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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Pogaçar - mas também Evenepoel - outra vez!

El Mundial de ciclismo de ruta 2025 se correrá en Ruanda

Correu-se hoje, pelas colinas da capital Kigali, a prova de estrada dos campeonatos do mundo 2025, no Ruanda, pela primeira vez no continente africano.  Num traçado que incluía a interligação de dois circuitos num total de  267,5 km, num dos Mundiais mais exigentes de sempre, tanto pelo acumulado de subida (5.500 metros) como pela altitude (Kigali ronda os 1.850 metros), e com desafios especiais na Côte de Kimihurura (1,3 km a 6,3%), na Côte de Kigali Golf (800 metros a 8,1%), na Côte de Péage (1,8 km a 5,9%) e, especialmente, a subida final á meta, em paralelepípedos, no Muro de Kigali (400 metros a 11,0%).

Depois de, há oito dias, na competição de contra-relógio, ter sido brutalmente batido (tendo mesmo sido dobrado, e ficando fora das medalhas, por 1 segundo no quarto lugar) por Remco Evenepoel, que conquistou o 3º título mundial, Pogaçar voltou ao esplendor, vencendo com autoridade e revalidando o título mundial. Com tanta autoridade quanto a do ano passado, em Zurique. 

Não foi muito diferente, o desempenho do melhor corredor de bicicletas do mundo. No ano passado Pogaçar atacou a 100 quilómetros da meta, e avançou sozinho para os últimos 51 quilómetros, cortando a meta com 34 segundos sobre os australiano Ben O`Connor. Este ano, depois da fuga onde contou com o precioso apoio do mexicano Isaac del Toro, seu colega da UAE (nestas competições de selecções o espírito de equipa predomina muitas vezes sobre o da selecção do respectivo país), partiu sozinho a mais de 60 quilómetros da meta, e venceu com cerca de 1,5 minutos de vantagem sobre Evenepoel, o segundo, juntando a medalha de prata à de ouro no contra-relógio.

Remco Evenepoel, que talvez pudesse ter feito ainda melhor, não fosse duas mudanças de bicicleta, a última meio desastrada teve, ainda assim, um desempenho notável. Protagonizou a perseguição a Pogaçar durante muitos quilómetros, no trio que compôs com irlandês Ben Healey e o dinamarquês Mattias Skjelmose, até perceber que, que se era para puxar, que teria de o fazer sozinho. E, sozinho como Pogaçar, não perdeu tempo para o esloveno.

A medalha de bronze, foi para Ben Healey, que na subida final se despediu de Mattias Skjelmose.

Portugal participou com apenas quatro ciclistas - Ivo Oliveira, Tiago Antunes, António Morgado e Afonso Eulálio. Que, em nono - a fechar o terceiro grupo, já em cima dos 7 minutos, com o italiano Ciccone, o dinamarquês Skujns, o mexicano Isaac del Toro, e o espanhol Ayuso -, ficou bem dentro  do top ten mundial.

Uma nota para a participação, a título individual, de Artem Nich, o bi-campeão da Volta a Portugal, no 24ºlugar, a 10 minutos de Pogaçar.

 

Vuelta 2025 (fim)

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Terminou ontem, sem terminar, a Vuelta. Sem que os ciclistas cortassem a meta, e a festa se fizesse na Praça Cibeles. 

A anulação da etapa, depois da etapa 11, em Bilbau, ter terminado 3 quilómetros antes da meta, e sem vencedor, da etapa 15, o contra-relógio de Valladolid, ter sido encurtada para menos de metade da distância (correram-se apenas 12 dos 27 quilómetros previstos), e da etapa 16, em Castro de Herville, ter sido encurtada em 8 quilómetros, amputando-lhe a última e decisiva subida, não foi, de todo, surpreendente. 

Era expectável, como aqui foi sendo dada conta, que os protestos em favor da Palestina, provocados pela participação na prova da equipa de Israel, em Madrid - por ser a capital, por ser o fim de festa, com tudo aprontado e centrado num curto raio de acção, e por ser em circuito que os últimos quilómetros seriam disputados - levassem à anulação da última etapa. Que aconteceu a 56 quilómetros da meta. Para a presidente do governo regional de Madrid - a também Ayuso, mas Isabel -, bem como para todo o PP, por responsabilidade do Governo nacional. Já que José Luis Martínez-Almeida, perfeito de Madrid e também do PP, tinha garantido a segurança da última etapa com a mobilização de 3.000 polícias, a culpa do governo espanhol será certamente por ter declarado o reconhecimento do Estado da Palestina.

Para a História desta Vuelta, para lá dos protestos, e de todas as sua consequências, fica o pódio, com Vingegaard lá em cima, seguido de João Almeida, a 1 minuto e 16 segundos, e Pidckoc, a 3 e 11.

Mas também que o português confirmou que é neste momento o melhor do mundo ... depois de Pogaçar e Vingegaard.  Que o britânico foi a surpresa. Não era tido em grande conta para corridas de três semanas, e passará a contar.

Que Pellizzari, o jovem italiano da Red Bull, e Riccitello - parecendo nome italiano, é americano - da Israel, foram as revelações, nos sexto e quinto lugares, respectivamente. O italiano brilhou sempre mais, mas na Bola del Mundo perdeu o quinto lugar, e a liderança da juventude, para o americano.

Que Hindley, da Red Bull, quarto na classificação, é um valor seguro de top ten das grandes voltas. Como o austríaco Gall, da Decathlon, o oitavo. Que Kuss, o americano da Visma, o sétimo classificado, pode até andar desaparecido durante toda uma época, mas aparece sempre em Espanha. Que o norueguês Traeen, da Bahrain, o nono da classificação final e, depois de Vingegaard, quem mais dias andou de vermelho, foi a surpresa do top ten. Que o americano Jorgensen, o mais influente gregário da Visma, ainda conseguiu fechar.

Que Pedersen, o dinamarquês da Lidl-Trek, foi o primeiro da classificação por pontos. E J. Vine, o australiano da UAE, o vencedor da montanha.

