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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Futebolês #65 FAZER POSSE

Por Eduardo Louro

 

Acredito que se forem procurar na literatura já disponível sobre o futebolês, ou em qualquer tentativa de dicionário desta linguagem, não encontrarão esta expressão: fazer posse. Já sei que estão a pensar googlar. Tirem o cavalinho da chuva: só encontrarão fazer pose!

Não é a mesma coisa, garanto-vos!

Corro pois o risco de ser acusado de andar para aí a inventar palavras – que não palavrões – e expressões para o futebolês só para alimentar esta rubrica. Garanto que não invento nada! Esta, parece-me, é uma expressão nova. Ouvi-a recentemente da boca de um dos novos agentes do fomento e desenvolvimento desta variante de comunicação – um dos muitos treinadores desempregados que viram comentadores, e donde surgem verdadeiras revelações na arte do futebolês.

Nos primeiros números desta rubrica, onde a bola era rainha, revelava-se o que chamaria de uma certa dimensão erótica da bola. Era o beijo, e em particular a forma como ela, beijando-as, se enrola nas redes. Ou a bola (parada), a mais apetecível beldade, objecto de abraços, apalpões e ciúmes. Ou mesmo a segunda bola!

Regressamos a essa dimensão erótica da bola a propósito desta expressão de hoje. Porque tudo começa no próprio acto de possuir a bola. Toda aquela gente, todos e cada um daqueles 22 jovens que por ali andam não sonham com outra coisa que não seja possuí-la. Lutam doidamente pela sua posse, como qualquer macho feroz pela sua fêmea. O tempo do acto de possuir é rigorosamente medido e depois apresentado em estatísticas sob a forma de percentagem: umas vezes bem repartido pelos dois conjuntos, outras com desequilíbrios verdadeiramente obscenos. Veja-se o caso do Barcelona: aquela rapaziada possui a bola com evidente exagero. É sempre bem acima dos 60%, eles possuem tudo e não deixam nada!

Deixemos por agora os catalães e a sua obsessão por possuir a bola e fixemo-nos na dinâmica própria desta linguagem.

Possuir a bola, também em tempos referido como ter a bola em seu poder – notoriamente menos romântica – rapidamente evolui para posse de bola. Depois foi só deixar cair a bola para se fixar na posse.

E surgem a construção em posse, a progressão em posse ou, ainda, a posse e circulação. Até ao novo fazer posse. Isto é o que deveria chamar uma verdadeira língua viva!

Fazer posse é então um neologismo do futebolês utilizado para referir uma circunstância de jogo que passa por possuir a bola por bons períodos de tempo. Por guardá-la para si, trocando-a entre os colegas quase a roçar o despudor. Ou, fugindo a esta carga mais perversa, fazendo-a circular entre os jogadores.

Evidentemente que, como em tudo na vida, não faz posse quem quer. Faz posse quem pode! Quem dispõe de jogadores com capacidade técnica, quem trabalha a cultura de posse e quem respira saúde física e mental.

Se estas condições se não conjugarem ninguém segura a bola. Se falta a condição mental então que a bola queima! Sem condições psicológicas os jogadores não estão seguros de tratar bem a bola  - problemas de adolescência, diria - e querem livrar-se dela o mais rapidamente possível. De qualquer maneira porque ela até lhes queima os pés!

Desconfio que a bola também tenha as suas preferências. Enquanto queima os pés de uns aconchega-se docilmente nos de outros. Enquanto foge que nem o diabo da cruz de gente como Gatuso, Mascherano ou Bruno Alves, corre alegremente para os pés de Messi, Nasri, ou Cristiano Ronaldo. Enquanto se passeia, airosa e obediente, entre Xavi, Iniesta e Messi, foge que nem uma barata tonta de Maniche, Saleiro e Djalo!

Peço desculpa pelo exemplo: as coisas não estão para exemplos destes. Como dizia um amigo e leitor: corre-se um risco de atentado ao pudor!

 

Futebolês #54 CIRCULAÇÃO

Por Eduardo Louro

 

A circulação, em futebolês, nada tem a ver com ruas, estradas ou auto-estradas. Ou com peões, motas e carros. Ou com engarrafamentos. Refere-se à bola e à forma como ela evolui no tapete verde ao sabor dos movimentos dos jogadores.

