Quando André Ventura diz que Portugal precisa de três Salazares fá-lo por provocação, de que se alimenta. Para nunca sair do topo da agenda mediática, que é o seu suplemento vitamínico.
Mas também por conhecer o seu público. Ele sabe que é isso que os seus seguidores querem ouvir. Sabe que a sua plateia não sabe, nem quer saber, quem foi Salazar. Ele próprio não sabe, nem quer saber: quem evoca três Salazares para acabar com a corrupção não pode saber o que foi Salazar, nem a História nem, se calhar, o que é corrupção. Sabe que os seus seguidores querem ouvir coisas assim, que indignam uns, mas que são aplaudidas por muitos outros. E sabe que assim introduz na agenda mediática os temas que quer pôr o país a discutir. Que assim o país discute o que ele manda discutir. Que é assim que se normaliza o que nunca seria normal, e que se deslocam os limites na sua direcção.
Quando espalha pelo país que "isto não é o Bangladesh" André Ventura dá mais um passo na provocação, numa espécie de tentativa de apurar a dose. Ele sabe - um saber de experiência feito - que a cada escalada, a cada incremento de provocação, os limites cedem. E ele sabe que (e como) cresce a cada cedência.
Cabe neste caso ao Ministério Público não ceder em mais um limite. Mas também isso coube em diversas ocasiões ao Tribunal Constitucional...
Sociólogos, politólogos e, mais ainda, tudólogos, dizem-nos que o eleitorado português mudou completamente nos últimos anos. Mas será que mudou assim tanto? Não terão sido outras coisas que mudaram?
O manifesto ódio ao imigrante que cresceu na sociedade portuguesa, e que por estes dias, na sequência da fiscalização da Lei dos Estrangeiros por parte do Tribunal Constitucional, e do desembarque dos migrantes marroquinos - daquele barco de madeira, de 5 metros, que aportou à praia da Boca do Rio, em Vila do Bispo -, se tornou avassalador, atingiria esta dimensão se não tivesse sido cirurgicamente cultivado através de partilhas das coisas mais absurdas nas redes sociais, onde se "informa" uma vasta legião de incultos, mas também muito ditos letrados?
Por que é que este país "informado" nas redes sociais, se revela altamente chocado com a pressão dos imigrantes sobre a habitação, o custo de vida e os serviços públicos; mas já não fica incomodado com os nómadas digitais (com regimes fiscais em que pagam metade dos impostos da classe média portuguesa), com os titulares de vistos gold das mais diversas proveniências, quando - esses sim - tomam conta da oferta de habitação, desencadeiam a hiper-inflação nos preços dos restaurantes, e disputam serviços públicos?
Por que é que este país "informado" nas redes sociais se revolta contra a concessão da nacionalidade a quem cá vem fazer o que os portugueses já não fazem, para si nem para os outros, mas nada se incomoda com a nacionalidade atribuída - vendida por um punhado de euros, dólares, reais ou rublos - a quem nada contribui para o futuro do país e, tendo dinheiro, não tem, e dificilmente poderá vir a ter, alguma ligação emocional a Portugal?
Estas últimas questões são meramente retóricas, para ajudar a responder à primeira. Sem as redes sociais e as suas dinâmicas a projecção do(s) sectarismo(s) não seria a mesma. Projectados e instalados no eleitorado passam rapidamente a produto com mercado!
O eleitorado não mudou. O que mudou foi o que foi posto à disposição do eleitorado!
Há uns anos nem o eleitorado tinha à disposição um espaço político de direita, extrema e radical; nem a extrema direita tinha espaço para ocupar. As redes sociais quebraram esta espécie de círculo vicioso.
A partir daí tudo mudou. Mercado gera mercado. E concorrência, que alarga mercado.
André Ventura foi um caso de sucesso, vindo do PSD, como do PSD vieram quase todos os que o acompanham, quase todos por "desemprego". Vindo de um longo jejum de poder, e ele acedendo com frágeis minorias, enquanto ao lado o Chega engordava, o PSD no governo passou a apostar naquele mercado.
