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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Futebolês #73 DUAS PARTES DISTINTAS

Eduardo Louro

                  

Ora aqui está uma das mais clássicas expressões do futebolês: duas partes distintas! Se tivesse que caracterizar esta expressão não teria dúvida nenhuma em pôr-lhe um bigode, uma camisa aberta com os pelos do peito ao léu, um cigarro na mão e um palito no canto da boca. Nem mais: uma das expressões mais populares do futebolês! E uma das mais abrangentes, particularmente do gosto de alguns treinadores.

O jogo tem duas partes, de 45 minutos cada uma, unidas por um intervalo que era de 10 minutos que, por culpa das televisões, já vai no quarto de hora. São portanto tão distintas como qualquer coisa que se distingue de qualquer outra coisa. E tão indistintas quanto acontecerem no mesmo local, nas mesmas condições e terem a mesma duração.

Observadas com mais atenção conseguimos encontrar-lhe algumas diferenças imperceptíveis a olho nu. Por exemplo: a segunda parte é normalmente um bocadinho maior, por culpa de uma coisa chamada período de compensação. O internacional extra-time que os árbitros decidem para compensar algum do tempo perdido – sempre demasiado e exagerado para quem está a ganhar e sempre de menos para quem precisaria de estar a ganhar – e que, por força das substituições, é normalmente maior na segunda parte. E também se consegue perceber que, na segunda parte, as equipas estão a jogar para o lado contrário. Mas, por mais que procuremos, não conseguimos encontrar-lhe mais diferenças. Mais nada as distingue!

Não são, na realidade, as duas partes que são distintas. O jogo é que é distinto: a atitude das equipas, as circunstâncias de jogo, a matriz táctica, a velocidade - e mais um sem número de variáveis que fazem de um jogo tão simples como o futebol um espectáculo apaixonante – é que podem fazer alterar por completo a rota traçada para o jogo. Umas vezes por estratégia assumida por um dos treinadores. Ou até por ambos! Outras por imponderáveis próprios do jogo e outras ainda por imponderáveis da simples condição humana.

Na noite da passada quarta-feira tivemos oportunidade de assistir a dois jogos com duas partes distintas. São de resto esses dois jogos, e as circunstâncias de terem decorrido à mesma hora e de ambos, tão flagrantemente, ilustrarem as duas partes distintas, que me empurraram hoje para o assunto.

A final da Taça do Rei de Espanha reeditou o duelo entre o melhor futebol do mundo (de todos os tempos, na minha opinião) – o Barcelona – e o melhor treinador do mundo à frente de um conjunto de jogadores do melhor que há - o Real Madrid. O segundo – depois do empate do passado sábado, em Madrid – de uma série de quatro que em pouco mais de duas semanas. Com uma primeira parte onde Mourinho bloqueou o Barcelona, impedindo-o não só de apresentar o seu fabuloso tic-tac como, pasme-se, de efectuar um único remate. E onde apenas o Real foi capaz de criar ocasiões de golo. A segunda foi completamente distinta: o Real Madrid já não conseguiu impedir o jogo do Barcelona, e o melhor futebol do mundo impôs-se à táctica do melhor treinador do mundo, esmagando o Real naquilo que era já outro jogo. As ocasiões de golo sucederam-se ao mesmo ritmo que se sucediam as grandes defesas de Casillas. Por isso não houve golos mas prolongamento, e mais uma parte distinta que permitiu o golo de Cristiano Ronaldo e o primeiro título de Mourinho em Madrid.

Também o Benfica-Porto teve duas partes distintas. Na primeira viu-se um Benfica atípico, mesmo contra-natura, a segurar a bola num jogo sem ritmo, a atingir 61% de posse de bola. Uma completa anormalidade perante um Porto com cultura de posse de bola, que assenta toda a sua estratégia de jogo num triângulo feito de posse, desmarcação e passe. E um Porto surpreendentemente resignado!

A segunda parte, como se sabe, foi completamente distinta! Ao ponto de inverter por completo a estatística, que fixaria, no final do jogo, a posse de bola em 50% para cada lado. É certo que o Benfica teve a infelicidade de encarar o jogo – e o que falta da época – sem os seus dois alas. Que sustentam toda a estratégia de jogo da equipa, que agitam o agitado jogo da equipa e que desequilibram os adversários. É certo que a arbitragem acertou sempre nos foras de jogo do Benfica e, na única vez em que foi chamada a acertar num único do Porto, errou. E influenciou directamente o resultado. É certo que o árbitro teve mão leve a puxar pelo primeiro cartão amarelo e nunca teve mão para o segundo que se justificou, e em mais que uma ocasião, para dois jogadores portistas. Tudo isto é já normal como, ainda no domingo, no jogo com Sporting no Dragão, se pôde ver. Mas é também verdade que foi já sem grande surpresa que o Porto fez o primeiro golo. E é certo que a equipa tinha de saber que, marcando primeiro, o Porto cresceria emocionalmente e ameaçaria tornar-se imparável. È certo que a equipa teria de estar preparada para reagir essa eventualidade. Mas não estava e em apenas dez minutos conseguiu a proeza de sofrer mais dois golos que a afastaram de uma final que todos davam por certa. E de, uma vez mais – mas agora em plena semana santa – atirar Jesus para a cruz!

Duas partes distintas! Mas haverá alguma coisa mais distinta que estas duas épocas do Benfica de Jesus?

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