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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Vuelta 2023 - Ponto Final

Volta a Espanha - Dia de consagração para Kuss - TopCycling

Terminou ontem em Madrid a Vuelta deste ano. As próximas pedaladas da grande corrida espanhola serão dadas em Lisboa, ponto de partida da Vuelta 2024.

Tudo tinha ficado resolvido na quinta feira, na 18ª etapa, mesmo que a de sábado fosse a tal de montanha russa. Era a mais longa desta Vuelta, com quase 210 kms num traçado que percorria a Sierra de Guadarrama e voltava a ser ao jeito de Rui Costa, como então aqui tinha dado nota. E foi. Não deu para ganhar mas voltou a ter um excelente desempenho, andou sempre na frente, num grupo de luxo constituído pelos grandes nomes excluídos do topo 10, e acabou em sexto. Também não deu para Evenepoel, que estava empenhado em ganhar tudo. Foi segundo, batido no sprint final por Wout Poels.

Dez minutos depois chegou o grupo dos primeiros da geral onde, na dura subida Alto de San Lorenzo de El Escorial, e no pouco que ficou a restar para a meta, João Almeida impôs o ritmo para defender o quarto lugar do seu colega Ayuso, afinal o único que poderia estar em risco.

Na chegada a Madrid, a Vuelta seria completada num circuito de15 voltas pelas ruas da capital, com passagens pelos principais pontos de referência da cidade. Aí acabou a festa e o passeio, próprios das etapas de consagração. E aconteceu tudo o que raramente acontece nestas etapas finais das grandes voltas. Porque a Vuelta é mesmo assim. Só não houve novidade nos animadores. Rui Costa foi um deles, e até dos principais. Evenepoel, inevitavelmente, outro. 

Rui Costa foi o primeiro a sair e a isolar-se, com mais dois ciclistas da Bora. Um deles Lennard Kämna, velho conhecido do Rui. Estiveram sempre juntos em todas fugas em que participaram, e foram muitas. Quando o Rui ganhou, ganhou a Kämna. Depois foi Evenepoel a atacar, e a acabar por se lhes juntar. Como o belga punha em risco a camisola dos pontos de Grooves, o corredor da Alpecin- Deceuninck colou-se-lhe. É normal que o melhor sprinter ganhe na última etapa. Mas Grooves percebeu que tinha de seguir Evenepoel para conseguir ganhar.

Até nisto a Vuelta é diferente. Depois de um final emocionante, com o pelotão a anular a fuga em cima da meta, mas já sem nem tempo, nem forças, para qualquer comboio de lançadores de sprint, foi Grooves quem ainda estava em melhores condições para ganhar. Ganhou, como era suposto, mas completamente fora do que era suposto. E consolidou a primeira posição nos pontos. Rui Costa acabou por voltar a repetir o sexto lugar do dia anterior.

E ponto final. Kuss ganhou, como deveria ser. Vingegaard e Roglic fecharam o pódio. De uma única equipa, todos da imbatível Jumbo. Que pela primeira vez ganha as três maiores competições do ciclismo mundial: Roglic, no Giro, Vingegaard, no Tour e Kuss na Vuelta.

Evenepoel ganhou a montanha. E só não ganhou nos pontos porque, nesta classificação, as vitórias em etapas de montanha valem apenas 20 pontos. Contra os 50 das etapas planas. E mesmo assim ainda tentou, da forma que se viu, buscar o 50 pontos de Madrid. Suficientes apenas e só se Grooves não pontuasse. E acabou por proporcionar os melhores momentos de espectáculo de ciclismo desta Vuelta. 

Dos portugueses, Rui Costa acabou por fazer uma grande prova. Como João Almeida, que talvez pudesse ter feito algo mais. O nono lugar da geral sabe a pouco, especialmente depois do pódio no Giro, mas não deixa de ser um bom resultado. Nelson Oliveira viu-se aqui ou ali. Mais ali, no contra-relógio. Os outros não deixaram história. Porque não puderam. Guerreiro pela infelicidade da queda, bem cedo.

Para o ano há mais. E em Lisboa!

 

Vuelta 2023 - Lições

Team Quick Step's Belgian rider Remco Evenepoel celebrates winning the stage 18 of the 2023 La Vuelta

A 18ª etapa da Vuelta, hoje corrida pelas montanhas das Astúrias, era a última de alta montanha. Das três que faltam apenas a de sábado, a penúltima, uma daquelas tipo montanha russa de que Rui Costa gosta, poderá alterar, e ainda assim muito pouco, do pouco que pode mudar na classificação.

Sendo uma etapa de elevado grau de dificuldade, e tendo praticamente decidido a Vuelta, foi mais que uma etapa de confirmação da classe de Evenepoel, que entrou em fuga 12 quilómetros depois da partida, correu na frente os restantes 167, deixou para trás quem quis, e quando quis, ganhou as três classificações de montanha e garantiu a  respectiva camisola, e chegou isolado à meta, com quase 5 minutos de vantagem para o segundo (Caruso) e 10 para os principais da classificação geral. Foi uma lição de vida!

Foi, antes de mais, uma lição de ciclismo de Evenepoel. Mas também uma lição de vida. Esteve para abandonar depois da "catástrofe" do Tourmalet. Disse que foi a mulher que lhe pediu que não o fizesse e, por ela, continuou. E voltou a dar espectáculo como nenhum outro, e a ganhar. Ontem parecia ter desaparecido, depois de ter entrado em mais um fuga. Não desapareceu, apenas percebeu que não valia a pena investir nela. Que não era a certa, e mais valia resguardar-se para hoje. Para ganhar pela terceira vez, e demonstrar que é, física e mentalmente, um campeão.

