Lendo - e bem mal, por acaso - o teleponto, num ambiente encenado até ao mais ínfimo pormenor pelo Luís, o Bernardo, de Sócrates, Gouveia e Melo apresentou a sua candidatura, em modo "Miss Universo". Com aplausos, muitos, da plateia bem ensaiada, a cada frase lida.
No fim, não ficamos a saber muito mais do almirante. Que não tinha substância, já desconfiávamos. Quer unir, como todos sempre dizem querer. Quer o que é bom, e não quer o que é mau. Como todos, e a Miss Universo também.
Já sabíamos - já o tinha dito - que se situa politicamente ao centro, entre a social democracia e o socialismo, mas na sala só vimos gente de direita. Lá vimos Carlos Carreiras, Fernando Negrão, Isaltino Morais, Ângelo Correia, Ribeiro e Castro, Chicão ...
Poderiam ter apenas perguntado ao André como é que consegue combater a corrupção recebendo dinheiro da corrupção. Mas não. Não andam atrás dele para lhe fazer perguntas incómodas. Andam atrás dele, por todo o lado, apenas para lhe apontarem as câmaras e os microfones, para que ele mostre e diga o que quer.
O sucesso eleitoral de André Ventura, e do Chega - uma e a mesma coisa -, deveu-se a ter trazido para o debate político o tema da corrupção, para depois o cavalgar nas asas do mais primário discurso populista.
O tema, e a forma como era proposto, rapidamente seduziu o eleitorado, e resultou em mais de um milhão de votos nas legislativas de há um ano, entre desiludidos dos partidos do sistema e abstencionistas afastados do ritual do voto.
Ontem, na Madeira, em eleições antecipadas por, há três meses, o parlamento regional ter feito cair o Governo por fortes suspeitas de corrupção, os eleitores - mais eleitores, com a queda da abstenção (de 46,6% para 44,02%) - deram quase mais 30% de votos ao arguido por corrupção Miguel Albuquerque, e à lista do PSD com quatro arguidos no mesmo processo.
Ontem os eleitores madeirenses deram a maioria absoluta (o deputado que lhe falta para a maioria absoluta está eleito pelo CDS) a um arguido por corrupção e castigaram severamente (perdeu 5 mil eleitores e um deputado - só a tareia do PS foi maior, mas essas são contas de outro rosário) o partido da dita bandeira contra a corrupção.
No país, com Montenegro enfiado até ao pescoço nas suas muitas e variadas trapalhadas, com autarcas arguidos em processos de corrupção, e com tudo o que se conhece da operação Tutti Frutti, o PSD (em rigor a AD não passa do PSD) apresta-se para ganhar as eleições de 18 de Maio.
Poderia dizer-se que as pessoas se fartaram depressa de ouvir falar em corrupção, e que já não querem saber disso para nada. Mas acho que não: acho que isto são os valores do povo português, os tais que Roberto Martinez diz que a selecção mostra.
Foi hoje divulgado o Índice de Percepção de Corrupção relativo a 2024, onde Portugal ocupa a 43ª posição entre os 180 países avaliados, com 57 pontos, numa escala de 0 (para Estados altamente corruptos) a 100 (elevada integridade dos Estados no combate à corrupção), a par do Botswana e o Ruanda, para se fazer uma ideia do que vale. No que é o pior resultado de desde que este índice começou a ser publicado pela Transparency International, em 2012.
Para este resultado terá sem dúvida contribuído a Operação Influencer. Mas ainda não contou o caso de Hernâni Dias, nem a Operação Tutti-Frutti que finalmente chegou a acusação na última semana. E não contou, evidentemente, que o primeiro-ministro tenha resumido o comportamento de Hernâni Dias a imprudência, e saudado o seu "desprendimento". Que grande parte dos acusados da operação Tutti-Frutti se mantenham nas suas funções autárquicas, e envolvidos nas escolhas para as eleições que aí vêm. Ou que Carlos Moedas tenha feito do seu vereador Ângelo Pereira um exemplo. Por ter tido de suspender o mandato, só por ser acusado de um crime de recebimento indevido de vantagem, quando foi vereador em Oeiras.