E - the last, not the least - a imagem de uma UAE sem liderança nem estratégia, submetida aos egos das suas estrelas. Ganhou a classificação colectiva, com cerca de meia hora de vantagem sobre a Visma. Mas o top ten não engana: a Visma com três corredores  (1º, 7º e 10º); e a Red Bull, com dois (4º e 6º), foram sempre mais equipa que a UAE. E melhores!

 

Vuelta 2025 (IV)

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Só termina amanhã - se a etapa não vier a ser cancelada, em Madrid mas, como é da praxe, a Vuelta ficou hoje resolvida, na Bola del Mundo.

Hoje era dia D da Vuelta. A visita à Bola del Mundo, e a terrível subida para a meta no Puerto de Navacerrada, iria arrumar as contas finais da Vuelta. Para João Almeida era a oportunidade de a ganhar. Para a UAE já não havia mais oportunidade. Depois de ontem, a somar a tudo o que tinha sido uma corrida de costas voltadas para o seu melhor ciclista, ter demonstrado um amadorismo e uma displicência inconcebíveis, ao deixar Vingegaard fazer-se ao sprint intermédio em Salamanca, e acrescentar mais 4 segundos aos 40 que trazia de vantagem, a UAE não tinha como não ser protagonista nesta última etapa das decisões.

E foi-o, pela primeira vez à volta do seu chefe-de-fila. Tentou lançar corredores para fugas, eventualmente para poderem ajudar o João Almeida lá mais para a frente. Como a Visma lhe cortou essas intenções, pegou na frente do pelotão. Fez toda a etapa na frente, a puxar. Mas sem grandes resultados. Para além da natural anulação da fuga - essa seria sempre inevitável numa etapa destas -, mais nada!

A 9 quilómetros da meta, já em plena subida para o  Puerto de Navacerrada, mesmo que na cabeça do pelotão, a UAE já apenas dispunha de dois corredores (Grossschartner e Vine) ao lado do João. Dos seus oito. A Visma, dos seus 6, mantinha lá três, ao lado de Vingegaard. "O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita", foi um pouco assim. E o ritmo da UAE na cabeça do pelotão apenas fez estragos na própria UAE. Enquanto os seus corredores iam saindo para o lado, para darem a vez ao seguinte, os adversários iam ficando. A ver. E provavelmente a rir.

A 7 quilómetros da meta foi a vez de Grossschartner se desviar para o lado, ficando Vine a puxar. Então, sim, o ritmo do australiano era outro e os estragos começaram a ser visíveis nos adversários. Giulio Ciccone e Mikel Landa, os dois trepadores que resistiam da fuga inicial, foram finalmente ultrapassados, e o grupo que ficava na frente era drasticamente reduzido.

Quando Vine acabou, a 3 quilómetros lá do alto, o grupo na frente ficava reduzido a cinco ciclistas: João Almeida, que continuou a forçar o ritmo, com Vingegaard na sua roda, o seu colega kuss, e Hindley e Pidckoc. A subida era dura como poucas, com uma inclinação de 20%.

Primeiro atacou Hindley. Vingegaard seguiu-lhe a roda, e ganharam alguns metros, até o João recolocar tudo junto de novo. Percebia-se então que já não seria possível cavar diferenças que invertessem a classificação geral, e que o sonho do corredor português ganhar a Vuelta tinha morrido ali, naquela subida a 2300 metros altitude, onde o ar falta tanto como as forças. 

Para acentuar, ainda mais, isso a 1000 metros da meta, Vingegaard atacou e deixou os restantes quatro pregados ao cimento, que cobre aquele caminho estreito até lá ao alto. Onde ganhou pela terceira vez nesta Vuelta. Da forma mais clara de todas, e no momento mais certo de todos.

João Almeida acabaria por ser o último dos cinco a cortar a meta, a 20 segundos de Vingegaard. Que, com mais esta bonificação, vai ganhar com 1´e 16" de vantagem para o português. Que, sendo curta, transmite outro brilho à vitória do dinamarquês. Sem a vitória (clara) de hoje poder-se-ia sempre dizer que Vingegaard ganhara a Vuelta nas bonificações e na roda do João Almeida. Ainda por cima com uma verdadeira equipa ao seu serviço, com tudo o que faltara ao português.

E isso era capaz de não ser totalmente justo. 

Desta vez na segunda posição - repetindo o resultado de Joaquim Agostinho, em 1974 (decorria enquanto em Portugal acontecia o 25 de Abril), então por 11 suspeitos segundos para os espanhol José Manuel Fuente - João Almeida acaba por conquistar o seu segundo pódio numa grande volta, depois do terceiro lugar no Giro, em 2023. E isso só está ao alcance dos melhores, entre os melhores. 

Não sei se irá alguma vez ganhar uma grande volta. Tem dois galácticos na sua geração, e outros a caminho, mas tem condições próprias para tamanho feito. Desconfio é que, na UAE, nunca o conseguirá!

Vuelta 2025 (III)

Vuelta a Espanha 2025 | Etapa 18 | João Almeida recupera tempo a Vingegaard

Dada a forma com a competição tem estado a decorrer, às diferenças apertadas no topo da tabela, em especial entre os dois primeiros, os únicos com condições de chegar de vermelho a Madrid, o contra-relógio de hoje, em Valladolid, era dado como decisivo.

Deixou de o ser logo que, mais uma vez pelas manifestações contra a presença da equipa de Israel na Vuelta, a direcção da prova decidiu encurtar a distância do contra-relógio de 27 para 12 quilómetros (mais duzentos metros). Depois de, pelos mesmos motivos, terem tirado 3 quilómetros à etapa 11, em Bilbau e, anteontem, 8 à etapa 16, em Castro de Herville, ali na região de Pontevedra. Estes, justamente os 8 quilómetros dos mais altos pendentes, até à meta, que muita coisa poderiam também ter decidido.

