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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Futebolês #61 CORTE

Por Eduardo Louro              

 

Corte de cabelo. Corte e costura. O corte do fato, que não é a mesma coisa do corte na casaca. Se não somos grandes cabeleireiros, por muito que isso custe à imprensa cor-de-rosa, já no corte e costura é diferente: vão surgindo alguns estilistas que começam a dar nas vistas nesse dito exigente mundo da moda. Não é que eu perceba alguma coisa da matéria, mas é o que vou ouvindo! Mas bons, bons a sério, somo-lo nessa outra especialidade do corte na casaca. Raramente cortamos a direito mas, quando se trata de corte na casaca, cortamos a torto e a direito…. Sem dó nem piedade!

O corte que hoje temos pela frente é no entanto outro. É o do futebolês, também conhecido por intercepção. Que, embora parecido, não é a mesma coisa de desarme que, por sua vez, nada tem a ver com despojar de arma. Desarmar o adversário não é retirar-lhe a arma: apenas retirar-lhe a bola que, ao contrário da cantiga, nunca conseguiu ser uma arma. Esteve quase: numa famosa final da Taça de Portugal, em 1969, entre o Benfica e a Académica!

Pode retirar-se a bola ao adversário através do desarme – quando um opositor a leva bem coladinha ao pé, quando a transporta, sabe-se lá com que intenções – ou quando se interrompe a sua trajectória de uma viagem com ponto de partida num qualquer jogador do adversário. Apesar de o resultado ser o mesmo, o desarme, também conhecido por roubo de bola, nunca será um corte!

Há jogadores especializados nestas tarefas tidas como destruidoras. Já aqui falamos deles e do peso com que têm que arcar toda a vida – até houve quem lhes chamasse carregadores de piano, numa metáfora que contrapõe estas tarefas menos nobres à arte superior do pianista – sempre na sombra das luzes da ribalta projectadas sobre os artistas, aqueles a quem os deuses (e os treinadores…) destinam o brilho próprio das verdadeiras estrelas.

Mas há outros que conseguem dar a volta às ingratas funções que lhes são destinadas. Há os que investidos de funções destruidoras logo encontram artes (e quantas vezes manhas) de fugir ao destino da penumbra. Destroem, sim senhor! Mas tanto são autênticas armas de destruição massiva como logo a seguir se viram para o piano e executam, logo ali, o mais belo improviso ("o futebol, se fosse música, seria jazz"- já o diz Luís de Freitas Lobo, citando não sei quem) capaz de deslumbrar o mais adormecido dos nossos sentimentos!

Lembramo-nos de alguns destes seres raros. Lembramo-nos, os mais velhos, de Beckenbauer! E lembramo-nos, quando pensamos nesta metamorfose súbita do destruidor no mais fantástico construtor, de David Luiz. Sim, desse que está para ir embora! Ou pensavam que, se não fosse para falar disso, me tinha dado a todo este trabalho?

Perdeu uns anos com a estapafúrdia ideia de fazer de um central de elite um vulgar lateral esquerdo. Foi Quique Flores quem usou e abusou desse crime/pecado! Mas também Jorge Jesus, com quem se apresentaria ao mundo, teve algumas tentações. Sempre mal sucedidas porque, agora, o menino tinha já decidido não dar mais para aquele peditório.

Atingiu o Olimpo com a estreia na maior montra do futebol mundial. Que, ao contrário do que muito boa gente possa pensar, não é a Champions mas a selecção do Brasil! E o seu destino ficou traçado para bem longe da Luz…

Recusaram-se as ofertas do defeso passado: era a cláusula de rescisão! A aposta era evidente, mas o equívoco também: uma boa campanha na Champions ajudaria a que as ofertas se aproximassem da dita!

A campanha europeia foi uma lástima, o arranque interno ainda pior, e a única coisa que aumentou foi a diferença para a dita cláusula de rescisão. Também aqui vale a lógica do momento: vão-se os anéis e fiquemos com os dedos!

Despediu-se anteontem de nós, no jogo dos quartos de final da taça de Portugal com o Rio Ave. Uma despedida a deixar-nos já cheios de saudades, com deliciosos solos de piano. Quis transformar um dos muitos penalties num encore, para se despedir com um golo: falhou, como mais outros dois haviam falhado. Mas aquele penalti da glória falhado assim, daquela maneira, com o corpo todo inclinado para trás enquanto a bola seguia para as nuvens, deixa-nos a imagem de um David Luiz há muito no Chelsea. Ou num Manchester, ou no Milan ou no Real Madrid…

 

 

PS: Já depois da publicação deste post foi noticiado que as negociações com o Chelsea falharam. Nada muda. Se falharam essas outras serão retomadas. E concluídas até ao fim da próxima segunda-feira. Com quem quer que seja, mesmo com o mesmíssimo Chelsea!

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