Mas foi acima de tudo uma lição de vida de Vingegaard. A novela da Jumbo, com Kuss, Vingegaard e Roglic como personagens, tem aqui sido bastamente relatada. Quando, ontem, a juntar ao que já se passara na véspera, depois de deixar a liderança de Kuss presa apenas por 8 segundos, Vingegaard disse que gostaria que o seu companheiro ganhasse a Vuelta, a declaração soou ao mais vil da hipocrisia. Kuss só não acabara de perder a "vermelha" por ter tido a ajuda de Mikel Landa, e por em cima da meta o ter passado para assegurar os pontos da bonificação pelo terceiro lugar. Pediu desculpa ao corredor espanhol, disse-lhe que tinha vergonha do que acabara de lhe fazer, mas que a isso tinha sido obrigado pelos colegas de equipa.

É difícil intrepretar de outra forma aquela declaração do vencedor do Tour. Mas é possível acreditar que se arrependeu. Mas também que a direcção da equipa, porventura com receios de danos de imagem, tenha sido obrigada a reconhecer que os ataques de Roglic e Vingegaard a Kus passavam a ser intoleráveis.

Fosse pelo que fosse, a verdade é que, hoje, o campeão dinamarquês redimiu-se. A apenas 8 segundos do seu colega de equipa, hoje teve tudo para lhe ganhar essa diferença e até muito mais. E renunciou sempre. Na última subida, nos últimos 4 quilómetros, a mais de 10 minutos de Evenepoel, o grupo dos primeiros estava reduzido a seis corredores. Eles os três, e ainda os espanhóis Ayuso,  Mikel Landa e Enric Mas, os três a disputar o quarto lugar da geral, separados por 30 segundos. 

Todos atacaram, para se atacarem. A cada ataque de cada um deles, bastaria a Vingegaard responder para deixar Kuss para trás. Nunca o fez. Pelo contrário manteve o ritmo, impediu as tentações de Roglic, segurou sempre Kuss e acabou sempre a anular as tentativas dos espanhóis. Mas fez mais: nos últimos metros abrandou e deixou que os outros cinco se fizessem à meta, entregando 9 segundos ao seu colega. Para lhe dar a tranquilidade de 17 segundos de vantagem na liderança!

Não tenho a certeza que tenha sido bonito, mas foi o final feliz de uma novela que não estava a ser bonita. E Kuss vai certamente ganhar a Vuelta. Como merece. Como é justo. Não é o ciclista mais forte desta Vuelta, onde só faltou Pogacar para estarem todos os melhores do mundo. Evenepoel - traído pela súbita quebra no Tourmalet, mas isso é ciclismo -, Roglic e Vinguegaard, são mais fortes. Sem dúvida. Mas, por tudo o que tem feito por eles ao longo de anos, Kuss merecia a gratidão que tardou em ser demonstrada.

E só não consigo dizer que foi bonito porque Jonas Vingegaard deu, mas quis mostrar que estava a dar. Bonito é dar sem exibir. Já Roglic, nem isso.

João Almeida hoje não esteve nos melhores dias. Descolou do grupo dos primeiros ainda na penúltima subida, para depois fazer o que já é habitual - ir recuperando lugares. Perdeu cerca de 1 minuto, um pouco menos, para os seis primeiros. E manteve naturalmente o 9º lugar na geral, de onde dificilmente sairá.

 

 

 

Vuelta 2023 - Liberdade na ditadura da Jumbo

Roglic no cree que el Tour vaya a ser un duelo entre Pogacar y él

Tinha aqui escrito que Vingegaard e Roglic aguardariam ansiosamente um ataque de Ayuso, o quarto da geral e o primeiro fora da Jumbo para, nas últimas altas montanhas desta semana final, atacarem a liderança de Kuss.  Queria com isso dizer que tinha por certo que ambos queriam ganhar a Vuelta, mas que, nem eles, nem a direcção da Jumbo, teriam "lata" para atacar directamente o colega. O fiel escudeiro que tanto tem trabalhado para as suas vitórias, e que inesperadamente vira chegar a sua vez de ganhar. 

Estava enganado. Nem Ayuso, nem qualquer outro adversário, lhes deram essa oportunidade, e precisaram de outros pretextos. E até de pretexto nenhum.

Ontem, na 16ª etapa, entre Liencres Playa e Bejes lá no alto de La Hermida, bastou a Vingegaard o pretexto de  homenagear o colega Van Hooydonck, vítima nesse mesmo dia de um ataque cardíaco, seguido de despiste, quando seguia ao volante do seu carro, na Bélgica, e em crítico estado de saúde. Ganha-la-ia de qualquer forma, sem necessitar de deixar Kuss em dificuldades. Mas não. Atacou a sério, para ganhar a etapa e atacar a liderança. Ganhou mais de um minuto a Kuss e a Roglic, ficando a apenas 29 segundos da vermelha, e retirando o segundo lugar ao esloveno.

Hoje, na etapa mais dura da Vuelta, com a meta no mítico L`Angliru, já nem precisaram de pretexto algum. Simplesmente seguiam os três na frente, e iriam repetir o inédito feito do Tourmalet. Mas não. E desta vez foi Roglic. Atacou e Vinguegaard seguiu-o, deixando Kuss para trás. Era o dia do aniversário do americano, mas nem isso lhe valeu. 