Portanto, para o ano é sempre a descer. E a descolar do Botswana e do Ruanda...
No meio de toda a pouca vergonha que tem dominado a actualidade política só faltava mesmo esta da Câmara de Espinho, a atingir, não um, mas dois presidentes. O actual - que já não é -, e o anterior, que ainda é deputado e vice-presidente da bancada parlamentar do PSD e vice-presidente de Luís Montenegro. Não um, mas os dois partidos de poder.
O actual, que já não é, começou por dizer que "a investigação incide essencialmente sobre operações urbanísticas realizadas no mandato anterior". E o anterior, que isso era apenas para "desviar o foco da investigação" pois que "o contexto investigatório reporta ao ano de 2022 e respeita a intenções de investimento não concretizadas e a operações urbanísticas tramitadas no actual mandato autárquico, ainda que algumas possam ter transitado de mandatos anteriores"
Diz-se que o actual, que já não é, foi fotografado com "a boca na botija", e escutado a acertar com que notas se fariam os 25 mil euros do seu preço pela aprovação de uns projectos manhosos. As tais "operações urbanísticas realizadas no mandato anterior" que talvez sejam "operações urbanísticas tramitadas no actual mandato autárquico, ainda que algumas possam ter transitado de mandatos anteriores", porque que vai tudo dar no mesmo.
O caso de corrupção que envolve a eurodeputada grega, eleita pelo PASOK, a até agora desconhecida vice-presidente do Parlamento Europeu, Eva Kaili, transporta-nos para a mais famosa expressão da nossa política caseira - "à política o que é da política; à justiça o que é da justiça".
Na Europa, "à política o que é da política", materializou-se, entre outras, na reacção de "fúria, raiva e tristeza" da presidente do Parlamento Europeu, a maltesa Roberta Metsola, inequivocamente expressa nesta declaração curta, mas profunda: "Não se enganem, o Parlamento Europeu, a democracia europeia e as nossas sociedades abertas, livres e democráticas estão sob ataque"!
A deputada corrupta foi imediatamente suspensa, e a imunidade parlamentar de imediato levantada. A política a ser política, para que a justiça fosse de imediato justiça, e a senhora detida - "à justiça o que é da justiça"!
Por cá, sabemos que não é assim, e que "à política o que é da política; à justiça o que é da justiça" nunca é mais que o biombo que esconde o que é a política.
Quis o destino que, nesta segunda-feira, em que em Bruxelas se não falava de outra coisa, por lá estivesse o nosso ministro dos negócios estrangeiros, João Gomes Cravinho. Precisamente no olho do furacão de mais um caso de corrupção (ou "de participação em negócio", ou "peculato" ou de tantos outros eufemismos que por cá gostamos de usar para esta palavra "proibida") no Ministério (da Defesa) em que então estava ministro, que acabara igualmente de rebentar.
Por cá, que uma obra (para reforçar a capacidade de resposta no pique da pandemia) num hospital militar, ajustada por 750 mil euros, tenha acabado a custar 3,2 milhões, através de ajustes directos de um quadro superior do ministério (já com "currículo" na matéria, e posteriormente premiado pelo ministro com uma transferência para uma empresa da tutela) com empresas constituídas de véspera, nem preocupa nem põe em causa as instituições.
É apenas um caso de Justiça?
Não. Não é. É a política a virar caso de polícia!
PS: A foto da Srª (ou menina?) Eva kaili é só por coisas...
Estão a decorrer buscas da Polícia Judiciária nas instalações da Presidência do Conselho de Ministros. As notícias dizem que em causa estão suspeitas de corrupção por parte do Secretário Geral deste órgão central no funcionamento do governo, que alegadamente terá recebido um milhão de euros de luvas num negócio de equipamento informático levado a cabo sem concurso público.
Claro que buscas são buscas, e suspeitas são suspeitas. Estão ambas longe de ser acusações. E mesmo se, e quando, aí chegarem ficam ainda longe da condenação, e dentro do princípio da presunção da inocência.
