A poucas horas de, ali ao lado, começar o Mundial (da vergonha) de Futebol, terminou o Mundial de Fórmula 1 desta época, com o Grande Prémio de Abu Dhabi que, pouco tendo para decidir, tinha uma despedida para fazer.
A de Sebastien Vettel, um grande piloto - quatro vezes campeão do mundo, consecutivamente, entre 2010 e 2013, e três vezes vice-campeão - mas também, ao que me parece, um cidadão de corpo inteiro que, aos 35 anos, decidiu retirar-se.
Verstappen voltou a ganhar, estabelecendo novos recordes - três vitórias consecutivas neste GP, e 15 vitórias num só campeonato. E onde a Mercedes não pôde confirmar as expectativas criadas com a última vitória, no Brasil, superada na qualificação pela Red Bull (primeira linha da grelha de partida, com pole de Verstappen) e pela Ferrari (segunda linha), e na corrida, agravada com o abandono de Hamilton, na penúltima volta.
No pouco que havia para decidir, ganhou a Ferrari. Com o segundo e o quarto lugares na corrida, garantiu a segunda posição no mundial de construtores, ainda em disputa com a Mercedes. E, Leclerc, com o segundo lugar, à frente de Perez, no terceiro - com quem estava empatado - acabou por decidir a seu favor a segunda posição do mundial de pilotos.
No GP do Brasil, em Interlagos, na penúltima corrida do campeonato, surgiu finalmente a Mercedes, que tinha andado toda a época longe da competitividade dos principais adversários. Sempre longe dos Ferrari, e ainda muito distante dos Red Bull.
Já vinha dando mostras de estar a encurtar distâncias, tendo já estado bem perto da frente no México, na corrida anterior. Agora, no Brasil, foi incontestavelmente melhor que toda a gente, em tudo o que foi corrida. Que, neste GP do Brasil, até teve corrida sprint na definição da grelha de partida, que deixou os dois Mercedes na primeira linha, com Russel na pole.
Russel, primeiro no fim das 24 voltas do sprint, e Hamilton que, cortando a linha de meta na terceira posição, ficaria em segundo por penalização (em três posições) de Sainz. Dobradinha depois repetida nas 72 voltas da corrida final, na primeira vitória de Russel na Fórmula 1, numa demonstração de superioridade inimaginável há poucas semanas.
É que os dois Mercedes dominaram a corrida em toda a linha, de princípio a fim, superando até todos os incidentes, como o embate entre Hamilton e Verstappen (penalizado por isso em 5 segundos) e dupla participação do safety car. A última, já perto do fim, a virar a corrida do avesso. Excepto nos dois lugares "cativos" de Russel e Hamilton, o ídolo da casa. É cidadão honorário do Brasil!
Da "revolução" provocada por esse último safety car tiraram partido Verstappen - é crónico - e Leclerc para saírem dos lugares lá de trás e chegarem aos da frente. Sainz também saiu a ganhar, ao aproveitar essa oportunidade para trocar de pneus, o que noutras circunstâncias não poderia fazer sem perder o terceiro lugar. A perder, e muito, saiu Perez, o único Red Bull que resistira toda a corrida nos primeiros lugares. Acabou ultrapassado por Alonso, e depois pelo próprio Verstappen. Que, apesar dos insistentes pedidos da equipa, recusou voltar a ceder-lhe a posição, decisiva para manter a segunda posição no mundial de pilotos.
Há muito que se sabe que Verstappen não nasceu para fazer amigos. Mas também não era necessário produzir inimigos dentro da própria equipa. Perez não deixa dúvidas: "Só mostra quem ele realmente é…”
Na Ferrari não aconteceu bem a mesma coisa. Mas não foi lá muito diferente: Leclerc, que discute aquela segunda posição com o mexicano, com o quarto lugar na corrida a cair-lhe do céu, e com Sainz ali à frente na terceira posição, pediu à equipa que desse indicações ao espanhol para o deixar passar, para somar mais uns pontinhos. Mas isso era pedir muito. Era pedir a Sainz que se levantasse da cadeira do pódio para ele se sentar!
Apesar de todas estas "estórias", notícia mesmo é que a Mercedes está de volta. E isso saúda-se!
Também há regressos antes de férias, mesmo que eu esteja de regresso depois delas. E também da Hungria podem vir coisas boas. E também o 13 não tem que ser um número amaldiçoado. Pelo menos para a Mercedes, e para a Fórmula 1.
Na Hungria, ao 13º Grande Prémio da temporada, o último antes das férias de Agosto, que marca ao fim da primeira fase da época, a Mercedes regressou finalmente ao pelotão da frente, e mostrou-se capaz de discutir corridas com a Red Bull e a Ferrari. É certo que já se vinha a perceber uma certa aproximação desde o Grande Prémio de Espanha, em Barcelona. E que este pódio no Hungaroring, em Budapeste, já tinha acontecido em França, em Paul Ricard, na corrida anterior. Mas só hoje, verdadeiramente, a Mercedes confirmou aquilo que se esperava desde o início da temporada - que pudesse discutir corridas ao nível do primeiro plano da Fórmula 1.