Valeu-lhe o espanhol Mikel Landa, um adversário da Bahrein, que se lhe juntou e o levou na roda até à meta, onde Roglic fora primeiro, sem discussão com Vingegaard (também era só o que faltava). kuss até acabou por ser terceiro, repetindo o feito da equipa no Tourmalet. Mas foi um adversário que lhe deu a prenda de anos que os colegas lhe negaram, e que lhe permitiu até manter a camisola vermelha, agora presa por apenas 8 segundos. Para Vingegaard. Para Roglic, é mais um minuto. Nada que não resolvam certamente amanhã, o último dia de alta montanha.

Dizem, da equipa, que os três gozam de liberdade total para fazerem o que quiserem na corrida. Afinal há liberdade na ditadura que a Jumbo instalou nesta Vuelta. Não há é gratidão. Nem sequer respeito.

Também na UAE não funciona essa coisa a que se chama equipa. Já se tinha visto noutras ocasiões, em muitas delas com João Almeida com razões de queixa. Hoje foi ao contrário. Foi o português, com mais uma excelente prestação - sexto na etapa, a 58 segundos de Roglic - que se esteve nas tintas para Ayuso e para Soler. O jovem espanhol ainda se aguentou. Foi nono na etapa e segurou o quarto lugar da geral, se bem que já muito apertado por Landa, a apenas 16 segundos. Soler afundou-se, e caiu de sexto, a apenas 3 minutos de Kuss, para 13º, a 22. E foi justamente à sua conta que João Almeida, a acabar a Vuelta ao seu melhor nível (Kuss deve-lhe a ele não ter perdido já ontem a liderança, pois foi ele a "dar sapatada" que reduziu a vantagem de Vingegaard) subiu a nono, e praticamente garantiu um lugar no top 10. 

Ah... E Evenepoel já não é notícia. Mas ainda tem que defender amanhã o primeiro lugar da classificação da montanha.

Vuelta 2023 - Rui Costa de "vuelta"

Vuelta: Rui Costa vence a 15ª etapa da Volta a Espanha

A décima quinta etapa, corrida hoje entre Pamplona e Lekunberri, fechava a segunda semana da Vuelta. Mas não era isso que a tornava desejada pelos adeptos portugueses do ciclismo. Era porque, acreditávamos, tinha um traçado - de altos e baixos, numa espécie de montanha russa - à medida de Rui Costa, o campeão português no ocaso da carreira, e esquecido pelos feitos de João Almeida.  

Há 10 anos fez História. Foi campeão do mundo. Ganhou a Volta à Suíça e ganhou duas etapas no Tour. À porta dos 37 anos, ia em 10 sem resultados à altura do seu estatuto de grande do ciclismo mundial. Havia como que uma certeza que esta etapa estava marcada na sua agenda como a etapa a ganhar.

Ontem havia entrado na fuga certa, donde tinha saído o recital de Evenepoel. Quando abdicou deixara logo a ideia de ter sido um ensaio para hoje. E que teria decidido reservar as forças justamente para hoje. E assim foi. Agarrou a fuga do dia, de novo com o campeão belga empenhado em continuar a demonstrar que o Tourmalet não passou de um acidente em que o ciclismo é fértil. Já perto da meta, mas nem tão perto assim, saiu para a vitória, levando o espanhol Buitrago na roda. Só quis isso mesmo o espanhol. Não cooperou, apesar dos apelos do Rui Costa, e esse desafio fez com que o alemão Leonard Kamna, o mais rápido, e por isso mais perigoso adversário, se lhes juntasse, já à entrada do último quilómetro. Repetiu-se, agora a três, o que já tinha acontecido com o espanhol. Se antes se mediam a dois, agora mediam-se a três. E isso ia dando mau resultado, já que o grupo de Evenepoel se aproximava a olhos vistos. 

Rui Costa sentiu o perigo e deu uma sapatada. Os outros dois reagiram, e foi o suficiente para a evitar a chegada do grupo, e chegarem os três aos últimos metros. Buitrago, com mais dificuldades de ponta final, foi o primeiro a atacar. O alemão respondeu, e parecia ter barrado o caminho ao corredor português. Mas Rui Costa guinou para a direita e encontrou o buraco para, em cima da meta, por meia roda, ganhar.

Voltar a ganhar, 10 anos depois numa grande volta. E voltar a lembrar ao mundo o seu nome. Ainda grande!

Vuelta 2023 - A ditadura

Vuelta: Jumbo-Visma estampa autoridade e Sepp Kuss alicerça candidatura à geral

Está a completar-se a segunda semana da Vuelta, provavelmente a mais espectacular das três grandes competições do ciclismo mundial. Por ser a última do calendário mas, acima de tudo, por ser normalmente a mais aberta. Esta, deste ano, por ser a mais recheada de estrelas: à excepção de Pogacar, conta com todas as estrelas maiores do universo do ciclismo, o que não aconteceu no Giro nem no Tour.

Lá estão Vinguegard, campeão do Tour, Roglic, vencedor do Giro, Remco Evenepoel, campeão do mundo, que este ano ainda não tinha participado em nenhuma das grandes voltas do World Tur (impedido no Giro, por ter testado positivo ao Covid já em competição) e que era tido pelo único ciclista capaz de bater os três grandes (Vinguegard, Pogacar e Roglic) e, claro, a armada completa (apenas sem Yates) da Emirates, com João Almeida, Ayuso e Soler. Completa também (e que armada!) a da Jumbo.

Uma fuga na primeira semana acabou por catapultar para os dois primeiros lugares, e logo com a respeitável vantagem na ordem dos dos minutos, dois corredores de respeito, mas fora da lista dos principais favoritos: o americano Kuss, da Jumbo, e o espanhol Soler, da Emirates. 

