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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Tour de France 2019 II

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Volto ao Tour, como prometido, agora no final da segunda das três semanas da prova. E no final da passagem pelos Pirinéus que, se não decide tudo, deixa sempre muito para contar.

Mas a história desta segunda semana do Tour não se esgota nestes dois dias de Pirinéus, ontem e hoje. Antes pelo contrário, foi uma semana cheia.

Tida à partida como uma etapa sem História, na véspera do dia descanso, a décima etapa, entre Saint-Flour e Albi, de 218 km, acabou por se transformar numa das estapas decisivas deste ano, graças ao vento, aos famosos ventos laterais, que sempre fazem estragos. Mais uma vez muitos foram os que ficaram desde logo irremediavelmente atrasados, ou os que, não tendo sido o caso, foram fortemente penalizados, como Thibaut Pinot (Groupama FDJ), Richie Porte (Trek-Segafredo), Rigoberto Uran (EF Education First) e Jakob Fuglsang (Astana), gente com fortes aspirações que logo ali perderam quase dois minutos, que não é coisa pouca na hora das decisões finais. 

Depois veio o único contra-relógio individual da prova, em Pau, ali na base dos Pirinèus, onde todos perspectivavam que Julian Alaphilippe fosse obrigado a entregar a camisola. Nada disso, e o francês não se limitou a resistir. Ganhou mesmo, foi surpreendentemente o melhor, numa especialidade que não era tida pelo seu ponto forte. Ganhou em toda a linha, e reforçou a liderança, aumentando bem para lá dos dois minutos a diferença para Geraint Thomas, o principal favorito.

E depois vieram os Pirinèus, com a subida ao Tourmalet logo no primeiro dia, ontem, com Alaphilippe a resistir e a acabar mesmo, com o segundo lugar na etapa, atrás de Pinault, o vencedor - dobradinha francesa - a voltar a reforçar a diferença para o britânico, ganhando-lhe mais 30 segundos, e ganhando-lhe claramente o duelo.

Mesmo sem o mítico Tourmalet, a etapa de hoje, a décima quarta, não era menos difícil. E se não teve uma história completamente diferente - já lá vamos - foi diferente o destino do duelo entre os ainda dois primeiros, já que o francês, que no final do dia de ontem era já apontado como o vencedor deste ano, talvez levado por essa onda, cometeu um erro grave: esqueceu-se que Thomas era ainda o principal adversário e, já sem protecção da equipa, repondeu a ataques a que não podia responder. Acabou por pagar a imprudência e perdeu tudo o que ganhara ao britânico nas duas vezes em que o batera, no contra-relógio e no Tourmalet, e por deixar tudo em aberto.

O vencedor dos Pirinéus, onde chegou em sétimo, a mais de 3 minutos, e donde parte no quarto lugar, mas a poucos segundos do sóbrio kruijswijk, o holandês da Jumbo-visma, terceiro, e de Thomas (Ineos), segundo, e como forte candidato ao triunfo em Paris, foi claramente Pinault, primeiro no Tourmalet e segundo hoje, em Foix Prat D’Albis, atrás de Simon Yates.

Os vencidos são muitos, especialmente o francês Romain Bardet (Ag2r-La Mondiale), um habitué do pódio, e quase dramaticamente o colombiano Nairo Quintana (Movistar), depois do notável trabalho que a sua equipa  desenvolveu nos Pirinéus em seu proveito. Na etapa de ontem o colombiano falhou rotundamente, depois da sua equipa ter destruído praticamente todo o pelotão, num esforço inglório que Quintana não soube respeitar (exigia-se, no mínimo, que informasse a equipa que não estava em condições de corresponder a todo aquele esforço dos colegas). Na de hoje ficou no grupo da frente, com o apoio de mais dois colegas de equipa, numa fuga que o chegou a deixar como líder virtual, e acabou em vigésimo, a 3 minutos de Simon Yates. Entrou nos Pirinéus como favorito, até porque, à excepção do contra-relógio, sempre o seu calcanhar de Aquiles, tudo lhe tinha corrido bem. E saiu na 13ª posição, a oito minutos e meio de Alaphilippe.