Os dois lugares no pódio, atrás de Verstappen, da Redbull, com que em Hungaroring repetiu Paul Ricard, não representam o mesmo. Em França, Hamilton e Russel, segundo e terceiro como hoje, herdaram o pódio. Hoje, conquistaram-no. E isso faz toda a diferença no processo de recuperação da Mercedes.
Hoje a Mercedes foi muito superior à Ferrari, em pista e nas boxes. E só não foi ainda superior à Red Bull. Ou melhor, a Verstappen, que venceu pela primeira vez em Hungaroring, e que, partindo da 10ª posição (Perez partiu da 11ª e concluiu na 5ª) na grelha de partida, venceu pela primeira vez uma corrida sem ter arrancado dos primeiros quatro lugares. E tudo isto apesar de ter feito um peão, que só não lhe liquidou as hipóteses de vencer a corrida porque a Red Bull é ainda muito melhor, em pista e nas boxes.
O mote tinha sido dado na qualificação, com Russel a arrancar a primeira pole da carreira. Mas Hamilton, sem sorte na qualificação, foi sempre melhor em corrida, e mesmo o melhor piloto em pista. Ficou com a melhor volta - e bateu até o histórico recorde de voltas na liderança deste Grande Prémio - e só não pôde atacar a primeira posição final de Verstappen, conquistada nas boxes, porque o "safety car" entrou nas duas das três últimas voltas, pelo abandono de Bottas, o único de uma corrida sem incidentes.
Com 80 pontos de vantagem sobre Leclerc, nitidamente em perda, como a Ferrari - e hoje já nem se pode falar tanto de erros, que hoje acumularam aos das últimas corridas, mas em incapacidade - Verstappen tem o bi-campeonato no bolso. E tudo a continuar como está, desta vez sem sombra de mácula. Também a Redbull dificilmente deixará de vencer por equipas. Mas nem por isso a última metade do campeonato deixará de ser animada, agora que a Mercedes "voltou".
Desta corrida, que se dizia de ultrapassagens impossíveis, ficam muitas ... e boas. A melhor - e das melhores em fórmula 1 - fica para Daniel Riccardo, ao aproveitar magistralmente o despique entre Alonso e Ocono para ultrapassar os dois Alpine em simultâneo. E fica o anúncio da despedida de Vettel - um tetra-campeão do mundo!
Continua o espectáculo. A segunda corrida da época, no Grande Prémio da Arábia Saudita, marcada por um atentado bombista que o chegou a pôr em causa, e pelo acidente de Mick Shumacher, nos treinos de qualificação (mais do que por mais uma batida de Latifi, um especialista, desta vez sem decidir o título, como na última) confirmou todas as expectativas do grande espectáculo da fórmula 1 para este ano. No palco estão ainda apenas a Ferrari e a Red Bull, o que será quando lá chegar também a Mercedes?
Por enquanto está entregue a Versttapen e Perez, e a Leclerc e Sainz. A Red Bull e a Ferrari chegaram mais cedo e, para já, desalojaram a Mercedes. Deve ser apenas uma questão de tempo para os Mercedes reencontrarem a competitividade que perderam em pista, já que nas boxes, e na estratégia de corrida, parece há muito que não conseguem competir com os melhores.
Antes, a superioridade dos carros iludia essa desvantagem. Agora, sem a superioridade dos motores, o que perde nas boxes ... soma ao que perde em corrida. Hamilton, que partiu do fim da grelha por ter falhado a passagem ao final da qualificação, não passando da Q2, ainda chegou onde podia chegar - ao sexto lugar, atrás do seu colega, Russel, que se limitou a deixar correr a corrida e a manter a sua posição à partida. Mas depois, na hora de trocar pneus, voltou a falhar tudo. Falhou o timing (incrível como não fez a troca com o safety car virtual activado para entrar nas boxes já quando a pista estava livre) e deitou tudo a perder, acabando no 10º lugar.
Como nos concertos das grandes bandas, também o palco em Jeddah foi entregue, primeiro, para a primeira parte, a segundas figuras. E, como tantas vezes acontece nesses concertos, vêm daí grandes espectáculos. Foi o que fizeram os Alpine de Alonso e Ocon. O prato principal ficaria mais para o fim, e só podia mesmo estar reservado para os Ferrari e os Red Bull.
Sergio Perez tinha partido da pole, a primeira da sua carreira, depois de uma surpreendente volta canhão à última hora (ele próprio disse que nunca mais seria capaz de repetir aquilo), e garantiu a liderança da corrida até à troca de pneus, quando foi enganado pelo bluf de Leclerc, e acabou para cair para o quarto lugar. Leclerc, que partira do segundo lugar da grelha, passou para a frente. Verstappen, que subira de quarto para terceiro, batendo Sainz (que, atrás do seu colega de equipa, não podia forçar o arranque) na largada, trocados os pneus, ficou atrás atrás do monegasco. E subiu então o pano para o ponto alto do espectáculo, com ultrapassagens sucessivas, à medida do DRS de cada um. Até à ultima volta, com o campeão do mundo à frente, eventualmente a beneficiar das bandeiras amarelas no primeiro sector, e a somar os primeiros pontos da época.
Acompanhe-nos
Pesquisar
Subscrever por e-mail
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.