De Kuss, sabia-se que é um trepador de eleição e, provavelmente, o maior gregário do mundo. Ajudou Roglic a ganhar o Giro, e foi decisivo na vitória de Vinguegaard no Tour. Não se sabia do que seria capaz no papel, e com a responsabilidade, de candidato a ganhar uma grande Volta. De Soler sabe-se que é um bom ciclista, sempre capaz de andar nos primeiros lugares, mas incapaz de grandes rasgos.

O primeiro grande teste a estes dois estava marcado para o contra-relógio de Valladolid, na passada terça-feira, onde Evenepoel, o recém campeão do mundo da especialidade, era o grande favorito. Mas foi apenas segundo, atrás de Filipe Ganna, também já campeão mundial, e pouco à frente de Roglic e de João Almeida. Que fez um contra-relógio fabuloso, ao seu melhor nível, subindo então a sexto da geral, num top 10 que incluía ainda Nelson Oliveira.

Kuss e Soler equivaleram-se, e defenderam bem as suas posições. Para o americano da Jumbo, contando com o melhor colectivo da actualidade, de longe e praticamente imbatível, e com a esperada gratidão de Roglic e Vinguegard - era a hora de lhe retribuírem tudo o que tem feito por um e outro - o desempenho no contra-relógio foi como que o carimbo na lista de principais candidatos à vitória final. O resto fez ele próprio nos dias que se seguiram, demonstrando sempre condições para estar na frente, sem vacilar.

Andavam as coisas assim, com Kuss de vermelho, Soler ali perto, e Vinguegaard, Roglic, João Almeida, Ayuso e Evenepoel todos juntos logo a seguir, até à etapa de ontem, com subida do Tourmalet, já depois da do Aubisque. Aí mudou tudo. Ou quase.

Evenepoel desfaleceu logo no início da etapa, não se sabe bem por quê, a não ser que são coisas que acontecem no ciclismo. A João Almeida não aconteceu a mesma coisa, nem o resultado foi o mesmo, mas também foi alvo de um dia não. O campeão belga nunca mais se encontrou e perdeu quase meia hora. O João, doente, com dores no corpo, uma infecção na garganta e uma noite sem dormir, também ficou para trás logo no início. Mas foi o que é: um campeão e um guerreiro. Fez do resto da etapa, nas subidas do Aubisque e do Turmalet, uma sucessão de "almeidadas", e acabou no 15º lugar na etapa, limitando as perdas a 6 minutos e 47 segundos para Vinguegaard, o primeiro lá no alto. À frente de Kuss, que voltava a dizer que quer, e merece, ganhar a Vuelta, e de Roglic. 

Os três da Jumbo, que ficaram também os três primeiros da geral. Se não é inédito, anda lá perto. Inédito é, seguramente, a mesma equipa ganhar no mesmo ano as três grandes Voltas!

João Almeida, apesar do esforço épico, caiu para o 10º lugar na geral. 

João Almeida ainda foi capaz de responder ontem mesmo ao infortúnio. Evenepoel fê-lo hoje. Afastado da luta pelos primeiros lugares com os 28 minutos perdidos ontem, hoje teve liberdade para atacar. E fê-lo de imediato. Nada melhor que matar o fantasma logo na primeira oportunidade!

E foi um espectáculo. Só no ciclismo podem acontecer coisas destas. Num dia, a derrota inapelável. No seguinte, uma exibição de esplendor na estrada. Foi para a frente logo no início, subiu na frente tudo o que foi montanha que encontrou. Bardet ainda o acompanhou, talvez mais de 100 quilómetros, sempre na sua roda. A vantagem ia aumentando, quilómetro a quilómetro. Passou os 8 minutos para o grupo dos favoritos, onde os restantes 7 dos 10 primeiros não conseguiam sequer revoltar-se contra a ditadura da Jumbo, imposta pelos três do pódio.

Ayuso ainda tentou, uma ou duas vezes. E pareceu até que a ideia agradava quer a Roglic quer a Vinguegaard. Sem "moral" para atacarem Kuss, a resposta a um terceiro seria o pretexto ideal. O americano sabia disso, nunca desarmou, e tudo ficava na mesma.

A 4 quilómetros lá do alto de  Larra-Belagua nem foi preciso Evenepoel atacar. Bardet acabaria por ceder e lá seguiu sozinho o campeão belga até á meta, cortada em lágrimas, com mais de um minuto de vantagem sobre o francês, e mais de 8 sobre o grupo dos primeiros da geral, onde João Almeida se incluía, mantendo o seu 10º lugar, a 8:39 de Kuss, mas a mais de 6 minutos do quinto, Enric Mas.

A Vuelta, a mais democrática das três grandes corridas do mundo é, desta vez, uma ditadura. Da Jumbo. A uma semana do fim, é a mais fechada de todas. Evanepoel deverá ainda ganhar mais uma ou duas etapas. Segurará certamente a camisola da montanha, que hoje arrebatou a Vinguegaard. Mas nem no top 10 entrará. 

A Ayuso, quarto, e primeiro não Jumbo, estará agora reservado o papel principal. Se, prisioneiro da armada da Jumbo, se resignar ao seu quarto lugar, Kuss já ganhou. Se atacar para chegar ao pódio, apenas abre a Vinguegaard e a Roglic oportunidade para atacarem o colega de equipa. Sabem que não o devem fazer. Mas que o querem, já se percebeu!

