Há 40 anos

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A CDU venceu as eleições na Alemanha e Friedrich Merz será o novo chanceler, num governo que se prevê venha a resultar da coligação com o SPD, de Boris Pistorius, ministro da defesa do governo cessante de Olaf Scholz.
A extrema direita da AfD, que Vance e Musk tanto promoveram, ultrapassou os 20%, a melhor votação de sempre. Ainda assim - e porque os alemães, sentindo o perigo, acorreram massivamente (mais de 80% de participação eleitoral) às urnas -, Alice Weidel é irrelevante para a formação de governo.
São boas notícias para a Europa, que tanto precisa delas.

Vance veio à Europa dizer que ... foi bonito, mas acabou. Não é bonito acabar com uma relação de 80 anos. Mas pode acontecer, e toda a gente deve estar preparada isso.
Ninguém estava preparado era para a petulância, a arrogância e a prepotência com que Vance o fez. Foi aviltante!
Trump acha que se pode entender com Putin para desenharem a duas mãos o futuro mapa da Europa, numa espécie de Conferência de Berlim, onde a África é Europa, e a Europa um complexo esquizofrénico do novo eixo Washington-Moscovo.
Sabe-se que Zelensky pouco voto tem na matéria. Mas isso é uma coisa. Outra é o seu alinhamento com a esquizofrenia. Outra ainda é a sua rápida resposta à gula de Trump.
Bastou-lhe - a ele, Trump - dizer disse que a Ucrânia tem "terrenos valiosos em termos de terras-raras, petróleo e gás, outras coisas" para Zelensky vir a correr, de língua de fora e rabinho a dar a dar, oferecer o dote.
- "Temos um grande potencial no território que controlamos", e "estamos interessados em trabalhar, desenvolver, com os nossos parceiros, em primeiro lugar, com os Estados Unidos", apressou-se Andriy Yermak, chefe de gabinete do presidente da Ucrânia, em declarações à The Associated Press, logo após as declarações de Trump.
"Pode ser lítio. Pode ser titânio, urânio, muitos outros", disse Yermak. "É um grande negócio"!
E rapidamente - em dois dias - Trump anunciou um acordo de princípio para 500 mil milhões de dólares de chamadas terras raras, um grupo específico de 17 elementos químicos essenciais a produção de dispositivos electrónicos, como discos rígidos ou ecrãs de telemóveis.
Do que Trump já anunciou para acabar com a guerra ficou a saber-se que a adesão da Ucrânia à NATO é "irrealista", que a cedência de territórios é uma inevitabilidade, que a União Europeia não vai ser tida nem achada, que é ele e Putin quem põe e dispõe. E que, no fim, então sim, a Europa será chamada a tratar da segurança e da reconstrução da Ucrânia.
É a isto que Trump está a reduzir a Europa. Medvedev, a voz desbragada de Putin, chama-lhe "solteirona fria, louca de ciúmes e raiva". "Feia, fraca e inútil".
É esta a tragédia da Europa. Que não chegou aqui por ser "fria" ou "feia" mas - sim - por se ter deixado "fraca".

