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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Vuelta 2022 - Fim

Ao 21º dia de corrida - de calendário foram mais três - terminou a Vuelta, em Madrid, em plena Cibeles, com a vitória ao sprint - como tem que ser - do colombiano Molano, da equipa de João Almeida que, surpreendentemente, bateu o melhor sprinter da prova - Pedersen, o incontestado camisola verde - e Ackermann, o sprinter da sua própria equipa, ambos superiormente trazidos para o sprint final pelo português Ivo Oliveira. Afinal também há colombianos dotados para o sprint, e capazes de bater os melhores especialistas!

Quando, à sexta jornada, Evenepoel vestiu a roja, escrevi aqui que estaria encerrando o ciclo de mudanças diárias na liderança. Até aí a camisola vermelha tinha mudado de corpo em todos os dias, e escrevi então que "a partir de hoje vai certamente ser diferente". Que o jovem belga deixara "claro que agora é para segurar". Não imaginava então que a segurasse até ao fim, e que seria o grande vencedor desta Vuelta. Nem eu, nem quase ninguém!

Evenepoel é um jovem, com apenas 22 anos - não é por falta de jovens valores que o ciclismo terá o futuro em causa; vimos no Tour, e voltamos a ver na Vuelta, uma classificação geral praticamente decalcada da classificação da juventude - e não dispunha de equipa para lhe garantir tamanho sucesso. A Quick-Step Alpha Vinyl está muito longe do poderio da concorrência. E não é fácil vencer uma competição de três semanas sem a protecção de uma equipa forte, e especialmente preparada para isso.

É certo que o abandono de Roglic, que tentava a quarta vitória consecutiva - as três conseguidas já eram feito único -, e que mostrava ser o único adversário capaz de o desafiar, facilitou-lhe as coisas. E é ainda certo que a forma como a corrida se desenrolou a partir desse abandono, mas também já antes, permitiu-lhe aproveitar o trabalho das equipas adversárias, sem que precisasse muito da ajuda da sua. Mas não lhe bastou ser apenas inteligente a capitalizar essas condições. Teve que ter pernas, força e determinação para se aguentar sempre no meio do trabalho das equipas adversárias. E não só teve, como teve sempre resposta para os ataques dos adversários e ainda para tomar, ele próprio, iniciativas de ataque.

E foi tão afirmativo, tão convincente em cada vez que o fez, que, na decisiva etapa de ontem, de alta montanha e aquela que tudo decidiria (nova vitória de Carapaz, que assegurou o prémio da montanha, "herdado" pelo abandono de Jay Vine), não foi sequer atacado por Enric Mas - novamente segundo - vencido e convencido. Pelo contrário, o que se viu ao longo de toda a etapa, foi quase uma aliança táctica entre os dois. Luís Almeida que o diga!

Que ontem voltou a fazer uma etapa notável, confirmando a ideia que poderia ter feito muito melhor. Se tivesse entrado melhor na primeira semana ... e se o seu estatuto de líder tivesse sido levado a sério. Ontem tinha o quinto lugar para conquistar, e conquistou-o com categoria, à custa de Carlos Rodriguez. Outro fantástico jovem que, diminuído pela queda, dois dias antes, prosseguiu com bravura. Não conseguiu resistir aos ataques de João Almeida, apesar do forte apoio da sua equipa (Ineos) e acabou ainda ultrapassado por Arensman (mais um dos que aproveitaram os ataques de João Almeida). Por 12 segundos, caindo para sétimo.

O pódio, depois de Evenepoel e Mas, acabou completado com Ayuso. Outro jovem - apenas 19 anos - de grande valor. Mas mau companheiro, tanto quanto deu para perceber. Ontem demonstrou-o mais uma vez. João Almeida,  que até parece um tipo com bom feitio, terá de o tolerar como colega de equipa, mas não o quer certamente para amigo!

Amigos ficarão certamente os dois primeiros. Andaram sempre juntos, e sempre na melhor das harmonias, sem zangas. Os dois minutos de vantagem de Evenepoel sobre Enric Mas não são mais que os que o belga ganhou ao espanhol no contra-relógio!

 

Vuelta 2022 -IV

João Almeida, ciclista da UAE Team Emirates

Correu-se hoje a 18ª etapa da Vuelta - provavelmente a mais espectacular desta edição - de média montanha, entre Trujillo e Piornal, na Estremadura, já sem Roglic. Que ficou fora da corrida no arranque desta terceira e última semana, anteontem, depois do último dia de descanso, na passada segunda-feira, depois de uma queda no final da 16ª etapa, em cima da meta, quando disputava o sprint para a vitória na etapa, confirmando-se como o mais azarado cilcista dos últimos anos. 