Nunca se conhecerá a verdadeira extensão das consequências desportivas destas manifestações. Mas é como as bruxas em Espanha - que las hay, las hay. Os corredores (que não os colegas do João Almeida, da UAE, que na altura já estavam todos desaparecidos, sem combate) traziam certamente uma estratégia para atacar aqueles oito quilómetros da subida ao miradouro de Castro de Herville, e de repente a etapa acabou ali. Da mesma forma que, por exemplo, a etapa de ontem poderia ter sido corrida de outra forma se, em vez dos 27 quilómetros com que contavam para o contra-relógio de hoje, os ciclistas soubessem que teriam apenas 12 para fazer.

Mas as coisas são o que são, e não o que poderiam ser. O contra-relógio foi o que foi, e no que foi tivemos dois portugueses nos primeiros cinco classificados. Qualquer coisa de impensável ainda há pouco tempo: João Almeida, confirmando que, pela sua parte, tinha tudo para ganhar a Vuelta, ganhou 10 segundos a Vingegaard (apenas nono no contra-relógio), e foi terceiro, atrás de Vine, e a 8 segundos de Ganna, o italiano da Ineos que ganhou, com 13 minutos exactos; Ivo Oliveira foi quinto, a 11.

João Almeida parte para os últimos três dias - se a etapa de Madrid, a última, não vier, pelos mesmos motivos, a ser cancelada, como já se ouve à boca pequena - a 40 segundos de Vingegaard, e com dois minutos de vantagem sobre Pidcock. Para conseguir ganhar a Vuelta tem que apostar as fichas todas na penúltima etapa, na Bola del Mundo, de alta montanha, com a meta (se não houver surpresas) lá no alto (2300 metros de altitude) do Puerto de Navacerrada.

Se voltar a acontecer o que aconteceu até aqui, e voltou a repetir-se nesta semana de montanhas galegas, o João estará sozinho a subir para Puerto de Navacerrada, a responder aos ataques da Visma, de Vingegaard, e da Red Bull, de Hingley e Pellizzari. E ganhar será praticamente impossível.

Se na UAE - a única equipa completa, com todos os oitos corredores, quando a Visma tem apenas seis - surgir finalmente um pingo de vergonha e, em vez de se porem ao fresco à primeira dificuldade, Ayuso (68º, a 2 horas e meia), Vine (31º, a quase hora e meia), Soler (22º, a mais de 53 minutos), Grossschartner (26º a mais de uma hora), Ivo Oliveira (105º, a 3 horas), Bjerg (136º, a 3 horas e 40 minutos) e Novak (141º, a quase 4 horas), colaborarem, por uma única vez, o João ainda pode ganhar a Vuelta. 

Vuelta 2025 (II)

Almeida após vencer no Angliru:

Hoje era o dia da "etapa rainha" da prova, o da subida ao mítico Alto do Angliru, na Sierra del Aramo, nas Astúrias. 

Apesar de ser relativamente recente na Vuelta - apenas passou a entrar no traçado em 1999 - a subida ao Angliru já ganhou o seu espaço na mitologia da prova e do ciclismo mundial. Imortaliza quem lá chega em primeiro e, ao fim de um quarto de século, apenas um lá ganhou por duas vezes. Foi Alberto Contador, em 2008 e 2017!

Início da subida ao Angliru

Não é pela altitude, que lá no alto se fica pelos 1573 metros (o Angliru não é sequer o ponto mais alto do Aramo, esse é o Pico Gamoniteiro, com 1791). É pelo que se vê a seguir na fotografia: o desnível de 1266 metros, que leva a pendentes de 23,5%!

Desta vez chegou à 13ª etapa - costuma ser mais tardia -, numa distância de 200 quilómetros, contados a partir de Cabezón de la Sal, e contou com duas subidas de primeira categoria, antes daqueles últimos 12,5 quilómetros infernais, que parecem não ter fim. Que os melhores demoram mais de 40 minutos a percorrer. E era aguardada com grande expectativa.

Por tudo o que aqui havia deixado escrito na última visita à Vuelta, e porque, ontem, a UAE reforçou a imagem de uma casa sem rei nem roque. De um bordel em auto-gestão. O que se viu ontem, numa etapa de aperitivo para o prato forte de hoje, foi o espanhol Soler a trabalhar numa fuga, até à exaustão, para a vitória de Ayuso na etapa. Lançar dois dos principais corredores da equipa para uma fuga de longa duração, em montanha, na véspera da etapa rainha, decisiva, é tão absurdo que não pode ser decisão desportiva da hierarquia. Só pode ser uma acto de insubordinação, e uma inadmissível falta de respeito pelo João Almeida dos dois corredores espanhóis. Com a conivência, ou não, do espanhol Joxean Fernández, mais conhecido como Matxín, o director desportivo da UAE.

Para atacar o Angliru João Almeida contou apenas com o Ivo Oliveira, com os austríaco Grossschartner e com Vine. Os espanhóis, nem vê-los: no Angliru o valentão Ayuso foi 90ª, e penúltimo da equipa (atrás dele apenas o dinamarquês Byerg), a quase meia hora de João Almeida; e o seu cúmplice, Soler, foi 47º a quase 20 minutos, ali perto do português que deu a maior ajuda ao João.

A 6 quilómetros da meta - que demoram quase 20 minutos a fazer - João Almeida estava sozinho, sem qualquer companheiro de equipa com que pudesse contar. E decidiu atacar. Responderam, e com ele seguiram Vingegaard, com a melhor companhia que podia ter, o seu colega Sepp Kuss, o penúltimo vencedor da Vuelta, e Hindley (Red Bull Bora). Todos, sempre na roda do português. Até o americano da Visma, e o australiano da Red Bull, deixarem de aguentar o ritmo do João, menos de dois quilómetros depois.

Vingegaard aguentou-o. Aguentou esse ritmo, e aguentou todas as tentativas que o João fez para o deixar para trás, não se sabe bem como. O galáctico dinamarquês nunca deixa perceber em que estado vai. Aquela esfinge de miúdo permanece inalterável. Sabe-se é que, se viesse em boas condições, teria atacado. Nunca o fez, nunca saiu da roda. E, quando o João teve força para atacar a a meta, e ganhar a etapa, não conseguiu responder.