Mas ... caramba. No estado em que as coisas estão, e logo no dia seguinte a ter-se ficado a saber que as empresas do marido da ministra que toma conta dos fundos europeus estavam a recebê-los, e de uma deputada do partido do governo ter exigido que essa informação fosse retirada de uma acta e apagada a respectiva gravação, é caso para dizer que o nó da gravata de António Costa está a ficar demasiado apertado.
Já ouvi por aí dizer que as buscas, e ainda mais em dia de reunião de Conselho de Ministros, têm uma boa notícia - que a Justiça funciona. Triste, e lamentável notícia, essa que essas vozes nos dão. Então mas já chegamos ao ponto de achar que a regra básica da separação de poderes, num estado de democrático, e de Direito, é notícia?
Só recentemente começamos a ouvir falar do índice de felicidade dos países. Poucos são os agentes políticos a introduzir o conceito no seu discurso, e quando esses poucos o fazem soa a excentricidade. A minudências de franjas que não têm mais nada com que se preocupar.
Mais cedo ou mais tarde acabará por entrar na agenda discursiva, nem que seja por razões de marketing político. As questões ambientais e do bem estar animal, por exemplo, também ainda há poucos anos estavam arredadas do discurso político. E hoje são incontornáveis questões civilizacionais, e por isso de objectiva relevância política
À primeira vista poderá parecer que o índice de felicidade não tem essa transversalidade civilizacional. Acresce que passa por objectivar a felicidade, o mais subjectivo dos conceitos, ao ponto de quantificar para estabelecer comparações. Mas a verdade é que, mesmo subjectiva, a felicidade é tudo o que, em última instância, as pessoas mais procuram. E, por isso, mais valorizam.
Ora aí está. Não é preciso mais para perceber o potencial deste índice no discurso político.
Há já 10 anos que é publicado o World Happiness Index (WHI). Foram recentemente publicados os resultados da décima edição do Índice de Felicidade Mundial, e nesse relatório Portugal encontra-se na 56ª posição entre 146 países. E na 25ª entre os 27 países da União Europeia, apenas à frente da Grécia e da Bulgária. Acabamos, neste último ano, de ser ultrapassados pela Croácia.
Sempre nos tivemos na conta de pobres, mas felizes. Bastava-nos o sol, a luz e a beleza natural para, num país pobre mas bonito, sermos felizes. Venderam-nos tanto essa ideia que até criamos a expressão "pobretes mas alegretes". Pelos vistos não é bem assim. Já andávamos um bocado desconfiados disso. Que este é um belo país, com tudo para para fazer pessoas felizes, mas outras. Que não nós!
Ensinaram-nos que o dinheiro não dá felicidade. Acreditamos. Pelos visto não é bem assim - no índice de felicidade ainda estamos pior classificados que no do PIB per capita. Não só o dinheiro conta, como somos ainda mais infelizes que pobres!
É que, para este índice de felicidade, contam, para além do PIB, factores como expectativa de vida, generosidade, suporte social, liberdade e percepção de corrupção. O PIB não ajuda, já sabíamos. Na expectativa de vida, suporte social e liberdade pessoal estamos dentro da média. Na generosidade, onde nos temos por grande exemplo, também parece que estamos enganados - somos o 4º pior. O problema vem na percepção de corrupção por parte da população - com um penúltimo lugar bem vincado.
Este factor mede a percepção que os cidadãos têm da corrupção no país. Como desconfiam das instituições e dos negócios, e como isso impacta na sua qualidade de vida.
E cá está um dos nós górdios - um país em estado de negação. Um país que se mente a si próprio. Para Portugal não há corrupção em Portugal. Exactamente como, para Portugal, também não há racismo em Portugal!
À notícia da chegada à Europa da vacina da Janssen, logo com 30 mil doses para Portugal e mais milhão e meio a seguir, de que aqui dei nota, seguiu-se pouco depois a notícia ... que afinal, não. Parou tudo. Afinal também provoca tromboses...