Tour 2023 - FIM

Terminou o Tour2023 e agora é mesmo oficial: Vingegaard sagra-se bicampeão ao conquistar 110.ª edição

E pronto, desceu o pano sobre o 110º Tour. Nos Campos Elísios, como habitualmente. Mas como não será para o ano, com Paris por conta dos Jogos Olímpicos.

Na meta, Meeus fechou uns milímetros à frente do compatriota Philipsen, o rei dos sprints, e camisola verde, e do neerlandês Dylan Groenewegen, em terceiro. 

Com o prémio da montanha ontem arrumado, todas as classificações estavam já todas fechadas. No pódio, com Vinguegaard de amarelo, e Pogacar de branco (juventude) ficou Adam Yates. Por lá passaram ainda Philipsen, com a camisola verde (dos pontos) e Giccone, com a das bolinhas vermelhas (da montanha). E todos os colegas de Vingegaard na Jumbo, que ganhou por equipas.

Todos, não. Faltou Van Aert, o mais espectacular deste Tour. São muitas as imagens que dele ficam, porque ele esteve em todo o lado. Uma, no entanto, ficará gravada na memória de todos os que viram. Conta-se rapidamente: subiam-se as montanhas do Monte Branco e Van Aert terminava o seu trabalho na frente. Ficou para trás, e chegou mesmo a parar em cima da bicicleta, acabando amparado por um espectador, e desapareceu das câmaras. Para a frente do grupo passou Raphal Majca, o companheiro de Pogacar para impor o ritmo que colocasse Vingegaard em dificuldades. De repente, vindo não se sabe de onde, Van Aert estava ao seu lado, a voltar a pegar na corrida e a acabar (literalmente) com Majca, deixando Pogacar sem qualquer ajuda.

Faltou Van Aert porque há três dias foi embora, para assistir ao nascimento do seu segundo filho. Como tinha avisado desde o início. 

Espectacular, até nisto!

Espectacular não foi o desempenho dos corredores portugueses. Pelo contrário, foi bem discreto. Rúben Guerreiro foi o que mais deu nas vistas, mas acabou fora da corrida, vítima daquela queda colectiva na 14ª etapa, que provocou a neutralização de meia hora. Nelson Oliveira (53º, a 3 horas e 8 minutos de Vinguegaard) e Rui Costa (67º, com mais 30 minutos) ainda chegaram a integrar uma fuga, mas sempre sem qualquer impacto. Na realidade, só hoje, nas últimas voltas (de 7 quilómetros) aos Campos Elísios, se conseguiu ver o Nelson naquela fuga a três que acabou fracassada já na última volta, à beira do último quilómetro.

Tour 2023 - VI

Tour 2023: Pogacar vence 20ª etapa; Vingegaard a um dia do bi - Bikemagazine

Está tudo decidido neste 110º Tour de France. A penúltima etapa, corrida na Alsácia pelas montanhas dos Vosges, entre Belfort e Le Markstein Fellering, com 133,5 km de montanha, que só não era completamente decisiva porque o mais importante tinha fica arrumado na última quarta-feira no Col de la Loze, decidiu o que faltava decidir. Se amanhã não houver quedas que provoquem desistências - pelo que se tem visto, isso não é garantido; hoje houve mais quedas, uma delas envolveu directamente Carlos Rodriguez, da Ineos (levando-o a perder o quarto lugar para Simon Yates) e Kuss, da Jumbo, o braço direito de Vinguegard (que caiu do oitavo lugar para fora do top 10) - está tudo decidido!

Era montanha atrás de montanha, e tinha duas coisas por garantidas. Por um lado era certa a constituição de uma fuga bem cedo. Porque é sempre assim, e porque havia pontos de montanha para Giccone amealhar bem cedo e garantir a camisola das bolinhas. E, por outro, era certo que, no seu último Tour, o alsaciano Pinot queria brilhar e, se possível, ganhar na sua região.

E acabaram ser estes dois dos pontos altos da etapa. Giccone garantiu o título na antepenúltima montanha, e deixou-se cair do grupo da frente. Ao contrário, e em simultâneo, Pinot saltou do grupo para a frente, onde andou até ao início da última subida. Foi aclamado ao longo de alguns quilómetros e muitos minutos, ganhou o prémio da combatividade, mas não resistiu e acabou no sétimo lugar na meta.

O terceiro, sendo um clássico deste Tour, não deixa de ser um ponto alto da etapa. O ataque de Pogacar na última subida, e a resposta imediata de Vinguegaard, é um clássico. Mas, depois das derrotas no contra-relógio e no Col de la Loze, poucos esperariam que Pogacar tivesse força mental para qualquer espécie de ataque. 

É só por isso um ponto alto da etapa. Mas também porque acabou porque arrumou o que faltava arrumar no top 10. 

Pogacar atacou e Vinguegaard respondeu. Acabaram os dois a medir-se reciprocamente, e a pôr até em causa a vantagem entretanto conquistada sobre todos os outros. Um clássico deste Tour. Foi assim que Carlos Rodriguez ganhou no Monte Branco, faz hoje uma semana.

Valeu-lhes que o primeiro que se lhes juntou foi o austríaco Felix Gall, que ainda pagou a despesa durante uns bons minutos. Até deixar de estar interessado em rebocar tão importantes penduras, e Pogacar passar a estar interessado na chegada ao grupo dos manos Yates, que entretanto tinham deixado Carlos Rodriguez nas covas, entregue às suas mazelas.

Contava que Adam, o seu colega na Emirates, o conduzisse e lançasse na recta da meta. E assim aconteceu. Vinguegaard sabia que iria ser assim, e ainda se lançou no sprint para tentar ganhar a etapa, mas Pogacar não lhe deu hipótese. 

