o Benfica acordou. E no que restou do jogo - um quarto de hora, com a compensação - voltou ao nível do último quarto de hora da primeira parte. Mas faltou-lhe a sorte - duas bolas nos ferros, de Florentino (na trave, com a bola a ressaltar para as costas do guarda-redes, o que dá sempre golo, e a sair pela linha de fundo) e António Silva (ao poste) - que a equipa, em boa verdade, não fez por merecer. 

Também a (falta de) sorte entra neste compacto que demonstra a irregularidade do Benfica desta época. Mas não a explica. E o que se está a passar no Benfica precisa de explicação. 

É preciso, por exemplo, perceber se o que está acontecer, depois do que aconteceu na última época, tem algum paralelo  com o que aconteceu há três anos com Bruno Lage. A ideia que se vai formando é que é decalcado a papel químico, se ainda alguém se lembra do que isso é.

 

Boas notícias e ... obrigado, André Almeida!

Casa praticamente cheia, na Luz, como é habitual. Desta vez com perto de 60 mil nas bancadas, para assinalar o regresso a casa, depois de três jogos consecutivos fora. Mas também para "mimar" a equipa, que bem merece, e para um último carinho a André Almeida, na hora da despedida do capitão. Um símbolo do Benfica, por mais que tenha dividido opiniões nos doze anos de águia ao peito.

O jogo começou por ameaçar tornar-se complicado. O Casa Pia, a equipa sensação da primeira volta - essa já ninguém lhe tira, independentemente de o vir ou não a confirmar no fim da época - entrou no jogo com a sua receita habitual, com a forte organização defensiva que lhe valeu ser sempre uma das defesas menos batidas do campeonato, e ainda a terceira melhor, com uma pressão enorme sobre os adversários, e sempre disponível para sair para a frente em velocidade. O seu 5x4x1 permite-lhe defender a sua área sempre com muitos jogadores, e ainda criar nas alas um dispositivo táctico que cria frequentes situações de três para um.

Fechados em cima da sua área, aos gansos sobrava sempre mais um jogador para a dobra a um colega, e sempre mais uma perna no caminho da bola. Logo que a ganhavam tentavam sair em transições rápidas, o que iam conseguindo uma vez por outra. 

O Benfica entrou com a mesma equipa que iniciara o último jogo, em Arouca, e com os jogadores a interpretarem os mesmos papéis.  Começou pressionante, mas nem por isso deixou de revelar dificuldades em libertar-se daquele cerco. Criou então duas oportunidades para marcar - logo no início, numa boa jogada de penetração na área, que João Mário não concluiu da melhor maneira, rematando por alto e, logo a seguir, numa espectacular abertura de Florentino, a picar a bola para dentro da área, concluída com o remate de Neres junto ao ângulo da barra com o poste.

Lembramo-nos então que o Benfica tinha resolvido os últimos jogos com golos serôdios, no aproveitamento das primeiras oportunidades. E da eficácia nesses jogos. E temeu-se que, jogando o Casa Pia naquela sua maneira, as oportunidades se não repetissem assim tanto.

Por volta dos quinze minutos, já o Benfica estava a abrandar a pressão, e a deixar a ideia de um jogo morno. Parecia um mau sinal, mas não. Era a percepção que aquilo não estava a resultar, e que era preciso mais paciência na circulação da bola. Era a maturidade da equipa a vir ao de cima. E resultou!

Logo aos 19 minutos, surgiu a melhor oportunidade de golo, com Gonçalo Guedes a responder com classe, de calcanhar, à Gonçalo Ramos, para o guarda-redes casa-piano a defender em último recurso, para a frente. E, no novo regime, iniciava-se uma nova fase de sufoco para os gansos. Que culminou ao minuto 34 - sim tem de ser o 34, não o 35 ou o 36, porque André Almeida merece - no primeiro golo, do goleador João Mário (o que Schmidt fez deste jogador!), a concluir com um passe para a baliza, assistido por Neres (mais que o regresso à forma, há ainda que saudar o compromisso com a equipa, muito acima do nível antes revelado, e a alegria que nunca se lhe tinha visto), uma bonita jogada de futebol, que finalmente desmontara a estrutura defensiva do Casa Pia.