Evenepoel furou - há até quem diga que simulou um furo, mas isso são as más línguas - 800 metros depois da entrada nos últimos três quilómetros, circunstância que o deixava a coberto de qualquer perda de tempo para o grupo principal, e Roglic atacou para lhe ganhar tempo e vencer a etapa. Inexplicavelmente caiu, a poucos metros da meta, e ficou bastante mal tratado, impedido de partir para etapa de ontem. Quando era segundo, a apenas 1´e 26´´, e parecia o único ciclista com condições para derrotar o jovem belga. 

Esta etapa de hoje acabou por não provocar grandes diferenças na classificação, mas nem por isso deixou de ser uma corrida espectacular, a mais excitante desta Vuelta.

Ontem já João Almeida aparecera, e mostrara toda a qualidade que lhe é reconhecida. Não ganhou muito com isso, foi apenas 13º na etapa, ganha por Rigoberto Uran, à frente do grupo de 12 ciclistas que resistiu em fuga, e ganhou apenas 9 segundos aos da frente. Mas o ataque que desferiu na subida, nos últimos três quilómetros, deixando toda a gente para trás, foi uma demonstração do seu bom momento, já que a sua qualidade está mais que demonstrada. Hoje voltou a fazê-lo, com uma etapa extraordinária.

É certo que voltou a não ganhar muito com isso, foi décimo na etapa, e acabou até por perder 13 segundos para Evenepoel - que voltou a ganhar - e para Enric Mas, segundo na etapa. Mas acabou por ganhar algum tempo aos que lhe sucedem na geral, alargando diferenças, e ganhou um pouco mais de 1 minuto a Carlos Rodriguez, aproximando-se do seu quinto lugar, agora à sua mercê, a apenas 25 segundos.

A etapa começou mal, com uma queda que mandou para o hospital o jovem australiano Jay Vine, um dos maiores animadores da prova e virtual vencedor da montanha. E deixou bastante mal tratado o também jovem Carlos Rodriguez, que ainda assim resistiu heroicamente e conseguiu, numa etapa super disputada como foi esta, perder apenas 1´e 20´´ para os da frente. Hoje, com a ajuda da equipa - Ineos - resistiu. Amanhã, se conseguir ter condições para partir para a etapa, ou no sábado, dificilmente será.

Mas também com uma fuga, numerosíssima, com 41 corredores. Que foi ganhando tempo e mais tempo ao pelotão. João Almeida bem queria lá ter estado, mas é um dos mais vigiados do pelotão, e não lhe dão facilmente essas condições. Estava a fuga com 9 minutos de vantagem, e faltavam 85 quilómetros para a meta e três montanhas - na verdade apenas duas, o Alto del Piornal é que foi subido por duas vezes - para subir, quando atacou. Sozinho.

A partir daí foi uma corrida espectacular de João Almeida. Começou por fazer tudo sozinho, com dois colegas de equipa na fuga - o compatriota Ivo Oliveira e o espanhol Marc Soler. Primeiro, mas mesmo assim tarde para quem assistia à corrida, foi o seu compatriota a cair do grupo da frente para lhe dar uma ajuda. Fez o que pôde, e teve de deixar João Almeida de novo entregue a si próprio, subida acima. Que mesmo assim ia tirando tempo à fuga e mantendo, e às vezes até ganhando para o grupo dos principais da classificação. E nunca mais se via o espanhol, para a dar uma mãozinha. Acabou por aparecer à vista do corredor português, lá em cima, já no fim da segunda montanha, na primeira subida ao Alto del Piornal. Pareceu tarde, mas enfim... O espanhol deu mesmo uma boa ajuda, e acabaram por chegar juntos ao primeiro grupo da fuga inicial, já na derradeira subida, quando Soler encerrou o trabalho. 

João Almeida não estava agora sozinho. Mas tinha sozinho de fazer todo o trabalho. Ninguém colaborou com ele. Ou porque não pudessem, ou porque não lhes interessava. E no entanto poderia interessar, desde que admitissem que poderiam chegar aos que de lá tinha saído e disputar a etapa. 

E aos poucos, com os movimentações lá atrás na guerra da geral - todos atacaram, mas Enric Mas, e especialmente Evenepoel, deram espectáculo - o grupo acabou alcançado pelos primeiros da classificação, que acabou com tudo. Menos com João Almeida, que seguiu com eles. E eles eram todos os que estavam à sua frente menos o infeliz Carlos Rodriguez. A partir daí já só tinha a ganhar o que podia ser ganho - tempo ao quinto classificado.

