Metido no meio de uma zona do país que a Kristin virou do avesso, sem serviços públicos, água, luz, comunicações, internet, e entregue às parvoícesdesta gente que nos finge governar, que brinca e se diverte a fazer que faz alguma coisa - imaginemos estes incompetentes à frente do país durante a Covid! - não me foi possível escrever o que quer que fosse sobre a épica e gloriosa noite de quarta-feira na Catedral, verdadeiramente contrastante com a noite negra e sofrida vivida nesta região, que é a minha.
Não vou escrever sobre o jogo, mas não podia passar sem aqui deixar o registo deste resultado para a posteridade: Benfica 4 - Real Madrid 2. Para engalanar ao lado dos 5-3 de Amesterdão, de 2 de Maio de 62, na segunda Taça dos Campeões Europeus; dos 5-1 da Luz, de 24 de Fevereiro de 65, nos quartos de final que nos levariam ao 0-1 da final de S. Siro, com o Inter. Já que os 5-2, também da Luz, na Eusébio Cup, em 2012, não têm o mesmo peso histórico.
Foram quatro golos, podiam ter sido mais. Foi uma noite à Benfica, como há muito se não se vivia. Dizer-se que foi um hino ao futebol é dizer pouco. Foi o futebol na sua expressão mais pura, na sua exuberância máxima. O futebol é isto, não é isto mesmo - aquilo que dele querem fazer!
A paixão do futebol é isto. Depois de tantos golos sofridos nos descontos, depois de tanta desilusão, depois de quatro derrotas nos primeiros quatro jogos. Depois da flagrante falta de sorte em Stamford Bridge, do azar da Luz com o Bayer, e da injustiça da derrota de Turim, um golo no último lance, da cabeça do Trubin, quando nem lhe passava pela cabeça que faltava aquele golo para o milagre do apuramento.
Agora, no play-off ... voltamos a ter Real Madrid.
É mais difícil? Claro que é. Mas só isso - mais difícil!
E pronto ... a Champions também já foi. Fica por aqui, evidentemente que não há milagres!
O Benfica tinha de ganhar esta noite, em Turim, para manter acesa a chama imensa de prosseguir na prova mais importante do futebol de clubes. Não era tarefa fácil, mas até a História ajudava: a Juventus só por uma vez, há para aí 30 anos, lhe ganhara, e nem sequer foi na Champions, e perdera sempre nos últimos anos, e nesta mesma competição.
A História poderia bem ter-se repetido esta noite. O Benfica surgiu no Estádio da Juventus - sem adeptos do Benfica, mais uma vez penalizados pela pirotecnia dos vândalos - com vontade de que se repetisse. Com o mesmo onze de Vila do Conde, o tal com os jogadores nas suas posições, e com dois alas, controlou quase sempre o jogo e dominou-o durante muito tempo.
À pressão e intensidade com que a Juventus entrou, o Benfica respondeu com tranquilidade e concentração. A meio da primeira parte já o Benfica tinha dominado o ímpeto inicial da equipa italiana, e já estava claramente por cima do jogo. Ao intervalo o nulo era já o resultado da falta de eficácia, pois as oportunidades não faltaram.
Mesmo com as alterações de Spalletti, com a entrada ao intervalo de Francisco Conceição, o arranque da segunda parte confirmava a superioridade do Benfica no jogo. Interrompida abruptamente no fim dos primeiros 10 minutos quando, à boa maneira italiana, na primeira vez que a chegou à outra grande-área, marcou. O primeiro, e decisivo, golo da partida.
A Juventus acumulava então erros defensivos, uns atrás do outros, que deixavam Spalletti de mãos na cabeça, e que o Benfica desperdiçava ao mesmo ritmo. Mas marcava ao primeiro erro do Benfica: Tomás Araújo cedeu à pressão de Jonathan David e Thuram, que rematou junto ao poste direito de Trubin, que também não foi alheio ao erro, com a bola a passar-lhe por baixo da mão.
Pouco mais de 5 minutos seria o segundo. Se o primeiro já fora difícil de engolir, este é simplesmente inaceitável ao nível da Champions, com Aursnes a perder o duelo com McKennie e, a partir daí, com (de novo) Jonathan David, os dois, contra seis do Benfica, a entrarem na área como faca quente em manteiga, e McKennie a entrar até pela baliza dentro.
A ganhar por 2-0, e com meia hora para jogar, à Juventus bastava continuar a ser italiana. E poderia até ter marcado o terceiro, quando o poste e Trubin evitaram um auto-golo da Tomás Araújo, naquele período desnorte que o golo inicial abriu. Mourinho trocou então Schjelderup e Sudakov por Ivanovic e Enzo, adiantando Leandro Barreiro, voltou a comandar o jogo, e voltou até a criar oportunidades para a reviravolta no resultado.