A partir daí foi "show de bola". Oito minutos depois, só mudou o assistente, desta vez Grimaldo. O golo foi do mesmo, o novo goleador, já no topo da lista dos marcadores. "Show" que se prolongou pela segunda parte, então já com o Casa Pia a abandonar a sua estrutura super-defensiva, e a abanar por todos os lados. De tal forma que, na derrota mais pesada na época, o melhor que aconteceu ao Casa Pia foi mesmo o resultado. 

As oportunidades de golo sucederam-se, com o futebol fluido, e de encantar, da primeira parte da época decididamente de volta. Golos, é que apenas mais um. E numa transição, que era coisa que estava a faltar. Foi uma jogada individual de Bah - mais outro, decididamente de regresso e já melhor que o melhor que tinha mostrado - não foi colectiva. Mas foi em transição!

Numa altura decisiva da época, com a Taça em jogo nos quartos em Braga, com o acesso aos quartos da Champions para discutir com o Bruges, e numa interessante - chamemos-lhe assim - fase da Liga, a exibição do Benfica mostra que a equipa está pronta para todos os desafios.

Hoje já deu para o regresso de Rafa - e como mostrou também que está pronto! -, e o de Ramos também não estará longe. E, a avaliar pelo que Schemidt fez de Bah, Aursenes, João Mário, Florentino e Chiquinho, dos dois reforços nórdicos que "estão no forno" só poderão chegar melhores notícias ainda.

 

 

Onze Chalanas sem cheirinho a Chalana

Em Leiria, hoje casa emprestada ao Casa Pia, no seu regresso ao escalão maior do futebol nacional, com o Estádio esgotado e todo vestido de vermelho, o Benfica entrou com 11 Chalanas, repetindo a homenagem que já tinha acontecido com Eusébio. E com a novidade de Diogo Gonçalves a ser um deles, a única na constituição da equipa inicial. Porque já chega de Chiquinho, e David Neres continua afastado. E a falta que faz... logo ele que é o único capaz de nos trazer vagamente um cheirinho a ... Chalana. 

O jogo começou com sensações estranhas. Duas falhas de Morato - primeiro num passe, e depois num corte - logo seguidas de uma falta, empurraram o Casa Pia para um arranque atrevido, e o jogo para uma inesperada zona de instabilidade.

Durou cinco minutos essa instabilidade. Depois o jogo normalizou-se, com o Benfica a atacar - muito, mas nem sempre bem - e o Casa Pia a defender. Também muito, mas bem. E com muitos. Com todos, num 5x4x1que deixava frequentemente nove jogadores dentro da sua área.

A meio da primeira parte, e apesar do acerto defensivo dos jogadores casapianos, ficava a ideia que a asfixia haveria de dar resultado. Mesmo sem grandes criar grande oportunidades para sequer rematar, em algum momento aquilo iria dar em atrapalhação, e a bola haveria de acabar dentro da baliza.

Esteve quase. Mas só por uma vez, aos 24 minutos. Entretanto o Casa Pia começava, de quando em vez, a conseguir sair num ou noutro lance de contra-ataque, sempre pela esquerda (uma novidade, o habitual é tentarem as apregoadas fragilidades de Grimaldo), e sempre por Godwin, um nigeriano que desconfio que vai dar que falar.

Acaba por se poder resumir a primeira parte a um jogo em que o Benfica atacava mas não conseguia rematar, porque o adversário não lho permitia; e o Casa Pia rematava sem conseguir atacar, porque tinha espaço para isso. E no fim, só mesmo nos remates, e no resultado, conseguiu empatar.