O pódio ainda não estará descartado. E um lugar no top 5 está muito próximo. Seria bom que não fosse pela desistência do Carlos Rodriguez.

Evenepoel parece indestronável, mas nada está fechado até ao final da tarde de sábado. O último dia D. O D de domingo é F, de festa!

Vuelta 2022 - II

Correu-se hoje, nas Astúrias, a oitava etapa da Vuelta, entre Pola de Laviana  e Yernes y Tameza, corrida em montanha, e com a meta a coinicidir com uma contagem de 1ª categoria. 

Jay Vine voltou a ganhar em montanha, como há dois dias, a confirmar que é um grande trepador, e o dos que atravessam o melhor momento de forma. O ciclista australiano pertence a uma nova geração de ciclistas que vem do Zwifit, uma plataforma que se transformou numa verdadeira academia de ciclismo.

Voltou a dar espectáculo, e ganhou lá em cima, á frente de todos os que o acompanharam na fuga que desde cedo se desenhou, entre os quais gente de respeito como Soler (companheiro de João Almeida, que quebrara o jejum espanhol, a voltar a confirmar que quipa é coisa que não lhe assiste) que acabou segundo, Taramae (3ª), Pinot (4ª) ou Landa, que já não resistiu à perseguição final do grupo dos principais protagonistas.

João Almeida fez a sua corrida, de trás para a frente, como já vem sendo hábito nas mais difíceis etapas de montanha. E sempre sozinho, sem equipa. Mesmo quando alcancou o miúdo Juan Ayuso, seu colega de equipa, teve que ser ele a fazer a despesa. Acabou por perder mais alguns segundos para os três da frente - onde  Evenepoel, como aqui se previa, já não é um portador transitório da roja e que, com Mas e Roglic, começam a desenhar o pódio - mas também acabou a subir dois lugares, fixando-se agora no oitavo posto da geral.

Vai bonita, esta Vuelta. Beneficia de ser a última oportunidade para a redenção da época, tornando-se numa competição mais aberta, e do facto de ter menos estrelas do sprint, o que faz com que as etapas sejam menos controladas pelas respectivas equipas.  

E tudo isto a torna na mais aberta, e muitas vezes na mais espectacular - mesmo que, neste ano, o Tour tenha sido insuperável - das três grandes voltas do calendário internacional!

 

Vuelta 2022 -I

UAE Emirates e Espanha tiveram o grande dia ao Sol(er), Rudy Molard ganha  liderança a Roglic na quinta etapa da Vuelta – Observador

A Vuelta chegou à sexta etapa, com a chegada, hoje, ao Pico Jano, na Cantábria. Foi a primeira etapa de verdadeira montanha, com a meta a coincidir com uma contagem de primeira categoria, e começou a definir a relação de forças dentro da corrida.

Até aqui a camisola "roja" tem saltado todos os dias de um para outro - seis etapas e seis líderes diferentes. Ontem, na chegada a Bilbao, registara-se a primeira fuga bem sucedida, com Marc Soler, colega de  equipa de João Almeida na Emirates a ganhar - a primeira vitória espanhola numa das grandes voltas em dois anos, 121 etapas depois -  4 segundos à frente de dez ciclistas, mas 5 minutos à frente do pelotão principal. O que levou Roglic a entregar a "roja", que acabara de vestir, ao francês Rudy Molard. Que ficou com ela pendurada por 2 segundos para um companheiro de fuga, mas segura por mais de 4 minutos para as figuras importantes da competição.

Afinal bem mais pequenos que os 2 segundos neste primeiro teste de montanha. Nem os mais de 4 minutos foram suficientes para evitar que a camisola vermelha voltasse a não parar mais que um dia no mesmo corpo.

A partir de hoje vai certamente ser diferente. O australiano Jay Vine ganhou em Bilbao, com 15 segundos de vantagem sobre o belga Evenepoel, que passou a ser o novo líder, batendo claramente todas as grandes figuras da prova, e deixando claro que agora é para segurar. Pelo menos por mais uns dias!

João Almeida chegou em nono, com Roglic, perdendo ambos 1minuto e 22 segundos para Evenepoel e Enrique Mas, e entrou no top 10, já quase a 2 minutos da liderança, e mantendo os 53 segundos de desvantagem para Roglic, agora 4º classificado. Mas com evidentes dificuldades em manter o estatuto de chefe de fila da Emirates que, de resto, parece não passar do papel.