Foi uma vitória épica. Se já é épico ganhar o Angliru, nas condições em que o João ganhou, mais épico se torna!

Nada está decidido, tudo fica adiado para a terceira semana. Mas ficou claro que apenas Vingegaard e João Almeida têm condições de ganhar a Vuelta. O dinamarquês tem a vantagem de contar com uma grande equipa. O português sabe que só pode contar com ele próprio. 

Pidcock foi sétimo na etapa, perdeu cerca de minuto e meio, e mantém o terceiro lugar. Mas com Hindley, terceiro na etapa, à espreita.

 

Vuelta 2025 (I)

Vai já quase a meio, a 90ª Vuelta a España. Começou em Itália, no Piemonte, pela primeira vez. Partiu de Turim, a 23 de Agosto. Passou por França. Começou a aquecer em Andorra e está nesta segunda semana quase incandescente na alta montanha do norte de Espanha.

Vingegaard vai de vermelho, depois de ter vestido a camisola símbolo da liderança pela terceira vez. Vestiu-a pela primeira vez  logo à segunda etapa, ainda em Itália. À quarta, a primeira em França, passou-a (foi mesmo assim, quis ver-se livre dela) para o francês Gaudu, para a voltar a vestir no dia seguinte, no contra-relógio colectivo de Figueres, ganho pela UAE, do João Almeida. Voltou a despi-la - a Visma, a sua equipa, não queria, de todo, suportar o peso da vermelha - no dia seguinte, à sexta etapa, em Pal, em Andorra, para a entregar ao norueguês Traeen. Ontem, na 10ª etapa, em El Ferial Larra Belagua, na segunda vez em que o australiano J. Vine ganhou, vestiu-a pela terceira vez.

Às três é de vez?

A etapa de hoje, a 11ª, corrida em Bilbau, sempre a subir e a descer, não teve vencedor. Manifestações em favor da Palestina, aproveitando a presença no pelotão da equipa de Israel, precisamente patrocinada pelo estado israelita, colocaram em causa a segurança dos corredores na meta, pelo que a organização decidiu anular a chegada, e antecipar o final da etapa em 3 quilómetros.

Incidente à parte - se é que a anulação de uma chegada à meta se pode considerar mero incidente -, esta etapa não diferiu muitos das três últimas, a que antecedeu, e as duas que se seguiram ao primeiro dia de descanso, na segunda-feira. Três etapas de montanha que, se não decidiram nada, definiram muita coisa.

A primeira é que o britânico Pidcokc (Q 36,5), apontado como candidato a entrar no top ten, é um claro candidato ao pódio. Foi protagonista sempre que as dificuldades surgiram, e foi hoje o protagonista principal, acabando por ser o mais prejudicado com a anulação da chegada, porque tinha tudo para ser o vencedor da etapa.

A segunda é que Vingegaard não precisa de estar no melhor da sua forma - e não parece que esteja,  apesar de já ter ganhado por duas vezes - para ganhar a Vuelta. Porque dispõe de uma verdadeira equipa ao seu serviço. Para além de ser composta por grandes ciclistas, a Visma é um bloco que nunca o abandona. E isso vê-se a cada quilómetro de cada etapa. Vingegaard nunca está sozinho, tem sempre três ou quatro colegas de equipa a protegê-lo até à altura das decisões. Ou a lançá-lo estrategicamente, como aconteceu no domingo, na nona etapa (Alfaro-Estacion de Esqui de Valdezcaray), quando subitamente, e a 10 quilómetros da meta, atacaram em bloco para o levar à à segunda vitória e à primeira vez em que, em estrada, ganhou tempo a João Almeida. E a Pidcokc à única.

A terceira - a última, mas a mais significativa - é que, decididamente, a UAE não é uma equipa. É um bordel!

A João Almeida, à partida o único adversário capaz de discutir a vitória, em Madrid, com Vingegaard (Pidcokc, ainda é apenas a surpresa do momento), a UAE entregou o dorsal número 1 e mandou-o às feras. Poderia emergir Ayuso. E se isso acontecesse tirava-lhe o tapete. Ficou claro.

Ayuso falhou, bem cedo. Logo na sexta etapa, a primeira que Vine ganhou, quando perdeu 12 minutos. Para no dia seguinte atacar e ganhar a etapa em Andorra. Para se voltar a afundar logo a seguir, na subida à Estacion de Esqui de Valdezcaray, na nona etapa, no domingo, perdendo aí 22 minutos. Nesse dia, no tal em que a Visma lançou o ataque em bloco, Vine perdeu também mais de 13. O João Almeida olhou à volta e para trás - estava sozinho. E foi sozinho, a 10 quilómetros da meta, que foi montanha acima, atrás de Vingegaard. Rebocou Pidcock, que nunca colaborou, e limitou as perdas a 24 segundos. 

Não é de se queixar mas, no fim, queixou-se. E disse o que lhe ia na alma. No dia seguinte, no descanso, obrigaram-no a penitenciar-se. No regresso da corrida, depois do descanso, em vez de uma equipa unida à sua volta, focada em ganhar a Vuelta, João Almeida viu J Vine atacar a corrida para somar pontos para a classificação da montanha. E ganhar a etapa, a segunda. E voltou a ver Ayuso atacar. E Vine. E Soler...

Na decisiva etapa de hoje em Bilbau começou por sair Vine, e andar largos quilómetros em fuga. Depois foi Ayuso. E por fim Soler. Quando chegou a altura da decisão da etapa Vingegaard estava rodeado de quatro companheiros de equipa. João Almeida olhou à volta, olhou para trás, mas nada. Ninguém lá estava. Vine, Ayuso, Soler todos tinham acabado nas fugas em que se meteram. Para se ter uma ideia do que estão a fazer, Soler é o melhor classificado (25º, a 22 minutos do João); Vine é o 44º, a quase 50 minutos e Ayuso o 65º a bem mais de 1 hora.

