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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Futebolês #79 CONTRATAÇÕES

Eduardo Louro

Hoje o futebolês vai partir à procura das contratações: a palavra mágica que tudo agita - mercados, media e adeptos. É uma bandeira que, bem agitada, faz verdadeiros milagres: vende jornais que não se vendiam, promove cambalhotas em disputas de poder e transforma derrotas em vitórias.

A sua força é tal que o futebolês decidiu apropriar-se dela em regime de exclusividade. Não ouvimos praticamente falar de contratações fora do futebolês. No mundo dos negócios – dos outros negócios – fazem-se contratos e contratualiza-se, não se fazem contratações. Até os sinónimos são completamente diferentes. Repare-se: no futebolês, o sinónimo de contratações é transferências. Lá fora é recrutamento que nada tem a ver com transferências!

Mas há mais demonstrações claras da importância das contratações: só se podem efectuar em duas alturas do ano: no defeso de Verão e em Janeiro. Em férias: nas grandes e nas de Natal! E não se fazem sem um empresário, essa entidade misteriosa que se enche de dinheiro e que vai e vem como as ondas do mar. Como no surf - já que a conversa foi à água - uns aguentam-se mais tempo que outros na crista da onda e nunca mais do que um em simultâneo. Aí a onda já se parece mais com um poleiro: só lá cabe um galo de cada vez. Foi o Manuel Barbosa, o José Veiga … Agora é o Jorge Mendes, vamos lá ver até quando…

Mas quem está sempre na crista da onda das contratações é o Benfica. Os jornais não querem outra coisa: todos os dias vêm charters de jogadores para o Benfica. Porque vende, é certo! Mas também porque há por lá gente que alimenta essas coisas!

É por isso que o Benfica é sempre o glosado (bem dito seria mesmo “gozado”) campeão da pré-época. E ultimamente gozado mesmo, quando, no fim de contas, as anunciadas contratações acabam por ir direitinhas lá mais para norte. E, como um mal nunca vem só, acabamos depois por, mais que vê-los brilhar por lá, vê-los cintilar transformados em raras estrelas cintilantes.

Este ano, porém e apesar de a procissão ainda estar no adro – estamos ainda a mais de três meses do fecho do mercado e já lá estão 40 jogadores – o Benfica apostou no lado da venda para realizar a sua quota de disparates. Falo, evidentemente, do caso Coentrão: um flagrante case study (pela negativa) de gestão desportiva. Servirá para ensinar nas escolas de gestão a melhor maneira de estragar um bom negócio: desvalorizar estupidamente o produto que quer vender!

Como se isso não fosse suficientemente grave e danoso, decidiram matar dois coelhos com uma única cajadada: matar o produto e o mercado!

Evidentemente que o Fábio Coentrão não tem culpa nenhuma disto. É apenas mais uma das muitas vítimas da incompetência da gestão do Benfica. E Mourinho e Cristiano Ronaldo apenas ajudaram: limitaram-se a valorizar o produto que o Benfica tinha para vender, e não têm culpa nenhuma que ninguém tenha sabido aproveitar isso. A uma gestão competente competia, à medida que a época se aproximava do fim -  sendo evidente o seu interesse na venda, e óbvias quer a pressão que os eventuais compradores iriam exercer quer a vulnerabilidade do Fábio Coentrão (evidente no episódio do apoio a Sócrates na recente campanha eleitoral), um acompanhamento cuidado e profissional do jogador, e não, como sucedeu, abandoná-lo, entregue a si próprio. Falhada essa oportunidade preventiva, o jogador lançou alertas e deu todos os sinais do que se estaria a passar. Dir-se-ia que pediu ajuda! Mas em vez de ir a correr blindar o jogador preferiram a negligência de nada fazer para evitar o pior. Aconteceu então o que era de esperar: a fatal entrevista a um jornal desportivo espanhol.

No fim de tanta asneira, o mínimo que se exigia agora era chamar o jogador e o empresário – Jorge Mendes, já cá faltava esta figura – e, a três, montar uma estratégia para remediar todo o mal que estava feito. Mas não. Ainda não estava esgotado o rol de incompetências: era preciso passar da gestão incompetente à danosa! É aí que cabe o inquérito disciplinar ao jogador. E atiram-lhe para cima com toda a lama que tinham à mão e destroem o que mais deveriam proteger: a ligação afectiva dos jogadores ao clube e a preservação, intacta, dos seus ídolos, a extensão natural do clube. Para que não subsista uma única hipótese de recuperar o jogador, de longe o melhor da equipa. E para que não subsista outra hipótese que não seja vender, agora, ao preço que o Real Madrid quiser pagar.

Um autêntico mimo de gestão. Como o do caso Nuno Gomes! Como foi possível?

A resposta é simples: pela mesma incompetência de gestão, que não faz ideia do que sejam as variáveis intangíveis que determinam o sucesso de um clube. Ouviram falar em mística, mas não fazem ideia do que seja, pensam que se resume ao nome da bonita revista que lá se edita. Aqui o problema não é saber que o responsável é o Jorge Jesus. O problema é mesmo que continue soberano em matérias para que, claramente, não está qualificado. E que a sua esfera de decisão não esteja reduzida às suas limitadas competências.

Péssimas notícias para a época que aí vem!

 

 

 

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