Mas nem um golo conseguiu marcar. Pode sempre falar-se de sorte e azar. A sorte que a uns nunca vira as costas, mas que normalmente falta ao Benfica. A bola no poste, é azar. A escorregadela de Pavlidis que o leva a falhar o penálti, é falta de sorte. Mas não se pode deixar de falar de competência.
Se naquelas duas ocasiões faltou obviamente sorte, em todas as restantes faltou competência. A decidir, a finalizar e, evidentemente, a defender.
O Benfica fez praticamente o dobro dos remates da Juventus. Teve o dobro dos cantos. Criou bem mais oportunidades de golo. Teve mais bola, fez mais passes, e acertou bastantes mais. Fez menos faltas. Fez tudo melhor, mas não foi mais competente.
Foi essa a marca maior que o Benfica deixou nesta Champions. Raramente foi competente. A falta de competência é, de resto, o drama deste Benfica!
Enquanto a Matemática o permitir ... Era esta ideia simples que alimentava a Luz, não cheia como um ovo, mas vibrante e muito bem composta. Antes de tudo, em primeiro lugar, era preciso manter viva a chama da ... Matemática.
A chama imensa, com que os jogadores do Benfica entraram hoje no relvado da Luz para defrontar o campeão italiano, e líder da série A. A Matemática também é isso, nem sempre é fria, exacta e implacável. Às vezes alimenta sonhos ...
Mourinho apresentou duas novidades no onze inicial, se bem que apenas uma surpresa. A de Ivanovic, no lugar do titularíssimo Pavlidis. Percebia-se daí que o plano de jogo passaria por uma contenção mais recuada, cabendo ao ponta de lança croata a tarefa de acrescentar profundidade. O jogo encarregou-se de mostrar que era bem mais que isso que Mourinho esperava de Ivanovic.
A outra novidade, Tomás Araújo no lugar de António Silva, não foi surpresa. Justificar-se-ia pela maior velocidade do Tomás, mas talvez encontremos a justificação no dérbi da passada sexta-feira.
O Benfica entrou muito bem no jogo. Muito compacto, mas também a confundir e a baralhar os jogadores do campeão italiano, que não atinavam com as marcações, eram sucessivamente surpreendidos em todas as zonas do campo, e passaram a cometer erros com que António Conte nunca contaria.
À passagem dos primeiros 10 minutos um enorme passe de Sudakov isolou Ivanovic que, com tudo marcar, permitiu a defesa ao gigante Milinkovic-Savic. A bola ficaria ainda viva para, na recarga, Aursnes fazer o golo que o colega desperdiçara. Rematou a rasar o poste, gorando-se a segunda grande oportunidade de golo no mesmo lance. Repetiu tudo pouco depois, quando, na cara do guarda-redes Milinkovic-Savic rematou à malha lateral da baliza uma bola que o próprio lhe tinha entregue de bandeja, num daqueles erros que o Benfica tinha forçado o Nápoles a cometer.
Nem deu tempo para as bancadas lamentarem tanto e tamanho desperdício porque, logo a seguir, um minuto depois, aos vinte, o Benfica marcou. Depois de um cruzamento de Dahl, e de McTominay e Ivanovic a terem disputado, de cabeça bem dentro da área do Nápoles, a bola sobrou para Richard Ríos, em pantufas, a desviar para dentro da baliza.
O golo, que o Benfica mais que já justificara, pouco mudou o jogo. Os dados estavam lançados, e assim continuaram. O Benfica controlava um jogo em que o Nápoles continuava meio perdido. Jogava claramente melhor, mesmo que volta e meia se percebesse a grande qualidade, individual e colectiva, dos napolitanos.
Ao intervalo António Conte mexeu na equipa, e renovou as alas lançando Politano, para a direita, e Spinazzola, para a esquerda. Parecia que a alteração iria produzir efeitos imediatos. A qualidade dos dois novos alas, somada à de Neres - que passou para a esquerda - e Di Lorenzo que se manteve na direita, era suficiente ameaçadora para o Benfica.
Só que, na primeira saída para o ataque, ainda antes de esgotados os primeiros cinco minutos, numa espectacular jogada de futebol, uma combinação entre Ivanovic e Richard Ríos (homem do jogo) acabou num desvio de calcanhar de Leandro Barreiro, na pequena área napolitana, a enganar Milinkovic-Savic e a fixar o 2-0.
