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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

O que mudou nestes quatro anos (I)

Por Eduardo Louro

 

Começaram por mandar os jovens emigrar, praticamente uma ordem de expulsão embrulhada numa embalagem com um rótulo paternalista que lhes ordenava que saíssem da sua zona de conforto e procurassem trabalho lá fora.

Começaram por dizer aos jovens que, viver num país que era o seu, era um luxo, e que a vida e o país não estava para luxos. Viver no seu país, na sua terra, com a sua família era um luxo a que se não podiam dar. Era viver acima das suas possibilidades!

Não restaram alternativas, e os jovens, a geração mais formada que o país alguma vez conhecera, começaram a sair. Às dezenas de milhar, ano após ano, sem que os que os mandavam embora percebessem, por mais que fossem os avisos, que estavam a mandar fora dinheiro, muito dinheiro que o país gastara na sua formação. Que estavam a gerar fortes desequilíbrios demográficos, e a pôr em causa a própria segurança social. Sem que percebessem que, assim, não eram só os jovens que não tinham futuro. Era também o país!

Foi por aqui que se iniciou o processo de destruição do país iniciado há quatro anos, numa política de terra queimada que queria fazer crer que, depois, sobre as cinzas, haveria de nascer um país novo, pujante, viçoso... Destruíram-se centenas de milhar de postos de trabalho, mandaram-se para a falência milhares de empresas e para o estrangeiro centenas de milhares de jovens. Venderam-se ao desbarato as melhores empresas nacionais, estratégicas e monopolistas, e empobreceu-se o país e os portugueses, que passaram a ganhar menos e a pagar mais. Mais impostos e mais pelas funções sociais do Estado, cada vez mais degradadas…

Propositadamente, confundiram-se reformas com cortes. Cortou-se indiscriminadamente em todas as funções do Estado, até as deixar inoperacionais. Por incompetência, na maior parte das vezes, mas também para as esvaziar e mais facilmente transferir para o domínio privado.

O que se passa na Saúde – e note-se que se fala do que dizem ser o mais competente dos ministros – é sintomático. Doentes morrem em macas dos bombeiros, á espera de atendimento nos corredores dos hospitais, sem camas. Nem médicos, numa roda-viva sem saber onde acudir, expostos à ira – e quantas vezes às agressões – de doentes e familiares, abandonados e mal pagos mas, acima de tudo desrespeitados por quem, criando o caos, se presta depois à calúnia, à demagogia e à mentira manipuladora.

E por isso médicos e enfermeiros de todas as idades juntam-se aos jovens e saem também do país. Já não são apenas jovens, e já não são apenas jovens enfermeiros acabados de formar. São médicos especializados, alguns deles já entre os 55 e os 65 anos. São famílias completas – pais e filhos – que, mais que sair, desistem do país. Trocam-no por outros, onde vão encontrar as condições de trabalho e de vida que cá lhe negam e a dignidade que por cá lhe roubaram. Vão ganhar cinco vezes mais, em França, no Reino Unido, na Bélgica ou na Alemanha. Sim, na União Europeia, onde evidentemente há países com visão estratégica, desejosos por receber quadros que lhes poupem 10,15, 20 ou mais anos em formação. Por cá nenhum valor é atribuído a todos esses anos de formação. Nem a esses nem a outros, porque o abandono de médicos especializados irá ainda fazer-se sentir na capacidade de formar os mais novos. Que por cá ainda ficarem…

Engana-se quem ache que nada mudou ao longo destes quatro anos. Mudou, mudou muita coisa. Tantas que ainda não demos por muitas delas…

 

De volta ao sub-prime

Por Eduardo Louro

 

Se bem me lembro (saravá grande Vitorino Nemésio!) tudo isto começou com a crise do sub-prime, nos Estados Unidos. Que foi uma coisa que teve a ver com a bolha imobiliária, que levou o mercado a vender casas a quem não as podia comprar, e os mercados financeiros a esfregar as mãos com a oportunidade de enganar muita gente durante muito tempo, através de produtos financeiros cada vez mais complexos que tinham simplesmente na origem esse crédito concedido a quem nunca o poderia pagar. Depois, sabe-se como foi: começou tudo a cair que nem um baralho de cartas, faliu o Lehman Brothers e a coisa espalhou-se pelo mundo mais rapidamente que o ébola…  

Vieram as crises das dívidas soberanas, a crise do euro e, para cá, a troika e o Passos. Mas por que é que estarei a ir agora desenterrar isto, perguntará o leitor. Não o vou deixar mais tempo na expectativa…

É porque, por cá, não houve nenhuma crise de sub-prime, nem exactamente bolha imobiliária, apesar de lá ter andado perto. E no entanto, percebemos agora, a banca não deixou de, passados estes anos todos, ficar também encharcada em produtos tóxicos. Só que em vez de terem origem em crédito a maltrapilhas têm-na em crédito aos mais ricos de todos. Em vez de resultarem de imparidades de quem não pode pagar, resultam de imparidades de quem não quer pagar!