Na realidade não se percebe esse estatuto no comportamento da equipa. Ontem tinha sido o seu colega Soler a atacar. No fim, ganhou a etapa, e isso desculpa tudo. Só que hoje repetiu-se, desta vez com outro espanhol, Ayuso, um miúdo de 19 anos. Não ganhou, foi quarto na etapa para, no fim, acabar por ganhar 40 segundos ao português. E já não desculpa nada. Apenas demonstra que João Almeida foi novo abandonado pela equipa. E que o putativo estatuto de líder da equipa é para ser disputado.

E neste momento João Almeida tem que contar que entre os seus principais adversários - Evenepoel, Mas, Roglic, TJ Hart, Hindley ou Simon Yates - está também o seu companheiro de equipa, o miúdo de 19 anos, no quinto lugar da geral a pouco mais de 1minuto da liderança, encostado a Roglic e a meio minutos de Enric Mas.

Para se ter uma ideia de como está esta Vuelta, e de como valorizar o desempenho de João Almeida até ao momento, e nestas condições, Carapaz é 19º, a 3 minutos. Rigoberto Uran e Pozzovivo, estão mais para baixo, a 4. Mikel Landa, ainda mais para baixo, a 7 minutos. Pinot, Nibali e Allaphilippe mais ainda, já entre os 15 e os 20 minutos. Froome é 150º, a 1 hora.

A Volta ... do ano passado

Uruguaio Mauricio Moreira conquista 83.ª edição da Volta a Portugal

Conforme se esperava, e ontem aqui tinha ficado dito, Maurício Moreira ganhou a Volta a Portugal em bicicleta, a 83ª da História, vencendo o contra-relógio de hoje, de pouco mais de 18 quilómetros, entre o Porto e Gaia, ali à volta da foz do Duro. Curto, mas de grande exigência!

Os 7 segundos de desvantagem para Frederico Figueiredo foram rapidamente anulados, logo nas primeiras pedaladas. No fim, com o sétimo lugar na etapa, o ciclista português, que partira para o contra-relógio com a camisola amarela vestida e com a da montanha emprestada ao uruguaio, acabou a perder 1`e 26". E ficou com o segundo lugar na geral, e apenas com a camisola da montanha. Que só vestiu no pódio final!

A Glassdrive acabou por ficar com todos os lugares do pódio, porque António Carvalho, porventura o melhor ciclista desta Volta teve, também ele, um desempenho extraordinário no contra-relógio, logo atrás de Maurício Moreira - e à frente Alejandro Marque, com uma despedida ao nível da sua notável carreira em Portugal - e ultrapassou largamente os 29 segundos que trouxera de desvantagem para Luís Fernandes, nas condições aqui ontem descritas.

Voltando a elas, e à espécie de batotice com que as designara, saliento duas declarações. Em primeiro lugar as de Ruben Pereira, director desportivo da Glassdrive que, antes do contra-relógio, afirmou não ter nada a ver com aquilo, que nem tinha preferências, nem nunca tinha imposto o reboque ao uruguaio. Depois, no final do contra-relógio, as de Frederico Figueiredo, quando disse que Maurício Moreira tinha merecido ganhar a Volta ... pelo que fizera no ano passado.

Todos percebemos onde estava a verdade. Maurício Moreira tinha merecido ganhar a Volta que no ano passado dramaticamente perdeu. Esta, foi a direcção da equipa que decidiu dar-lhe a ganhar. Pode ser um gesto de gratidão apreciável, mas fere a verdade desportiva. Essa teria de ter sido deixar ganhar o melhor deste ano. E deixar que fossem Frederico Figueiredo e António Carvalho a decidir quem era o melhor.

A clara vitória de Maurício Moreira neste contra-relógio de hoje, e a sua própria honestidade no final, não esconde que esta tenha sido uma Volta ganha com mérito diferido. 

Claro que não tem comparação com as outras batotas. Nem nada tem a ver com a simples batota de uma equipa ter um nome quando ganhava com batota, e passar a ter outro quando a batota foi descoberta. A Glassdrive fez isto porque podia. Porque, como se viu, só ela tinha corredores para poderem ganhar. 

Podia. Mas não devia ter escolhido quem queria para ganhar. Como ficou claro para toda a gente. Até para o honesto Maurício Moreira!

