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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Perder a alma*

Pasárgada da Alma: Como não perder a alma?

 

Passou pelas redes sociais, especialmente durante a semana passada, uma moda de franco mau gosto, como a maioria das que por lá passam, deve dizer-se. Como sabemos tudo aí se replica facilmente, e as pessoas começaram a adaptar um certo texto, que se tornou viral, à sua realidade geográfica.

Só mudava a região de cada um, o resto mantinha-se: aqui não há shoppings, não há internet, e o cinema é a preto e branco. Aqui não há nada que interesse, isto é de todo desaconselhável, não venham para cá. Nem pensem nisso!

A pretexto de alguma piada, que logo desaparecia sem deixar rasto quando se percebia o perigo daquela ideia que tantas pessoas difundiam pela rede fora, muitas delas sem o perceber, pensando apenas estar a fazer graça fácil, transmitia-se um conceito de medo e de ignorância, de natureza xenófoba, com requintes de segregação e discriminação. Que sabemos sempre como começam mas nunca como acabam. 

Lembrei-me disto quando me deparei com uma notícia que ontem vimos nos jornais. Aconteceu em Espanha, em La Línea de la Concepcion, uma pequena cidade da Andaluzia, na província de Cadiz, onde uma caravana de ambulâncias com um grupo de 28 idosos, despejados de um lar por estarem infectados com o coronavírus, foi recebida à pedrada por um grupo de autóctones.

Chegados à residência onde o governo autonómico da Andaluzia os realojou, os idosos foram cercados por uma pequena multidão em fúria, gritando impropérios contra os pobres e fragilizados "maiores", como por lá lhes chamam. Durante a noite foram arremessados vários engenhos explosivos a partir de casas nas imediações, fechava a notícia.

Não há grande diferença entre este relato que chega de Espanha e aquilo que por cá circulou pelo facebook. É a solidariedade a desaparecer, perdida no meio de todas as perdas que estamos sentir. É a alma a esvair-se na crise sanitária, e a acrescentar-lhe crise moral. Provavelmente de bem mais difícil recuperação….

* Da minha crónica de hoje na Cister FM

Assim vai o mundo

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Um estudo da Universidade de Oxford revela que metade da população inglesa poderá estar infectada pelo novo coronavírus. Entretanto a Organização Mundial de Saúde está convencida que os Estados Unidos se estão a transformar próximo grande foco do vírus. Estados Unidos onde Trump, com mais medo das consequências para as eleições de Novembro que do vírus, está a pedir ajuda à Coreia do Sul. Vírus que chegou à Índia onde, pelas condições sanitárias e pela densidade populacional do país, tem tudo para atingir uma dimensão verdadeiramente apocalíptica. Coisa que não passa pela cabeça de Bolsonaro, que continua a falar de uma inventona dos media perante uma gripezinha, menos ainda, um simples "resfriazinho", e a dar ordens às autoridades estaduais brasileiras para acabarem imediatamente com todas as medidas de contingência decretadas.

Assim vai o mundo...

Mais que uma mentira

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Nas poucas coisas que teve para dizer, o Presidente Marcelo disse que ... mentir, não valia. Disse que "ninguém vai mentir a ninguém" como se isso fosse uma alínea do decreto do "estado de emergência" que acabara de assinar.

Da mesma forma que há portugueses a "furar" o "estado de emergência", e vão para a praia, para as marginais ou para os copos, há gente a mentir. Por todo o lado. E ontem o primeiro-ministro mentiu. Não sei se foi a primeira vez que furou esta alínea do "estado de emergência" de Marcelo, mas mentiu.

Ao garantir que até agora não faltou nada ao Serviço Nacional de Saúde para combater a pandemia, António Costa mentiu. E soube que mentia, viu-se-lhe nos olhos que sabia que estava a mentir. 

Não terá provavelmente ponderado toda a extensão da mentira. Terá intuído que a mentira teria menos danos que a verdade, mas o sentido de responsabilidade - de que tem até dado sobejas provas - obrigava-o a mais. Obrigava-o sobretudo a mais o respeito pelos milhares de profissionais que nos hospitais se debatem com carências de toda a ordem, que a todo o momento os obrigam fazer opções, muitas delas dramáticas. Que, por falta de equipamentos de protecção individual, arriscam todos os dias a sua própria saúde, e que, para não colocarem em risco a dos seus, se vêm forçados a um esgotante isolamento nas poucas horas de retemperamento de que podem dispor.

Sem dúvida, António Costa poderia e deveria ter por momentos virado as costas ao lado mais cínico da expressão política, e procurado outra saída para a pergunta que, de tão óbvia que era a resposta, nem precisava de ser feita. A que encontrou foi chocante. Não tanto por ser mentira, mas por projectar uma insensibilidade que porventura até não terá.

 

Pessimista, eu?