Dos portugueses não reza a História deste Tour. Nem tanto pela classificação geral: Rui Costa (UAE - Emirates) em 57º, Nelson Oliveira (Movistar) em 96º e José Gonçalves (Katusha) em 127º. Mas porque não têm feito nada que valha história. Rui Costa o melhor que fez foi o oitavo lugar na 12ª etapa, depois de finalmente conseguir entrar numa fuga (numerosa) mas de não acompanhar os que de lá sairam para a meta. Já o melhor de Nelson Oliveira foi o 11º lugar no contra-relógio, a sua especialidade, 13ª etapa.

Amanhã é dia de descanso. O segundo e último. Seguem-se duas etapas para roladores e sprinters e, depois, os Alpes, em três dias que tudo se decide. Se nada de anormal acontecer entre Pinault, kruijswijk, Thomas e Alaphilippe.

Há dois franceses que podem chegar a Paris de amarelo. Há muitos anos, mais de trinta, que os franceses não vêm uma coisa dessas! 

 

Tour de France 2019 I

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Com a chegada hoje a Saint Étienne cumpriu-se hoje a primeira semana desta edição do Tour. Para trás tinham ficado sete etapas, as três primeiras corridas em solo belga, entre as quais um contra-relógio por equipas, na segunda, onde a principal novidade terá sido o fraco desempenho da Movistar, fora das 10 primeiras, que só não penalizou Nairo Quintana, ainda e sempre na lista dos favoritos, bem como Mikel Landa, também um nome a ter em conta, porque as diferenças em apenas 30 quilómetros não dão para fazer grande diferença.

O primeiro cheirinho a montanha chegou na etapa 6, anteontem e, se não deu para "cavar" grandes diferenças, deu para afastar logo alguns nomes sonantes como Adam Yates e Dan Martin, que aí perderam mais de 14 minutos. Deu também para a amarela saltar do francês Julien Alaphillippe, a nova coqueluche dos gauleses, que hoje a reconquistaria em Saint Étienne, para o italiano Giulio Ciccone.

Sem Froome, vitima de queda e obrigado a uma intervenção cirúrgica a poucos dias do início da competição, o favoritismo cai todo, de novo, no seu colega e compatriota Geraint Thomas, o vencedor do ano passado, agora, que a poderosa Sky abandonou o ciclismo, na nova e igualmente poderosa Team Ineo. Mesmo que sejam enormes as expectativas que caem sobre a nova estrela espanhola, o jovem Enric Mas, da Deceuninck-QuickStep!

Vamos ver o que aí vem. E cá voltaremos para contar como foi, como habitualmente.

 

 

Vuelta 2018

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Termina hoje, em Madrid, a 73ª edição da Vuelta, com a vitória de Simon Yates. Voltou a ser inglês o vencedor da última grande prova do ano: Froome, ganhou o Giro, Thomas, o Tour, ambos da Sky, e agora Yates, da australiana Mitchelton-Scott.

É um justo vencedor, Simon Yates. Foi quem mais tempo andou de vermelho (a amarela da Vuelta), nunca se limitou a defender-se, atacou na alta montanha - e muita montanha, e da boa, teve esta Vuelta - e superiorizou-se quase sempre, e foi ainda o melhor dos da frente no contra-relógio. E nem sequer tinha a melhor equipa - muito longe disso - valendo-lhe apenas o seu irmão gémeo, Adam.

Todas estas grandes competições têm o seu lado dramático. No Giro, o drama foi até protagonizado pelo próprio Simon Yates, ao perder mais de meia hora numa das últimas etapas, quando seguia na frente (de rosa, a amarela na volta italiana) e apontado já como vencedor. Nesta Vuelta o protagonista é Alejandro Valverde, o veterano ciclista da Movistar (38 anos) que herdou a popularidade de Alberto Contador e a esperança dos espanhóis.