Volta sem batota, mas com "batotice"

António Carvalho vence na Senhora da Graça. Glassdrive preenche pódio -  Renascença

Andava zangado com o ciclismo português, por causa da batota que se revelou ter sido nos últimos anos, e por isso não tinha trazido aqui a Volta a Portugal deste ano. Hoje, com o espectáculo da Senhora da Graça, rompi com essa zanga.

Já me aconteceu noutras ocasiões com o ciclismo, nacional e internacional. Porque afinal o "ciclismo é isto mesmo", zangamo-nos com a batota mas, no fim, a sua espectacularidade acaba sempre por falar mais alto. E por levar os adeptos da modalidade a esquecer essas traições, e a voltar a acreditar.

Foi assim, mais uma vez, hoje na Senhora da Graça. E cá estou reconciliado com este ciclismo, agora - quero crer - expurgado da batota. Que, por cá, chega sempre do mesmo lado.

Com o ciclo da batota do Porto/W52 interrompido, esta foi a Volta da Glassdrive, que vestiu a camisola amarela no prólogo, em Lisboa, e nunca mais a perdeu. Limitou-se a distribuí-la por três dos seus ciclistas, dominando por completo as três etapas decisivas desta Volta.

Na primeira, há uma semana, na Torre, trocou-a de Rafael Reis, que ganhara, como habitualmente, o contra-relógio do prólogo para o uruguaio Maurício Moreira, que ganhou na Serra da Estrela, e que é o eleito da equipa para ganhar a Volta. Que, apesar da batota, só não ganhara a Volta no ano passado por ter sofrido uma queda no contra-relógio final. A meio da semana, Frederico Figueiredo ganhou na inédita passagem pela Serra da Lousã, lá em cima, no Observatório do Parque Eólico de Vila Nova, em Miranda do Corvo, e passou ele a vestir a amarela, com 7 segundos de vantagem. 

Na Serra da Estrela ou na da Lousã, sempre com um grande trabalho de António Carvalho. Que era - e é ainda - quarto da geral, e prestou inestimáveis serviços ao uruguaio, que literalmente rebocou na Lousã, evitando que a vantagem de Frederico Figueiredo se tornasse praticamente irrecuperável.

Deste trabalho da Glassdrive tem aproveitado Luís Fernandes, da Rádio Popular/Boavista, para se agarrar ao terceiro lugar. Sempre "na gosma", como se diz na gíria. 

Hoje, na Senhora da Graça, tudo foi diferente. Mas não tão diferente assim.

A Glassdrive atacou a corrida e tudo fez para acabar com "a mama" do ciclista da Rádio Popular/Boavista, uma equipa que também nunca fez nada pela corrida. Tudo começou com o ataque de António Carvalho, a que se seguiu, depois, o dos dois colegas de equipa que ocupam os dois primeiros lugares, deixando o boavisteiro nas covas, incapaz de resistir ainda ao espectacular Alejandro Marque, em despedida, e acabando ultrapassado por grande número de ciclistas que vinham de trás.

Na frente, e descartado Luís Fernandes, António Carvalho esperou pelos seus dois colegas de equipa, para chegarem os três lá ao alto do Monte Farinha, ao ritmo conveniente a Maurício Moreira. Que não ao que podiam os outros dois.

Ganhou António Carvalho, repetindo o feito do ano passado, e o único que ainda não tinha ganhado nesta Volta. Mas, para que o uruguaio não tivesse perdido a hipótese de, amanhã, no contra-relógio final, ganhar este ano, em vez de Frederico Figueiredo, bem melhor na montanha e justíssimo vencedor da categoria, perdeu a possibilidade de chegar ao terceiro lugar da geral, e assim fechar um inédito pódio de uma só equipa. 

Não fora a decisão de manter a corrida na esfera de Maurício Moreira teria recuperado a diferença que tinha para o terceiro lugar do corredor da Rádio Popular. Ficou a 29 segundos disso. Mas só por isso!

Uma decisão lamentável, e anti-desportiva, a meu ver. Não é a batota de que se fala. Mas não é bonito. Nem racional: ninguém percebe que entregar a vitória na Volta a um ciclista pré-definido seja mais importante que toda a equipa ocupar o pódio, num feito inédito, tanto quanto me recordo.  

Amanhã bastará a Maurício Moreira, na sua especialidade, ganhar a Frederico Figueiredo os 7 segundos que tem de desvantagem para ganhar esta Volta. A última dos consagrados Alejandro Marque e Tiago Machado, e de Micael Isidoro, o meu amigo Mika.

Uma volta sem batota mas, ainda assim, com "batotices"! 