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Percebemos que o governo tinha de rapidamente anunciar qualquer coisa que pudesse ajudar-nos a pensar que o país não vai colapsar, e que vamos resistir a este primeiro embate com o monstro que anda à solta. Como começamos a perceber que anunciou uma mão cheia de nada, e que na realidade o governo apenas tratou de ganhar tempo, porque não havia tempo para perder.

Percebemos isto na sexta-feira à noite quando, estando anunciada uma conferência de imprensa para a hora dos telejornais para anunciar novas medidas - o que por si só já confirmava que as primeiras anunciadas, dois ou três dias antes, tinham apenas por destino satisfazer o tempo -, vimos que foi sucessivamente adiada (novamente o tempo) até, já noite dentro, ter acabado em ... nada a declarar. Nada a declarar, e nada a revelar que não o estado de exaustão da ministra Mariana da Silva, a quem nem a juventude valeu.

É claro que o governo está à espera da União Europeia, donde nada chegou até agora. Espera agora que alguma coisa possa vir da reunião do Eurogrupo, amanhã. Ironicamente presidido por Centeno. 

É este o drama da (falta) liderança europeia. Quando tinha que haver uma voz a fazer-se ouvir, vemo-los todos a olhar uns para os outros, sem ninguém a perceber que nesta altura, hoje precisamente, a União Europeia só tem um caminho: reforçar-se, reforçando de vez e irreversivelmente, todos os mecanismos da união. Não há outro caminho, fora desse simplesmente desaparece. 

Se a União não conseguir dar uma resposta colectiva a esta crise desaparece. E sem deixar saudades... Porque, se não serve para um momento como este, não serve para mais nada!

A primeira coisa que a Srª Lagarde fez foi dizer que isto não é problema do BCE. Depois emendou a mão, mas já o Banco Central Alemão tinha dito que sim senhor, assim é que é falar... E ficou dito. A Srª Van der Leyen veio dizer que suspendia as regras orçamentais, e que os países - nunca a União - poderiam gastar o que quisessem para enfrentar a crise sem quaisquer preocupações com o défice, como se não soubesse que os países não podem gastar dinheiro que não têm. E que não têm condições de pedir emprestado, como é o caso de Itália, de Portugal e até de Espanha. 

A Srª Merkel - vejam bem, já é a luz ao fundo do túnel -  veio dizer o óbvio, que a resposta, como o seu financiamento, têm de ser europeus. E abrir agora a porta às eurobonds. Que o seu Parlamento nunca autorizará.

Teme-se até que já não sejam a solução. Não há sequer tempo para preparar toda a legislação e de dar resposta a toda a carga burocrática que as ponha de pé. A solução estará apenas e só na injecção de liquidez do BCE: emprestando dinheiro directamente aos governos, através do Banco Europeu de Investimento (BEI), com protocolos de cobranças com as Autoridades Tributárias dos países, para não envolver os bancos (ainda em convalescença, é bom não esquecer) nisto; ou, eventualmente mais ajustado nesta altura, pondo as rotativas a trabalhar.

Provoca inflação? Sim, e ainda bem. Faz falta, como se tem visto. 

Os alemães nem querem ouvir falar nisso? Nem nisso, nem noutra coisa... É para isso que servem as lideranças.

Reparem que só falamos em três líderes. Em três senhoras. Das três só conhecemos uma, e não gostávamos muito dela. As outras duas não começaram nada bem... 

Pessimista, eu?

Oportunidades

 

Não é fácil ser optimista nesta altura, mas também não se ganha nada em recusar todas as máximas do optmismo. Entre elas está aquela que os gurus do empreendedorismo transformaram em princípio sagrado, que diz que cada ameaça esconde um sem número de oportunidades. Por cada um que chora há outro a ganhar dinheiro em lenços de papel, não é?

Nesta crise dramática que planetariamente vivemos há certamente muita gente a ganhar dinheiro em lenços de papel. E em papel higiénico, mesmo que se continue sem perceber por quê... Mas isso não são oportunidades para a humanidade, são, comme d´habitude,  só para alguns.

Quero crer que desta terrível ameaça também para a humanidade emergirão oportunidades. Coisas boas a reter para o futuro. 

Uma delas é que bastaram os primeiros dias desta crise para que toda a gente, por este mundo fora, pudesse finalmente ver as cabeças ocas de Trump e Bolsonaro, só cheais de merda. A forma como estes dois idiotas negaram o vírus, como o tentaram ridicularizar, como sempre fazem com as coisas mais sérias que ameaçam a humanidade, e como depois correram a meter o rabinho entre as pernas, em mais uma alarve demostração de ignorância, não passou despercebida a ninguém. Toda a gente viu. E hoje toda a gente percebe a sua monstruosa ignorância, quando vê Bolsonaro com uma máscara ao pescoço, ou Trump a querer comprar para si a descoberta da vacina, retratado no espectacular cartoon (mais um, e na foto) do António, hoje publicado no Expresso.