Chegou a Málaga, há três semanas e três mil e quinhentos quilómetros atrás, como segunda figura da equipa, com a liderança entregue ao colombiano Nairo Quintana, a grande desilusão da prova, mas revelou sempre grande consistênca. Serviu Quintana e teve ainda tempo para afirmar a sua própria candidatura, ganhando etapas, assegurando rapidamente a liderança da classificação por pontos, a camisola verde, que nunca mais largou, e permanecendo sempre nos lugares cimeiros da classifcação.

Quando finalmente Quintana ficou afastado da possibilidade de ganhar, há apenas quatro dias, logo na etapa (de montanha, de novo) a seguir ao contra-relógio (onde, como se esperava, perdera muito tempo) não só não recuperou como perdeu ainda mais tempo, Valverde era segundo. E, então sim, a grande aposta da Movistar para atacar Yates nas duas decisivas etapas de alta montanha em Andorra, e ganhar a Vuelta, pela segunda vez, seis anos depois. 

Pois, na primeira, na sexta-feira, não conseguiu responder ao ataque de Yates e perdeu por completo a hipótese do primeiro lugar, que o britânico logo assegurou. E na segunda, ontem, no Coll de la Gallina, caiu do segundo para quinto da geral. Foi dramático ver, como viu, fugir o colombiano Miguel Angel Lopez; depois Enrique Mas - que se revelou a nova coqueluche do ciclismo espanhol -; depois o próprio Yates e, depois ainda, o holandês Steven Kruijswijk, que era terceiro, atrás de si. E, finalmente, como não conseguiu sequer responder ao apoio de Quintana, que o rebocou até à meta. Onde, ainda assim, chegou em 10º lugar. Mas com de mais de 3 minutos de atraso (perdidos em 4 quilómetros) - uma eternidade no ciclismo actual -, a valer-lhe um trambolhão do segundo para o quinto lugar da classificação geral. Longe do pódio e de um lugar consentãneo com o protagonismo que teve nesta Vuelta. 

Se foi, e terá provavelmente sido, a sua despedida da alta competição, ficou bem longe do que fora, no ano passado, a de Alberto Contador. Essa sim, brilhante, e a deixar saudade. Valverde não merecia sair com esta última imagem...

 

Volta a Portugal 2018 II

 

 

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Está concluída a 80ª Volta a Portugal em bicicleta, com o bis do espanhol Raúl Alarcón, que repetiu o triunfo do ano passado. E deve começar já por dizer-se que justo, e verdadeiramente inquestionável à luz do que é o ciclismo actual.

Em 10 etapas - tantas quantas a Volta tem (e pode ter) actualmente - Alárcon venceu três. E logo as três mais importantes. A primeira logo na terceira etapa, entre a Sertã e Olveira do Hospital, na primeira oportunidade para causar uma primeira boa impressão que, como se sabe, é única. E decisiva para se refestelar no poleiro, para onde havia muitos galos, como se viria a ver. Claramente visto!

A segunda, logo na etapa imediata, a da Serra da Estrela. Que mesmo sem Torre nunca deixa de ser a mais importante. E a última, ontem mesmo, na não menos mítica Senhora da Graça. Em todas ganhou de forma categórica, sem espinhas. Porque isto de ter a melhor equipa, de transformar os mais fortes adversários nos mais fortes aliados, não são espinhas. É assim, e daí a importãncia das "primárias" para decidir quem é o candidato, que Raúl Alarcón resolveu quando tinha que resolver - primeiro que qualquer colega de equipa, logo na tal primeira oportunidade, à terceira etapa.

Raúl Alarcón ganhou na Serra da Estrela e na Senhora da Graça a legitimidade para vencer a Volta pela segunda vez. Hoje, nos 17 quilómetros do contra-relógio final, em Fafe, confirmou-a com uma excelente prova, que lhe deu o terceiro lugar na etapa, logo atrás do excelente João Rodrigues, seu colega de equipa, apenas batido pelo sensacional contra-relógio do espanhol Vicente de Mateos, do Louletano, que quase lhe dava para chegar ao segundo lugar da geral.  Já não havia muita coisa para decidir, apenas coisas a confirmar, em particular a superioridade da W52 FCP que, com três ciclistas no top five e cinco no top ten, ultrapassou o Sporting/Tavira e ganhou também, naturalmente, a Volta por equipas.