Fazer circulação quer apenas dizer que uma equipa consegue fazer passar bola sucessivamente pelos seus jogadores. Aos adversários apenas é dada a cheirar!

Nesse sentido tem alguma coisa a ver com posse, outra das expressões do futebolês.

Uma equipa que privilegie a posse, como se diz, faz circulação. Quer dizer: desenvolve o seu processo de construção a partir de uma filosofia de posse e circulação, ao contrário de uma equipa que assente o seu jogo no passe longo ou no contra ataque a partir de transições rápidas (100% futebolês)!

Evidentemente que o actual expoente máximo da circulação de bola é o Barcelona, seguido pelo Arsenal. Fazem as delícias do espectador e, atrevo-me a dizê-lo, da própria bola. Que se delicia com a forma como é tratada por gente daquela categoria: Messi, Xavi, Iniesta, Nasri, Fabregas ou Van Persie são de um cavalheirismo ímpar no tratamento da bola. Fazem-na feliz!

Não faz circulação quem quer. Fá-la quem tiver, na quantidade necessária, jogadores de enormíssima qualidade para o fazer. Como são, entre outros, aqueles três primeiros – todos às ordens do mestre Pepe Guardiola – que esgotam a short list de onde sairá o melhor do mundo a anunciar daqui a poucas semanas, no início do ano.

Como também se consegue perceber, dispor de um conjunto de jogadores de altíssima categoria, sendo condição necessária não é, no entanto, suficiente: falta o mentor da filosofia de jogo, o treinador. Se não pertencer à escola que faz da circulação uma ideia de jogo, não conseguirá construir uma equipa capaz de fazer da posse e da circulação da bola um espectáculo ímpar como é um jogo de futebol. De ataque e de golos!

Essa é a escola que, com pequenas variantes, encontramos em Barcelona e em Londres e que se exibem para o mundo a partir do Nou Camp e do Emirates Stadium, sob as batutas de Guardiola e de Wenger! E que há 40 anos nasceu em Amsterdão!

Que a selecção espanhola, campeã da Europa e do Mundo, importou da Catalunha. Como a holandesa de há trinta e muitos anos, a laranja mecânica do então futebol total de Rinus Michels, importou do Ajax de Amsterdão.

Em Portugal a circulação parece que não é a mesma coisa. Não encontramos exemplos desta nobre dimensão do jogo, apesar de ainda recentemente a nossa selecção ter engasgado a circulação espanhola, como que a lembrar os engulhos da introdução de portagens nas SCUT. Mas isso foi uma ocorrência. Apesar de saborosa uma mera ocorrência!

Por cá a circulação tem mais a ver com jornais do que com a bola -se calhar não é por acaso que a circulação, no caso a circulação paga, seja utilizada na avaliação de desempenho comercial dos jornais – tem a ver a forma como se põem a circular notícias com objectivos de uma precisão cirúrgica!

Que o Benfica vai mal todos sabemos. O tema tem sido aqui frequentemente abordado ao longo desta época, desde Agosto.

O que se calhar nem todos sabemos é das notícias postas a circular com o objectivo, único e preciso, de aprofundar esse estado depressivo. De carregar bem para baixo!

Agora são as contratações de Janeiro. Nomes e mais nomes, todos os dias!

Com que objectivo? Com dois: destabilizar a equipa e desmobilizar os adeptos, com os inevitáveis falhanços!

A última destas notícias então é fantástica: dava conta que Kleber, jogador do Marítimo por empréstimo do Atlético Mineiro, chegaria ao Benfica já em Janeiro. Toda a gente sabe que a transferência deste jogador para o FC Porto é assunto arrumado desde o Verão passado. Que só não se concretizou na altura por falta do acordo com o Marítimo, circunstância que levou o jogador, em retaliação, a adiar sucessivamente o seu regresso ao Funchal.

A circulação desta notícia, cuja origem é bem fácil de identificar – difícil mesmo é perceber a facilidade com que lhe foi dada cobertura –, conseguia juntar um terceiro àqueles dois objectivos: exaltar mais uma banhada do FC Porto nesta guerra das contratações.

Que raio de circulação!

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