 

Tour de France 2022 - II

 Foto: Guillaume Horcajuelo/EPA

 

Tínhamos ficado (mas também chegado) na 11ª etapa, ainda nos Alpes, mas já com Jonas Vingegaard de amarelo, depois daquela quebra de Pogacar, por negligência alimentar, ao que se disse. Antes do Alpe d'Huez, que deixou tudo na mesma, como ainda está!

No Alpe d'Huez, no dia da França, no 14 de Julho, Pogacar atacou, mas Vingegaard respondeu com grande à vontade. E assim voltou a suceder repetidamente...Até hoje. 

Sucederam-se três etapas de transição dos Alpes para os Pirinéus, todas com a sua história, e nenhuma acabou por correr à medida dos roladores, e especialmente dos sprinters. Acabaram, sim, à medida dos interesses de Vingegaard. Ou porque respondeu sempre com facilidade aos ataques de Pogacar, sempre que a estrada empinava, ou porque, na 15ª, no domingo, entre Rodez e Carcassona, num percurso de 202,5 km, quando sofreu uma queda, Pogacar deu um exemplo de desportivismo, e não atacou a corrida, aguardando pela recuperação do seu adversário, e pelo seu regresso ao pelotão. À campeão!

Seguiu-se mais um dia de descanso, um inédito terceiro, antes de, ontem, chegar aos Pirinéus, para uma série de três etapas que, com o contra-relógio de sábado, decidirão a corrida. A etapa de ontem, a 16ª, entre  Carcassonne e Foix, com quatro contagens de montanha, uma de segunda e três de primeira categoria, disse muito do que pode ser esta passagem pelos Pirinéus. Disse que, afinal, Pogacar terá muitas dificuldades em apear Vingegaard do primeiro lugar. Disse-o na última montanha quando, depois do jovem esloveno ter atacado na subida anterior, com resposta pronta e clara do dinamarquês, não ter voltado a atacar na última  e decisiva subida ao Peyragudes, limitando-se a seguir na roda do seu companheiro Raphal Majka, até este ter partido a corrente e ficar apeado - incidente na sequência do qual se lesionaria, lesão que o impediu de partir para a etapa de hoje - e, depois, a seguir Vingegaard, bem protegido pela sua equipa de luxo, mesmo que já sem Roglic, que já não partira para a etapa, depois de grandes exemplos de humildade no trabalho gregário a favor do seu companheiro, no papel de líder que fora seu.

Ao abdicar de atacar no Peyragudes, Pogacar reconhecia claramente que não estava melhor que o seu adversário, e que não valia a pena atacá-lo. 

Hoje, na segunda etapa dos Pirinéus, entre Saint-Gaudens e Peyragudes um percurso de 130 km e de novo com quatro contagens de montanha, e de novo com três de primeira categoria (incluindo o mítico Col D´Aspin) e uma de segunda, e apesar de ter ganhado lá no alto de Peyragudes, hoje com a meta de chegada, Pogacar não deu melhores indicações. Nem Vingegaard piores.

Se nas etapas anteriores a Jumbo Visma era um exército às ordens de Vingegaard, hoje foi  a UAE-Emirates - tanto mais que hoje já não contava com Majka, nem com Marc Soler, igualmente vítima da etapa de ontem, e estava reduzida a apenas quatro ciclistas - a mandar na corrida e a prestar um surpreendente serviço ao seu líder. Primeiro com Mikkel Bierg e, depois, até à meta, no trabalho fantástico do americano Brandon McNulty na frente da corrida, que destruiu toda a concorrência, E a verdade é que, em condições diferentes - Pogacar com equipa e Vingegaard sozinho -, o resultado foi o mesmo. Quando Pogacar atacou, Vingegaard respondeu. E depois abdicou, novamente. Até à meta, onde só bateu o adversário no sprint final, ganhando-lhe apenas 4 segundos na bonificação.

Tudo indica que a última etapa dos Pirinéus, amanhã, não seja muito diferente destas duas. E se assim for, os 2:18 que agora fazem a vantagem de Vingegaard deverão ser suficientes para lhe garantir a vitória, em Paris.

 

Tour de France 2022- I

Pogacar acabou a etapa atrasado e exausto

Só hoje, à 11ª etapa, aqui chega a edição deste ano do Tour de France, a 109ª da sua História. E nem estava para ser ainda hoje, de tão pouco que havia para contar. Só que, de repente, na primeira abordagem aos Alpes, a primeira etapa de verdadeira montanha surgiu com muito para contar.