Sozinho, o João atacou. Uma vez, duas vezes. Havia sempre alguém da Visma para responder, e trazer Vingegaard de volta. Até que foi a vez de Pidckoc atacar. Forte. O bi-campeão do Tour sentiu dificuldade, mas lá conseguiu recuperar a roda do britânico. E foram embora, não até à meta, mas até ao fim, ganhando 10 segundos ao João Almeida.

Que é segundo, a 50 segundos (menos de metade perdidos em estrada, o resto vem das bonificações) de Vingegaard, e com apenas 6 segundos sobre o surpreendente Pidckoc. 

 

Volta a Portugal 2025

Artem Nych deve hoje revalidar o título na 86.ª edição da Volta

A dois anos de celebrar o centenário, acabou de terminar a 86ª Volta a Portugal em bicicleta.

Ainda com o rótulo de maior acontecimento desportivo anual do país, a Volta já não é o que era. Não o será mais, afundada na terceira divisão do ciclismo internacional, com equipas nacionais com pouca qualidade, porque demasiadas para os recursos disponíveis, e estrangeiras ainda com menos, porque a falta de qualidade promove falta de qualidade. 

Basta lembrar que a Volta a Dinamarca, que decorreu em simultâneo e que ainda há poucos anos não conseguia concorrer com a portuguesa, contou com grandes nomes do pelotão internacional, desde logo com os principais dinamarqueses. 

Faltando qualidade, falta espectacularidade à Volta. Faltando isso, começa a faltar-lhe público. E faltando-lhe público, faltam-lhe os patrocinadores que é quem, no final de contas, faz a roda girar. Foi nisto que deu a batota com que o FC Porto e a W52 minaram o ciclismo português durante uma série de anos!

A subida à Senhora da Graça já não alimenta paixões. A subida à Torre já não produz heróis. Joaquim Gomes - creio que no seu último ano de mandato na organização da Volta - este ano ainda lhe juntou Montejunto, mas nem mais uma montanha lhe deu mais alma.

Foi ontem, na 9ª e penúltima etapa que, 42 anos depois, a Volta teve uma chagada na montanha mais alta do Oeste. Com partida aqui à porta, em Alcobaça, 52 anos depois da última vez, ainda no tempo em que o local de chegada de uma etapa era o mesmo da partida da seguinte. E no tempo em que Joaquim Agostinho vestia a camisola amarela na primeira etapa e nunca mais a despia. 

Nesse ano, em 1973, e pela segunda vez na sua carreira (a primeira tinha acontecido em 1969, com a vitória a ser atribuída a Joaquim Andrade) seria desqualificado e posteriormente declarado vencedor o espanhol Jesus Manzaneque, que havia ficado a quinze minutos.

Na Volta que temos, e nesta que hoje terminou em Lisboa, com um contra-relógio de 16 quilómetros, ganho por Rafael Reis, da Anicolor/Tien 21, que ganhara já o prólogo (ganhou à entrada e à saída, e foi o único corredor da equipa que dominou por completo, e ganhou a Volta individual e colectivamente, a vencer em etapas), o russo Artem Nich repetiu o triunfo do ano passado. Com 1 minuto e 15 segundos de vantagem sobre o francês Alexis Guerin, seu companheiro na Anicolor/Tien 21, e 1 minuto e 51 segundos sobre o sul-africano Byron Munton, da Feirense/Beeceler, que ocuparam o pódio.

Quatro portugueses apenas nos 10 primeiros. Tiago Antunes, da Efapel, no quinto lugar, foi o melhor. Os restantes foram Pedro Silva (Anicolor/Tien 21), logo a seguir, e Emanuel Duarte (Credibom/LA Alumínios/Marcos Car) e Lucas Lopes (Rádio Popular/Paredes/Boavista), o vencedor da juventude, já no fim da lista.

As designações das equipas portuguesas dão a ideia do problema dos patrocinadores. Apenas uma equipa, a Efapel, ostenta apenas uma marca. Praticamente todas apresentam três marcas, circunstância em que são virtualmente impossíveis ganhos de notoriedade que permitam rentabilizar qualquer investimento digno desse nome.

As equipas estrangeiras, que não enfermam desse mal, vêm para ganhar etapas. E ganharam a grande maioria delas. Note-se como a portuguesa Anicolor/Tien 21, que dominou a Volta como quis, apenas ganhou pelo Rafael Reis, a abrir (no prólogo) e a fechar (no mini-contra-relógio). Artem Nich ganhou a Volta sem ganhar qualquer etapa, bastando-lhe três segundos lugares (em Fafe, na Torre, e no contra-relógio de hoje) e um terceiro, na Senhora da Graça.

E foi isto a Volta a Portugal 2025. Não muito diferente da anterior, nem certamente da próxima.

 

Tour de France 2025 de A a Z

Os melhores da Volta a França 2025

A - Almeida - Apanhado na traição das quedas, e obrigado a desistir muito cedo, no fim da primeira semana, João Almeida fez muita falta a este Tour. Pela condição que revelava, e pelo que se viu dos adversários, teria muito provavelmente um lugar reservado no pódio, em Paris. Com ele, nem a corrida não teria sido a mesma, nem Pogaçar, que tantas vezes o lembrou, teria uma passagem tão discreta pelos Alpes. E tão distante de tudo o que prometera anteriormente.

B - BenHealy - O irlandês da EF Education-EasyPost foi um dos maiores animadores da corrida. Foi-lhe por isso atribuído o prémio de super-combativo. Ganhou uma etapa, a sexta, a segunda mais longa, ente Bayeux - Vire Normandía 201 km. Foi terceiro na décima, quando no dia da festa nacional francesa vestiu pela primeira vez a camisola amarela. Que seguraria por mais dois dias. Voltou a atacá-la dois dias depois de a perder, na etapa 14, nos Pirenéus. E mais dois dias depois, na 16, do Mont Ventoux, onde foi segundo, com o mesmo tempo do francês Paret Peintre (Soudal-Quick Step).