O pódio acabou no desenho que começara na quarta etapa, a da Serra. Joni Brandão, quarto no contra-relógio de hoje, ficou em segundo, posição que ocupava desde então, quando foi batido pela primeria vez, e com a qual sempre se conformou. E Vicente de Mateos, o mais incoformado e o que mais fez por incomodar a liderança de Alárcon, em terceiro.

Vicente de Mateos ganhou três etapas (2ª, 8ª, e 10ª), tantas quantas Raúl Alarcón, que ganhou também e ainda a montanha, os dois protagonistas maiores da Volta. Ambos ficaram com 60% das vitórias em etapas. E, para além deles, só mais três ciclistas ganharam etapas - Stacchiotti, da Mstina Focus, por duas vezes (o que quer dizer que 3 ciclistas, menos de 2% dos que disputaram a Volta, ganharam 80% das etapas, o que não abona muito a competitividade da prova), Domingos Gonçalves (Rádio Popular/Boavista, a 6ª) e Enrique Senz (Euskadi, a 7ª).

Isto é, apenas um ciclista português ganhou uma etapa!

Volta Portugal 2018 I

 

 

A 80ª Volta a Portugal em bicicleta está na estrada. E já praticamente resolvida, mas já lá vamos...

Começou em Setúbal, foi direita ao Algarve, subiu para Alentejo, passou pela região martirizada pelos incêndios do ano passado - este ano, como se está a ver, o país arde mais a sul -, e chegou à Serra da Estrela. Com polémica!

As três primeiras etapas foram corridas debaixo das temperaturas recorde destes dias, exactamente nas regiões onde esses recordes têm sido estabelecidos. Acresce que foram das mais longas, em particular as duas primeiras, que atravessaram o Alentejo nos dois sentidos, sempre na ordem dos 200 quilómetros. Isto é, em condições muitos difícieis para os ciclistas, que são pessoas de carne e osso.

Daí que, chegada à Serra da Estrela, logo ao quarto dia e com este histórico, a direcção da prova decidiu abolir da etapa a subida à Torre, e encurtar a etapa em cerca de 30 quilómetros. A intenção terá sido a melhor, mas não deixa de causar polémica, havendo logo quem dissesse que beneficiou uns e prejudicou outros.

Ontem, na etapa solidária que ligou a Sertã a Oliveira do Hospital, o vencedor do ano passado, o espanhol Raul Alarcon, provavelmente para marcar posição na equipa - a W52 FC Porto, cheia de "chefes de fila" - desferiu um ataque surpresa nos metros finais. Que resultou na vitória na etapa e na conquista da camisola amarela, até aí e desde o prólogo de Setúbal, no corpo do setubalense Rafael Reis, que fez parte da formação aqui em Alcobaça. Estabeleceu também as primeiras diferenças entre os da frente, algumas até já significativas.

Se ontem Alarcon provocou o primeiro abanão nas classifcação geral, hoje praticamente arrumou-a. 

Dos ditos favoritos, o primeiro a atacar depois da Covilhã, a caminho da meta nas Penhas da Saúde, foi Joni Brandão, do Sporting/Tavira. Era o terceiro da geral, um dos mais revoltados com a falta de resposta ao ataque do espanhol na véspera (como se não fosse competência sua responder-lhe), mas também com a supressão da subida à Torre, e fez questão de puxar dos galões. No grupo dos favoritos, ainda compacto, ninguém reagiu.

Depois de começar a ver ficarem pelo caminho, um a um, os seus colegas de equipa, mas também candidatos, Alarcon saltou à procura do Joni Brandão, que rapidamente alcançou. Quase tão rapidamente como, depois, o deixou para trás, numa demonstração de superioridade que não deixa muitas dúvidas para tudo o que ainda falta da Volta.