(Photo by Nicolas TUCAT / AFP)
Aproxima-se o dia das decisões em França. É já no próximo domingo que os franceses vão decidir entre Macron e Marine Le Pen, pela segunda vez consecutiva.
Macron parte com ligeira vantagem nas sondagens. Os quatro pontos percentuais de vantagem cabem dentro da margem de erro das sondagens, pelo que não está garantido que a França resista - continue a resistir - à tentação extremista, nacionalista e populista. Esta situação já se repetiu em eleições anteriores, com o pai, Jean Marie, e Jacques Chirac, em 2002, e com estes mesmos protagonistas, há cinco anos.
Nunca foi difícil congregar os votos no protagonista do regime para impedir o acesso da extrema direita francesa à presidência. Da última, há cinco anos, Macron acabou por ganhar com larga margem, 2/3 da votação do eleitorado. Desta vez é diferente, e pode mesmo dizer-se que a única vantagem de que Macron desfruta é a das sondagens.
Macron não destruiu apenas o xadrez partidário de França, tornando irrelevantes todos os partidos clássicos do sistema, e reduzindo à insignificância a direita democrática e o gaulismo, em particular, que dominou a cena política francesa do pós-guerra, e o centro esquerda socialista, com quem passou a dividir o poder a partir da eleição de Miterrand, em 1981. Depois de dinamitar o sistema partidário francês, Macron dinamitou os pontos de equilíbrio da sociedade francesa, e radicalizou-a.
O inorgânico movimento dos coletes amarelos, o maior conflito na sociedade francesa desde o Maio de 68, foi a expressão dessa rotura. Macron criou "duas Franças" e foi presidente de apenas uma delas. Não soube ser o presidentes de todos os franceses, afastou-se das classes populares e tornou-se no mais impopular dos Chefes de Estado das últimas largas décadas. Quando assim acontece o crescimento dos extremos torna-se inevitável.
Cresceu a extrema-direita, não que Marine Le Pen tivesse crescido tanto assim, mas porque cresceu em representação, com três candidaturas, onde se incluiu Eric Zemmour, com a quarta maior votação da primeira volta.Cresceu a esquerda mais à esquerda, com Jean-Luc Melenchon a melhorar o resultado de há cinco anos, e a ficar muito perto de passar à segunda volta. E, acima de tudo, cresceu a resistência ao "voto útil" em Macron na segunda volta.
O próprio Melenchon apelou aos seus eleitores (21.2%) para não entregarem um único voto a Marine Le Pen, não apelou a que votassem em Macron.
No meio da catástrofe que se está a viver na Europa, só faltava mesmo acrescentar Le Pen, a Órban. Há cinco anos, vimos na vitória de Macron uma lufada de ar fresco. Às vezes as lufadas de ar fresco são perigosas.Também dão em pneumonia.

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O passado domingo ficou marcado pela eleições na Alemanha, ganhas pelo SPD, com 25,7% dos votos, o melhor resultado desde de Gerard Schroder, em 1998; um pouco acima dos 24,1% (o pior resultado de sempre no pós-guerra) da CDU-CSU, orfã de Merkel, que caiu quase 10 pontos, relativamente às últimas eleições, de 2017.
Para governar vai ser necessária uma coligação de pelo menos três partidos, pelo que tudo está em aberto. Tão em aberto que Olaf Scholz (SPD) e Armin Laschet (CDU) reclamam, ambos, a liderança do futuro governo, que negoceiam com os Verdes (14,8% dos votos) e com os liberais do FDP (11,5%). Negociar acordos de governação é habitual na Alemanha; negociar a chefia do governo é que não.
Daí que a despedida de Merkel só deva acontecer já no próximo ano, e que o tão pesaroso adeus, ao fim de 16 anos, não seja tão imediato quanto seria suposto. O que em nada altera o fim do ciclo Merkel, nem a imagem que dele - e dela própria - fica.
Passados aqueles anos da troika, em que gerou ódios em Portugal, Merkel foi reabilitada em 2015, com a crise dos refugiados, e deixa a liderança - alemã e europeia - com a sua popularidade em alta. Em Portugal tornou-se quase unânime. A esquerda perdoou-lhe e, de Hitler de saias, passou a farol da democracia e dos direitos humanos na Europa, deixando a direita a chorar de rir.
Diz-se hoje que Merkel ficará para sempre na História da União Europeia. Certamente que sim, mas não creio que fique como a grande líder europeia - que dificilmente alguma vez haverá - que dela querem fazer. E menos ainda pelo seu legado à Europa.
Nestes 16 anos a Europa correu vertiginosamente para a irrelevância. Sem política externa, e sem política defesa, outra coisa não poderia acontecer. Aconchegou-se debaixo da protecção militar americana, tomou por sua a agenda externa de Washington, foi pagando para que lhe resolvessem os problemas e foi fazendo negócios com a China. Foi mais ou menos isto. O resto foi o brexit, que fez o resto ... Até à actual completa irrelevância no contexto global.
Se é verdade que nem tudo é responsabilidade da Srª Merkel, até porque boa parte disto tem raízes históricas mais profundas, também nada disto pode ser ignorado. E não o sendo, será mais fácil à História encontrar em Merkel um marco do declínio europeu que propriamente uma referência de liderança europeia. Mesmo que ela não tenha culpa nenhuma que no seu tempo não tenha surgido melhor!