C - ConsonniPorque dos últimos também reza a História. Este italiano, da Lidl-Treck, foi o último classificado, na 160ª posição, a quase 6 horas de Pogaçar. Alguém teria de ser!

D - De LieNão cometeu grandes feitos, o jovem belga Arnaut de Lie, da Lotto. Mas é dado como um bom corredor de equipa. Foi também ele um animador de várias fugas. É apontado como bom finalizador, mas o melhor que conseguiu foi um terceiro lugar, dois quartos e um quinto. Foi ainda sétimo na meta nos Campos Elísios.

E - Evenepoel - Remco Evanpoel, o terceiro do ano passado, e ali a meio termo entre os galácticos e os humanos, falhou em toda a linha neste seu segundo Tour. Ganhou o contra-relógio, fazendo jus à sua condição de campeão do mundo, mas nunca mais esteve à altura do estatuto que já tem. Acabou por abandonar, claramente derrotado.

F - Florian LipowitzO alemão da Red Bull-Bora conquistou o terceiro lugar final, esteve no pódio, e foi o vencedor do prémio da juventude. Revelou-se um ciclista completo: com grande capacidade na alta montanha e  bom contra-relogista. E não tem medo de arriscar. Herdou a liderança da equipa. Roglic mostrou desde muito cedo que é mais passado que presente, e mais ainda que futuro. Esse pertence a este jovem alemão. 

G - Gall - O quinto lugar na geral é um bom resultado para Felix Gall. O austríaco da Decathlon não fez uma corrida conservadora. Correu riscos, e atacou, aqui e ali. Não deu para muito, mas deu para deixar uma boa imagem.

H - HautacamFoi a subida ao Hautacam, nos Pirenéus, ali próximo de Lourdes, que fez a diferença neste Tour. Esta subida entrou pela primeira vez no Tour apenas há 31 anos, e não tem tido uma presença constante. Esta foi apenas a sétima vez que foi escalada. Também não impressiona em altitude como tantas outras montanhas, especialmente nos Alpes. Mas, depois dos 12 quilómetros do Col du Soulor, e dos mais de 3 do Col des Bordéres, aqueles 14 quilómetros com 8% de pendente média, são decisivos.

Foi aí que Pogaçar arrumou verdadeiramente com Vingegaard, ganhando-lhe mais de 2 minutos. O cheque mate viria logo no dia seguinte, na crono-escalada de Peyragudes.

I - Ion IzaguirreO velho trepador espanhol, agora ao serviço da Cofidis, passou pelo Tour sem deixar qualquer marca. Sem honra, nem glória. O melhor que conseguiu foi um 42º segundo lugar, na 13ª etapa, a dos 11 quilómetros da crono-escalada de Peyragudes. No fim, foi 69º, a mais de 3 horas e meia.

J - Jordan JegatEste francês, da francesa TotalEnergies fechou, a quase 33 minutos, o top ten da classificação geral do Tour, o quadro de honra onde todos querem caber. E onde apenas dois franceses couberam. Às vezes não é preciso fazer muito para ficar no quadro de honra. A corrida de Jegat é disso um bom exemplo: apenas por duas vezes fez top ten na etapa - oitavo lugar na 15ª, a de Carcassone, e sétimo na 20ª, a penúltima, em Pontarlier.

K - Kevin VauquelinNa fase inicial do Tour, o jovem francês da Arkea, que tem vindo a alimentar os sonhos dos franceses (andam nisto há 40 anos), ainda chegou a parecer capaz de discutir um lugar entre os cinco primeiros e, principalmente, o primeiro lugar da juventude. Com a chegada à lata montanha rapidamente se percebeu que Vauquelin não conseguiria confirmar as prestações iniciais. Onde, em boa verdade, nunca fez mais que permanecer resguardado na roda dos da frente. Foi sétimo na geral. E compara bem com o seu compatriota no top ten: apenas por uma vez, na etapa 12, no Hautacam, fez melhor que a classificação final - foi sexto.

L - Luka MezgecNem só de Pogaçar e Roglic se faz o ciclismo esloveno. Também se faz de Mezgec, já um veterano, que chegou bem antes deles - já vai para 10 anos na australiana Jayco AlUla. Foi o 152º, a mais de 5 horas e 40 minutos.

M - MilanO italiano Jonathan Milan, da Lidl-Trek, conquistou o segundo mais importante classificação de uma grande corrida - a dos pontos, da camisola verde. E a única que escapou - ainda que por pouco, e apesar das etapas de montanha valerem bem menos pontos que as planas - a Pogaçar. Bastaram-lhe as duas etapas que venceu, mais os dois segundos lugares, e mais alguns sprints intermédios, num Tour corrido a grande velocidade, com muitas fugas e, por isso, pouco favorável aos sprinters.

N - Nelson OliveiraO segundo corredor português em competição teve uma participação discreta. Tentou integrar uma ou outra fuga, entrou numa, chegou então a andar na frente, mas não resultou. A sua equipa, a Movistar, também não esteve melhor. Nem o seu líder, Enric Mas. Que abandonou, também sem honra nem glória.

O - Oscar OnleyOnley é uma das maiores revelações neste Tour 2025. Este britânico de 22 anos, da Picnic PostNL, revelou uma regularidade e uma força mental fora do comum. Foi quarto classificado, ficou à porta do pódio. Por 1 minuto e 12 não chegou ao terceiro lugar, nem foi o primeiro da juventude. E confirmou que está já no patamar mais alto do ciclismo mundial.