Ganhou pela segunda vez, e consecutiva, e acrescentou mais 12 segundos aos 40 que já tinha sobre o português, agora segundo. O anterior segundo, o também espanhol (nos 10 primeiros, 6 são portugueses e 4 são espanhois) Vicente de Mateos, do Louletano, é agora terceiro, já a perto de 2 minutos. Mas, acima de tudo, arrumou com a concorrência interna: Gustavo Veloso, perdeu 16 minutos, e é agora o 45º da classificação, e o colega de equipa mais próximo é Ricardo Mestre, na 12ª posição, a quase 5 minutos.

O que quer dizer que, com o exército agora totalmente ao seu dispor, e com a superioridade de que deu mostras, se nada de anormal acontecer, o vencedor da Volta está encontrado. À quarta etapa!

 

 

 

 

Vueta 2017

Contador vence no adeus e Froome confirma triunfo final

 

Termina hoje a 72ª edição da Volta à Espanha em bicicleta, uma das três principais competições do ciclismo mundial, com a vitória de Froome, o terceiro ciclista a conseguir a rara proeza de ganhar a Vuelta e o Tour no mesmo ano. Até agora apenas os franceses Anquetil, em 1963, e Hinault, em 1978, o tinham conseguido.

Foi a primeira vitória do inglês em Espanha, depois cinco participações, com uma desistência, um quarto e três segundos lugares. Froome consegui-o porque é Froome, um extraordinário ciclista, porque dispõe daquela que é, a larga distância, a melhor equipa da actualidade - e dos últimos anos - e porque, além de tudo isso, dispôs da colaboração - forçada pelas incidências da competição - de outras equipas que, particularmente nesta última semana, se viram obrigadas a fazer o trabalho da Sky para defender as posições intermédias dos seus ciclistas, especialmente dos que estavam na esfera do pódio.

Mas a grande figura desta Vuelta foi, sem qualquer sombra de dúvida, Alberto Contador, que anunciara ser esta a última competição da sua brilhante carreira. O espanhol quis despedir-se em grande, como grande campeão que é, e consegui-o. Se, aos 34 anos, as suas últimas prestações apontavam para que estivesse a chegar a hora de encostar a bicilceta, esta sua despedida deixa já saudades.

A primeira semana, especialmente em Andorra, correu-lhe francamente mal e deixou-o desde logo sem hipóteses de, na despedida, ganhar a sua Volta. Só que, a partir daí, Alberto Contador foi ele próprio a Vuelta. Sempre ao ataque!

Atacou bem, atacou mal, mas atacou sempre. Deu tudo e deu espectáculo. É certo que a desvantagem que trazia lhe permitiu a liberdade que noutras circunstâncias, especialmente a Sky, lhe negaria. Mas não é menos certo que, pela capacidade que demonstrou, a equipa de Froome teria mais dificuldade em chegar para as encomendas.

Nesta última semana Contador atacou em todas as etapas, todos os dias, em todas as montanhas. Foi subindo na classificação, foi ganhando tempo a todos os adversários, o que obrigou as outras equipas a substituirem-se à Sky para defender os seus corredores que ainda estavam à sua frente. Foi assim que sucessivamente foram encurtando as vantagens que Contador ia conquistando com muito esforço, e muita categoria.

Na etapa de ontem, a mais difícil de todas, que terminava no cimo do mítico Angliru, Contador deu verdadeiro espectáculo na tentativa de chegar ainda pelo menos ao terceiro lugar, que o levaria ao pódio hoje, em Madrid. Desfrutou de vantagem suficiente para atingir esse objectivo, mas ... aí está. As três equipas dos ciclistas ameaçados (a Bahrain, do italiano Nibali, o segundo, a Katusha, do russo Zakarin, o terceiro, e a Sunweb, do polaco Kelderman, o quarto) deram tudo na frente da perseguição para reduzir a sua vantagem e, no fim, lá estava a Sky confortável para o ataque final que levaria Froome a voltar a ganhar mais uns segundos aos seus adversários mais próximos. Foi sempre assim, durante toda esta última semana.

