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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Desiquilíbrios

Por Eduardo Louro

   

Na passada sexta-feira o Diário de Notícias anunciava que as empresas cotadas que integram o PSI 20 da bolsa nacional aumentaram os seus lucros nos primeiros nove meses deste ano em 40%, atingindo os 3.477 milhões de euros.

Haverá quem veja aqui uma boa notícia: afinal, num ano de crise como este ainda há empresas que conseguem excelentes desempenhos. Aumentar em 40% os lucros em tempos como os que vão correndo é obra! Serão certamente empresas muito bem geridas e com planos estratégicos de excelência. Serão as mesmas que contribuíram para uma outra boa notícia desta sexta-feira: as exportações aumentaram 15% e permitiram que a nossa economia tenha crescido 0,4% no terceiro trimestre, fugindo assim ao início da recessão anunciada. As mesmas que alimentam a esperança do ministro das finanças no milagre de cumprir os objectivos de crescimento do Orçamento de Estado!

Tenho que lhes dar uma má notícia: é que não é nada disso!

Das empresas que constituem o PSI 20 – o cabaz que constitui o índice bolsista nacional (PSI – Portuguese Stock Índex) – muito poucas são industriais e exportadoras. As que o são não apresentam lucros, mas prejuízos.

Pois é. Estes lucros fabulosos não têm nada que ver com a produção de bens e serviços transaccionáveis, esse jargão do economês que classifica a produção económica que faz a verdadeira riqueza das nações. Estes lucros que crescem desta maneira são realizados no sector bancário – BPI, BCP e BES –, na distribuição – Jerónimo Martins e Sonae –, nas telecomunicações – PT, Sonae e ZON, no sector energético – EDP, EDP Renováveis, REN e Galp – e, como não podia deixar de ser, dois dos melhores exemplares das PPP (Parcerias Público Privadas) – Brisa e Mota Engil.

Nestes sectores altamente protegidos, e que em boa verdade sugam o resto da economia, concentram-se 14 das 20. 70% do PSI 20!

Apenas as restantes 6, das quais quatro operam na fileira do papel, são empresas industriais e exportadoras: Cimpor, Altri, INAPA, Portucel, Semapa e Soane Indústria. Mas, como é público, parte destas está no vermelho!

Como está bom de ver estes lucros fabulosos, que continuam a crescer independentemente do que se passe na economia e na sociedade, são construídos à custa da economia. São transferências dos sectores produtivos, dos que criam efectivamente riqueza, para outros que vivem de rendas em vez de viver de negócios. São autênticos regimes de rendas que o Estado colocou nas mãos de uns poucos à custa da imensa maioria dos outros, limando-lhes todos os factores de risco: autênticos monopólios de serviços de primeira necessidade, garantias de preços e até indemnizações!

Os bancos são ainda um caso à parte. Ao Estado vão buscar o favorecimento fiscal que lhes tributa lucros de elefante com impostos de pulga. Ao comportamento cartelizado vão buscar o resto, usando e abusando dos clientes sem qualquer alternativa em mais um serviço de primeira necessidade. Repare-se: o cliente não tem condições para lhes comprar o que eles querem vender e obrigam-no a pagar as chamadas despesas de manutenção; fazem um pagamento com o nosso dinheiro, com o dinheiro que temos na conta, na mesma conta cuja manutenção pagamos para fazerem do nosso dinheiro tudo o que entendam, e fazem-nos pagar por isso: é a comissão de processamento; emitem um documento para nos debitar todas essas coisas e, naturalmente, fazem-nos pagar essas despesas: o papel, a tinta, o ordenado do funcionário, a amortização do computador, etc., etc.

Quer dizer, ganham o que querem na venda do seu produto – o dinheiro, que vão buscar ao BCE a 1% e a grande parte dos depositantes a 0% – e ganham ainda em tudo aquilo que, para qualquer outra empresa, são os seus custos operacionais (logísticos, administrativos, etc.)!

Pois aqui está um dos mais flagrantes desequilíbrios do sistema. Os bloqueamentos que vão marcando estes tempos e estas crises, feitas também destas coisas. A economia não tem só que sustentar um Estado monstro e uma classe política clientelar e incompetente. Tem ainda que sustentar todas estas empresas de sucesso

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