A etapa, que ligava Albertville ao Col du Granon Serre, com apenas 152 quilómetros, passava pelos incontornáveis Col du Télégraphe, contagem de montanha de primeira categoria,  e pelo Galibier, para terminar Granon Serre, ambos de categoria especial. Pogacar já há muito que andava de amarelo e a mandar na corrida como bem entendia. Não precisara sequer da montanha para cedo chegar á liderança. Parecia até que, se o primeiro lugar é dele, então quanto mais depressa o ocupasse, melhor. E parecia tão dele que ninguém ousava disputar-lho.

Tinha sido assim nas etapas anteriores, e foi assim hoje. No Col du Télégraphe e no Galibier, aqui mais ainda. Não tinha equipa, mas também não precisava dela. Não havia quem o atacasse, porque se o fizessem ele vingava-se.  Foi assim no Galibier, com o ataque de Roglic - Pogacar respondeu e deixou toda a gente para trás. E a Jumbo, a super equipa deste ano, em sentido. Todos menos Jonas Vingegaard, que se agarrou à usa roda. Tanto que Pogacar achou que era de mais, e decidiu deixar de o rebocar, convencido que lá mais para a frente trataria do assunto. E todos os principais adversários que tinham ficado para trás acabaram por recolar na última descida do dia. 

No início da escalada do Granon Serre Pogacar recorreu ao único apoio que tem na equipa - Rafal Majka - para o ajudar a tratar de um assunto de que ele se costuma encarregar directamente. O ciclista polaco fez o seu trabalho, impôs um ritmo duro e eliminou, desta vez ele, grande parte da concorrência. Só que, a pouco mais de 5 quilómetros lá do alto, Vingegaard percebeu que alguma coisa não estava bem com Pagacar para não responder ao ataque de Romain Bardet. Como já não tinha respondido ao de Quintana. E aproveitou para tentar a sorte. Acertou em cheio. Majka já tinha dado o que tinha para dar, e surpreendentemente Pogacar também. 

Depois foi ver Vingegaard ir por ali acima, passando por todos os que havia para passar, a correr para a amarela e para a etapa. E Pogacar a ser passado por todos os que Majka tinha feito deixar para trás, sem que nenhum deles pudesse responder.

No fim, lá em cima, Pogacar era apenas o sétimo, a praticamente 3 minutos de  Vingegaard. Perdeu a amarela e caiu para terceiro, ainda atrás de Bardet. E caiu o mito da invencibilidade!

Amanhã há Alpe D´Huez para esclarecer se hoje foi apenas um dia mau, que acontece a todos, ou algo mais que isso. De uma ou de outra forma este Tour está aberto quando se julgava fechado. Vingegaard é um osso duro de roer, e tem ao seu serviço, agora que Roglic é decididamente carta fora do baralho, a mais forte equipa da actualidade.

O vírus tramou o nosso campeão

Diretor de João Almeida fez as contas: ″Carapaz tem de ganhar um minuto″

 

 Depois de em 2020 se ter revelado ao mundo do ciclismo, trazendo a maglia rosa  no corpo durante duas das três semanas do Giro, e consluindo no quarto lugar da geral, e de no ano passado, mercê de uma série de equívocos da sua equipa de então, ter acabado na sexta posição, a poucos milésimos de segundo do quinto, João Almeida entrou neste Giro deste ano com aspirações a vencê-lo ou, no mínimo, ficar no pódio.

Não tinha equipa para isso - a Emirates é uma das melhores equipas do World Tour, mas os ciclistas escolhidos para participar no Giro estavam longe de formar uma equipa à medida dessas ambições, e muito longe do poderio das equipas dos seus principais adversários - mas, até à etapa de ontem, andou sempre entre o segundo e o terceiro lugar da geral. E o desenho da competição, com apenas dois contra-relógios, e curtos - menos de 30 quilómetros no total dos dois - e muitas etapas de alta montanha (opção da organização para aliciar os principais trepadores do mundo para a prova), também lhe não era favorável. 

Mesmo assim lutou que nem um herói nas etapas de alta montanha. Os adversários, o colombiano Carapaz, da Ineos, o australiano Jai Hindley, da Bora, e o espanhol Mikel Landa, da Bahrain, todos com equipas muito mais fortes, elegeram-no como alvo a abater. Mas resistiu sempre. Ficou sempre sozinho, sem a ajuda de qualquer colega de equipa, contra todos eles, e lutou como um herói para defender a sua posição, com o objectivo de se aguentar até ao contra-relógio, no fecho, no próximo domingo, onde acreditava que, mesmo com os escassos 17 quilómetros, lhes poderia ganhar pelo menos 1 minuto. Ou até mais que isso a Landa, o menos dotado de todos para a especialidade.