No fim foram quatro equipas contra Contador. Ganhou no Angliru - é o primeiro ciclista a consegui-lo pela segunda vez - subiu ao quarto lugar da classificação geral, que conseguiu ainda roubar ao ciclista polaco (que, estranhamente, viria a recuperar hoje na etapa da consagração), e ficou a apenas 20 segundos do último lugar do pódio. Mas ninguém vai esquecer esta etapa, nem ninguém vai esquecer esta Vuelta de Contador. 

Não me admiraria que daqui por uns anos, quando se perguntar quem ganhou a Vuelta em 2017, haja muita gente a responder: Alberto Contador!

Dos portugueses quase não rezou a História. O Nelson Oliveira (47º) e o Rui Costa (42º, nesta que foi a sua estreia na Vuelta), os melhores, ainda chegaram integrar algumas fugas - nesta última, nas últimas voltas do circuito final de Madrid, Rui Costa voltou a tentar, e andou adiantado até à entrada para a última volta - mas nunca estiveram perto nem de uma vitória nem de lugares de relevo na classificação geral.

Tour de France 2017 (I)

 

 

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Aí está a maior competição mundial do ciclismo. O 104º Tour de France deu hoje as primeira pedaladas, em Dusselforf, na Alemanha, com o prólogo, um contra relógio de 14 quilómetros. 

Um tanto ou quanto surpreendentemente - o favorito, o alemão Tony Martin, foi apenas quarto classificado -  ganho pelo britânico Geraint Thomas, da também britânica Sky, que classificou quatro ciclistas no top ten, entre os quais Chris Froome, de novo o principal candidato à vitória final, em sexto, e já com ganhos significativos para os principais concorrentes.

Apesar da novidade no primeiro maillot jaune, a principal nota deste prólogo marcado pela chuva, sempre um dos maiores adversários dos ciclistas, é uma péssima notícia para a competição: o espanhol Alejandro Valverde, uma das grandes figuras do ciclismo mundial e sempre um dos maiores animadores da prova, encontrou a meta no hospital, vítima da chuva e de uma queda com tanto de aparatosa quanto de grave.

Dificilmente, no plano desportivo, o Tour poderia começar pior. Esperemos que se recomponha mas, sem Valverde, já não é a mesma coisa. Para nós, portugueses, sem Rui Costa - presença habitual e galharda dos últimos anos - também não!

Como é habitual, e já um clássico, o Quinta Emenda irá dando notícias do que se for passando ao longo das próximas três semanas, neste que é um dos maiores acontecimentos desportivos do mundo.

A excitante Vuelta

Por Eduardo Louro

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Termina amanhã, em Madrid, a excitante edição deste ano daquela que vem sendo a mais competitiva e espectacular das três maiores competições mundiais de ciclismo. Hoje ficou tudo resolvido: como é norma, estas provas não fazem horas extraordinárias, nem sequer deixam tudo para o fim. Tudo fica resolvido de véspera.

E que véspera foi esta! Desta vez foi tudo decidido no fim, mesmo que o fim seja de véspera. Só que esta Vuelta não valeu apenas pelo fim, valeu pelo todo. Desde o início.

Quando há precisamente uma semana aqui trouxe a Vuelta tinha brilhado Nelson Oliveira, e estava o italiano Fabio Aru em primeiro, seguido do espanhol Rodriguez, com o surpreendente holandês Dumoulin em terceiro. Hoje brilhou outro português, o José Gonçalves, mesmo que não tenha ganho - foi segundo na etapa, atrás de Rúben Plaza (que já correu no Benfica, e é colega de equipa do Nelson Oliveira e do Rui Costa, tudo nomes com cheiro a glorioso), que fez sozinho mais de 100 quilómetros, com duas montanhas de primeira categoria pelo meio. E os dois primeiros, depois de muitas voltas e reviravoltas, são exactamente os mesmos.

Depois dessa etapa que terminou em Tarrazona seguiam-se, no sábado, no domingo e na segunda, três etapas de alta montanha durante as quais Aru e Rodriguez alternaram na frente separados, vejam bem, por 1 segundo. Na penúltima dessas três estava Aru à frente, com o tal segundo de vantagem. Da última saiu o espanhol com a vermelha vestida ... com 1 segundo de vantagem. O holandês, que ninguém tinha por trepador mas que se sabia ser um grande contra-relogista, tinha-se aguentado e estava a menos - pouco menos - de 2 minutos. 

