"Um pequeno passo para o Homem, um grande salto para a Humanidade". Visto daqui, à distância de 50 anos, não se vê bem o salto. Por maior que tenha sido...
Culpa do vento e da chuva que, enquanto lá tudo deixam na mesma, por aqui tudo apagam. Ou até da História...
Na madrugada de 21 de Agosto de 1968, tanques e aviões soviéticos entraram na Checoslováquia, na então República Socialista da Checoslováquia, para esmagar o processo de democratização conduzido por Dubcek, que ficou conhecido por Primavera de Praga.
Em Janeiro de 1968 Dubcek, que fizera toda a sua formação política na URSS, substituiu o estalinista Novotni na liderança do Partido Comunista Checoslovaco e iniciou de imediato, com o apoio esmagador das massas populares, um conjunto de reformas políticas com vista a orientar o regime para o que chamava socialismo de rosto humano. Que rapidamente Brejnev tratou de travar, à custa de muito sangue.
Algumas semanas depois tudo ficava na mesma. Mesmo que o movimento comunista internacional nunca mais tenha sido o mesmo... Estava aberta a primeira fenda, a mãe de todas as brechas que tudo fariam colapsar vinte anos depois!
Pouco mais de dois meses, exactamente dois meses e dois dias, depois de ter anunciado o assassínio de Martin Luther King, foi ele próprio assassinado. Como o seu irmão, o Presidente John Kennedy, quatro anos e meio antes...
Fora Procurador Geral, onde enfentou a Mafia e o crime organizado em geral. Era senador por Nova Iorque e aprestava-se para garantir a nomeação do Partido Democrata para candiadato às presidenciais de Novembro de 1968. Comemorava a vitória nas decisivas primárias na Califórnia, no Hotel Ambassador, em Los Angeles quando, naquele dia 5 de Junho, não interessa quem - nunca os assassinos deveriam ficar na História -, o baleou na cabeça. Acabaria por morrer no dia seguinte, no Hospital Bom Samaritano, aos 42 anos. Há 50 anos!
A tragédia voltava a abater-se sobre a América. E sobre o mais mítico e poderoso clã americano. O crime voltava a ganhar, e os americanos acabariam por, cinco meses depois, eleger finalmente Richard Nixon como 37º presidente americano, o primeiro obrigado a resignar, em 1974, na sequência do escândalo Watergate.
A década de 60 terá sido das mais gloriosas – deixem-me chamar-lhe assim - do século passado, com uma rara concentração de factos e acontecimentos históricos decisivos. Se tivéssemos que escolher um ano para príncipe dessa década, provavelmente 1968 seria o escolhido: Martin Luther King e Robert Kennedy, depois do seu irmão, o presidente John Kennedy, cinco anos antes, foram assassinados; Nixon foi eleito presidente da América, onde o protesto contra a guerra no Vietname rompia com o “establishment” e abria portas a novas formas de activismo político, que atravessaria o Atlântico para se instalar e ganhar forma de revolução nas ruas empedradas de Paris.
Tudo começou na universidade, como então acontecia por todo o lado, ou não fossem os estudantes de 60 a vanguarda revolucionária do Ocidente, mas depressa atravessou a sociedade e chegou às fábricas, atropelando todas as estruturas orgânicas. Revolução tão curta mas tão profunda, que proibia que se proibisse e proclamava o realismo de exigir o impossível, nunca se vira. Nem nunca mais se viu!
Foi há 50 anos, o Maio de 68. Durou menos de um mês, a 30 de Maio De Gaule anunciou eleições para Junho, e tudo voltou ao seu lugar. Mas – não tenham dúvidas - nada ficou na mesma. Mesmo que De Gaule tenha voltado a ganhar nas eleições de 23 de Junho…
Tudo voltou ao seu lugar, mas o lugar que cada um encontrou de volta já não era, nem nunca mais foi, o mesmo.
Comemora-se hoje mais um cinquentenário. Faz hoje 50 anos que, em Paris, os estudantes ocuparam a universidade de Nanterre, abrindo um mês que prometeu mudar o mundo, quebrando tudo o que havia para quebrar e rompendo com tudo o que havia para romper.
Não durou muito, e foi por pouco tempo que foi "proibido proibir". A "imaginação não chegou ao poder", e De Gaule até foi mesmo reeleito. Mas foi bom enquanto durou. E bonito, muito bonito...
Um cinquentenário é sempre um acontecimento, comemorar 50 anos é sempre mais que assinalar uma simples efeméride. Se, no século passado, a década de 60 foi uma das mais ricas, 1968 foi um dos mais palpitantes anos da década e deixou muito para comemorar. Por isso 2018 tem muito cinquentenário para comemorar.
Começa com o do assassinato de Martin Luther King, que tinha um sonho - "I have a dream"!
O sonho de que um dia os filhos de antigos escravos pudessem “partilhar a mesma mesa em fraternidade” com os filhos de antigos donos de escravos, o sonho da convivência entre brancos e negros sob a mesma bandeira, a mesma lei e com as mesmas oportunidades.
Martin Luther King, Nobel da Paz em 1964, foi morto às 6 da tarde de 4 de Abril de 1968, quando discursava à varanda do quarto 306 do Lorraine Hotel, em Memphis, no Tennessee, pelas balas disparadas por um racista - James Earl Ray. O seu sonho, não!