Ontem, na mais dura etapa de montanha, mais uma vez sem ajuda da equipa, mais uma vez sozinho contra todos, as coisas não lhe correram pelo melhor. E perdeu a 3ª posição para Landa, de que ficou a 49 segundos. Que certamente recuperaria. Depois já só ficaria a faltar a última etapa de montanha, no sábado, para garantir um lugar no pódio. A camisola branca, da liderança da juventude, essa já ninguém lhe tiraria.

Hoje corre-se a única etapa em linha desta semana, tranquila. Para roladores e sprinters. Mas João Almeida já não partiu. Resistiu às altas montanhas italianas, e aos melhores trepadores, mas não resitiu ao Covid. Testou positivo, e teve de desistir. Logo a seguir ao único dia em que realmente perdera. Já com o vírus dentro dele, mas não derrotado.

O vírus não derrota os campeões. Só os trama de vez em quando. E o João estará de volta em pouco tempo, para espalhar classe por essas estradas fora e nos dar mais alegrias.

 

 

 

Tour de France 2021 - Fim

Terminou hoje, em Paris, a 108ª edição da Volta à França. Todas as classificações finais vinham definidas dos Pirinéus, na última quinta feira. O vencedor, esse há muito que estava encontrado  

Depois dos Pirinéus, seguiu-se a 19ª etapa, entre Mourenx e Libourne, na distância de 207 quilómetros, a segunda mais longa da prova. Era a penúltima - a última seria a da consagração, hoje na chegada a Paris - para os sprinters, e para Cavendish, despois de resistir aos Pirinéus, à custa do esforço de toda a equipa, empenhada em levá-lo até ao fim de cada etapa dentro do tempo limite no controlo da chegada.

Por se ter esgotado nesse trabalho - é curioso que Cavendish acabou na penúltima posição da classificação geral, rodeado de colegas de equipa - , ou por outra razão qualquer, a Deceuninck - Quick Step não consegui controlar a etapa e não impediu a fuga, ainda bem cedo, de um grupo numeroso de ciclistas, de onde saltou Mohoric, que já tinha ganho a 7.ª etapa, para cortar a meta isolado, com mais de 20 minutos de vantagem sobre o pelotão.

O contra-relógio de ontem já não tinha nada para decidir, e a surpresa foi Pogacar não o ter ganho. Não foi de todo surpreendente que tivesse sido o belga Wout van Aert a ganhar - sabe-se que é bem capaz disso, e de muito mais - mas, mesmo sabendo-se que Pogacar iria correr em regime de descontração, ninguém esperaria que não fizesse melhor que o oitavo tempo, a praticamente 1 minuto do belga  Os dinamarqueses Kasper Asgreen (Deceuninck-QuickStep, a 21 segundos), e Jonas Vingegaard, companheiro de Van Aerrt na Jumbo Visma, a 32,  foram segundo e terceiro, com este último a confirmar, também no contra-relógio, que não podia ser outro o segundo da geral.

Hoje, em Paris foi a consagração de ... Wout van Aert . Bem sei que a chegada aos sempre belos Campos Elíseos é para consagrar o vencedor do Tour. E que este, o mais jovem bi-campeão do Tour, e de novo, como no ano passado, vencedor das três camisolas, só tinha que ser consagrado em Paris. Mas esta última etapa, para mim, foi a da consagração de Wout van Aert, um dos mais completos ciclistas da actualidade, como aqui já tinha dito. Ontem ganhou o contra-relógio, e hoje ganhou o sprint, o mais importante sprint do Tour, e ganhou a etapa do Mont Ventoux, numa das mais espectaculares montanhas.

Rui Costa esteve discreto, no seu papel de "aguadeiro" de Pogacar (1). Pelo contrário, Rúben Guerreiro deu nas vistas e fez um excelente Tour. Foi 18ª da geral, à frente - três minutos - de, agora repare-se ... Van Aert. É isso, um dos melhores e mais completos ciclistas do mundo, que ganhou três das principais etapas de cada uma das especialidades, ficou atrás de Rúben Guerreiro. É isso o ciclismo!

(1) Correcção efectuada depois do alerta do leitor Bruno Santos. Por lapso tinha inicialmente escrito Uran, em vez de Pogacar.

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