P - Pogaçar - Foi o ciclista mais forte e regular do Tour. Alcançou a quarta vitória e, a nada de anormal acontecer na sua carreira, fica em condições de superar as míticas cinco vitórias de Anquetil, Merckx, Hinault e Induráin. Nos Pirenéus parecia que bateria todos os recordes de vitórias neste Tour. Fosse por fadiga, fosse por alguma questão de saúde, ou fosse porque lhe faltou equipa, quando já lhe faltava João Almeida, não o pôde confirmar nos Alpes. Mas ganhar como ganhou (sempre) a Jonas Vingegaard. Ganhar com diferenças de tempo nada  habituais. Ganhar ainda classificação da montanha, e ganhar quatro etapas, não deixa margem para qualquer tipo de especulação sobre uma eventual quebra na terceira semana do Tour.

Q - Quinn SimmonsO campeão americano de estrada, que representa a Trek, foi dos corredores que mais deram nas vistas no Tour. Não sei se houve alguma fuga onde ele não aparecesse. Se há ciclistas cuja função principal é mostrar as camisolas, com os patrocínios, este seria um dos mais eficazes. A que mostrou, mostrava a bandeira americana. Talvez fosse essa a ideia, porque ele também é conhecido por ideias ... menos simpáticas. Mas ... que foi valente, foi. Como foi incansável no apoio a Milan. Tudo isso valeu-lhe o prémio de melhor équipier do Tour.

R - RoglicChegou a parecer que a maldição do Tour seria este ano ainda mais penosa para Primoz Roglic. Quando parecia afundar-se, encontrou ânimo, força e motivação para resistir, acabando por salvar a segunda metade da prova. Acabou em oitavo, a 25 minutos e meio do seu compatriota. Mas é indiscutível que Roglic está decididamente na fase descendente da carreira. Que, depois de tantos anos no nível mais alto do ciclismo mundial, vai acabar sem uma vitória na sua competição mais importante.

S - Sepp KussAos 31 anos o americano da Visma foi uma sombra do grande ciclista que foi. Aquele que era considerado o melhor braço direito do mundo, o corredor que qualquer líder queria na equipa, foi dos mais discretos do Tour. Nem foi para ele, nem para Vingegaard, a quem nunca serviu ... de nada. Foi 17º na geral, a mais de 1 hora e vinte minutos, mas falhou sempre.

T - Thymen ArensmanÉ grande, gigante este neerlandês da INEOS. Mas é também um enorme corredor de bicicleta. Perdeu logo no início a hipótese de lutar por um dos lugares mais altos da geral, e acabou por se ficar pelo 12º lugar, a quase 53 minutos de Pogaçar. Mas fez um grande Tour, venceu duas etapas de grau de dificuldade extremo: Superbagnéres e La Pagne, ambas à frente dos dois do costume. E foi segundo noutra, no Mont-Dore. Se não tivesse perdido tanto tempo nas etapas iniciais ...

U - UAE - Mais uma vez, a maior e mais poderosa equipa de ciclismo do mundo, não esteve à altura dessa condição. Os erros, que terão porventura começado no escalonamento dos corredores, ficaram mais à vista com a queda e o abandono de João Almeida. Pogaçar raramente precisou de equipa, mas quando precisou, não teve! 

V - Vingegaard - O dinamarquês da Visma chegou ao Tour disposto a conquistar o seu terceiro título, e igualar o seu rival, e único verdadeiro adversário, mas rapidamente Pogacar, muitas vezes até de forma impiedosa, lhe deixou claro que isso era ambição em excesso. Vingegaard foi o segundo melhor ciclista do Tour, e nem foi preciso esperar pelos seus piores dias (no contra-relógio de Caen e na subida de Hautacam) para perceber que não conseguia ser melhor que Pogaçar. Acabou o Tour ao mesmo nível do esloveno, não tanto pelo que tenha melhorado, mas talvez mais pelo que tenha Pogaçar piorado. Continua a demonstrar uma consistência impressionante: foi segundo em quatro etapas e terceiro em outras quatro, e subiu ao pódio de Paris pelo quinto ano consecutivo. 

W - Woot Van Aert - O extraordinário corredor belga da Visma não teve neste Tour a influência que costuma ter nas competições em que participa. Como tinha acabado de ter no Giro. Ainda assim não passou ao lado, não é corredor para isso. Ganhou, brilhantemente - o único a derrotar Pogaçar - a última etapa, nos Campos Elísios. 

X - Xandro Meurisse - Este belga, da também belga Alpecin, é mais um exemplo de um gregário, que trabalha no pelotão para os objectivos da equipa. Que, no caso desta equipa belga, é ganhar etapas. O que não é pouco. E ganhou três, por Philipsen, o seu principal sprinter e a primeira vítima das primeiras quedas, logo na primeira etapa. Pelo extraordinário Mathieu Van der Poel, a figura maior da primeira parte do Tour, até ter sido obrigado a desistir, vítima de pneumonia, que ganhou a segunda. E ainda pelo australiano Kaden Groves, que ganhou a 20ª, em Pontarlier, isolado. 

Y - Yates - São dois, são gémeos, estavam em lados opostos, ao serviço dos dois monstros do Tour,  e são dois grandes corredores. Mas os manos britânicos não estiveram ao seu nível, ambos. Simon, da Visma, que vinha de ganhar (surpreendentemente) o Giro Adam, ainda assim esteve melhor. Foi 15º na geral, ganhou uma etapa, no Mont-Dore, e viu-se ainda ser muito útil a Vingegaard. Adam, da UAE, foi 24º e raramente foi útil a Pogaçar.

Z - Zimmermann - Ao francês da Intermarché pedia-se que ajudasse Girmay a repetir a camisola verde do ano passado. Mas o corredor da Eritreia, desde cedo diminuído pelas quedas, não teve possibilidade de discutir essa classificação. Resistiu, quase que heroicamente, para terminar o Tour. Acabou na 132ª posição da geral, a 5 horas e um quarto. Georg Zimmermann, esse acabou fora de estrada, à 10ª etapa.

 

 

Tour de France 2025 (VIII)

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A Volta a França chegou hoje ao fim, em Paris, e nos Campos Elíseos, como vem sucedendo há 50 anos, tradição apenas quebrada no ano passado, por força dos Jogos Olímpicos.