A partir daí o jogo mudou. Conte continuou sucessivamente a mexer na equipa, reforçando o poder ofensivo. E o Benfica recuou, e passou a abdicar de ter bola. Parecia perigoso. Mas na realidade nunca o foi. E voltaram a ser do Benfica as melhores oportunidades para marcar. O 3-0 esteve sempre mais perto que o 2-1!
Pavlidis, já no lugar de Ivanovic, desde a entrada para o último quarto de hora, por duas vezes - aos 80 e aos 84 minutos - poderia ter marcado. E foi Milinkovic-Savic, e não Trubin, quem passou pelos maiores calafrios.
E os 7 minutos de compensação acabaram até na oportunidade para as estreias de Tiago Freitas, e José Neto, o recente campeão do Mundo sub-17. Logo na Champions. E numa vitória tão clara quanto importante!
Esta tarde/noite, em Amesterdão, alguma destas duas velhas figuras de proa da História do futebol europeu iria decidir que não era a pior desta Champions. Parece irónico, mas não é!
O Benfica entrou bem no jogo, decidido a mostrar ao mundo do futebol que a tabela classificativa é mentirosa, que não é, nem quer ser, a pior equipa da Champions. Tão bem que o golo de Dahl, logo aos cinco minutos, não surpreendeu ninguém. Aos cinco minutos, um golo surgir como natural, é sintomático!
Depois, no resto da primeira parte, ao Benfica faltou sempre qualquer coisa. Começou a faltar qualquer coisa para marcar o segundo golo. E passou a faltar qualquer coisa para deixar o Ajax KO. Ficou a sensação que foi meia hora em que faltou sempre qualquer coisa: a combinação certa, a decisão perfeita, o toque final. Não foi sempre a mesma coisa, foi sempre mais outra coisa. Faltou sempre qualquer coisa para que o Benfica materializasse a superioridade que se sentia e, assim, confirmar-se como muito melhor que o Ajax, e credor de lugares mais altos na tabela classificativa.
Depois dessa meia hora - desperdiçada essa meia hora para o Benfica se confirmar muito melhor que o Ajax - passou a faltar outra coisa. Essa já bem concreta e definida: passou a faltar ganhar os duelos, que antes ganhara com grande facilidade.
E foi por passar a ser o Ajax a ganhar os duelos, e a chegar primeiro à bola, que o Benfica deixou ser a equipa impositiva, que foi para, primeiro, permitir que o jogo partisse e, depois, passar a jogar na expectativa, recuada, à espera. À espera do adversário, e à espera do erro.
O intervalo não funciona aqui como marco. Parece até que não existiu. A segunda parte prosseguiu naturalmente, como se nem interrupção tivesse havido. Esta transição do jogo surgiu em sequência natural.
Mesmo recuado, e na expectativa, o Benfica foi melhor que o Ajax. Talvez não tão melhor quanto o golo de Barreiro, a cinco minutos do fim, faça o resultado sugerir. Mas, ainda assim, melhor para justificar passar-lhe a lanterna vermelha.
Para que o futebol do Benfica levante voo é preciso que lhe deixem de faltar as muitas "qualquer coisa". Enquanto continuarem a faltar, se é que alguma vez deixarão de faltar, que a equipa seja compacta, e que os jogadores sejam solidários e concentrados, como hoje foram.
Não são apenas estas - e a primeira vitória - as boas notícias que hoje chegaram de Amesterdão: o regresso de Manu, mesmo que por escassos 5 minutos, é outra.
Está amaldiçoada, a participação do Benfica nesta Champions, marcada pelo pecado original da desastrosa derrota no arranque, com o Qarabag, há quase dois meses.
Esta noite era decisiva para a inversão dessa maldição. Todos os sentiam. Mourinho também, e pedira aos adeptos uma presença em força. Que jogassem também. Os adeptos nunca falham, e lá estivemos 58 mil, a acreditar. Enquanto foi possível. Mas nunca exactamente a jogar. Na verdade nunca saíram das bancadas grandes empurrões ...
O Benfica entrou em campo com o onze habitual, sendo que a variabilidade na ala esquerda é já habitual. A novidade foi Barreiro, à frente do meio campo, aquele que, para Mourinho, é o seu lugar. A pressionar, e a dar profundidade, no que Sudakov, hoje de novo deslocado para a ala esquerda, não tem respondido.
E entrou a jogar bem, dando continuidade à melhoria que tinha mostrado na segunda parte de Guimarães. Não sendo exuberante, não atingindo grande brilhantismo colectivo nem que, para além da de Rios (finalmente a confirmar-se), tenha havido grandes exibições individuais. Mas dominando claramente o jogo e criando muitas oportunidades para marcar.