Foi bonito ver na penúltima etapa mais um duelo entre os dois. Não se pensava que Pogacar tivesse ainda disponibilidade mental para estes desafios. Nem bonito, nem feio - mas apenas o que foi - foi que, sempre que ao longo de todo o Tour Pogacar atacou teve resposta à altura de Vinguegaard. Na única vez que foi por ele atacado, não conseguiu responder-lhe. Nisto, nestes duelos, as diferenças andaram pelos segundos. No contra-relógio de terça-feira, cada um por si, um sem o outro, Vinguegaard desferiu o o golpe que deixou Pogacar a cambalear. No dia seguinte não precisou de fazer muito, foi só deixá-lo cair!

Mérito indiscutível nesta segunda vitória consecutiva de Vinguegaard. Quando o segundo fica a 7 minutos e meio, e o terceiro a onze, não sobra nada para discussão!

 

Tour 2023 - IV

NãoVingegaard e Pogacar não fizeram o mesmo tempo no contra-relógio de hoje, desta 16ª etapa. Nem nada que se parecesse. Para surpresa geral, e até do próprio, Vingegaard deu uma verdadeira coça a Pogacar. E, apesar da etapa de amanhã, tida como a mais difícil da prova, com quatro subidas em alta montanha e de longa quilometragem, e da penúltima, no sábado ser também de alta montanha, deverá ter garantido a segunda vitória consecutiva no Tour, à custa de Pogacar.

Os Pirinéus e os Alpes mostraram que, em corrida, eles não se largam. Por eles, porque são, de longe, os dois melhores, e pelas respectivas equipas, também elas as melhores. Se assim foi, mais táctica menos táctica, mais estratégia menos estratégia, não é previsível que assim deixe de ser nessas duas etapas.

Por isso, o minuto e trinta e oito que Vingegaard hoje ganhou, a somar aos 10 segundos que trazia de vantagem, são mais que suficientes para lhe garantir desde já a vitória em Paris, no domingo. É que seriam necessários muitos, dos poucos segundos que têm feito a diferença entre eles, para anular o 1´48´´ que agora os separa.

Não era um contra-relógio qualquer, este de hoje. Eram pouco mais de 22 quilómetros, mas terríveis. Logo à partida a subida do Côte des Soudans, com 1,3 quilómetros com uma pendente média de 8,8%. Depois da descida, seguida por um curto traçado plano, a subida ao Côte de Domancy, mais longa (2,5 km) e mais íngreme (9,4% de média), com muitos espaços com inclinações superiores a 11%. Para terminar, mais 3,5 quilómetros para subir até à meta, em Combloux, com uma inclinação média de 5%.

Alguns (poucos) ciclistas optaram por trocar a bicicleta de contra-relógio pela normal, de corrida, no início da segunda subida, a do Côte de Domancy. Pogacar tinha anunciado ser essa a sua estratégia.

Dado que os tempos de subida contavam para a pontuação da montanha, perceber-se-ia que isso servisse aos mais interessados nessa classificação, como era o caso de Gicone. Percebeu-se, pelos poucos que ao longo do contra-relógio trocaram de bicicleta, que a operação não se fazia em menos de 10 segundos, que facilmente passariam a 30 contando o tempo para recuperar o ritmo.

Quando Pogacar fez a troca - e foi o único dos 10 primeiros a fazê-lo - já trazia uma desvantagem próxima de 1 minuto para Vinguegard. No fim, perderia 1:38. Sabe-se que continuou a perder, e que, objectivamente, não ganhou nada com isso. Mas não se sabe é se ainda teria perdido mais se não o tivesse feito.

Chegou à meta colado ao jovem espanhol Joaquim Rodriguez, o terceiro da geral que tinha partido 2 minutos antes, e batendo em quase 1 minuto o melhor tempo até então, os 35´27´´do sensacional Wout van Aert, provavelmente o corredor mais espectacular deste Tour. Mas quase à vista de um Vinguegard "de outro mundo".

Nas contas do pódio Adam Yates trocou com Carlos Rodriguez, e é agora terceiro, já quase a 9 minutos do líder. Mas com escassos 5 segundos de vantagem sobre o jovem espanhol da Ineos que, face ao trabalho que o espera na ajuda a Pogacar, terá dificuldade em segurar.

 

 

Tour 2023 - III

Gesto fair play na Tour. Pogačar spadl, Vingegaard na něj počkal a ...

A segunda semana do 110º Tour de France, fechada com as três etapas dos Alpes, foi mesmo a semana alpina. Três etapas que, tidas por decisivas, não decidiram muita coisa. Na frente, na luta pela vitória final, não decidiu mesmo nada.

Se à entrada nos Alpes Vingegaard e Pogacar estavam separados por 17 segundos, à saída estão separados por 10. Mas isso não quer dizer que os Alpes não decidiram muita coisa e, menos ainda, que não tenham mostrado grandes momentos de ciclismo.

Na sexta-feira, a abrir, na chegada ao Grand Colombier, não faltou espectáculo nem emoção. Como não faltaria nas outras. Aproveitando - e resistindo - uma fuga madrugadora e numerosa, como é timbre destas etapas, Kwiatowski foi o primeiro, lá no alto. Mas o espectáculo, está bom de ver, estava reservado para os dois da frente da classificação geral.