Não têm nada a ver uma com a outra, mas não sei por quê, reparei noutra notícia de ontem, a da detenção da Presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, Conceição Cabrita, do PSD, por suspeita de corrupção num negócio de um terreno em Montegordo. É que logo a seguir, tão logo a seguir quanto logo a seguir já não havia vacinas da Janssen, passamos a saber que também envolvia o empresário e deputado António Gameiro, do PS - por acaso acabado de ser anunciado como candidato pelo partido à Câmara de Ourém - com notícias de buscas da Polícia Judiciária em sua casa, e do pedido à Assembleia da República de levantamento da sua imunidade parlamentar.
Quando todos temos Sócrates à frente dos olhos, não poderia haver pior para a nossa sanidade colectiva que notícias de corrupção entre autarcas, deputados, autarcas que são deputados, deputados que são autarcas, deputados que são empresários ou empresários que são autarcas. Tudo nos dois partidos do regime, para quem não há distâncias nem barreiras entre negócios sujos e política.
O problema não deixa de existir se dissermos que esta não é a regra. E que entre cada uma destas pessoas há muita gente séria nos dois partidos e nas suas funções de poder. O problema é que o sistema permite estas coisas, e enquanto as permitir elas existirão sempre.
Continuam a somar-se arguidos e a revelarem-se novos actos de corrupção na esfera da EDP, já ela própria também constituída arguida, como não poderia deixar de ser.
Alguns verdadeiramente surpreendentes, e perfeita contra-mão com aquilo a que estamos habituados. O mais extraordinário é o que envolve o Secretário de Estado da Energia do governo de Passos Coelho, Artur Trindade - acusado, e constituído arguido, por corrupção a troco de um emprego para o pai.
Não. Ele não se deixou corromper por uns milhares de euros todos os meses na conta. Por um apartamento em Nova Iorque. Ou por uma vaga numa universidade americana. Aceitou engrossar a fila dos que não queriam que nada faltasse à EDP por um simples emprego para o pai. Lá mesmo, na EDP.
Ora, isto não é só bonito, e comovente. É o mundo ao contrário, mesmo que sempre a girar no mesmo sentido. O que dávamos por conhecido, e amplamente comprovado e documentado, era políticos a arranjar empregos para os filhos. Isso é que estava no guião. Filhos, políticos, a ajudarem a arrumar um emprego para os pais, nunca tínhamos visto.
Por isso ... nem devia valer. Isso nem devia contar para a corrupção. Ou, se tiver que contar, então façam lá como nos bancos, e dividam a corrupção entre boa e má. E pronto, esta ficava na boa...
Pôde ler-se ontem no Diário de Notícias que, com a pandemia, e os exames à distância, um número crescente de estudantes universitários está a abordar centros de explicações para contratar professores que os substituam nesse acto de avaliação. Surgem com ofertas irrecusáveis com um simples propósito: que um professor lhe faça o exame.
A reportagem não arrisca números. Mas os diversos entrevistados que dão testemunho do modus operandi dizem invariavelmente que, se tomarem por amostra estatística representativa o que é do seu conhecimento pessoal, este é um fenómeno de grande escala. E quer dizer aquilo que todos nós há muito conhecemos da sociedade portuguesa: uma sociedade que convive bem com a fraude, a corrupção, e o chico-espertismo. Onde viver do expediente fácil é sempre mais compensador que viver do trabalho.
Num país onde os dirigentes políticos falsificam habilitações e currículos, fazem exames ao domingo, pagam a quem lhe escreva livros, que depois compram até esgotar edições, não é de estranhar que a elite de amanhã procure comprar resultados de exames, para que mais facilmente lhes sejam franqueadas as portas para o lado de lá da impunidade.
É este o grande vírus há muito instalado em Portugal e para o qual não parece haver antídoto, nem vacina, nem cura. Uma sociedade tão aberta à viciação só pode ser uma sociedade infectada, sem presente e sem futuro, e cada vez mais fechada ao desenvolvimento e à decência.
* A minha crónica de hoje na Cister FM
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