O Bayer Leverkusen, confirmou ser uma equipa que troca bem a bola (sob a batuta do nosso Grimaldo, o capitão, mas também o patrão) e rápida e assertiva a desdobrar-se para o ataque, sem confirmar as fragilidades defensivas que lhe eram apontadas. E deixou claro desde o primeiro minuto que vinha à procura do empate. Era tudo o queria levar do jogo.
A primeira parte acabou por ser um confronto entre uma equipa virada para a frente, a querer ganhar, e com dinâmica de vitória - o Benfica -, e outra a virada para si própria, a segurar a bola, e a adormecer o jogo - o Bayer. Só o Benfica procurou o golo, que poderia ter encontrado por quatro ou cinco vezes. Rematou 11 vezes, quatro delas na baliza, e duas na barra. A equipa alemã apenas por uma vez conseguiu chegar à área de Trubin, num lance criado e finalizado pelo velocíssimo Poku, com um remate ao lado da baliza.
Não fosse esta uma Champions amaldiçoada e Benfica teria saído para o intervalo a ganhar por números que garantiriam desde logo uma vitória irreversível.
A segunda parte arrancou no mesmo ritmo, mas mais amaldiçoada ainda. Nos primeiros dez minutos Pavlidis falhou três golos cantados. Na primeira vez, logo aos 2 minutos, não foi só maldição. A tentação para fintar o guarda-redes, e entrar com a bola pela baliza dentro, em vez de a rematar de imediato para a baliza, não é maldição. É pecado capital!
A maldição ficaria completa em poucos minutos. Esgotavam-se os primeiros 10 minutos da segunda parte quando, finalmente, desta vez depois de virar o Barreiro, o árbitro italiano se dignou a puxar do amarelo para Tapsoba, antigo jogador vimaranense. Que, no minuto seguinte, voltou a abalroar o cabo-verdiano do Benfica, desta com o cotovelo e dentro da área (na imagem). Penálti, e expulsão - não poderia ser de outra maneira. Mas pôde - árbitro e VAR fizeram que não viram nada. Logo a seguir, num raro contra-ataque, Patrick Schick, que acabara de entrar, recebeu a bola à entrada da área, sobre a esquerda, e chutou, para o primeiro remate à baliza da equipa alemã, obrigando Trubin a uma grande defesa. A bola sobrou para a frente de Dahl que, pressionado pelo lateral direito contrário, Arthur, não teve discernimento para mais que, de cabeça, devolver a bola ao avançado do Bayer, numa assistência primorosa para o golo do checo.
Faltava meia hora para o fim do jogo. Mas maldição é assim. E porque o Benfica a sentiu, mas também porque o árbitro italiano permitiu que a equipa alemã impedisse que continuasse a haver jogo, foi como se tivesse acabado ali, ao 65 minutos.
No fim, fica mais uma derrota. A mais injusta de todas. E o fim das aspirações europeias para esta época.
As últimas imagens são sempre as que ficam. E as que ficaram do Benfica no Saint James Park, em Newcastle, são da mais dramática decepção.
Na verdade o Benfica acabou o jogo a transformar o Newcastle, o 14º classificado da Premiere League, numa potência da élite do futebol mundial!
O Benfica até entrou bem no jogo, mas já se percebeu que isso não é sinal de coisa nenhuma. O Benfica vem entrando bem nos jogos todos, o pior é o que vem a seguir. O que começou a vir logo a partir dos primeiros dez minutos, quando se começou a perceber que a ideia de pôr o Tomás Araújo no lado esquerdo da defesa, não era grande coisa. Com Aursenes à frente, aquele lado esquerdo não dava para atacar e, a defender, era uma auto-estrada aberta a Murphy e Trippier. Ou que o Dedic, sozinho na direita, nunca daria conta do Gordon, o seu adversário directo e o melhor em campo.
Mesmo assim, depois de ter deixado bem à mostra estes pecados, o Benfica ainda conseguiu dar a ideia que podia discutir o jogo e o resultado. Desequilibrado, a coxear, mas sim ... Poderia ser que sim. Era tudo à conta de Lukébakio, mas chegou a parecer possível que ele conseguisse arrastar o resto da equipa.
O belga esteve por duas vezes muito perto do golo. À segunda, a meio da primeira parte, quando a bola partiu do seu pé esquerdo já toda a gente a via dentro da baliza. Naqueles décimos de segundo que demorou a percorrer a distância para a baliza vimo-la sempre colada às redes, mas no último momento acabou no poste, e a afastar-se definitivamente do rumo que lhe tinha sido traçado.