Hoje, toda a gente pode facilmente comparar tudo o que estes dois fizeram e disseram deste virús,  que já estava à frente dos olhos de toda a gente, com tudo o que têm vindo a fazer e a dizer do ambiente, tão só a maior emergência da humanidade. E concluir que não passam de dois idiotas, do mal que fazem as suas idiotices, e de quão perigoso é votar neste tipo de gente. Que, como sabemos, está longe de se esgotar nestes dois exemplares!

 

 

Decisões

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Hoje é dia de ficarmos a saber se, como é vontade do Presidente Marcelo, entramos em "estado de emergência", ou se, como é desejo do primeiro-ministro Costa, não vamos tão longe. Se se fecha já o país, ou se se vai fechando aos poucos. 

As opiniões dividem-se, como se vê logo por estes dois principais órgãos de soberania. Dividem-se entre os que apreciam mais uma sociedade comandada por um Estado mais musculado, e os que privilegiam uma sociedade comandada pelos valores dos direitos e liberdades individuais mas, acima de tudo, dividem-se entre os que, num momento destes, entendem que toda a prioridade tem que ser dada, em absoluto, ao combate à pandemia, e os que entendem que, dessa forma, se poderá estar a deitar fora o bebé com a água. Ou a matar com a cura.

Tudo depende agora da capacidade do Conselho de Estado para persuadir o Presidente a mudar de opinião, porque já se percebeu que nem o governo, mesmo que em discordância, nem a Assembleia da República, irão contrariar a decisão presidencial.

Entretanto começam a chegar boas notícias. E não me refiro às que anunciam a vacina que todos já conseguiram descobrir, até porque surpresa seria se quando alguém anunciasse resultados não viessem todos os outros dizer que também já lá chegaram. Refiro-me à abertura, pela primeira vez, da Alemanha, de Angela Merkel, às famosas eurobonds (obrigações europeias). É que se a União Europeia não conseguir responder a esta crise com emissão de dívida conjunta, muito provavelmente desaparecerá de vez.

E refiro-me ao pacote de 3 mil milhões de euros de financiamento à economia, e de mais um conjunto de importantes medidas fiscais, num total de 9,2 mil milhões de euros, que o governo, através dos ministros da economia e das finanças, acabou de anunciar. Não faço ideia se é suficiente. À luz dos 200 mil milhões de que o governo espanhol lançou mão parece até ridículo. Mas é uma resposta pronta, e isso é quase sempre o mais importante!

 

Sentido de oportunidade

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Chama-se Decreto-Lei nº 10-A/2020, nasceu no passado dia 13 de Março, emanou da Presidência do Conselho de Ministros e, segundo o próprio, estabelece medidas excepcionais e temporárias no quadro da actual crise social, económica e epidemiológica do país.

E, como há gente que nunca dorme, e que sabe que todas as oportunidades são para aproveitar, diz no seu artigo 4.º: "A decisão de contratar a aquisição de serviços cujo objeto seja a realização de estudos, pareceres, projetos e serviços de consultoria, bem como quaisquer trabalhos especializados, não carecem das autorizações administrativas previstas na lei, sendo da competência do membro do Governo responsável pela área setorial".

Felizmente também aqui pela blogosfera há gente como os Ladrões de Bicicletas que não anda a dormir e apanha-lhas todas. Ou quase todas...

O tamanho da onda gigante

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Ninguém consegue prever o tamanho da onda gigante que se está a formar, pronta a abater-se sobre a economia nacional (e europeia e mundial, evidentemente), a sua real capacidade devastadora e a dimensão da catástrofe que se avizinha.

Fala-se de outros exemplos, e de outros momentos da História de alguma forma similares, mas sabemos que não há precedentes e que estamos a mergulhar no desconhecido. Sabemos todos que nunca nada aconteceu em momento de tanta interdependência global. A economia é um jogo de expectativas, que depende muito do que acontece, mas mais ainda do que se espera que aconteça. E quando não se sabe o que vai acontecer, pode sempre esperar-se que aconteça o pior. 

O que está a acontecer nas bolsas fala-nos disso, e dá-nos uma ideia da dimensão da onda. Mas, ao vermos tudo a parar, e percebendo as receitas das empresas a desaparecerem sem que desapareçam  os custos, e que nesses estamos também todos nós, sentimo-la mais próxima e mais gigante ainda.

 

 

 

Mais valia ter continuado calado

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Ontem trazia aqui o silêncio do Presidente. Hoje Marcelo quebrou-o!

Mas mais valia ter continuado calado. Pela forma -  na inaceitável qualidade do som e da imagem da emissão, e na inaceitável qualificação de mensagem pessoal - e pelo conteúdo. Vazio e ridículo.

Vazio, porque não disse nada quando há tanto para dizer. E ridículo, com esta ideia de uma emergência nacional a prazo.  

Não, o presidente não está apenas de quarentena. Simplesmente não existe!

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