Por isso faliu agora o nosso Lehman Brothers, arrastando consigo dezenas de milhares de milhões de euros roubados à economia, muitas empresas e até, sabe-se lá, outros bancos. Mas, como se tudo isto não fosse já suficientemente grave, ainda vai sobrar agora o nosso sub-prime.

Não porque tenhamos tido de regresso qualquer bolha imobiliária – coitada da indústria, que já leva longos anos de agonia. Nem porque a banca tenha desatado a abrir os cordões à bolsa para crédito imobiliário, longe vão esses anos. Apenas e só em resultado da revolução fundamentalista que Passos Coelho determinadamente levou a cabo no país, uma espécie de lavagem de alma, de purificação dos portugueses mergulhados no pecado capital de viverem acima das suas possibilidades, que ficará conhecido como o maior processo de empobrecimento alguma vez imposto a um povo.

A vasta carteira de crédito à habitação da banca portuguesa é hoje um imenso sub-prime. O mercado imobiliário caiu mais de 50% e as casas objecto de crédito valem hoje, em muitas das vezes, menos de metade do valor em crédito. E os devedores, que á data da contratação do crédito tinham rendimentos que garantiam a sua sustentabilidade, estão hoje desempregados ou com cortes de 30 ou 40% no rendimento.

Quer dizer, depois destes anos todos, voltamos ao início de tudo! 

Com é que isto se chama?

Por Eduardo Louro

 

Primeiro manda-se as pessoas embora, diz-se aos mais jovens e qualificados que emigrem. Depois despedem-se os que cá ficam. Aos que não são despedidos baixam-se-lhes os rendimentos, sejam salários ou pensões.

Depois de mandados emigrar, de cortados os salários, de despedidos e contratados por metade do salário, cortam-se as bolsas de investigação. E diz-se que isso da investigação é só para empresas…

Empobrece-se a população e despovoa-se o país para depois, com os vistos gold, o repovoar de gente rica, mesmo que má. Mais de quinhentos milhões de gente rica, já para este ano, diz Portas. Mesmo que má!

Acaba-se com a investigação nacional, com trapalhadas atrás de trapalhadas, mas depois surge a estratégia Lomba de aliciamento  de cérebros internacionais,  através de bons vencimentos e de isenções fiscais.

E ainda há por aí outro maduro que acha que compõe o ramalhete com uma Justiça para estrangeiros...

Isto tem um nome, não tem? Ajudem-me lá: como é que isto se chama?

 

COISAS INTRAGÁVEIS XIII

Por Eduardo Louro 

O Eurostat revelou hoje que o poder de compra em Portugal caiu quase 3% em relação à média europeia. O país ocupa, como já ocupava desde 2010, o décimo quinto lugar entre os 17 da união monetária – atrás apenas a Estónia e a Eslováquia – mas cada vez mais longe dos outros. O 19º lugar entre os 27 da EU e o 21º entre os 37 da Europa onde o indicador é aplicado!

O poder de compra cai quase o dobro da queda do PIB. Quer dizer, não ficamos apenas cada vez mais pobres pelo que, ano após ano, produzimos a menos. Produzimos menos, e mesmo esse menos vale-nos ainda menos!

