Aí está o "Portela+1", agora anunciado como "novo aeroporto". Este será provavelmente o primeiro de, pelo menos, quatro embustes espalhados pelo anúncio do acordo assinado entre o Estado e a ANA, presidida pelo conhecido José Luís Arnaut, bem sorridente na foto.
O segundo é, obviamente, o estudo de impacto ambiental que, na boa tradição portuguesa, está para os negócios como na gíria popular o carro está para os bois. O embuste da mera formalidade de colocar um carimbo no carro que vai à frente dos bois.
O terceiro é o da decisão: "custos de não decisão" ou "decisão com 50 anos de atraso", é o embuste de "o que tem que ser tem muita força". Que nem se pode esperar mais, nem já há alternativa. Não, a verdade é que esta é a única alternativa aceite pelos franceses da Vinci, a quem Passos Coelho, entregando a ANA, entregou sem restrições o monopólio dos aeroportos em Portugal.
O quarto é o de que não nos custa nada. Que os 520 milhões de investimento no Montijo, mais os 650 milhões na Portela e mais os 160 milhões de compensação à Força Aérea, são exclusivamente financiados pela ANA. Custa, e até já custou, nas taxas aeroportuárias cobradas por um monopólio sem regulador.
É bem possível que haja um quinto: o embuste eleitoral. Mas antes fosse só esse...
O país vive um embuste sem paralelo na sua História. A mentira e a falta de vergonha instalaram-se há muito em Portugal e não tencionam deixar-nos.
É um presidente que está calado quando deve falar e que, quando fala, diz despudoradamente tudo e o seu contrário. É um primeiro-ministro que sabe que não há como fugir de novo resgate mas que o usa como ameaça a torto e a direito. Fosse na campanha eleitoral autárquica, como forma de chantagear e amedrontar o eleitorado, seja logo depois para pressionar o Tribunal Constitucional e todo o país. É um vice primeiro-ministro sem ponta de vergonha e de sentido de responsabilidade, de quem se espera o célebre Relatório sobre a reforma do Estado desde Fevereiro. Que traça linhas vermelhas que apaga tão rapidamente quanto torna reversível o que era irreversível. Tão rapidamente quanto é desmentido tudo o que anuncia, tão rapidamente quanto se tornam pesadelos as boas notícias que faz questão de dar.
É o desplante com que se criam e introduzem factos novos como se de realidades dogmáticas se tratasse. Como se fossem coisas há muito absorvidas e consensualizadas na sociedade portuguesa, quando não passam ou de verdades criminosamente escondidas ou de mentiras não menos criminosamente arquitectadas.
Neste fim-de-semana, antes de anunciados os negados novos cortes em pensões, o país ficou a saber que estará sujeito ao controlo e à supervisão dos credores enquanto não forem pagos 2/3 da dívida. Mas isto foi dito en passant, uma, duas, três vezes, como qualquer coisa que estaríamos fartos de saber. Pior: como qualquer coisa normal, como se pagar 2/3 da dívida seja uma coisa que esteja nas nossas mãos ali ao virar da esquina, qualquer coisa objectivável para os próximos cinco ou dez anos.
Para justificar a tributação das pensões de sobrevivência, ouvimos o ministro Pedro Mota Soares, com o maior dos desplantes, perguntar aos jornalistas que o rodeavam se achavam normal que quem tem uma pensão de 5 mil euros acumule com outra idêntica do falecido cônjuge…
É preciso ter lata. Lata para o embuste e a aldrabice, mas mais: lata para não terem vergonha de brincar connosco desta maneira.
O primeiro-ministro norueguês, o trabalhista Jens Stoltenberg, de novo candidato nas eleições de 9 de Setembro, foi notícia por se ter disfarçado de taxista, supostamente com a intenção de recolher as reacções dos passageiros à política e ao desempenho do seu governo.
O vídeo gravado na circunstância foi divulgado e suscitou as melhores reacções. Na Noruega mas também pelo mundo fora, sempre disponível para aplaudir a cultura cívica nórdica, a transparência e a ética que fazem da política na Europa do Norte, e em especial na Escandinávia, o modelo de salvação dos sistemas democráticos que agonizam no resto da Europa, e mesmo do mundo.
Soube-se pouco de pois que os passageiros eram figurantes, que foram seleccionados e pagos para executar o papel. Que foi um embuste e que, afinal, também por lá, a ética e a transparência já conheceram melhores dias. Que, por lá, ética e transparência, não fogem muito do que por cá se diz de riqueza e santidade: é sempre menos de metade!
O que não quer dizer que não haja, mesmo assim, muito a aprender com eles… Não será é em matéria de táxis!
Acompanhe-nos
Pesquisar
Subscrever por e-mail
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.