Depois veio o contra-relógio - onde mais uma vez os portugueses, e especialmente Nelson Oliveira (quinto ou sexto), estiveram a excelente nível - que Dumoulin ganhou categoricamente (Valverde foi segundo, a mais de 1 minuto). O italiano foi décimo e perdeu quase dois minutos, e el purito Rodriguez afundou-se, a perto de 4 minutos. Dos nomes mais importantes, para além do já referido Valverde, também o colombiano Nairo Quintana e o polaco Rafal Mjka tiveram bons desempenhos, não ficando de todo afastados das grandes decisões. No fim Dumoulin voltou a vestir a roja, pela terceira vez. Aru logo a seguir ... a 1 segundo, também de novo. E Rodriguez caiu para terceiro, a perto de 2 minutos...

Nas duas etapas que se seguiram o italiano fez tudo para passar para a frente. A estrada empinava e Aru atacava, afinal era só 1 segundo. Mas o holandês respondia sempre, com todo o à vontade, e ontem acabou mesmo por lhe ganhar mais 5 segundos. Hoje, com duas contagens de montanha de primeira categoria, tudo voltava a estar em aberto.

E a Astana - sim, o mesmo do adversário do Benfica na Champions, já na próxima terça-feira -, a equipa de Aru (e de Nibali, que havia sido desclassificado), jogou tudo. E bem. A Giant, a equipa de Dumoulin, não jogou nada. E quando deu por ela já o pobre do holandês estava sozinho, incapaz de responder aos ataques de Aru e dos seus teammates

Foi digno, foi valente. Mas nada disso o livrou de cair de primeiro para sexto, num trambolhão que se não é inédito anda lá perto. Mas até nisso, ou até por isso, esta penúltma etapa da Vuelta ficará na história como uma das mais espectaculares de sempre. Tudo até ao sexto lugar da classificação esteve em discussão até ser cortada a meta em Cercedilla. No fim, Aru ganha, Rodriguez é segundo a 1 minuto e 17 segundos, e Rafal Mjka terceiro com apenas mais 12 segundos. 

 

 

 

 

A "Vuelta" de Nelson Oliveira

Por Eduardo Louro

 

Ainda aqui não tinha trazido a Vuelta, e já vai a mais de meio. Até a etapa rainha já ficou para trás, na passada terça-feira, em Andorra, que fez com que o holandês Tom Dumoulin - a grande surpresa da prova - tivesse de entregar a camisola vermelha - em Espanha é vermelha, a camisola que é amarela em todo o lado e rosa em Itália - ao italiano Fabio Aru, companheiro de equipa do seu compatriota Nibali, que foi expulso logo à terceira etapa. E a hora de todas as decisões ainda não chegou a esta que completa o restrito lote das três maiores competições do mundo: tudo está por decidir nos próximos três dias de alta montanha pelos Picos da Europa.

Trago hoje aqui a Vuelta porque hoje, em Tarazona, foi o dia do Nelson Oliveira. Ganhou brilhantemente esta que era etapa 13, da sorte, para quem tudo tem feito para a merecer. E se os espanhóis são useiros e vezeiros em ganhar em Portugal, o inverso é raro. E é por isso um grande feito: tanto que esta foi apenas a décima vitória portuguesa. Tanto que a última já tinha nove anos, e fora obra do Sérgio Paulinho. E que, antes, temos de recuar mais de trinta anos, para encontrar três vitórias do inigualável Agostinho!

Para além excelente prestação do Nelson Oliveira, que pôde abandonar por uns tempos a personagem de lugar tenente de Rui Costa, ausente da prova, também o José Gonçalves, que tão bem esteve na Volta a Portugal, tem dado nas vistas.

Dos craques, depois da saída de Nibali pela porta pequena, de Froome ter sido totalmente destroçado na tal etapa rainha de Andorra, e com Nairo Quintana enterrado na classificação geral, fora do top ten e praticamente fora da discussão da corrida, apenas Valverde está vivo. Mesmo sem ter feito grandes provas de vida é sexto na classificação geral, a apenas 2 minutos do líder italiano.