Estava já a partida num intrincado jogo de equilíbrios e desequilíbrios quando o desequilibrado lado esquerdo do Benfica cedeu. Numa saída de bola, Tomás Araújo entregou a bola ao entalado Aursenes, que logo tentou desfazer-se dela, de primeira. À toa. Foi facilmente interceptada, e foi parar ao pior sítio - os pés (e os olhos) do Bruno Guimarães. A partir daí, com a equipa descompensada, foi ... limpar o rabinho a meninos.
Até ao intervalo Lukébakio ainda voltou a pôr-nos a sonhar com o golo do empate mas, depois do golo, o Newcastle nunca deixou de estar por cima do jogo.
Essa sensação manteve-se depois do intervalo. Durante um pouco mais de metade da segunda parte o Benfica ia entretendo um jogo - ganhando uns cantos, e tal ... - que o Newcastle ia dominando.
Até que com a equipa no ataque, numa segunda bola de um canto, Lukébakio (em ataque posicional é outro jogador, nem comparação tem!) quase quis desfazer-se da bola, cruzando-a directamente para as mãos de Nick Pope, o guarda-redes que já lhe negara um ou dois golos. Que, com as mesmas mãos, a lançou para o recém-entrado Harvey Barnes correr por ali fora até, no meio de quatro (!) defesas do Benfica, bater Trubin.
A partir daí o Benfica afundou. E os 20 minutos que se jogaram até ao apito final do árbitro polaco - que até aí errara sempre em prejuízo do Benfica, fosse a beneficiar o infractor, fosse a trocar faltas, e até amarelos, mas que nesses minutos negros até foi amigo - foram um dos maiores pesadelos dos últimos tempos.
Só deu para mais um golo, com Barnes a bisar, em mais um erro tremendo de uma equipa desnorteada. Mas bem poderia ter acabado num resultado ainda muito mais pesado. Valeu Trubin, com um punhado de boas defesas.
Apenas ele e Lukébakio escaparam ao desastre de Saint James Park. Mourinho afundou-se com a equipa. Na abordagem ao jogo, no onze inicial, nas substituições que não fez (apenas Dedic, lesionado, foi substituído por Ivanovic, para jogar na ala esquerda, de onde saiu Aursenes para jogar a lateral direito), na persistente incapacidade de virar o que quer que seja.
Zero pontos à terceira jornada, é péssimo. Pior, ainda, é a equipa completamente de rastos, humilhada, que sai deste terceiro jogo.
O Benfica está numa fase em que tudo lhe acontece. Quando acabava de sair vivo - mais que isso, claramente por cima do jogo, com duas excelentes oportunidades de golo, uma delas a bola ao poste de Lukebakio - do primeiro quarto de hora do jogo, liquida essa superioridade com um auto-golo.
Se a este Benfica acontece tudo, a Rios acontece tudo e mais alguma coisa. Um ou dois minutos antes de, com um ímpeto que ainda lhe não tinha sido visto, se antecipar a três defesas da sua própria equipa, para marcar na baliza de Trubin, por lhe faltar metade - ou menos - desse ímpeto, em frente da linha de golo da baliza do Chelsea, falhara o golo na baliza certa.
Não foi apenas isto o jogo de Stamford Bridge - onde Mourinho, neste regresso, voltou a ser aplaudido - mas foi apenas isto a segunda derrota nos dois jogos do Benfica na presente edição da Champions.
Como já se deixou perceber, o Benfica entrou bem no jogo. Mourinho não fez muitas alterações (relativamente ao último jogo, com o Gil Vicente) no onze inicial, mas mudou a abordagem táctica da equipa. Enzo - o nosso, o outro, o capitão deles, foi o alvo do ódio de estimação dos muitos benfiquistas que se deslocaram a Stamford Bridge, que durante mutas fases do jogo dominaram também nas bancadas - regressado do castigo, juntou-se ao duo (Rios e Aursenes) do meio campo do último jogo, que passou a três. Da frente saiu Schjelderup, com o lado esquerdo entregue a Sudakov, mantendo-se Lukebakio e Pavlidis.
Tacticamente bem, mesmo com uma ou outra hesitação de um ou outro jogador, o Benfica demonstrava não temer o campeão do mundo. Não quer dizer que dominasse por completo o jogo, nem que exibisse um futebol exuberante, mas jogou o suficiente para estar por cima do jogo, e para chegar a ser entusiasmante. Na primeira parte o Chelsea construiu dois lances de golo - nenhuma delas foi a do auto-golo de Rios -, o Benfica, três ou quatro.