Por razões de sobrevivência, mas também porque as bases do partido - é mais o que une as bases do PSD e do Chega, do que aquilo que as separa - contaminaram a cúpula.
As bases do PSD nunca foram muito diferentes do que são hoje. Com ou sem Chega. As elites é que mudaram muito. E não foi apenas no PSD. Foi em todo o lado.
Começa a ficar consensual que entramos na temida segunda vaga da epidemia. Os números, de infecções e de óbitos, mesmo que mais os primeiros, voltaram a disparar e confirmam que o que se está a passar já é diferente do que aconteceu entre o primeiro e o segundo trimestre do ano.
Em Espanha, em França, na Itália, no Reino Unido, na Alemanha ou em Portugal, com maior gravidade, como em Espanha, ou menor, como na Alemanha, o vírus não dá tréguas. É justamente um virologista alemão, cientista de referência e assessor do governo para a covid-19, que adverte que a verdadeira pandemia está agora a chegar.
A isto acresce a chegada da gripe sazonal, aí à porta por força do calendário. Mas acresce sobretudo a realidade nas suas múltiplas dimensões. Não é mais possível responder com a resposta dada há seis meses. Não é económica nem socialmente possível voltar ao confinamento de então. As economias não o suportam. E as pessoas já nem sequer suportam medidas restritivas, como se vê por estes dias em Espanha e em França. Pelo contrário, reclamam mais abertura, Nem é garantido que dispúnhamos de melhores condições de saúde, como em Portugal garantem as entidades oficiais. Antes pelo contrário, provavelmente.
É certo que há hoje maior conhecimento do vírus, e mais algumas certezas médicas. Mas a resposta dos profissionais de saúde, que por todas as latitudes emocionou o mundo, não é uma experiência repetível. E em Portugal, por múltiplas e diversas razões, que vão dos bloqueios nas estruturas organizacionais dos serviços de saúde, à falta de reconhecimento dos profissionais, não o é. De todo!
Quando os registos da epidemia já contam com um milhão de mortos e 32 milhões de infectados, é verdadeiramente dramático nestas condições admitir que a verdadeira pandemia possa estar agora a chegar.
Há uma boa notícia no meio de tudo isto. Nas eleições locais e regionais em Itália, no início da semana, a extrema-direita xenófoba sofreu um forte revés. Dizem os estudiosos da matéria porque, justamente, as pessoas perceberam que é aqui que está a razão para ter medo. E que o que os extremistas agitam são falsos medos com que querem apenas espalhar o ódio.
Ainda no quadro da histeria que se instalou no país na contestação à evocação do 25 de Abril na Assembleia da República, surgiu mais um episódio que encerra um autêntico compêndio da realidade política deste país.
Conta o JN de ontem que um funcionário da Câmara Municipal da Trofa, um dos muitos portugueses que se manifestaram nas redes sociais incomodadíssimos com o 25 Abril, para quem a celebração foi apenas um instrumento útil para a manifestação desse incómodo profundo, escreveu no seu facebook, convencidíssimo que estava cheio de graça que, se houvesse alguém que pusesse a Assembleia da República a funcionar como uma câmara de gás, pagaria o gás. Expressão que é o que é, mais tudo aquilo que sugere que é.
E que, nessa plenitude, mereceu mais de uma dúzia de "gostos", entre os quais o do Presidente Câmara Municipal da Trofa (e também o do seu adjunto), e líder da estrutura local do PSD. Partido que tem na Assembleia da República dois deputados do próprio concelho da Trofa. E que, através da sua "distrital" do Porto, sem revelar qualquer incómodo com aquela (ex)posição publica, a que não atribui qualquer relevância política, prefere exaltar o excelente trabalho do Sérgio (assim se chama o Presidente da Câmara) e o seu carácter, de que “ainda agora tivemos todos prova ... quando anunciou que tinha decidido doar o seu salário do mês de abril a instituições de solidariedade social do concelho, bem como à Delegação da Trofa da Cruz Vermelha”.
Um autêntico compêndio. Basta reflectir um bocadinho e encontramos aqui praticamente tudo o que nos permite entender o momento político que atravessamos.
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