A equipa dos Emirates chegou-se à frente e, num enorme investimento,  comandou toda a perseguição à fuga, quase a anulando. Na parte final Pogacar fez o resto, e voltou a atacar fortemente Vingegaard. Parecia que iria resultar, com o dinamarquês a ceder. Mas não, Vingegaard respondeu no seu ritmo e, no fim, todo o esforço da Emirates, e do próprio Pogacar, acabou por resultar numa vantagem de apenas 4 segundos. Que seriam oito, pela bonificação de outros quatro, correspondentes ao terceiro lugar na etapa. E o esloveno reduzia a desvantagem dos 17 segundos para nove.

Mas estava dado o mote. Pogacar conseguia explodir, mas Vingegaard tinha sempre resposta.

No sábado, ainda ali às voltas do Monte Branco, na chegada a Morzine les Portes du Soleil, nada seria de muito diferente. Mesmo com uma história muito diferente. Desde logo porque uma queda colectiva, logo aos 5 quilómetros da etapa, deixou fora da corrida muita gente, obrigando a uma interrupção de meia hora para que fosse prestada assistência aos ciclistas acidentados. Entre os que foram obrigados a desistir estavam ciclistas do top 10, como o sul-africano Louis Meintjes, o espanhol Antonio Pedrero (Movistar) e o colombiano Esteban Chaves (EF Education-EasyPost). Mas também Ruben Guerreiro. Dos primeiros, o australiano Jai Hindley (BORA-hansgrohe), terceiro classificado da geral, e o britânico Thomas Pidcock (INEOS), oitavo, também  estiveram envolvidos, mas continuaram em prova.

Desta vez foi a Jumbo Visla, de Vingegaard, a fazer o investimento principal na etapa. Mas foi Pogacar a atacar, novamente. Desta vez até ganhou rapidamente alguma vantagem, mas depressa a perdeu, e depressa Vingegaard se lhe juntou na frente da corrida.

Pogacar percebeu que não se veria livre do rival e decidiu apostar na meta da montanha, que dava bonificação de 5 segundos. Que, juntamente com a da meta final, no fim da longa descida que se seguia, lhe daria para anular a desvantagem. Deu-se então o golpe de teatro: quando Pogacar ia atacar para ser primeiro na montanha, no carreirinho aberto entre os espectadores, é tapado por uma mota de um repórter fotográfico, e é Vingegaard que aproveita para ser primeiro, e ficar com a bonificação.

Como um mal nunca vem só, enquanto eles estavam entretidos nesta disputa, o miúdo Carlos Rodriguez (22 anos), que tinham deixado para trás uns quilómetros antes, aproximou-se e, já na descida, deixou-os para trás. E acabou por ser primeiro na meta, com 5 segundos de vantagem sobre os dois. Pogacar ainda tentou tudo, esperou até pelo colega Adam Yates para uma ajuda. Mas nem assim. Vingegaard seguiu sempre colado à sua roda. Nem no sprint final, a largou, perdendo apenas os 4 segundos da diferença de bonificação entre o segundo e o terceiro. Perdendo estes 4 segundos, mas tendo ganho os 5 lá em cima, os 9 de vantagem passaram a 10.

Hoje, na despedida dos Alpes, a inevitável fuga numerosa ditou os primeiros 15 classificados da etapa, não deixando nada de bonificações com que os dois da frente se vão gladiando. Mais uma queda deixou Bardet, à porta do top 10, de fora.

Pogacar voltou a estar mais bem preparado - quer dizer com mais equipa - para atacar, novamente com a preciosa colaboração de Adam Yates, decididamente a fazer uma grande corrida. E atacou, com o mesmo resultado: Vingegaard sempre na sua roda, sempre a responder. E a deixá-lo definitivamente em sentido. Chegaram os dois juntinhos à meta em Saint-Gervais Mont-Blanc le Bettex, em 16º e 17º, a mais de 6 minutos de Wout Poels.

E, como eles não se largam, será o contra-relógio de depois de amanhã (amanhã será o segundo e último dia de descanso) a decidir isto. Só faltava, também aí, fazerem o mesmo tempo ...

Tour 2023 - II

Michael Woods vence 9.ª etapa e Pogacar volta a ganhar tempo a Vingegaard -  Tour - Jornal Record

Está cumprida a primeira semana do Tour, na sua 110ª edição. Amanhã será dia de descanso.

Foi uma primeira semana completamente diferente daquilo que é habitualmente a semana inicial do Tour, tudo por força de se ter iniciado no País Basco, com os Pirineus ali tão perto. Se nas duas primeiras etapas Pogacar fez questão de mostrar que estava forte - provavelmente para esconder as fraquezas de uma preparação interrompida com a queda em Abril, na clássica Liège-Bastonne-Liège, com a fractura de um pulso a obrigar intervenção cirúrgica - para impor respeito aos seus mais directos adversários e ganhar tempo de recuperação, a quinta, a primeira a sério nos Pirineus, entre Pau e Larons, encarregou-se de lhe desmontar a estratégia.

Uma fuga numerosa, que incluía Jay Hindley, o australiano em estreia no Tour, mas já com provas dadas, acabou por ditar a história da etapa. A fuga conquistou um vantagem apreciável que, a não ser reduzida, transformaria o ciclista australiano, que ganhou a etapa e conquistou a amarela, numa séria ameaça para os principais favoritos.

A equipa da Emirates acabou por ficar sozinha nessa tarefa de reduzir o tempo para Hindley. Conseguiu reduzir a diferença para a casa dos dois minutos, mas "rebentou" aí. Esgotada fisicamente, ou esgotado o sentido colectivo da equipa nessa tarefa, deixou Pogacar sozinho, à mercê da estratégia da Jumbo Visma. Que, se em individualidades não lhe fica atrás, em sentido colectivo e estratégico, fica-lhe muito à frente.