A diferença foi feita pelo auto-golo. Que é um acidente de Rios, mais que um erro de Rios. O erro, que já tinha ocorrido num lance anterior, é de Dedic, que foi fechar no meio, onde estava Rios, e podia estar ainda Enzo, deixando Garnacho completamente livre.
Na segunda parte o Chelsea não foi melhor. E o Benfica foi ainda um pouco melhor. Sem deslumbrar, sem grandes e claríssimas ocasiões de golo, mas melhor durante mais tempo. Com a impetuosidade de Rios no auto-golo, muita da produção ofensiva teria certamente acabado em grandes oportunidades e, algumas delas em golos.
Assim, aconteceu apenas que o Benfica, a dar melhor conta de si, perdeu um jogo (competitivo) que não merecia perder. Depois de perder (com o Qarabag) o jogo que tinha de ganhar, hoje o Benfica perdeu a oportunidade de não perder com o Chelsea.
Contra um adversário do Azerbaijão, da quarta divisão europeia, com uma equipa maioritariamente constituída por jogadores provenientes das divisões secundárias do futebol português, depois de, à passagem do primeiro quarto de hora, estar a ganhar por 2-0, o Benfica cometeu a proeza de perder o jogo inaugural da Champions.
Cometeu não só a proeza de perder o jogo, mas de se deixar claramente inferiorizar por uma equipa com Leandro Andrade, que jogou no Fátima e no Olhanense, e marcou o primeiro golo. Com Camilo Durán, que passou pelo Portimonense, Lusitânia Açores, Estrela Amadora, que marcou o segundo. Com Kadi Borges, que na segunda parte espalhou o pânico na defesa do Benfica, que jogou no Estoril e no Vilafranquense. Com Matheus Silva, que secou o Schjelderup, e veio do Moreirense. Com Pedro Bicalho, o melhor em campo, que jogou no Alverca, e no Santa Clara. Com Kevin Medina, que chegou e sobrou, primeiro para Pavlidis e, depois, para Ivanovic.
Pois, depois de meia hora que só tinha dado Benfica, este adversário atingia, ao intervalo, 49% de posse de bola. Teve a bola em seu poder desde o pontapé de saída para a segunda parte até marcar o golo do empate. Foram 3 minutos. Rematou mais à baliza (5 contra 3), obrigando Trubin a fazer duas grandes defesas, que evitaram outros tantos golos. E cometeu praticamente metade das faltas (6, contra 11 do Benfica).
Agora, que bateu no fundo, e já despedido pela bancada, Bruno Lage passou a decisão para Rui Costa. Não sei se lhe facilitou a vida, se o deixou entre a espada e a parede. Donde afinal nunca conseguiu verdadeiramente sair.
Catedral cheia, cheia de 65 mil, a vibrar para atacar o último degrau de acesso à Champions. A vibrar tanto que até a águia Vitória se assustou, e enrolou o voo.
O Benfica, com a equipa habitual, com Akturkoglu, e com Barreiro - que não foi surpresa no onze, só foi surpresa na exibição, absolutamente fantástica durante toda a primeira parte -, entrou de mãos dadas com os 65 mil nas bancadas, disposta a saltar para cima do Fenerbahçe para, dali, atacar esse último degrau.
Bruno Lage, que não é realmente grande especialista em comunicação, tinha falado desta ligação entre a equipa e as bancadas da Luz estabelecendo uma dicotomia entre emoção e razão. À emoção vinda das bancadas juntou a equipa a razão trazida para o jogo. E lá se juntaram ambas, razão e emoção, numa noite memorável, e numa das mais categóricas exibições dos últimos tempos.
O Benfica - reconheceu Mourinho, referindo-se à primeira parte do jogo - não foi melhor; foi muito melhor. E foi. Na primeira parte, de forma absolutamente esmagadora. Mas também na segunda, só que sem ser esmagador.
O jogo começou logo com o grito de golo a soltar-se das 65 mil gargantas, a dar o mote para o que seriam aqueles 45 minutos de futebol demolidor, feito de razão e paixão. Bola recuperada em zona adiantada, Pavlidis assiste para a desmarcação e o remate de Barreiro, na cara do golo. Era golo, era golo ... mas Livakovic fez valer a sua enorme categoria para uma defesa incrível.
Não tardaria muito para se voltar a gritar golo, e festejá-lo a preceito. O relógio assinalava 11 minutos e, desta vez, não havia Livakovic que valesse. Canto do lado direito, cobrado por Dahl, com António Silva, bem no centro da área, a desviar de cabeça para Pavlidis desviar para dentro da baliza.