A ciência encontrou a vacina para o covid-19 em menos de um ano. Nunca antes tinha sido descoberta e testada uma vacina em tão pouco tempo.
A vacinação, a correr muito bem nuns países, e não tão bem noutros, tornou-se "apenas" no mais rápido processo de vacinação de sempre. Nunca em tão pouco tempo se vacinou tanto, já foram administradas mais de 300 milhões de vacinas.
Os efeitos secundários, que sempre acontecem com todas as vacinas, são confirmadamente marginais. Mais marginais que em qualquer outra vacina.
E no entanto, na Europa, numa decisão exclusivamente política, por medo de uma opinião pública muito permeável ao negacionismo, suspendeu-se a utilização de uma vacina, atrasando um processo em que já estava atrasada relativamente às outras regiões desenvolvidas do mundo. E acrescentando ameaça à economia mais ameaçada pela pandemia em todo o mundo desenvolvido.
A Europa, que nada participou em tudo o que correu bem na ciência, participa activamente em tudo o que correu mal na política.

Em dia de luto nacional, quando a imortal Agustina vai a enterrar, e dos 30 anos do massacre de Tiananmen, vem de Inglaterra a frase do dia: "The US president will not be the last nasty piece of work to enjoy such pomp, but he is among the most dangerous". O que se traduz por: O presidente dos E.U. (Trump) não é a primeira nem será a última criatura desagradável a ser distinguida com uma visita de Estado, mas está entre as mais perigosas!
O autor da frase que melhor retrata a actual visita (no âmbito das comemorações do 75º aniversário do desembarque das tropas aliadas na Normandia) à Europa do seu maior inimigo, não é Sadiq Kan, o mayor de Londres. Nem Meghan Markle, a agora duquesa de Sussex, ambos sob fogo do arruaceiro twitter de Trump. A frase é de Sir Vince Cable, o líder dos liberais democratas ingleses, a força política historicamente entalada entre conservadores e trabalhistas e que agora emerge no panorama político britânico como fonte de decência, no meio dos destroços do Brexit.

Comemora-se hoje o dia da Europa, lembrando a "Declaração de Schuman" de 9 de Maio de 1950, hoje praticamente tido por acto fundador da União Europeia. Onde Robert Schuman, então ministro dos Negócios Estrangeiros do governo francês, cinco anos depois do fim da guerra, dando corpo a uma ideia particularmente acarinhada por Churchill, propôs a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço.
Foi há 69 anos, e hoje sabemos que a ideia, "a melhor que alguma vez tivemos", como dizem os 21 presidentes das repúblicas da União Europeia, num apelo ao voto nas eleições do próximo dia 26 assinado em conjunto e hoje difundido (percebe-se que o Reino Unido tenha ficado de fora, mas porquê também as restantes seis monarquias?), já viveu melhores dias.
Toda a gente tem consciência disso. A própria campanha (excelente, diga-se) do Parlamento Europeu de sensibilização para o próximo acto eleitoral, é disso sinal: "desta vez eu voto". Mas não deveria haver quem não morresse de vergonha por ter falhado a melhor ideia dos europeus e o maior projecto político da Humanidade. Provavelmente não haverá quem lhes perdoe...
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