Com Pogacar desguardado, a estratégia era testar as suas verdadeiras capacidades. Assim foi e, no momento certo Vingegaard atacou sem que o esloveno conseguisse responder. Ganhou-lhe mais de um minuto, e acabou a meio minuto de Hindley. Mas, mais que tudo isso, mais que derrotar circunstancialmente Pogacar, levantava dúvidas sobre a sua real condição para discutir a vitória neste Tour.

Dúvidas que duraram pouco. Logo no dia seguinte, na curta (faltavam 100 metros para os 145 quilómetros) etapa de despedida dos Pirineus, entre Tarbes e Cauterets, com passagem pelos míticos Col de Aspin e Tourmalet, antes dos quase 16 quilómetros finais da subida ao Cambasque, onde Rúben Guerreiro acabou em quarto - depois de integrar a fuga do dia e andar sempre na frente - Pogacar tratou da "vingança". 

A etapa acabou por ter muitas semelhanças com a anterior. Também a Bora, à semelhança da Emirates no dia anterior, se esgotou na perseguição à fuga para defender a amarela de Hindley. E a Jumbo também apostou na mesma estratégia da véspera. Só que, desta vez, quando Pogacar e Vingegaard ficaram a sós, foi o ciclista esloveno quem atacou. E foi por aí acima, até ganhar na meta. Com escassos 24 segundos de vantagem para o ciclista dinamarquês - que assim "roubou" a amarela ao australiano, que caiu para terceiro na geral -, recuperando  metade do tempo que perdera na véspera, mas a toda a condição de principal favorito.

Com os Pirineus para trás seguiram-se duas etapas para roladores e sprinters. A primeira - a sétima - partiu de Monte-de-Marsan - em homenagem a Luís Ocãna, vencedor do Tour em 1973, para assinalar o cinquentenário dessa vitória na terra que o grande ciclista espanhol escolheu para viver - e, por entre vinhedos donde saem dos mais famosos vinhos do mundo, acabou em Bordéus. Apostava-se que fosse a etapa em que Mark Cavendish alcançaria a sua 45ª vitória no Tour, e desempataria com Eddy Merckx. Mas Philipsen, eventualmente até com uma irregularidade no sprint, não o permitiu, e atingiu ele próprio a sua terceira vitória ao sprint neste Tour. Não teria sido um drama, se na etapa seguinte, a de ontem, Cavendish não tivesse ficado de fora da corrida, numa queda estúpida (que também atingiu Rúben Guerreiro) que lhe fracturou uma clavícula, já literalmente presa por arames (um dos ferros que a segurava acabou até por saltar). 

Era o seu Tour de despedida. Como que se fosse vontade dos deuses que este fosse um recorde a manter dividido entre o maior sprinter e o maior ciclista da História.

Ironicamente, o melhor sprinter deste Tour, que até aqui tinha ganho todas as chegadas ao sprint, não conseguiu vencer, em Limoges, a etapa que destruiu o sonho do melhor de sempre.

A etapa de hoje, a fechar a primeira semana, era apontada como uma das mais importantes deste Tour. Eram pouco mais de 182 quilómetros, entre Saint Léonard de Noblat e o mítico Puy de Dôme, onde a competição não chegava há 35 anos. Onde Poulidor ganhou em 1964, batendo Anquetil num duelo espectacular, quando mais perto esteve de vestir a amarela. Que o "eterno segundo" nunca vestiu, apesar dos seus oito pódios no Tour. Por isso a partida foi motivo para mais uma homenagem ao, ainda hoje, quatro anos depois do seu falecimento, mais popular ciclista francês, centrada no seu neto, Mathieu Van der Poel, o ciclista neerlandês, nascido na Bélgica, da Alpecin- Deceuninck.

Não foi a etapa espectacular que se poderia esperar. O grupo numeroso que desde cedo se formou na frente não incluía nenhum ciclista que representasse qualquer incómodo aos da frente da classificação. Por isso foi ganhando vantagem, que chegou aos 16 minutos, já em plena subida para o Puy de Dôme, quando o grupo se começou a desfazer. E quando o pelotão passou a deixar de o ser.

Na frente saltou o americano Matteo Jorgenson, da Movistar, e parecia que ganharia a etapa. Mas aqueles últimos 4 quilómetros são certamente dos mais difíceis da prova e acabou por sucumbir já dentro do último. O primeiro, numa subida, essa sim, espectacular, vindo de trás e passando sucessivamente todos os que seguiam à sua frente, foi o veterano canadiano Michael Woods, da Israel. Pierre Latour (o francês da TotalEnergies) e o esloveno - mais um! -  Matej Mohoric, da Bahrain, chegaram a seguir, e à frente do americano da Movistar.

No grupo dos principais protagonistas a história repetiu-se, com Pogacar e Vingegaard entregues um ao outro, porque são na realidade muito melhores que os outros. Pogacar atacou a 2,5 quilómetros da meta e foi embora, repetindo a cena do último do episódio. Mas, desta vez, ganhando ainda menos - 8 segundos, apenas. 

Vingegaard não conseguiu responder de imediato, mas conseguiu resistir. E mostrar que tem argumentos para continuar de amarelo. Mesmo que a camisola esteja presa por apenas 17 segundos.

Dos outros, apenas salientar que, ao conservar o terceiro lugar com cómoda vantagem, Jay Hindley está a justificar o pavor que lançou nos favoritos naquela fuga dos Pirinéus. E que a jovem promessa espanhola, Carlos Rodriguez, da Ineos, mas já a caminho da Movistar, é um candidato ao pódio.

 

 

 

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