Não valeu Livakovic, mas valeu outro croata - o árbitro Slavko Vincic, que tinha sido anunciado como amigo de Mourinho, que não lhe poupara elogios. Que, depois de ter apontado para o centro do campo, e depois de prolongada espera pela confirmação do golo, se deslocou ao monitor para de lá vir com a decisão de anular o golo, conforme Mourinho se apressara a reclamar. Assinalou um livre indirecto, que tanto poderá querer dizer que, ou houve um fora de jogo (no caso de Barreiro, que não tocou na bola, nem interferiu em coisa nenhuma e, mais ainda, nada provou que estivesse e fora de jogo), ou qualquer falta por "jogo perigoso", que nenhuma imagem valida.
Portanto, golo anulado só porque sim. Porque Mourinho pediu, e o árbitro é amigo dele. Ao que dizem...
Nada que fizesse o Benfica parar, e muito menos desanimar. Por isso continuou, impávido e racional, a desbaratar a equipa turca. Bastaram mais 11 minutos para a cena se repetir. Desta vez é na magistral cobrança de um livre, na esquerda, que Akturkoglu coloca a bola ao segundo poste, onde surge Barreiro a finalizar com qualidade para o fundo da baliza de Livakovic.
Desta vez foi o próprio árbitro a anular de imediato o golo. Como ninguém viu razão para isso, ela ficou à mercê da imaginação de cada um. E, como se sabe, a imaginação dá para tudo. Dá para dizer que o Barreiro terá empurrado o Brown antes de rematar; ou até que o Otamendi terá bloqueado a acção da defesa de um defesa do Fenerbahçe.
Portanto, novo golo anulado novamente só porque sim. Desta vez Mourinho nem teve que pedir, o árbitro é amigo ...
Novamente, o Benfica continuou. A ganhar todos os duelos, a mandar no jogo ... Os jogadores do Fenerbahçe respondiam com faltas duras. Os do Benfica com sucessivas oportunidades para voltar a marcar. Só o conseguiu por uma vez, 11 minutos depois do segundo, e apenas 5 depois de se ter voltado a gritar golo, quando Pavlidis falhou clamorosamente o golo que Akturkoglu lhe tinha oferecido. Ao terceiro golo - que tinha de ser marcado por Akturkoglu, depois de tudo o que se passou não podia ser de outra forma, num grande remate, a concluir uma jogada com créditos a atribuir a Aursenes e a Barreiro - já não dava para anular ...
O intervalo não chegaria sem mais duas grandes oportunidades de golo, ambas criadas por Barreiro, o jogador mais influente da primeira parte. Uma, desperdiçou ele próprio, a outra foi mais um desperdício de Pavlidis. Chegaria sim com uma das maiores mentiras escritas no resultado!
Na segunda parte o jogo mudou um pouco de tom. O Benfica continuava dominador, mas reduzia a intensidade posta no jogo. Os jogadores da equipa turca aumentaram a agressividade e a dureza, com a complacência do árbitro amigo, em acentuado desnorte. Ainda assim continuou a única equipa a criar oportunidades para alterar o marcador. E só um guarda-redes tinha trabalho - Livakovic. Que, à saída do primeiro quarto de hora, voltaria a fazer uma defesa notável, a negar o golo a António Silva.
A meio da segunda parte Mourinho fez duas substituições (Muldur e Archie Brown por Aydin e John Durán) que deram algum fôlego à sua equipa, permitindo-lhe equilibrar o jogo durante cerca de 10 minutos. Não mais. Valeram-lhe, esses 10 minutos, um remate de cabeça tipo chouriço que levou a bola, caprichosamente, a esbarrar no ângulo superior direito da baliza de Trubin (não fez uma única defesa!), um remate de cabeça de Talisca por cima da barra, e outro, de pé direito, ao lado do poste direito.
A oito minutos do fim Talisca imitou Florentino, na primeira mão, e fez duas faltas para amarelo em três minutos. Nem um árbitro amigo o salvaria da expulsão, que ditaria o baixar final de braços do Fenerbahçe.
O homem do jogo foi Richard Rios, com um nível exibicional simétrico ao de Barreiro. Enorme na primeira parte, mas caiu bastante na segunda.
No fim fez-se a festa na Luz. Merecidíssima. O Benfica está onde tem que estar. Na Champions, entre os melhores!