Com uma novidade, no entanto: o circuito de Paris, que tradicionalmente fecha a última etapa, contou com a passagem por Montmartre. Que fez toda a diferença, roubando a etapa final aos sprinters. O que era um circuito em pelotão compacto, e uma chegada disputada ao sprint, porque nas três voltas ao circuitos corredores tiveram de passar por três vezes na subida para Montmartre (1,1 quilómetros, com uma inclinação média de 5,9%) passou a ser um circuito corrido aos grupos, com uma chegada isolada à meta.

Pogaçar, que depois dos Pirenéus não voltou a ganhar, nestas circunstâncias, quis ganhar em Paris. Fez por isso mas, o que é louvável. Mas já não está tão forte (os Alpes deixaram isso evidente) como já esteve. Afinal também ele é humano!

A Visma meteu dois corredores (em apenas seis) no grupo de Pogaçar, que atacou a frente da corrida nos últimos 30 quilómetros: Matteo Jorgenson e Wout van Art. E fez muito bem o jogo de equipa, com o americano a fazer o trabalho de desgaste para o belga desferir o ataque final na última passagem pela subida. Ainda assim, e pese a enorme categoria de Wout van Art, não foi sem surpresa que o vimos atacar e voar para a meta, isolado, de baixo de chuva copiosa, deixar Pogaçar irremediavelmente para trás, e alcançar a vitória que sempre lhe fugira neste Tour.

Com a chuva, a organização decidiu congelar os tempos a 50 quilómetros da meta, pelo que as assinaláveis diferenças de tempo na meta já não contaram para a classificação geral. Por isso, o ataque ao último lugar do pódio, e à camisola branca que, nas condições da etapa, ainda estariam em aberto, não chegou a acontecer.

E a quarta vitória de Pogaçar no Tour acabou por ser a mais clara de todas. Vingegaard foi um digno vencido, a 4,5 minutos. Lipowitz fechou o pódio, a 11 minutos, e foi o primeiro da classificação da juventude.

 

Tour de France 2025 (VII)

O Tour chegou hoje aos Alpes, com a 18ª etapa, nos mais de de 171 quilómetros entre Vif e Courcherel, com a meta no Col de La Loze. Era a etapa rainha deste Tour, com três montanhas de categoria especial, a última na meta. Se os dois primeiros lugares do pódio, em Paris, não tivessem ficado decididos há quase uma semana, no contra-relógio em Peyragudes, seria dela, desta etapa de hoje, que tudo se esperaria.

Mas pode dizer-se, com propriedade, que a montanha pariu um rato.

Como se não lhe bastasse toda a importância que lhe era atribuída, a etapa ficará ainda marcada pelo abandono de dois nomes grandes do ciclismo, e do espanhol em particular: Enric Mas e Carlos Rodriguez. 

Depois de se ter aguentado muito bem na primeira semana, sempre na parte superior do top ten, Enric Mas afundou na classificação e desapareceu. Reapareceu no Mont Ventoux, mostrando-se e acabando por chegar à meta praticamente lado a lado com Pogaçar e Vingegaard, no sétimo lugar na etapa. Muito pouco para o líder da Movistar. Carlos Rodriguez, que liderava a Ineos, teve sempre prestações modestas. Mesmo sempre dentro do top ten, que precisamente fechava, nunca esteve à altura do seu estatuto.

Os corredores começaram logo a subir e, ainda antes de corridos os primeiros 40 quilómetros, já escalavam os 22 quilómetros da primeira contagem especial Col du Glandon, aos quase 2 mil metros de altitude. Aproveitou-a - foi mesmo isso, aproveitar enquanto podia - Lenny Martinez para procurar  os pontos que lhe dessem alguma vantagem para a camisola das bolinhas da montanha que veste, e persegue, mesmo sabendo que ela depende bem mais da vontade de Pogaçar que da dele.

Menos de 20 quilómetros à frente já se começava a subir o mais íngreme, e mais alto, Col de la Madeleine. Em que a Visma apostou tudo para testar a UAE e Pogaçar. 

A UAE ficou-se nas covas e a Visma brilhava a grande altura. Pogaçar ficara ali sozinho, à mercê de um Vingegaard rodeado de companheiros de equipa. A primeira guerra parecia ganha, e a 80 quilómetros da meta o dinamarquês lançou o ataque que tudo prometia. Parecia uma loucura, mas não havia outra forma.

Só que Pogaçar não estava pelos ajustes, e nunca lhe deu uma nesga. Foram ambos por ali acima, e lá chegaram juntos ao alto da Madeleine, deixando toda a gente para trás. Faltavam  muitos quilómetros para a meta, quase sessenta. E faltavam os mais de 26 quilómetros até aos 2304 metros de altitude de La Loze.

Por isso Pogaçar decidiu controlar a corrida. Deixar andar, até que toda a gente que fora destroçada pelo ataque que tudo prometia regressasse. Apenas o australiano Ben O´Connor (Jayco), e o colombiano Rubio, da Movistar, não estiveram de acordo com aquela "pax pogaçariana" e fizeram-se ambos à vida.

Quando se iniciou a subida para o Col de La Loze o grupo do camisola amarela era praticamente o mesmo que a Visma tinha dizimado 60 quilómetros atrás. E aí tudo foi virado do avesso. Não foi propriamente a vingança da UAE, mas também não foi qualquer coisa de muito diferente.

E foi com Vingegaard submetido a Pogaçar, que atacou quando quis e muito bem entendeu, para chegar á meta já só atrás de Ben O´Connor. 

Vingegaard, e a sua equipa, fizeram o que podiam. Fizeram bem, mas Pogaçar não lhes permite  poderem mais. Não tivesse tudo há tanto resolvido e teria sido outra a história desta etapa rainha. E a montanha não teria parido o rato!

Há sempre efeitos colaterais nestas histórias. Há outros a ganhar e a perder. O jovem britânico Oscar Onley,(Picnic PostNL) foi quem mais ganhou com a história de hoje, e é agora mais sério candidato à camisola branca (da juventude) e ao último lugar do pódio).

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