 

 

PORQUE ISTO, AFINAL, ANDA TUDO LIGADO

Por Eduardo Louro

 

Porque isto anda tudo ligado, quando os pobres e a miséria não páram de aumentar e a caridadezinha volta a ser moda, não resisti a trazer aqui este texto do Luís Manuel Cunha publicado no Jornal de Barcelos e no Aventar:

 

"Em Santa Comba Dão pretendia-se lançar uma marca de vinhos chamada Memórias de Salazar. O nome não foi autorizado sem que se perceba muito bem porquê. O facto é que, a marca do tintol nunca veio tão a propósito, arrastando consigo uma infinidade de recordações e de reminiscências de tempos que se julgavam para sempre desaparecidos.
Lembro-me ainda muito bem. No mundo da minha infância e por esta altura em que “a estrela de Belém corre pelos céus à procura da manjedoura e das palhinhas”, “não havia conto de Natal, não havia lenda infantil, não havia fábula natalícia que não trouxesse consigo, sempre disponíveis, os pobrezinhos”. A tradução narrativa de um mundo a preto e branco mas bem real, um mundo frio e famélico, tristemente alumiado pela luz da candeia que, no meio do casebre, projectava uma palidez esfomeada de um tempo disperso, “algures entre o apito da fábrica e o chiar da charrua”. Era a “casa portuguesa” salazarenta, documentada nos livros da escola primária e plasmada na imagem de capa do lavrador caseiro desgraçadamente feliz, de sachola ao ombro, regressando a casa, escancarada pela mulher desgrenhadamente feia, rodeada de filhos ranhosos e sujos pendurados nas saias. Depois, a broaembrulhada num caldo de couves e o terço murmurado maquinalmente sob o olhar protector de uma imagem da virgem de Fátima, como agradecimento ao Senhor por tamanha dádiva. Ao Senhor e a Salazar. Era o tempo do “pão e vinho sobre a mesa” e da disponibilidade de abrir a porta a quem a ela batesse, para se “sentar à mesa com a gente”. Só que, à porta dos pobrezinhos, ninguém batia.
Era um mundo de diminutivos e de diminuídos” do catecismo do Estado Novo e da Igreja Católica que, na ficção piedosa da padralhada debochada e rubicunda, entendia que o sofrimento e a miséria eram condições sine qua non se lhes abriria, aos pobres, o reino dos céus. Por esta altura, a beatada em peso, o professor e o padre derretiam-se em homilias da necessidade de ajuda ao pobrezinho. Que vivia “tristemente sentado nos degraus da igreja” ou “pacatamente esfomeado às portas das casas”. Era uma obra de caridade ajudar os pobrezinhos, dizia-se. “Minha senhora, está ali um pobrezinho a pedir esmola”. “Maria, dá qualquer coisa ao pobrezinho”. E a Maria dava. E o pobrezinho lá ia, reverente e agradecido. “Que Deus Nosso Senhor o ajude. Seja pelas alminhas de quem lá tem”. Havia um ou outro pobrezinho com mais sorte, abrindo-se-lhe as portas onanistas dos seminários, por influência de alguma tia velha junto do senhor prior, que era o representante de Deus na terra. Outros acabavam a criados de servir, agradecendo reverentemente os restos que sobravam das mesas dos seus senhores e que, não raramente, repartiam com os cães. Muitos deles, analfabetos e embrutecidos pelo álcool, viviam no terror de incomodar a autoridade ou a caridade que lhes matava a fome. Era o esplendor do salazarismo, antes que a emigração da década de 60 espalhasse o analfabetismo escravo dos portugueses pelos bidonvilles da periferia das principais cidades francesas.
Alguns dos meus leitores mais jovens espantar-se-ão com este retrato de um país que lhes parecerá surrealista. Infelizmente, é bem real. E trazê-lo hoje aqui é recordar que a história, dizem, se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. E o que o Gaspar e o Passos nos dão hojenão passa de uma farsa. Uma farsa salazarista com a conivência de um presidente da República absolutamente inócuo e senil. Quando hoje se lê que mais de doze mil crianças vão para a escola com fome, não é mais que o retrato actual da miséria salazarista. Quando se sabe que há pessoas que vasculham caixotes de lixo à procura de restos de comida com que possam matar a fome, não é outra coisa senão o regresso dos pobrezinhos da minha infância. Que agora, envergonhados, interiorizam essa miséria e alimentam-se dela.

Escrevia Clara Ferreira Alves que “numa sociedade com graves desigualdades e herdeira de uma sociedade salazarista e colonial, de senhores e servos, de relações de potestade assentes sobre a escravidão e a ignorância, a subserviência interiorizou-se e ficou um traço de carácter”.
Pois é… Esta sociedade de eunucos tem feito da subserviência um traço do seu carácter. E, como cantava Zeca Afonso, os eunucos “não matam os tiranos, pedem mais”. Até um dia…"

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