Benfica e Fenerbahçe não tiveram mesmo sorte no sorteio que alinhou os jogos do play-off da Champions, que definem o acesso à fase de liga. Quis a sorte, ou lá o que é, que tivessem de decidir entre si quem vai ter acesso aos 75 milhões de euros que estão em jogo, que é, mais coisa, menos coisa, aquilo a que poderão aspirar. São, de longe, as duas melhores equipas deste play-off , e uma delas vai ficar de fora, quando lá entrarão, garantidamente o Bodoe/Glimt (Noruega), certamente o Qarabag (Azerbaijão) ou, provavelmente, equipas como o Kairat Almaty (Cazaquistão), ou o Pafos (Chipre).
Nesta primeira mão, em Istambul, disputou-se um jogo de futebol num tabuleiro de xadrez.
Tudo começou com a novela da contratação de Akturkoglu, que o Fenerbahçe utilizou para destabilizar o Benfica, numa manobra bem ao jeito de Mourinho, tenha ele tido ou não intervenção directa no processo. Desta vez ninguém estava a dormir no Benfica que, percebendo a manobra, e sem grandes alaridos, tratou de escalar a equipa com Akturkoglu e mais 10.
Para além da entrada do internacional turco, no lugar de Ivanovic, Bruno Lage jogou ainda com a de Florentino, na vez de Schjelderup, partindo para a colocação das peças no tabuleiro. Mourinho manteve a fórmula que tão bem resultara com o Feyenoord, mantendo o onze com que goleara a formação neerlandesa no acesso a este play-off , e que o tinha deixado de peito cheio.
Poderia pensar-se que Bruno Lage até poderia ganhar um jogo de futebol a Moutinho. Que lhe ganhasse um jogo de xadrez, poucos admitiriam. Mas foi isso que aconteceu: transformaram o jogo de futebol num de xadrez, e Lage ganhou.
O Benfica teve sempre mais bola e conseguia anular as iniciativas ofensivas da equipa de Mourinho. Dominou e controlou o jogo. Sempre. Percebia-se que todos aqueles equilíbrios só deixariam de funcionar se um qualquer grão de areia que ali entrasse. A não acontecer qualquer incidente que perturbasse aquela harmonia - não, não era um grande jogo aquele que a equipa estava a fazer, era o jogo necessário e, nessa medida, perfeito - o Benfica só poderia ganhar aquele jogo.
Foi esse o sentimento durante mais de uma hora de jogo. O Benfica tinha mais posse de bola, toinha a iniciativa do jogo, e era a única equipa a criar a ideia que, em qualquer momento, poderia chegar ao golo.
A meio da segunda parte Bruno Lage lançou Ivanovic para o lugar de Barrenechea, que viera amarelado da primeira parte. Uma substituição que, ao mesmo tempo que precavia o risco de um segundo amarelo, relançava as peças do tabuleiro para o formato comum. A ideia que ficava era que, ganha a primeira batalha, a do equilíbrio e do controlo do jogo, passava para a segunda, a de o ganhar.
Parecia perfeito. Mas o incidente que se temia aconteceu a 20 minutos do fim. Em apenas dois minutos Florentino viu dois amarelos. O primeiro sem qualquer razão, nem falta fez. Apenas porque os jogadores da equipa turca tinham apostado tudo no condicionamento do árbitro, forçando a nota a cada falta, ou a cada simples contacto (o lado do xadrez de Mourinho). Só que injustos ou injustificados, ou não, os amarelos contam da mesma maneira, e não é aceitável que, dois minutos depois de levar um amarelo, um jogador pense, sequer, em agarrar um adversário que lhe vai fugir.
A jogar com 10, e com tanto tempo para jogar, pensou-se que todos os equilíbrios ficariam desfeitos. Bruno Lage voltou ao tabuleiro de xadrez e, lançando Leandro Barreiro e Tiago Gouveia, retirando Akturkoglu e Pavlidis, regressou à fórmula inicial (Aursenes derivou para direita para o centro do meio campo). Com menos um era impossível dominar o jogo, mas era possível controlá-lo.
E foi isso que aconteceu, com sucesso, até ao fim do jogo. Até porque no segundo incidente, no que seria um frango descomunal de Trubin, o golo de En-Nesyri foi imediatamente invalidado por fora de jogo.
Quando, daqui a uma semana, as equipas se voltarem a encontrar na Luz, para aí se decidir tudo, será um outro jogo. Certamente difícil, porque este Fenerbahçe tem muitos bons jogadores. E cada vez mais. Hoje já teve mais Nelson Semedo. Na próxima semana terá ainda mais um ou dois.
E queria ainda ter Akturkoglu, por tudo isso a figura do jogo desta noite.
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