Tudo aponta para que as coisas se decidam entre Aru, o eterno Rodiguez, el purito, a apenas 27 segundos, e o surpreendente Tom Dumoulin, o anterior camisola vermelha, a 30 segundos. Mesmo que o miúdo polaco - Majka Rafal - e o colombiano Chaves Rubio, um dos três a vestir a roja, e quem até agora mais tempo a usou, estejam logo ali, apenas com mais um minuto.

Volta a Portugal

Por Eduardo Louro

 

Está decidida 77ª Volta a Portugal em bicicleta. Ainda não a tinha aqui trazido, mas não significa que não a tenha acompanhado, como sempre. Desta vez até talvez mais, tive até oportunidade de acompanhar um corredor no contra-relógio de hoje - o Mika, o Micael Isidoro que fez a maior parte da sua formação cá em Alcobaça.

E amanhã - mais logo, melhor dizendo - lá estarei em Vila Franca, e depois no Marquês, a fechar a Volta. É isso, quando as coisas correm bem vou no mesmo ano duas vezes ao Marquês... Este ano correu bem!

O galego Gustavo Veloso, que ganhou o contra-relógio, vai ganhar a sua segunda Volta a Portugal, consecutiva. Foi o melhor no contra-relógio, à frente do excelente José Gonçalves, que vinha apenas para preparar a Vuelta mas acabou por fazer uma grande Volta. Foi a segunda etapa ganha pelo galego, depois de ter ganho em Oliveira de Azeméis, na polémica desclassificação do José Gonçalves, que assim perdeu a segunda vitória, depois de ter ganho na véspera no alto de Santa Luzia, em Viana do Castelo.

Ganhar o contra-relógio, entre a praia do Pedrogão e Leiria, com um pouco mais de 34 quilómetros, foi como que colocar o selo de mérito na vitória de Veloso. Vestiu a amarela logo na segunda etapa, e nunca mais a largou. Porque a verdade é que contou sempre com uma súper equipa, pronta a defendê-lo incondicionalmente. Porque verdade é que o seu colega de equipa, e também amigo e galego Delio Fernadez, segundo classificado antes do contra-relógio, tinha até aí sido mais brilhante. Esteve sempre ao seu lado e ainda teve tempo de ganhar duas etapas, a última a sempre raínha, a da Torre, na Serra da Estrela.

Mesmo que nunca se saiba se a ganharia se não fossem da mesma equipa... A lembrar que o Filipe Cardoso, mesmo que brilhante na etapa da Senhora da Graça, também não a ganharia se em vez do Joni Brandão, seu colega da Efapel, tivesse sido outro a chegar-lhe aos calcanhares mesmo em cima da meta.

À partida para o contra-relógio desenhava-se um pódio todo ele galego. O Gustavo era o favorito, mas logo atrás perfilava-se o seu amigo e também  galego Alejandro Marque - vencedor em 2013 e ausente no ano passado - que era quarto da geral, poucos segundos atrás do Joni Brandão. E o Delio dificilmente se deixaria afundar...

Afinal o português da Efapel fez uma boa prova - décimo, pouco perdendo para Marque (que subiu a terceiro) - e conseguiu, por escassos 7 segundos, subir ao segundo lugar da geral, e ao pobre do Delio Fernandez, depois de uma volta fantástica, tudo correu mal no contra-relógio. Até uma varia que, mais que o tempo, lhe roubou a moral!

E foram estas as figuras desta Volta a Portugal, mesmo que o Bruno Silva tenha ganho a classificação da montanha. Sem que nunca ninguém o tenha visto na Senhora da Graça, na Serra da Estrela, nem sequer nas etapas que terminavam em chegadas inclinadas...

 

PS: A fotografia do Mika no contra-relógio é, como se vê, é da Anabela Vieira, que para além de excelente fotógrafa foi, com o pai, o cunhado e o Gomes mau, uma óptima companheira de jornada. 

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