A segunda parte foi diferente, mas nem tanto. Foi diferente porque o Benfica aumentou a intensidade, porque ao intervalo Roger Schemidt trocou Gilberto ( castigado pelo Godwin, e ineficaz no ataque) por Bah, e resultou bem ... e porque conseguiu marcar. Mas nem tanto, porque continuou com grandes dificuldades em rematar; e porque o Casa Pia continuou a defender com bem, e com todos os jogadores. Mesmo depois de sofrer o golo, ainda antes de se ter esgotado primeiro quarto de hora.

O golo de Gonçalo Ramos, aos 58 minutos - quando o treinador já aprontara as entradas de Yaremchuk e Weigl em substituição de Diogo Gonçalves, o mais apagado dos da frente, e Florentino, já com amarelo - concluindo "à ponta de lança" mais uma boa jogada de ataque, não mudou apenas o resultado. Mudou também o jogo, mesmo que nada tivesse mudado no adversário. O Benfica manteve o mesmo domínio de jogo, mas agora com mais circulação de bola, e em segurança absoluta. E até com mais remates, e mais ocasiões para marcar. Não tantos assim mas, ainda assim, mais!

Claro que a vantagem mínima, mesmo com bola e com o controlo total do jogo, comporta sempre riscos. Sabe-se como há acidentes. E incidentes.

Não chegou a haver acidentes, e valeu que o incidente da expulsão de Otamendi - incidentes nas arbitragens de Tiago Martins não são contingências, são tão certos como é certo o sol nascer todos os dias - aconteceu já no segundo dos 6 minutos de compensação. 

No fim este acabou por ser um dos tais jogos com que os profetas da desgraça vinham ameaçando Roger Schemidt. Dos tais jogos com as competitivas equipas do nosso futebol, orientadas pelos sagazes treinadores portugueses, que defendem com 10 com um ala velocíssimo à espreita do contra-ataque. E se não se poderá dizer que o Benfica tenha passado no teste com distinção, também não se poderá dizer que tenha sido "à rasquinha"!

Ponto final*

 

 Resultado de imagem para detenção de paulo pedroso na assembleia

 

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos condenou o Estado português a pagar mais de 68 mil euros a Paulo Pedroso, colocando um ponto final no processo verdadeiramente kafkiano em que se viu envolvido, engolido pela inacreditável enxurrada em que se tornou o processo Casa Pia.

Evidentemente que a indemnização, quinze anos depois, não paga coisa nenhuma, nem repara danos irreparáveis. Não se pode dizer que foi feita Justiça, porque não foi. Nem poderia jamais ser. Salva-se apenas o ponto final, uma pedra tumular em cima do assunto, numa certa libertação pela morte. 

Uma morte em cima de outra. A morte de um processo que matou um homem, uma carreira, uma vida... E essa morte, vergonhosa e arrepiante, ficou por punir! 

 

* Título do próprio Paulo Pedroso no seu blogue

 

 

 

 

 

A Sentença

 

Por Eduardo Louro

 

 

Parece que desta é que é! Amanhã teremos finalmente a leitura do acórdão do Processo Casa Pia.

Espera-se pela sentença com a esperança que se espera de cada decisão do tribunal: espera-se por Justiça!

Uma esperança que elevamos à máxima potência quando esperamos que possa apagar o passado, como uma simples borracha. Que apague todo o mal que foi causado, que limpe de todo sofrimento e que abra as cancelas a um amanhã cheio de sol …

Ninguém pode esperar nada disto para amanhã: muitas das crianças violadas e violentadas, vítimas primeiras de toda esta vergonha nacional, ouvirão provavelmente amanhã a sentença já com filhos ao colo. Outras vítimas, vítimas que também há entre os arguidos, não tenho disso grandes dúvidas, sabem que já nada consegue limpar nada. 

Já não há esperança. Não se fará justiça! Assim nunca se fará justiça…

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